Adélia – a coisa mais fina do mundo

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência…”

Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia…
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.

Uma tal esperança imploro a Deus.

Adélia Prado. Dolores‘.

*  *  *

Adélia Luzia  Prado completou 75 anos no dia 13 de dezembro de 2010. As comemorações foram intensas, a repercussão foi imensa. Como Adélia sempre foi “santa do meu altar”, aqui uma mostra reduzidíssima dessas homenagens:

* Lançamento do livro: A duração do dia (Record, 2010)

**  A simplicidade de um estilo – Entrevista Saraiva-Conteúdo

* * *Entrevista – Globonews:

(*)
A seguir,  uma bibliografia de Adélia que me foi enviada pelo  querido amigo Antônio Augusto Bocaiúva.
” OBRAS:
Individuais

POESIA:

– Bagagem, Imago – 1976
– O coração disparado, Nova Fronteira – 1978
– Terra de Santa Cruz, Nova Fronteira – 1981
– O pelicano, Rio de Janeiro – 1987
– A faca no peito, Rocco – 1988
– Oráculos de maio, Siciliano – 1999
– A duração do dia, Record – 2010

PROSA:
– Solte os cachorros, Nova Fronteira – 1979
– Cacos para um vitral, Nova Fronteira – 1980
– Os componentes da banda, Nova Fronteira – 1984
– O homem da mão seca, Siciliano – 1994
– Manuscritos de Felipa, Siciliano – 1999
Filandras, Record – 2001
– Quero minha mãe – Record – 2005
– Quando eu era pequena – 2006.

ANTOLOGIAS:
Mulheres & Mulheres, Nova Fronteira – 1978
Palavra de Mulher, Fontana – 1979
Contos Mineiros, Ática – 1984
Poesia Reunida, Siciliano – 1991 (Bagagem, O Coração Disparado, Terra de Santa Cruz, O pelicano e A faca no peito).
Antologia da poesia brasileira, Embaixada do Brasil em Pequim – 1994.
Prosa Reunida, Siciliano – 1999

BALÉ
A Imagem Refletida – Balé do Teatro Castro Alves – Salvador – Bahia – Direção Artística de Antônio Carlos Cardoso. Poema escrito por Adélia Prado especialmente para a composição homônima de Gil Jardim.

Vem de antes do sol
A luz que em tua pupila me desenha.
Aceito amar-me assim
Refletida no olhar com que me vês.

Ó ventura beijar-te,
espelho que premido não estilhaça
e mais brilha porque chora
e choro de amor radia.

(Divinópolis, 1998).

Em parceria

A lapinha de Jesus (com Lázaro Barreto) – Vozes – 1969
Caminhos de solidariedade (com Lya Luft, Marcos Mendonça, et al.) – Gente- 2001.

Traduções
Para o inglês

– Adélia Prado: thirteen poems. Tradução de Ellen Watson. Suplemento do The American Poetry Review, jan/fev 1984.
– The headlong heart (Poesias de Terra de Santa Cruz, O coração disparado e Bagagem). Tradução de Ellen Watson, New York, 1988, Livingston University Press.
– The alphabet in the park (O alfabeto no parque). Tradução de Ellen Watson, Middletown, Wesleyan University Press, 1990.

Para o espanhol:

– El corazón disparado (O coração disparado). Tradução de Cláudia Schwartez e Fernando Roy, Buenos Aires, Leviantan, 1994.
– Bagaje. Tradução de José Francisco Navarro Huamán. México, Universidade Ibero-Americana no México.

Para o italiano:

– Poesie. Antologia em italiano, precedida de estudo do tradutor Goffredo Feretto. Publicada pela Fratelli Frilli Editori, Gênova.

Participação em antologias

– Assis Brasil (org.). A poesia mineira no século XX. Imago, 1998.
– Hortas, Maria de Lurdes (org.). Palavra de mulher, Fontoura, 1989.
– “Sem enfeite nenhum”. In Prado Adélia et alii. Contos mineiros. Ática, 1984.

O trabalho acima foi baseado em dados obtidos na Internet (Jornal da Poesia, depoimento à Biblioteca Nacional, “As conversas com Deus” — Luciana Hidalgo – O Globo), BTCA – A.C.Cardoso, Cadernos de Literatura Brasileira – Instituto Moreira Salles, entre outros, e em livros da autora.

* * * * *

====

(*) Uma pequena nota pessoal:
Para mim, Adélia é insuperável na poesia. E, ainda assim, na prosa, a meu ver, ela rompe todos os limites ou barreiras da autoexpressão. O que é raríssimo acontecer com as poetisas. Só para dar um exemplo: você  imaginaria o mesmo efeito na experiência do rapto, do transe em Tereza de Ávila, escrito em prosa?)

*****-
CODA:
– Por que Katherine Hepburn?
– Bem… por que não?.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

24 Responses to Adélia – a coisa mais fina do mundo

  1. Oi, MEG.
    Lido desde meu cantinho aqui na casa de minha filha, em Navarre (FL), este seu post teve especial importancia pra mim.
    Gosto demais de dona Adelia e tive a sorte de receber uma autografo dela, por conta de Dora, minha irma de criacao que mora la em Divinopolis. Dia desses te mostro, qdo. de volta a minha casa.
    Bisous et Fraternellement a toi!
    BetoQ.

