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São Paulo, sábado, 26 de abril de 2008 
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Crítica/”Duas Vidas”

Escolhas políticas de Gertrude Stein não ofuscam sua obraBiografia revela que artista apoiou Franco e fez concessões aos alemães na França 

NOEMI JAFFE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Até que ponto o conhecimento da biografia de um artista deve interferir na interpretação de sua obra? Até o ponto em que os fatos biográficos ajudam a compreender a sua linguagem. Como relativizar a militância anti-semita de Céline, o fascismo de Ezra Pound e separá-los de seu trabalho?
É um problema difícil para o leitor e para o crítico, mas não há como negar que a interpretação da obra em função do conhecimento das opções políticas, sexuais ou religiosas de um autor é um problema pessoal, não estético. Posso optar por não ler determinado escritor porque discordo de suas escolhas, mas não posso avaliar seu trabalho em função disso.
Em “Duas Vidas”, Janet Malcolm faz uma pesquisa de fôlego sobre alguns bastidores nada abonadores da relação entre Gertrude Stein e Alice B. Toklas e menos ainda das relações que Gertrude manteve, durante a Segunda Guerra Mundial, para conseguir permanecer no interior da França em relativa tranqüilidade. Como duas lésbicas judias mantiveram uma bela casa no interior, durante vários anos, sem serem incomodadas pelos alemães ou pelos franceses?
O foco principal da pesquisa é a amizade que Gertrude estabeleceu com um grande colaboracionista francês, Bernard Fay, escritor, professor e também homossexual, que, segundo consta, teria protegido o casal Gertrude e Alice durante a guerra. Além disso, o livro também conta sobre o apoio de Gertrude a Franco, durante a Guerra Civil Espanhola, contrariando as tendências de praticamente todos os seus amigos durante a época, inclusive o mais conhecido deles, Picasso.

Concessão ao público 
Seu livro mais vendido, “A Autobiografia de Alice B. Toklas”, escrito por Gertrude como se a narradora fosse Alice, falando de sua amante genial, foi, segundo a pesquisadora, uma concessão da autora ao grande público, uma vez que sua linguagem feita de colagens e justaposições era incompreensível demais.
Do apoio a Franco e da amizade com um aliado dos nazistas, Janet Malcolm vai à miséria em que morreu Alice, já nos anos 60, privada da herança das centenas de quadros de Gertrude, que, no final, ficaram mesmo dentro do círculo nada revolucionário de sua família e foram confiscados de forma patética pela segunda mulher de seu sobrinho.

Escolhas políticas 
Mas, apesar da acuidade da pesquisa, resta outra pergunta: se é difícil decidir sobre a importância das escolhas políticas dos grandes autores, qual é a utilidade de se realizar um estudo pormenorizado sobre essas escolhas? Para revelar ao grande público a “verdade” que se esconde por trás das obras?
Para obter sucesso em nome de sua popularidade?
Gertrude Stein já era polêmica o suficiente como autora, na sua linguagem autônoma e circular, para que seja necessário conhecer os bastidores de suas escolhas políticas, a não ser como curiosidade. Sua vida pessoal, carregada de detalhes saborosos (amizade com Picasso e Hemingway, homossexualismo, judaísmo mal assumido) não pode ocupar o lugar da tarefa muito mais desafiadora de se compreender sua obra, que fica sempre muito além dessas curiosidades.
Afinal, para quem lê “Uma Temporada no Inferno”, de Rimbaud, que diferença faz saber que ele foi traficante de armas na África? E, no futuro, como se poderá esquecer a frase “uma rosa é uma rosa é uma rosa”, em que Gertrude desbanalizou essa flor pela primeira vez em cem anos?


DUAS VIDAS – GERTRUDE E ALICE
Autora: Janet Malcolm
Tradução: Patricia de Queiroz Carvalho Zimbres
Editora: Paz e Terra
Quanto: R$ 47 (216 págs.)
Avaliação: regular

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Adélia – a coisa mais fina do mundo

Mais atual, impossível e Adelia continua sendo a finíssima expressão do feminino. <3

Sub Rosa (flabbergasted) v.2

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência…”

Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia…
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,

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Gwilli Andre

Gwilli

Gwilli ANDRE foto de Cecil Beaton

GWILI ANDRE (4/02/1908- Copenhague, Dinamarca —5 /02/1959, Venice, Los Angeles, Califórnia, EUA) photos by CECIL BEATON! (Alô, Nelson L Castro)
Tão intensamente bela. O toque de tragédia na vida e em seu final. Morreu um dia depois de completar 51 anos.
Mas, claro que é para todos vocês, que não conhecem. São poucos, espero.

Pessoa – Crônicas

“Sempre que alguem entra em discutir o caráter do povo português, pode adivinhar-se que, a certa altura da análise, dirá que uma das mais notaveis faculdades do nosso espirito é o excesso de imaginação.”

(Fernando Pessoa, in Crónicas da vida que passa, 1915)

Reinicinando

Um post com foto de Cecil Beaton

O xadrez – Jorge Luis Borges

Paixão não correspondida, consolo é na Poesia:

Ajedrez

I

En su grave rincón, los jugadores
Rigen las lentas piezas. El tablero
Los demora hasta el alba en su severo
Ámbito en que se odian dos colores.

Adentro irradian mágicos rigores
Las formas: torre homérica, ligero
Caballo, armada reina, rey postrero,
Oblicuo alfil y peones agresores.

Cuando los jugadores se hayan ido
Cuando el tiempo los haya consumido,
Ciertamente no habrá cesado el rito.

En el oriente se encendió esta guerra
Cuyo anfiteatro es hoy toda la tierra,
Como el otro, este juego es infinito.

II

Tenue rey, sesgo alfil, encarnizada
reina, torre directa y peón ladino
sobre lo negro y blanco del camino
buscan y libran su batalla armada.

No saben que la mano señalada
del jugador gobierna su destino,
no saben que un rigor adamantino
sujeta su albedrío y su jornada.

También el jugador es prisionero
(la sentencia es de Omar*) de otro tablero
de negras noches y de blancos días.

Dios mueve al jugador, y éste, la pieza.
¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza
de polvo y tiempo y sueño y agonías

* Omar Khayyam

Jorge  Luis Borges (Buenos Aires, 1899-Genebra, 1986), poeta, ficcionista e ensaista argentino, um dos maiores escritores do século XX.

Em português:

XADREZ

Jorge Luis Borges

I

Em seu grave rincão, os jogadores

as peças vão movendo. O tabuleiro

retarda-os até a aurora em seu severo

âmbito, em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores

as formas: torre homérica, ligeiro

cavalo, armada rainha, rei postreiro,

oblíquo bispo e peões agressores.

Quando esses jogadores tenham ido,

quando o amplo tempo os haja consumido,

por certo não terá cessado o rito.

Foi no Oriente que se armou tal guerra,

cujo anfiteatro é hoje toda a terra.

Como aquele outro, este jogo é infinito.

II

Rei tênue, torto bispo, encarniçada

rainha, torre direta e peão ladino

por sobre o negro e o branco do caminho

buscam e libram a batalha armada.

Desconhecem que a mão assinalada

do jogador governa seu destino,

não sabem que um rigor adamantino

sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro

(diz-nos Omar) de um outro tabuleiro

de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este a peleja.

Que deus por trás de Deus a trama enseja

de poeira e tempo e sonho e agonias?