Agora, todo mundo é?

Pergunta feita pela Janice  Tomanini, a linda  da Letras da Sopa

 

 Tarso de Castro publicado no número 54, de 2 a 8 de julho de 1970.

 

BICHA

Millôr Fernandes chegou da Europa e é bicha: Martha Alencar é bicha e o marido dela, o Hugo Carvana bicha; o Sérgio Cabral, por sua “vez, tem vergonha, acha que pai de família não deve confessar isso mas eu sei é bicha; o Paulo Francis, que fica fazendo aquele bico, é bicha; o Chacrinha, nem se fala, é bicha; o Gérson mesmo jogando pra burro, é bicha; o Fortuna é bicha, bicha declarada, o Armando Marques é bicha; a tia da namorada do Denner é bicha; a namorada do Denner é bicha; o Denner é bicha; o Edvaldo Pacote é bicha, a Gal Costa é bicha; a Elis Regina é bicha; o Nelsinho Motta é bicha; os Luiz Carlos Maciel são bichas, os Monteiro de Carvalho são bichas; os Monteiro de Carvalho são bichas, menos um, por falta de tempo, o Ricardo Amaral é bicha; aquêle amigo do Ricardo Amaral é bicha; o Jaguar é bicha; o Jaguar é bicha; o Jaguar é bicha; o Jaguar é bicha; o meu contrabandista é bicha; ele é bicha; o Flávio Rangel é bicha; o Pedro Álvares Cabral era bicha; o Antônio Houaiss é bicha; o Ulisses é bicha; o Maneco Muller é bicha; o Fernando Fernandes é bicha; o Vinícius de Moraes é bicha; o Carlos Drummond de Andrade, que ainda não me deu aquela entrevista, é bicha; o Sérgio Cavalcanti é bicha; o Jaguar é bicha; os contatos de publicidade, o Ewaldo e o Paulo Augusto, são tremendas bichas; e o chefe dêles, o Grossi, é bicha; o lvon Cury é bicha; o Daniel Mas, sem qualquer apelação, é bicha; como bicha é, também, o Antônio Guerreiro; o José Silveira é bicha; o Manolo é bicha;

o Chico Buarque é bicha; o Caetano Veloso é bicha; o Gilberto Gil é bicha; o Roberto Carlos é bicha; o Erasmo Carlos é bicha; o Zózimo Barroso do Amaral é bicha; o Jaguar é bicha; a Márcia Barroso é bicha; a Scarlet Moon de Chevalier, digo, a Scarlet é bicha, a Moon é bicha e a Chevalier é bicha; meu Deus, como o Paulo José e Dina Sfat são bichas; ah, sim, o Ênio Silveira é bicha; como esquecer que a Danusa é tão bicha como a Leão; bicha, também, pois, a Nara Leão, e o Cacá Diégues, que é marido dela, é bicha; e o Glauber Rocha, como todos os baianos, é bicha; a Rosinha, mulher do Glauber, é uma tremenda biçha; o Antônio Guerreiro é bicha; o Jaquar, que eu ia esquecendo, é bicha; o José Hugo Celidônio é bicha; nunca vi ninguém tão bicha quanto o Rogerio Sganzerla; bicha, mesmo, paravaler, é o lbrahim Sued, que não pode ser mais bicha; Doval é bicha; Jairzinho é uma bicha radical; falando em bicha: como vai você, Henfil; Minas Gerais é um viveiro de bichas; Ziraldo, por exemplo, quem pode negar? É a maior bicha de Caratinga; aliás, se vocês não sabem, esse tal de Caratinga também era bicha; o filho do Jaguar, tão pequenino já é bicha; também, o professor dêle é bicha, sô; ah, Virgem Santa, o João Saldanha é bicha; o César Thedim é bicha e a Tonia Carreiro, para provar o dito, também é bicha, falando nisso, o John Mowinckel é bicha; e o Pedrinho Valente, embora ainda não saiba, é bicha; a êsse lá sabe: o Ivo Pitanguy é bicha; há alguém mais bicha do que o Sérgio Bernardes? há, o Jaguar; ah, que saudades que eu tenho da bicha Cláudio Abramo; Afonso, Afonsinho, Afonsão, todos bichas; os Afonsos em geral, todos bichas,- tenho melancolia do Rio Grande do Sul porque as bichas que aqui são bichas não são bichas como lá; Olavo Bilac é bicha; o bigodinho do Oscar Niemayer não me engana; é bicha; ora Tom Jobim, vai ser bicha lá com a bicha do Frank Sinatra; como se não bastasse, de bichas, é claro, agora ainda anda por aí aquela bicha da Florinda; a bênção, minha bicha Baden; falando em bicha nada melhor do que uma bicha do Jorge Ben depois da outra; Charles Anjo 45 é bicha enrustida; você é bicha; o leitor, todos os leitores, são bichas; fala, bichonilda Sérgio Noronha; a Olga Savary é bicha e o livro dela é mais bicha ainda; Paulo Garcez é a chamada bicha respeitável; Jango é bicha; Brizola é subverbicha; e a Wanderléia, segundo a bicha do Flávio Rangel não a do no sentido possessivo mas do êle, Flávio – é bicha ternurinha; e quem diria, hem? todos os Macedos Soares são bichas; Rubem Braga anda caindo de tanto ser bicha.

Este parágrafo é bicha.

Por outro lado, Maria Bethânia é bicha; a democracia é bicha; êle é bicha mas eu não sou louco de dizer; salve a bicha mais bicha de Londres, a bicha do Ivan Lessa; o Jaguar é bicha, o Ferreira Gullar já representou o Maranhão no concurso nacional de bichas; todos os componentes do velho PSD são bichas; Paulo Mendes Campos é a bicha mais intelectualizada que eu conheço; falando em bicha, vocês lá viram que coisa mais incrível o gênero bicha-barbuda que é o Carlinhos Oliveira?; bicha para falar a verdade, mas bicha mesmo, é o Hélio Fernandes; criança, nunca verás uma bicha tão grande quanto a Maria Raja Gabália; fala minha bicha Marlene Dabus; você é tão linda, Teresa Souza Campos, mas é bicha, Joaquim Pedro e MeIo Franco e, portanto , bicha, pois todos os MeIo Franco são bichas; a Danusa Leão, insisto, é bicha; olha aqui, ô Matarazzo, não queira me comprar:, tôda a familia é bicha; e tem mais:

vocês lembram da Maysa, ex-Matarazzo? Pois é bicha, bicha é a torcida do Flamengo; e a do Botafogo se existisse, bicha seria; os velhinhos do Vasco são bichas; o Fluminense, vocês sabemandam de salto alto; todos os brasileiros são bichas; Europa, França e Bahia – tudo bicha; Ásia, África, América e Passo Fundo, tudo bicha; inclusive o Jaguar, tudo bicha; é a maior bichite da história do mundo; que, por sinal, é bicha.

O único macho do mundo é o Nélson Rodrigues.l

A consciência da finitude – Sein zum Tode

“[...] Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração

[ ] …. você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.

Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu…” 

(Leia mais:  no MacMagazine

Ouça aqui. How to live before I die.)