    • sub rosa disse:

      Beto, muito obrigada.
      Não esqueça de mostrar porque promessa é dívida e Adélia é divina!.
      Veja, por aí, as bonitezas de stationery/agendas;-) hoje vi uma belísima com motivos da nossa Emily Dickinson…
      grosses bises.
      M.

  2. Marcus Pessoa disse:

    Que poema lindo, Meg. E um exemplo perfeito de “fingimento de poeta”, hehehe.

    Porque, ao exigir, de forma tão linda “a sorte comum das mulheres que não terão seu nome impresso”, Adélia sabe que não a terá. As pessoas comuns precisam dos poetas para que sejam lavradas as palavras que expressam seus sentimentos.

    • sub rosa disse:

      Marcus,
      vou começar pelo post scriptum:
      isso é que eu chamo de honra, vc ter lido e deixado um comentário. Obrigada.
      ***
      Eu não poderia concordar mais com o que vc escreveu, não poderia expressar melhor. Principalmente, pelo fato de que é um exemplo claro da leitura do poema que engendra uma nova escritura. O que define o vigor de uma ars poetica não são as leituras anônimas e tácitas mas, essas , as leituras ativas que intervêm e reforçam as suas formas e seus valores.
      Quando vc diz: “… Adélia sabe que não a terá.” é o leitor que se torna escritor, pisca um olho, e, cúmplice, intervém na (auto)tradução do Poeta.

      ****
      Tereza, querida, o Marcus é – sem nenhum exagero, diga-se logo – um dos mais competentes intérpretes dessa cultura de fim de um século, e sua eclosão no início, no limiar, no advento de um novo.
      E escreve, e prova isso, no seu blog, (veja o título que é uma “bandeira”):
      http://vidaoffline.wordpress.com

      bjs aos dois

  3. Tereza disse:

    Gostei muito do post e da entrevista.Achei o comentário do Marcus Pessoa muito bom.
    Vou deixar uma entrevista dela para você e seus leitores (é muito provável que você já conheça). Eis alguns trechos da entrevista:
    “A palavra poética toda vida foi considerada a linguagem por excelência.Se a gente pudesse falar tudo de forma poética, que descanso seria.”
    Adélia conheceu um ferroviário que estava arrumando a casa dele e disse para ela:
    “Eu vou fazer um jardim aqui, mas não é desses qua-
    drados, sem poesia não.Eu vou fazer umas coisas assim que tem volta (Adélia disse que ele era uma pessoa barroca) e ali, na platibanda da casa, eu vou fazer uns fingimentos”. Ele era um poeta, disse Adélia.Eis o link, espero que dê certo:

    • sub rosa disse:

      Tereza, que coisa mais linda isso do “fingimento”. Ou do “fingidor”, não é?
      A poesia dela é cheia disso: as ilhas de expressão, em que a gente se flagra dizendo ahã, ainhhh. e não é que isso?!!!:-).
      E esse comentário dela dizendo que o ferroviário era uma “pessoa” barroca, não poderia ter sido mais feliz. Faz logo uma conexão, uma intertextualidade, um prisma de visões semelhantes.
      Em Portugal, se bem me lembro, eles não cansam ao falar do “Fernandinho” (imagine, essa é a maneira carinhosa e safadinha de tratar o Pessoa) de realçar esse aspecto da acepção de fingidor/?/fingimento, que eles teem em casa.
      É, querida, bem dizia o J. L. Borges que a literatura é como um “livro de areia”.
      Ou como o Mallarmé : “un coup de dés jamais n’abolira le hasard!”

      Que excelente final de semana, hein?
      Obrigada, por esse link “matador”:-)
      beijos.
      (alterado)

  4. Tereza disse:

    Há muito tempo eu vi a Adélia Prado no auditório da faculdade. Quando ela saiu não tive coragem de me aproximar e falar com ela.
    Fiquei parada um pouco à frente do grupo de alunos que estavam com ela.
    Ela me viu, talvez tenha percebido meu olhar de admiração e sorriu para mim, um dos mais belos sorrisos que já ganhei.:)
    Beijos, querida.

  5. sub rosa disse:

    Venho comentar isso, depois, uau!
    :-)

    • sub rosa disse:

      Então, Tereza, desculpe a demora.
      Bem, eu acho esses momentos, como poderia dizer…? únicos. Há uma espécie de magia, de comunhão / comunicação de almas.
      Acho que vc definiu muito bem isso: “percebeu”, mas não há necessidade de palavras… só o sorriso e a sensação de que as palavras são totalmente prescindíveis. Ou insuficientes.

      Já tive alguns, não muitos, momentos como estes. Esses momentos ficam pra sempre, entre paraênteses.
      Sei como a gente se sente.
      bjs

  6. Tereza disse:

    A Rose disse, faz algum tempo, que eu ficasse atenta
    aos seus comentários.Ela tem razão. Aprendemos muito com eles.
    Mais Adélia, sobre a poesia: “Essa fome de beleza é universal”.
    “Nós precisamos da beleza, beleza não é luxo, é necessidade.”
    Beijos .