Mesmo sem ser original (como se isso fosse possível) todos hão de convir que eu não podia deixar passar … assim… sem … :”o-(

Jonathan Mak
Para os meus amigos, devo confessar que somente há pouco tempo chegou em mim, para-mim, com uma razoável dose de desencanto –  e em absoluto não deveria ser assim – a consciência da finitude. Penso que em todas as vezes em que falei sobre isso (as Ekstases, para meus alunos, or whoever),  jamais falei pensando nisso objetivamente.  Hoje, penso sem falar. “Sein zum Tode”. 

[(*) Querido amigo, obrigada por me lembrar.]

SR10 – Y así pasan los dias! (updated)

Sim, sim,  eu já sei, já se passaram 10 anos,  os 10 anos também se passaram, grandes coisas fazer dez anos de internet, e quem vive de passado é museu, OK, eu sei disso mas quero, como agradecimento a essas pessoas e às coisas tão lindas  e tão queridas que disseram ,  dividir lembranças. Apenas duas belas lembranças.

1- Assim eram as nossas primeiras páginas: (clique e se não abrir, não vamos nos ‘descorçoar’ (hahah!é assim, Isa?) persevere, em algum momento a Webarchive: Wayback Machine  libera).
a)Sub Rosa em setembro  de 2001  -

b)Sub Rosa em outubro de 2001

2- E, por fim, aqui uma entrevista ao jornal O Globo- à época  CadernoInfoETC - em fevereiro de 2002. A jornalista é (a também então blogueira) Elis Monteiro.

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EM – Nome, idade (se quiser), onde mora e profissão.
Meg – Maria Elisa Guimarães, Meg para os amigos, já passei dos 40 ;  -) moro no Rio de Janeiro, (nasci em Belém do Pará) ; sou professora de Filosofia, e faço  Crítica Literária.

EM – a)Endereço do blog e uma pequena descrição dele (sobre quais assuntos costuma escrever mais). b)Qual ferramenta de edição usa e há quanto tempo fez o blog. c) Como classificaria o seu? Humor, entretenimento, poesia, etc?
Meg – O Sub Rosa, em sua origem foi no Blogger com este endereço: http://flabbergasted.blogspot.com ) . Não há como descrever um blog, Coloco nele tudo que desperta minha admiração, o que me deixa entusiasmada, o que me tira o fôlego. Me interesso por tudo, tenho um apetite insaciável pelo mundo. Tenho espírito de filósofo, mesmo. E a Filosofia se interessa por absolutamente tudo: não há limites.

b)Não uso nenhuma ferramenta de edição especial como Dreamweaver, Front Page etc, porque sou de uma magnífica burrice cibernética, o que já me fez decidir doar o meu cérebro pra quem possa estudar isso:  -). O João Ubaldo Ribeiro vai doar o dele para a NASA, acho que farei o mesmo. Hohoho. Daí que usava o próprio Editor do Blogger . Agora uso o Grey Matter, que é o programa de um cara muito bacana o Noah Grey http://www.noahgrey.com (adoro o blog dele).

Fiz vários blogs e alguns eu até perdi o endereço (fui influenciada pela Fernanda Guimarães Rosa que tem o pioneiro The Chatterbox). Mas só comecei pra valer, no final de agosto de 2001, vivi um pouquinho a fase do “Antes do 11 de Setembro.”
Classifico o meu SubRosa como sendo de uma generalidade irritante. Tento dizer que corresponde à chamada clínica geral, afinal dá pra escolher o que escrever, se a gente se interessa por tudo? Mas posso dizer duas coisas das quais trato poucamente ou nadamente: -) Filosofia e Sexo : -).

EM – Número de visitas (se tiver contador). Se não tiver, pode ter uma noção da repercussão de seu blog junto à comunidade “blogueira”?
Meg – Tenho vários contadores. Sabe o que acho? Que ao final do dia contar quantas pessoas vieram, equivale a uma firma ou loja que contasse a féria do dia, hahaha…
Agora falando sério, é através dos contadores que você sabe quem lhe visitou, e principalmente você conhece blogs que estão surgindo. (Visitar é bem melhor do que escrever um comentário, Ei, visite meu blog:- (. É mais inteligente, também)
Mas é preciso ter cuidado com os números: tem que saber que os AMIGOS vão várias vezes por dia. Alguns contadores registram como visita as suas próprias entradas (tenho um que me diz quando entrei) E acho que o número de visitas que tenho é modestíssimo.
Soube que há blogs com mais de 500 visitantes por dia e outros que recebem até 5.000 : D . Ao saber disso é que vi que não tenho a menor importância na comunidade blogueira, mas tenho – se tiver – entre os amigos.

EM – Você já conheceu pessoas devido a seu blog? Fez amigos?
Meg – Oh yessss. Você quer dizer pessoalmente, não é? Sim, conheço vários blogueiros, já recebi vários em minha casa, e principalmente, já hospedei uma blogueira famosa em minha casa. Foram dias maravilhosos de fevereiro deste ano. A Aninha [Ana Maria Gonçalves, blogueira, escritora, autora de "Defeito de Cor") do Udigrudi. E essas pessoas são amigas sim, e que não relaciono mais com o blog. Elas transcendem esse fato.
Algumas outras falam comigo pelo telefone. E outras pessoas, ainda, eu já conhecia antes, ou conhecia alguém da família. Laura Rónai, queridíssima amiga do Mostly Music - eu já a conhecia como a brilhante música que é, agora, ela  faz parte da minha vida.

EM – A que horas costuma “blogar”? Por quê?
Meg – A qualquer hora. Estou sempre no ar ; -) Costumo blogar mais à noite (insônia), mas também blogo de dia. Agora, sou muito lenta para fazer posts. Levo horas. E algumas vezes refaço.

EM – Como são os seus hábitos diários e como o blog se insere neles (se trabalha, a que horas escreve, se tem filhos, como concilia todas essas coisas). Vê o blog como lazer?
Meg – Querida, o próprio blog foi uma mudança de hábito ; -) Tiro muita coisa do meu trabalho para colocar no blog. Não tenho filhos, queria tê-los:- )
Decididamente o Sub Rosa não é lazer, embora me dê muito prazer (angústias também)

EM – Sua família conhece seu blog? Como eles vêem o fato?
Meg – Sou uma celebridade pra eles..hahaha. Sabe como é, não é?;  -)

EM – Qual foi o motivo que te levou a “blogar”? Informar as pessoas, se conhecer um pouco mais, escrever alguma coisa que não tinha onde publicar?
Meg – Às vezes me sinto como num trabalho voluntário ; -).
O que me levou a blogar, sempre escrevo isso, foi a dor causada por duas doenças graves,  entre elas, uma  severíssima depressão… Foi terrível. Uma amiga de Lista de Discussão, me disse que eu me desse um presente. Algo de que eu gostasse muito. Eu adoro viajar e escrever…Viagem não podia, naquele momento,  então…
Dois dias depois eu fiz o blog Sub Rosa (que é uma expressão latina de origem egípcia, mas que todo mundo pensa que é modéstia minha [que sou uma rosa "sub":  -) . Logo não é papo furado quando eu digo que escrevo para mim.
Hoje estou melhor, convivo com as oscilações da saúde., e o blog se tornou uma parte importante da minha Vida.
Claro que o movimento e a experiência weblog fazem parte de uma das maiores revoluções acontecidas dentro da revolução Internet. Foi uma 'recuperação da subjetividade'; o que filósofos como Baudrillard, por exemplo, tanto condenaram na Internet: fragmentação do sujeito e desaparecimento da alteridade. O blog é a maior das vertigens da subjetividade.
E claro o blog foi um canal para que se escrevesse sem o rigor exigido pelas publicações,acadêmicas ou não; e com autonomia para se escrever sobre o que se quisesse e gostasse. Onde mais? ;  - ))

EM - Vc vê o blog como uma espécie de hobby?
Meg - Aaaah, não! De jeito nenhum: hobby é coisa pra madame, pra perua , né não?
Eu sou profissional ; - )) Blog, de um modo geral, é algo que é importante pra mim.Também sou observadora e analiso esse fenômeno.

EM - Qual é a relação que vc mantém com seu blog e com os visitantes? Costuma responder os emails que eles mandam? Como costumam ser esses emails? Agradáveis, críticos?
Meg - O blog é minha forma preferencial de me comunicar com as pessoas (essa é uma necessidade inerente ao ser humano, não é?). Então, é isso: o blog tornou-se uma parte importante da minha forma de vida, atualmente. Não é tudo, mas modificou muito a minha vida. E com os visitantes eu partilho as coisas que gosto, as que não gosto e só de saber que existe quem leia já é ótimo. Elas conferem a alteridade ao que expresso. Amo e respeito cada um que escreve para mim, por causa do blog. Só existe eu porque existe o OUTRO, não é? Adoro que comentem, me entristece ver um post sem comment. Mas, sou de opinião que só se deve comentar como uma solicitação do assunto do post. Não o comentário burocrático, como forma de cordialidade. É como dizia sabiamente o Paulo Francis: “Gosto que as pessoas me leiam e saibam o que acho das coisas. É uma forma de existir”.
Agora quanto a e-mails eu adoro. Pinta de tudo:-) E muitas vezes os críticos são extremamente agradáveis. Devo a muitos visitantes que me escrevem, novos pontos de vista sobre assuntos que abordo, principalmente quando eles questionam e são gentis a ponto de me escreverem ou comentarem, apontando um engano.
Muito legal ter perguntado isso, pois é um novo tópico a respeito dos blogs que talvez muitos não tenham se dado conta. Eu tento responder a todos, mas isso demanda tempo e muita gente não entende a demora:
EU NÃO TENHO ASSESSORIA DE IMPRENSA !! ;  - )).
Por outro lado, antes éramos uma rua de blogs. E costumávamos visitar todos os nossos conhecidos, e comentar praticamente todos os posts. Agora, não, querida. Surgiram milhões de blogs,  somos uma cidade de blogs e não damos conta de retribuir todas as visitas, e na verdade, hoje eu deixo de visitar os blogs que adoro para visitar os novos, os que estão chegando. E sinto muito que as pessoas a quem eu passo dias sem visitar, tomem isso como uma forma de desamor. Não é!.

EM - Você acredita que o blog seja capaz de fazer uma rede (ring) de amigos? Já percebeu isso?
Meg - Como assim, Bial??? ;  - ) Não sei se entendi sua pergunta. Rede de amigos? ou ring de blogs amigos? Se for isso , obviamente que sim. Se a Afrodite, a Aninha ou a Joyce visitam e descobrem algum blog interessante, pode crer que isso é uma referência, e eu vou lá. A Cora é a blogueira que mais faz isso. (Aliás se tenho alguma notoriedade, devo à Zel, à Cora e só depois a mim mesma; -)] A Cora tem um papel de difusora, de reunir em torno de si, os mais diferentes tipos de blogueiros, e de nos indicar blogs que por nós mesmos demoraríamos muito a saber deles. As opiniões dela são importantíssimas também, e fico feliz se minhas opiniões coincidem com as dela.
Agora, se for uma rede de amigos, pessoas que se conhecem e que blogam…etc.. eu também percebo isso e cito como exemplo, os glo-blogueiros: os blogueiros jornalistas d’ O GLOBO. Como você, Elis, a Joana, querida, e todo o grande elenco.

EM – O que vc acha essencial que os blogs tenham?
Meg – Links querida, links. Os blogs são a expressão da vontade de seus donos. Mas se não houver links não é blog. É qualquer outra coisa menos blog. Acho que o grande diferencial do blog, é que ele oferece um enriquecimento à parte, para quem o visita. Um blog não pode se esgotar em si mesmo. Ele deve oferecer caminhos, deve permitir que o leitor saia dele com mãos (mentes) cheias, o blogueiro deve mostrar os caminhos que percorreu e oferecer esse caminho de links, URLs, para que o leitor  possa ver o que o blogueiro não viu, possa ir mais além.Aprendi isso com o  o Hernani Dimantas  (Por que linkar outros blogs?). Linkar bem é tudo!

EM – Você tem o hábito de visitar blogs de outras pessoas? Quais considera os melhores?
Meg – Uhuuu! Ia ter muita graça alguém fazer blog e não visitar outros…
Visito todos que eu posso , todos que conheço, até os de  que eu não gosto ;- )
Os melhores? Todos os que estão na minha Lista de favoritos, (mesmo os que estão extintos. Uma lista é um statement) e os que ainda vão estar. Como já disse, no momento estou preocupada com os que estão chegando agora.

EM – Você tem medo ou vergonha de se expor através do blog? Ou gosta disso?
Meg – Querida, sabe o que acho? Não são as pessoas que se expõem nos blogs. São os blogs que expõem seus autores. O blog, em sua continuidade, ‘denuncia’ quem somos. E depois, não controlamos o nosso índice de exposição. E finalmente, não há como fazer auditoria da auto-exposição.
Quando eu digo expor-se, não me refiro apenas aos blogs confessionais, o blog é um ótimo índice de como somos realmente. Livro aberto pra quem souber ler. Principalmente nos Arquivos.

EM – Você usa uma espécie de sistema de comentários, como o Yaccs? O que acha da importância da interatividade nos blogs?
Meg – Sim, e interatividade é importantísima, e faz parte da essência do blog, quer se use ou não ferramenta de comentários. Quem não usa comentários, usa Livro de visitas, ou coloca o email bem visível para o contato.
E entre as mais importantes significações da interatividade está o fato de que os visitantes são ou se tornam co-blogueiros. Escrever um blog é uma tarefa que não se faz sozinho. Vira um trabalho coletivo. Quer no fato de que as pessoas que nos lêem seguem indicações e chegam a outros destinos, vão em frente, como também, suas críticas, seus questionamentos, os que apontam erros nossos, contribuem expressivamente para se saber a quantas se anda. Mais importante que o contador.
Um outro tipo de interatividade é a de visitantes que escrevem indicando links, mandando fotos, imagens; isso acontece comigo e fico felicíssima. Eles nos estimulam. Com alguns chega-se a estabelecer uma discussão, por e-mail, que às vezes me faz atrasar na atualização do blog.
Do mesmo modo, o que chamo de  ‘patrocínio cultural’: posts inteiros que são levados pelos leitores – uhuuu, isso é maravilhoso.
Acho que blog é uma experiência conjunta de se viver melhor. Da prática da partilha, a negação da propriedade absoluta. Exercício de esforços do afeto.

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Confesso que  hoje, com a proporção que essa ferramenta  ganhou,  fico pensando: ainda que se pudesse prever era muito difícil ter consciência do que realmente isso iria significar. Sempre achei dificílima a seção de futurologia. Gosto mais mesmo é de passadologia, é mais certeira. Indesmentível, não dá pra contar vantagem. É isso, e vou falar o menos possível. Nada. *pisc.

SR10 – A perda do eu no outro: solidão e desamparo

”  — Deveria haver uma lei que proibisse a obscenidade do abandono, uma lei, um decreto cheio de artigos, parágrafos, itens e subitens que proibissem esse tipo de usurpação das ilusões, de fraudes amorosas. Do direito humano inalienável e incontestável de ser amado pela pessoa amada.

E deveria haver um parágrafo único sobre a minha dor inteira.
ESTATUTO – Lei n° 000/Do início dos tempos

Título I: Do Amor
Título II: Do Sexo
Título III: Das Disposições Transitórias

Título I Do Amor

Art. Io – O amor abrange os processos formativos que… Diz a filosofia: “Se, como os animais, temos ne­cessidades, somente como humanos temos desejo.” A essência dos seres humanos é desejar. Somos seres desejantes. “Não apenas desejamos, mas sobretudo desejamos ser desejados por outros.”

PARÁGRAFO ÚNICO – “O desejo não suporta o tem­po, ou seja, desejar é querer a satisfação imediata e o prazer imediato.”

§ 1o — Esta Lei disciplina o amor.

Capítulo V

Dos impedimentos

São impedidos de servir no mesmo conselho amante e mulher de bígamo.

Capítulo VI
Do acesso à justiça

É garantido ao amante o direito humano inalienável e incontestável de ser amado pela pessoa amada.

Capítulo VII
Da proteção judicial dos interesses individuais, difu­sos e coletivos (existenciais) dos amantes

Art. 208° – Regem-se pelas disposições desta Lei as ações de responsabilidade por ofensa aos direitos as­segurados ao amante, referentes ao não-oferecimento ou oferta irregular:
I – de amor
II  – de atendimento sexual amoroso aos que se entregam por puro amor

Seção III
Da obrigação de reparar o dano

Art. 116° – Em se tratando de ato de abandono com reflexos no abandonado, a autoridade poderá deter­minar que o outro restitua a coisa, promova o ressar­cimento do dano ou compense o prejuízo da vítima (o abandonado).

PARÁGRAFO ÚNICO – As hipóteses previstas neste artigo não excluem da proteção judicial outros interesses individuais, difusos ou coletivos, próprios dos amantes.

Art. 22°  – Para defesa dos direitos e interesses protegidos por esta Lei, são admissíveis todas as espécies de ações pertinentes.

PARÁGRAFO ÚNICO (das disposições trnsitórias sobre a minha dor definitiva):

[...] Eu estou tão ferida tão ferida, tão ferida de amor recusado que é como quando ferem  um bicho e ele resiste ainda vivo, quando não o mataram de todo. Eu sou um urro só, uma dor inteira…


[...]“Meu único caminho teria sido aceitar a solidão como quem aceita uma marca de nascença… “
“Meu erro foi a insistência, a procura incessante por um complemento, por um encontro, uma companhia que fosse  [...] A gente devia ter aulas de solidão nas escola [...] Devia ter uma matéria no currículo: “Meus queridos alunos, bom dia, sou o professor de solidão. repitam comigo, conjuguem o verbo comigo: nigué te quer, ninguém te quis… Alguma dúvida? Quem tiver dúvida levante a mão” “Ah! acostumar-se com a solidão, aceitar as caçadas solitárias do meu coração. Reconhecer a minha como uma agenda de possibilidades em código, de encontros marcados com gente que não vou encontrar” [...]“

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O texto acima foi retirado do livro Obsceno abandono, de Marilene Felinto.
O texto não necessita de explicações ou justificativas, está impresso na alma e em sua dobras a dor do desamparo, o fel da devastação, a lucidez da angústia e o cansaço da crueldade, erosão do ser.  A visceral busca do ser humano pelo outro e com ele formar um outro e único eu, impossível demanda. Ódio e revolta, desnudamento explícito.
Nesses 10 anos e desde o ano em que o livro foi publicado, 2002, pensei em publicar no blog  vários excertos desse discurso desesperado, raivoso, cansado, desesperançado. Por alguma razão fui adiando até hoje, talvez por causa de um outro viés a partir do qual a autora já declarou querer ser identificada, o da escritora, jornalista e (exacerbada) militante política. A gente pensa que isso não tem importância ou como se diz “não tem nada a ver”…  Eu, sinceramente, não sei.  Um trabalho acadêmico, tudo bem, uma publicação ocasional num blog, já é diferente. Política divide, sofrimento une.  Ou não?
Fica então, nesses dias de anivesário, um presente que o SUB ROSA dá a si mesmo,  a todos que o lêem e aos que, estou certa, ainda irão ler.  Para refletir,  e talvez para ir mais além.

♦Felinto, Marilene. Obsceno abandono: amor e perda. Rio, Record, 2002. (Coleção Amores Extremos)

SR10- Augusto Monterroso-pequena antologia

CÉSAR MIRANDA,  poeta, músico, advogado, blogueiro e compositor, a meu pedido, apresenta  Augsto Monterroso :

Meg pediu uma “breve introdução a Monterroso”. Seria um desrespeito escrever sobre Monterroso uma introdução longa. Trata-se do rei da síntese. Autor do menor conto de todos os tempos “O Dinossauro”. O Picasso das letras, complexo e simples. Um amigo meu, a quem respeito, me ouviu recitar “O Dinossauro” (“Quando acordou, o dinossauro estava lá”) de Monterroso, “é fantástico, não é?”, indaguei. “Não achei, não”, respondeu.
Monteroso que diz o suficientemente necessário parece estranho; mas a quem o texto desse senhor da Guatemala pega, vicia. Não se pode julgar mal quem não goste dele ou de Picasso. Pode-se julgar mal sim é às Editoras que não mantém Monterosso em seu catálogo. Millôr e Borges são alguns de seus entusiasmados fãs. Seu único livro em português é “A ovelha negra e outras fábulas”, lançado pela Editora Record – Rio de Janeiro, 1983, com tradução de Millôr Fernandes e ilustrações de Jaguar. Deve ser difícil achar em sebos, quem se livraria do seu?  Nada mais direi.

César Miranda – BSB – 14.10.02 ”

Não é maravilhoso?
Sábio e prudente conselho, também nada mais direi. Às fabulas, pois.
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Pequena Antologia de fábulas de Augusto Monterroso

A FÉ E AS MONTANHAS
Augusto Monterroso
No princípio a Fé removia montanhas só quando era absolutamente necessário, e por isso a paisagem permaneceu igual a si mesma durante milênios.
Porém, quando a Fé começou a propagar-se e as pessoas começaram a achar divertida a idéia de mover montanhas, estas não faziam outra coisa senão mudar de lugar, e cada vez era mais difícil encontrá-las no lugar em que a gente as tinha deixado na noite passada: coisa que se percebe, criava mais dificuldades do que as que resolvia.
A boa gente preferiu então abandonar a Fé, e agora as montanhas geralmente permanecem em seu lugar.
Quando numa estrada acontece um desmoronamento debaixo do qual morrem vários viajantes é porque alguém, muito longe ou por ali mesmo, teve uma ligeiríssima recaída de Fé.

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O BURRO E A FLAUTA

Jogada no campo estava desde faz tempo uma Flauta que já ninguém tocava, até que um dia um Burro que passeava por ali soprou forte nela fazendo-a produzir o som mais doce de sua vida, quer dizer, da vida do Burro e da Flauta.
Incapazes de compreender o que tinha acontecido, pois a racionalidade não era o seu forte e ambos acreditavam na racionalidade, se separaram rapidamente, envergonhados do melhor que um e outro tinham feito durante toda a sua triste existência.
(trad: Millôr Fernandes)

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O MACACO QUE QUIS SER ESCRITOR SATÍRICO

Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.
Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.
Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.
Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.
E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.
Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.
Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios — auxiliares na verdade de sua arte adulatória — conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.
Depois resolveu satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.
Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio.
Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer.

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O COELHO E O LEÃO

Um célebre Psicanalista encontrou-se certo dia no meio da selva, semiperdido.
Com a força que dão o instinto e o desejo de investigação, conseguiu facilmente subir numa árvore altíssima, da qual pôde observar à vontade não apenas o lento pôr-do-sol mas também a vida e os costumes de alguns animais, que comparou algumas vezes com os dos humanos.
Ao cair da tarde viu aparecer, por um lado, o Coelho; por outro, o Leão.
A princípio não aconteceu nada digno de mencionar, mas pouco depois ambos os animais sentiram as respectivas presenças e, quando toparam um com o outro, cada qual reagiu como desde que o homem é homem.

O Leão estremeceu a selva com seus rugidos, sacudiu majestosamente a juba como era seu costume e feriu o ar com suas garras enormes; por seu lado, o Coelho respirou com mais rapidez, olhou um instante nos olhos do Leão, deu meia-volta e se afastou correndo.

De volta à cidade, o célebre Psicanalista publicou cum laude seu famoso tratado em que demonstra que o Leão é o animal mais infantil e covarde da Selva, e o Coelho, o mais valente e maduro: o Leão ruge e faz gestos e ameaça o universo movido pelo medo; o Coelho percebe isso, conhece sua própria força, e se retira antes de perder a paciência e acabar com aquele ser extravagante e fora de si, a quem ele compreende e que afinal não lhe fez nada.

(Tradução: Millôr Fernandes)
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Augusto Monterroso ( 1921 – 2003) nasceu em Tegucigalpa (ai, como eu tinha vontade de escrecver essa palavra fascinante), na Guatemala. Em 1944, mudou-se para o México e, depois de muito observar a fauna daquele país e de outros, se convenceu de que “os animais se parecem tanto com o homem que às vezes é impossível distingui-los deste”. Assim surgiu “A ovelha negra e outras fábulas”, lançado pela Editora Record – Rio de Janeiro, 1983, com tradução de Millôr Fernandes e ilustrações de Jaguar.

Isaac Asimov, escritor russo que se criou nos Estados Unidos, disse dele:
“Os pequenos textos de “A ovelha negra e outras fábulas”, de Augusto Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. Não por outro motivo são eficazes. Depois de ler “O macaco que quis ser escritor satírico”, jamais voltei a ser o mesmo.”
Foi-lhe conferido, em 2000,o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. Um dos escritores latinos mais notáveis, Monterroso tem predileção por contos e ensaios.
Foi casado com a escritora mexicana Barbara Jacobs.
“O dinossauro”, uma de suas obras mais célebres, é considerado o menor conto da literatura mundial:
“Quando acordou, o dinossauro estava lá”.

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Nesta edição, trabalhamos:

César Miranda, advogado, poeta, compositor, musico, internauta, colecionador e autor de palíndromos e meu eterno professor de sabedorias, e de como manter uma AMIZADE. Mora em Brasília, e eu o respeito e lhe quero um bem enorme.
e eu,
Meg Guimaraes que apenas ouvi, ouvi e li. Fiz cara de quem pede e quer;-) e ganhei de César Miranda o livro de Monterroso, num aniversário há alguns anos. E recebi, digitadas, as fábulas de Monterroso.

*Ah sim e eu de novo, que fiz um pequeno aggiornamento.; e agora, outro:-)
Obrigada, César. Falamo-nos no MSN, OK?

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Publicado, originalmente, no Sub Rosa em Outubro de 2002. Faço este remake, para homenagear César Miranda, blogueiro excepcional (e humorista cheio de graça e da Graça – é isso mesmo, César?, só sei com segurança  é que você  é filósofo], de quem sou amiga, e ele é meu amigo meu, Deo gratias, desde o início dos tempos.

Aqui você pode ler vários de seus contos. E aqui você pode ouvir Monterroso -ele mesmo- lendo suas fábulas. Clique - (a página é horrível, cheio de pop ups. Mas vale a pena.

SR-10: TITE DE LEMOS – Rio de Janeiro – 1942 – 1989

TITE DE LEMOS

Et in Acardia ego. Nicolas Poussin sec 17

Newton Lisboa Lemos Filho (Rio de Janeiro RJ, 1942 – idem, 1989). Foi  poeta, letrista., dramaturgo e jornalista.
Publicou seus primeiros livros de poesia, Marcas do Zorro Corcovado Park, em 1979. No final dos anos de 1970 produziu três peças teatrais: A SerraA Liça e A Bola. Trabalhou como jornalista, nos anos seguintes; foi redator do jornal carioca O Globo. Em 1988 foi lançado seu livro Caderno de Sonetos e, em 1989, ocorreu a publicação póstuma de Outros Sonetos do Caderno. No ano de 1970, escreveu em parceria com Gutemberg Guarabira, Luiz Carlos Maciel, Sidney Miller, Paulo Affonso Grisolli e Marcos Flaksman, o musical “Alice no país divino-maravilhoso”, do qual participou Sulei Costa, que viria a se tornar sua parceria musical mais constante. O espetáculo estreou no Teatro Casa Grande, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro. No início da década de 1970, junto a Luís Carlos Maciel, Torquato Neto e Rogério Duarte, foi editor da revista literária Flor do Mal. A ilustração que escolhi faz referência ao campo de sua poesia que gravitava entre o clássico e o experimental.

Sobre sua obra poética, Otto Lara Rezende afirmou:

a disciplina do soneto vem seduzindo os poetas de todos os tempos, do Dante ao Petrarca, do Sá de Miranda ao Camões, para só falar de remotos antepassados portugueses e italianos. (…) Esta velha escola de uma técnica sempre resistente e sempre renovável, depois do enxurro parnasiano que grassou no Brasil, com as exceções da regra, a certa altura pareceu banida pelo afã modernizador de 1922. Logo, porém, voltaria, como voltou, na joalheria de um Jorge de Lima, de um Manuel Bandeira, de um Dante Milano e até de um Carlos Drummond de Andrade. Tite de Lemos está assim situado na antiga e na mais recente tradição – e assim está não por acaso, mas por uma escolha de quem conhece, na intimidade, por dentro, as requintadas oficinas do soneto.”

E  Armando Freitas Filho, também poeta da  chamada Geração de 1970:

“A poética de Tite de Lemos constrói-se por elipses, por alusões à la Salinger ou Carlos Süssekind, nas pistas que só duram um minuto, onde a sugestão tem valor igual à expressão. Só assim é que se conseguirá capturar o célere, os dados do acaso, a sensação que está prestes a sumir, sem deixar memória escrita.”

Tite de Lemos, tal como Cacaso (Antônio Carlos de Brito) sobre quem já postei no Sub Rosa, várias vezes  é de um geração de poetas contemporâneos que tiveram uma passagem brevíssima pela Vida.

Antônio Houaiss, Ivan Junqueira também se referiram com entusiasmo em relação à obra ao poeta. Mas para minha infinita tristeza, constato que os blogs e os cadernos ou suplementos culturais dos jornais insistem em chover no molhado, divulgar ad nauseam os que já são conhecidos, deixando assim de revelar o que nem nós mesmos conhecemos: a contemporaneidade.

DOIS POEMAS DE TITE DE LEMOS:

MARCAS DO ZORRO

Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
às vezes me castigas e outras vezes não
vou cegamente aonde a Tua mão me guia
mas em segredo me pergunto aonde vão

essas desconhecidas Tuas rotas minhas
eu preferia ser apenas o cantor
o jardineiro um leopardo uma florzinha
capaz de em cada outono sucumbir de amor

dizem que és um vingador Te chamam Zorro
uns outros Te nomeiam Christian Rosenkreutz
me humilhas sei e me maltratas mas eu morro

da Tua ausência mais do que quando me açoitas
ah eu desejaria uivar gemer e calo
por ser dos duros deuses todos o cavalo

In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. [Prefacio de Ivan Junqueira]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis).

===
IRMANDADE

O meu irmão habita os pântanos e os bosques
ermos, os fundos dos quintais onde não vai
ninguém. Eu tive a mesma mãe e o mesmo pai
mas gosto mais das aquarelas dos pomares,

dos lugares aéreos, de coisas assim.
Eu toco címbalo e marimba, ele mergulha
nas oceânicas igrejas, conchas, símbolos
significando nada além dos seus barulhos

e é um devorador de ostras e escraviza
toda mulher que ama, todos os dragões
que doma; e o meu esporte é cavalgar a brisa

passageira. Seremos para sempre dois
— como o chá e o limão, a coca-cola e o rum —
até que o acaso nos convide a ser só um

In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. [Prefácio de . Ivan Junqueira]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis).
********

II [Um coração boxeur que bate, bate]

Um coração boxeur que bate, bate
mas convenhamos gosta de apanhar
e bater pernas pelo bulevar:
assim é o meu, desgovernado iate

— não sou piloto para o tripular.
Onde céus ele vai? tatibitate
atrás de um outro coração que o mate
ou lhe acenda uma luz crepuscular

antes que a noite finalmente caia,
noite definitiva carta escrita
em braille, noite noiva predileta,

antes que o dia saia e torne maya
tudo isso que passa por estrita
realidade, dor, desejo, meta.

In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

XXIII [TODA VIDA É RASCUNHO PERMANENTE ]
Toda vida é rascunho impermanente
manuscrito com tinta azul lavável.
Não divise futuros, não invente
eternidades nem se torne escrava

de horizontes perdidos e apagados.
Somos mortais, por isso celebramos
casuais centelhas de imortalidade.
Por mais que dure e se transvie em ramos,

uma árvore tem a sua hora.
Se a chuva a curva, sofre mas não chora,
senão, dizem, até se alegra e gosta

sem se dar ao trabalho de sorrir.
Deus, amor, lhe dê olhos de menina
que a paisagem de hoje descortinem.

In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988
****
Bnus:

*****
Aqui uma mostra de Tite de Lemos como letrista. A música é de Sueli Costa (grande nome, aliás mais um outro grande nome da música brasileira, injustiçado, que, vergonhosamente, conhecemos muito pouco). A letra de Tite de Lemos é lindísima, é esta, é  esta:
Você me deixa um pouco tonta/
assim meio maluca/
quando me conta essas tolices e segredos/
e me beija na testa, e me morde na boca/
e me lambe na nuca/
você me deixa surda e cega/
você me desgoverna/
quando me pega assim/
nos flancos e nas pernas/
como fosse o meu dono/
ou então meu amigo/
ou senão meu escravo/
e eu sinto o corpo mole/
e eu quase que faleço/
quando você me bole e bole/
e mexe e mexe/
e me bate na cara/
e me dobra os joelhos/
e me vira a cabeça/
mas eu não sei se quero ou se não quero/
esse insensato amor/que eu desconheço/
e que nem sei se é falso ou se é sincero/
que me despe e me vira pelo avesso./

não eu não sei se gosto ou se não gosto/
de sentir o que eu sinto/
e que me atormenta/
e eu confesso que tremo desse sentimento/
que de repente chega/
e que me ataca/
e assim me faz perder-me/
e nem saber se esses carinhos/
são suaves ou velozes/
se o que escuto é o silêncio/
ou se ouço vozes.
——-
Em 2010, mais de vinte anos após sua morte, a Editora 7 Letras publicou Bella Donna, livro com poemas inéditos do autor. Confira aqui

Este post, descuidado, sem rigor, foi feito em plena vigência de uma temporada em que estou vivendo sob o signo de Saturno, expressão indebitamente emprestada de Susan Sontag. E é dedicado, neste período de aniversário do Sub Rosa, como homenagem a uma pessoa culta, elegante, generosa e muito querida que desde há muito me tem servido de apoio e  inspiração: a iluminada Luma Rosacuja luz  por si só inaugura uma festa sempre que se apresenta. E que parece ter nascido com dom de ser blogger;-)  Oh  yes, Luma is the party.

SR-10: Poesia e olvidamento – Dante Milano (1899-1991)- Updated

Tudo é exílio. Tudo exceto a poesia.
Esta será a ocupação mais pura entre os humanos.
Aprisionar e libertar os seres pelo canto, como faz Orfeu
.
Dante Milano.

A primeira vez que ouvi falar de  Dante Milano foi através da brilhante musicista e professora Laura Rónai de quem sou amiga desde 2001, – - admiradora, eu já era  iiih! desde que a ouvi pela primeira vez,  num concerto de música barroca, no CCBB, no Rio de Janeiro, em 1990) [Já que estão aqui, leiam este CV de Laurinha e morram, suicidem-se de inveja -  como eu faço toda vez que seu nome é mencionado]
Pois bem, estávamos em minha casa (com o querido Hermano S. Taruma)  quando Laura me apresentou um poema,  um soneto, de Dante Milano e  eu fiquei impregnada da beleza  e elegância dos versos e verbos  mas  também impregnada  da sensação de desamparo que se costuma sentir quando o conhecimento não nos apoia, quem seria o poeta?

Parece que todos estamos assentes em  que apresentar, indicar a poesia de alguém é ato de extrema sensibilidade e de algum modo é lisonjeiro também para quem a recebe, pois supõe uma identidade de gosto, uma es pécie de  afinidade (estética) eletiva, não é?
Pois bem, gora, no período em que este  blog Sub Rosa completa dez anos, e por eu ter sido  delicadamente pressionada por leitores (pouquíssimos) que reclamam do fato de eu só publicar poetas estrangeiros (o que é um exagero, a bem da verdade),  acho oportuno falar um pouquinho e mostrar um pouco mais de  Dante Milano, o poeta que, de certa forma, se caracteriza por ser admirado e visitado por grandes poetas, artistas  e intelectuais como Aníbal Machado,  Augusto Frederico Schmidt,   Carlos Drummond de Andrade,  Celso Antonio,  Di Cavalcanti,  Jaime Ovalle,  Manuel Bandeira,  Odilo Costa Filho,  Olegário Mariano,  Paulo Mendes Campos, Portinari, Ribeiro Couto,  Sérgio Buarque , Paulo Rónai  (Dante Milano  foi também excelente tradutor e importante por seus trabalhos com poemas de Baudelaire e Mallarmé). Mas que, infelizmente, se caracteriza também pelo que chamei de olvidamento - forma poética que escolhi para o olvido, o esquecimento , o silêncio, a falta de memória – o que, embora lamentado, não diminui e com isso impede tanto o reconhecimento que merece quanto a divulgação e a circulação, a crítica(*), a discussão, o estudo que tanta falta faz a um poeta tão singular. Insisto nisso pois parece muitas vezes que Dante Milano e olvido chegam a ser termos coextensivos, um sempre ao lado do outro.
Em 2001, quando busquei saber a respeito dele, encontrei pouquíssima coisa, mas já se chamava atenção para o fato; agora 10(dez) anos depois, e vinte anos após sua morte, o silêncio persiste. Eu pergunto,  por que isso acontece, por que são raríssimas as teses, as comunicações acadêmicas a respeito de sua poética?
Bom, talvez porque ela tenha se constituído à margem de inovações literárias modernistas, apesar de  ser dotada em alto grau das marcas de modernidade poética,  sua poesia , segundo o grande crítico Franklin de Oliveira,  “ é  de  um caráter “antilírico, nua e desértica” .
Ou talvez pelo seu caráter taciturno, angustiado, sombrio e em algumas até mórbido, por seu retraimento, talvez até mesmo pela aura de mistério que ele criou em torno de si, se não, vejamos isso:
Embora tenha sido  poeta, tradutor, escritor e escultor, Milano não teve educação formal, não pode cursar o Ginásio (correspondente ao que hoje se chama de “2º grau”, mesmo assim  aos 14 anos, vai trabalhar como assistente de revisão no Jornal da Manhã e no Jornal do Comércio. (jornais de projeção à época. Aos 17, consegue emprego de revisor na Gazeta de Notícias, e conhece o português Pinto de Sousa, que lhe apresenta à literatura portuguesa, sobretudo à poesia de Camões, a quem ele homenageia em sua obra. Na década de 1920, consegue um posto no Juizado de Menores do Rio de Janeiro.  E  foi diretor por muitos anos diretor do  Museu da Magia do Rio de Janeiro,  fato que vai influir  intensamente em sua poesia. De fato existe em sua obra uma  espécie de “sócio-antropologia do mal” (Deixem-me dizer aqui, antes de mais, que essa poética do mal é uma linha  que vem desde Dante (a procura de sua Beatriz) e passa por seu maior representante, Charles Baudelaire – tenham em mente as “Flores do Mal”  . Envolve,  no imaginário literário, o mito do eterno feminino, a mulher como representação do mal (e algumas vezes do Bem, como a Beatriz , a amada e musa de Dante Alighieri) , o mito da musa, enfim todos os ingredientes que colocam a mulher como a principal figura nas representações antigas e modernas  do Mal.
Apresentarei aqui algumas amostras de sua poesia e surge então a oportunidade para se discutir e expor o que pensam(os) e que ilações podem ser retiradas, dessa leitura. O valor cultural dessa discussão, neste blog, é que por ele ser um espaço não-acadêmico a representatividade pode ser maior. Espero que perdoem a pretensão. E, por menor que seja o nosso conhecimento, esta é uma chance  de dividir para somar, partilhar, não é?
Antes porém, vamos ver o que disseram alguns dos críticos mais importantes que romperam o silêncio e anunciar, divulgar também a única tese que conheço, atualmente, [neste momento, agosto de 2011], na convergência de campo e de diálogo, entre a sociologia, a antropologia e a psicanálise, sobre este “intrigante personagem, praticamente desconhecido’. Trata-se de Antropologia, literatura e psicanálise: as representações do mal à brasileira na poética de Dante Milano” tese de pós-doutoramento do professor e pesquisador Alexandre Fernandes Correa, da UFMa.
Vamos às avaliações críticas:

Para o crítico David Arrigucci Jr, Milano, “como o amigo Bandeira, refletiu muito sobre a morte, casando o pensamento à forma enxuta de seus versos – lírica seca e meditativa, avessa ao fácil artifício, onde o ritmo interior persegue em poemas curtos, com justeza e sem alarde, o sentido”.

Manuel Bandeira assim se expressou: ““Dante Milano é, seguramente, o mais retraído dos nossos poetas; e por tão retraído, tão pouco conhecido do grande público, ainda que altamente prezado pela nata de seus confrades”.  “Um dos nossos poetas mais fortes e mais perfeitos”. ““Exemplo singularmente raro em nossas letras, parece “escrever seus versos naquele indefinível momento em que o pensamento se faz emoção”.

Mario de Andrade  nos diz  que a sua poesia era pensamenteada”,  uma alusão ao caráter reflexivo de que era dotada.

 Paulo Mendes Campos: “Trata-se essencialmente de um poeta antilírico. A palavra lirismo é equívoca e exige uma conceituação pessoal. André Gide afirmava que sem religião não poderia haver lirismo. Preferia eu dizer que sem o jogo-do-faz-de-conta, sem o sentimento ilusório de que a vida tem um sentido, não pode haver lirismo. Dante Milano é o poeta antipoético, o poeta do desespero. Também este, o desespero, pode ser lírico, mas não o desespero seco, sem lágrimas como um soluço. Em todos os poemas deste livro, encontramos o mesmo timbre árido: em vez de sonho, o pesadelo; em vez da fantasia, a angústia; em vez de amor, um arremedo de posse bruta. O próprio poeta se espantou há muitos anos, quando lhe disse, com admiração, que a sua poesia me parecia sinistra. Releio agora os poemas, procuro cuidadosamente uma fresta lírica, um respiradouro, e chego à antiga conclusão: esta poesia é sinistra, nua, desértica”.

Sérgio Buarque de Hollanda : “Dante Milano está longe de ser, como se diria, um poeta de ideias, posto que suas ‘ideias’ não sobrevivem separadamente a qualquer espécie de paráfrase em prosa. Em outras palavras, seu pensamento é de fato sua forma”.

Vinícius de Moraes: (que o considerou um poeta bissexto):“…notável pela unidade de sua forma poética de grande pureza”.

E, por favor, pensem muito nisso que nos disse o grande Ivan Junqueira: “Pequena, entre nós, é a obra fundamental de Dante Milano, que morreu aos 91 anos de idade e nos deixou uma exígua produção de 141 poemas, esse Dante Milano que Drummond, no fim da vida, considerava o maior dentre todos os poetas brasileiros do século passado. E se os cito aqui, é porque todos encarnam essa poética do pouco, que teria a coroá-la aquele juízo do poeta expressionista alemão Gottfried Benn, segundo quem o que de fato permanece para sempre de cada grande poeta não chega a oito ou dez poemas dignos desse nome”.

♠♣♦♦♣♠

A minha antologia, a minha escolha:

VOCABULÁRIO
Áridas palavras,
Refratárias, secas
Arestas de fragas
Secretando uma água
Morosa, suada,
Que não mata a sede.

São pedras na boca.
Rolam balbuciantes
Buscando um sentido.
Uma quer ser beijo.
Outra quer ser lágrima.

Não basta dizê-las.
Elas querem ser
Mais do que palavras.

Como captarei
A idéia sem fim
(Não sei de onde vem)
Que tenta exprimir-se…

Áridas palavras
Para as bocas ávidas,

E quando elas brotam
Não são mais que as notas
De uma extinta música…

AO TEMPO
Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando…
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?

A CIDADE
Ao ver os altos castelos
Do Alhambra, dos Alijares
Lavrados à maravilha,
El-rei Don Juan dizia:
“Se tu quiseres, Granada,
Contigo me casaria
E te daria como arras
Córdova e Seveilha!”

“Não sou solteira nem viúva,
Sou casada, rei Don Juan,
Com Abenámar o Mouro,
Senhor que muito me quer.”

Maior felicidade
Que amar uma mulher,
Amor de longo olhar
E presente saudade,
Amor muito maior
É amar uma cidade!

SEPARAÇÃO
Onde andarás sem mim nessas ruas enormes?
Quem te acompanha? Quem contigo ri?
Sob as mesmas cobertas com quem dorme
Quem te ama senão eu? Quem pensa em ti?
Vagas sem ter aonde ir e sem saber
O que fazer, ou sem prazer nenhum
Em mãos alheias como um bem comum
A outro te entregas sem lhe pertencer.
Estou pensando em ti… Pensar é estar sozinho…

SONETO VI
Não sei de que cansaços me proveio
O peso que carrego sobre os ombros.
Sou como quem depois de um bombardeio,
Se levanta no meio dos escombros.

E sente a dor das pedras rebentadas,
Mais alta que o grito das criaturas
A dor do chão, dos muros, das calçadas,
De onde o pranto não brota, dores duras.

O único alívio é olhar o céu sem fundo,
O véu de sonho que recobre o mundo,
E absorve, esbate, anula realidade

Sob a expansão do azul intenso e forte.
Dor sem fim, olhar calmo além da morte,
Não desespero, sim perplexidade!

OBJETO DE ARTE

Corpo de ancas opulentas,
Mulher de Angkor,
Coxas e tetas pedrentas
De árduo lavor.

Pedra, lição de escultura,
Da verdadeira
Carnadura, carne dura
Mais que a madeira

Ou o bronze que posto ao forno
Se liquefaz.
A pedra não; seu contorno
Mantém-se em paz

À maneira do medonho
Ser que no Egito
Contém o esfíngico sonho
Do granito.

Já no mármore a figura
Parece menos
Tosca; é mais branca, mais pura,
Mais lisa; é Vênus

Que, mesmo nua, ao expor
Sua vaidade,
Tem do mármore o pudor,
A castidade.

Ou então pedra-sabão,
Pedra-profeta,
Que da fêmea a carnação
Não interpreta.

Mas és da beleza o exemplo,
Pedra qualquer,
Se a figura em ti contemplo
De uma mulher,

Aparição singular,
Sem que me farte
Jamais o prazer de a olhar,
Objeto de arte.

CORPO

Adorei teu corpo,
Tombei de joelhos.
Escostei a fronte,
O rosto, em teu ventre.
Senti o gosto acre
De santidade
Do corpo nu.
Absorvi a existência,
Vi todas as coisas numa coisa só,
Compreendi tudo desde
o princípio do Mundo.

♣♣♣

Penso que, por mim, colocaria aqui todos os 141 poemas de Dante Milano. Se você  souber de mais , mais até do que os que se encontram na web, se tiver o seu preferido, por favor, divida conosco, sim? Pode deixar nos comentários. Algo me diz que Dante Milano ainda vai “estourar”, “causar” e ser conhecido por “todomundo”, afinal chega daquela estética meio “cinemanovista” em que só era bom o que era raro, difícil e o que durava pouco. A gente ia assistir no cine-clube  a um filme daqueles, você sabem… um do Olphus, por ex. mas o filme só era bom se a máquina pifasse, se a tela se enchesse de riscos… Um sacrifício em nome  da arte e do (bom ou mau) gosto ditatorial. Pensando agora em Dante Milano e no silêncio e esquecimento que lhe rodeia, decido não  ficar com a estética do ‘quanto pior melhor’, a estética do precário. Agora, não, pra mim, o que é bom é muito bom, circula, é partilhado e  dura muito:-). Por favor, diga o que achou, se gostou e, principalmente até,  se não gostou e o que não gostou… E se já conhecia ou sabe de algum estudo não mencionado aqui. Obrigada.

♣♣♣   ♣♣♣   ♣♣♣
DÉDICACE

Este longuíssimo post  que é para ser lido com calma, vagar e, quem sabe? até com  prazer,  é obviamente para todos os leitores do Sub Rosa, os presentes e os por vir. Mas é, se para isso valer, dedicado a três pessoas também especiais por quem nutro a maior admiração, a saber: o livreiro Luis R. Duarte que tem me socorrido através da  sua Fenix Liber.com,  o amigo poeta Luis C. Nelson  que, além de amigo, é a quem eu freqüentemente recorro para abonar algumas de minhas fracas intuições literárias, e  a Ana Barrospoetisa ela mesma,  e que se expressa de forma encantadora também em prosa, tanto na semântica quanto na sintaxe.  Em plano altíssimo. Obrigada, querida, por toda a tua poesia, e mais aquelas descobertas que partilhas conosco, e mais ainda pela música, a melhor, com que sempre me presenteaste.

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