    • sub rosa disse:

      Oh! Tereza, vc e a Rose são dois doces.
      Já a minha sensação é de que eu ficaria muito, mas muito triste se não pudesse contar com vocês. Sem essa conversa, sem os risos não revelados, as emoções pedindo para ser compatilhadas…
      Muitas vezes, Tereza, é daqui que retiro grande parte da beleza que é realmente mais que necessária para a nossa vida.
      Sinceramente, meninas.
      Um beijo
      =-=-=

      • sub rosa disse:

        O que disse aí acima se refere à emoção.
        O importante, porém, é o quanto eu aprendo, em nossas trocas, em nossas conversas.
        E às vezes, me surpreendo até, com os presentes insuspeitos que ganho, algo que está muito acima de minhas expectativas.
        Por exemplo aquela discussão/conversa neste post:

        https://flabbergasted2.wordpress.com/2010/12/05/o-amor-termina-quando-como/
        é um excelente exemplo.
        Deixando a modéstia de lado: cada um de nós sabe o que fazemos aqui, nessa interação. É algo que não se faz sozinho, certo?
        O que me deixa muito orgulhosa deste espaço.
        Às pessoas que me escrevem, podem ter certeza, eu respondo que devo isso a vocês e a elas também.
        A Magaly é minha testemunha, sempre falo em deixar de fazer o blog e tenho até marcado data de parar:-)
        beijos

  7. Magaly disse:

    Puxa! Adélia! Que luxo! Esta poeta me abala a estrutura. E eu atrasada mais uma vez. Dois aniversários, uma festa só. Filha e genro comemorando nos moldes dos anos 80, com música ao vivo, pista de dança e músicas da época. Extrapolei, até dancei! Sem competência mesmo. Isto, sexta. Sábado e domingo, de molho!

    Amei o post todo. Agora posso dizer que tenho informações sobre Adélia. Comentários fantásticos Volto agora ao começo pra visitar os links e volto depois cá para deixar minhas impressões.
    Desculpe sua velha amiga um tanto ou quanto emperradinha. Não sei se dá para voltar hoje Entra já o dia seguinte . Até mais,

    • sub rosa disse:

      Magalyyyy!!!!!!
      What?
      O quê, *emperradinha*?
      Eu li direito?
      vc é uma boêmia, isto sim!
      :-))))
      Quantas festas, vcs já viram isso?
      beijos, festeira:)
      Que bom que vc gostou.

  8. Tereza disse:

    O.T. Hoje começa In Treatment, tá lembrando? Vamos ver se lembro de assistir. Não espero muito dessa temporada. A Dianne Wiest saiu, trocaram os roteiristas e produtores. Enfim, vamos torcer para que
    continue bom.bjs.

    • sub rosa disse:

      Então, eu não vi, não consegui ver.
      Mas, como você disse que gosta mais das sessões com a supervisora, a psicanalista dele.. vou nme guardar até amanhã.
      bjs

  9. Magaly disse:

    De volta, mas sem coisa nova a dizer. Vocês disseram tudo, trocado em miúdos. O que me faz apenas constatar e aplaudir o que já foi exibido com tantas minúcias e extrema propriedade, em forma de entrevistas, vídeos , estudos, biografia, apresentação bibliográfica, crítica especializada comentários de competentes leitores e a paalvra abalizada da autora do post, nossa guia em litetratura e possia. Resta reforçar de maneira sucinta o que já foi dito por tanta gente gabaritada:
    Adélia Prado, esta mulher da poesia, do divino, da vida comum. O âmbito de sua ação, a casa, o convívio familiar, a cidade do interior mineiro. Neste espaço irrisório, ela transcende conseguindo de certo modo introduzir o novo no estabelecido sistema patriarcal vigente. Com a coragem dos fortes, em seu reduzido ambiente, Adelaide surge como personagem desdobrável, em seu próprio modo de se expressar, rompendo com os arquétipos da comunidade patriarcal, falando simplesmente da vida cotidiana, da mulher , de sua pretensão no cenário comum da vida, sem agredir o sexo oposto , apenas buscando a identidade feminina no cenário onde se acha inserida.
    Adélia elabora poesia e prosa com o espírito voltado para as coisas simples da vida como para os profundos mistérios da fé e o resultado é esta obra significativa, reconhecida nacional e internacionalmente.
    Carlos Drummond de Andrade traça à perfeição o perfil desta poetisa que nos encanta e seduz: “Adélia é lírica, bíblica e existencial, faz poesia como faz bom tempo. Ela é como água que enche as correntezas…”.

    • sub rosa disse:

      Tem razão, Magaly, em valorizar este ângulo, do *simples.
      Como diria alguém, não me lembro bem se um filósofo ou artista:
      “O simples é o último refúgio do complexo”.
      um beijo, querida.

  10. Magaly disse:

    Ah! Não falei da coda. Desta vez, você me pegou, Meggy! Não reconheci de estalo a preciosa Katherine Hepburn cujos filmes eu perseguia, caída pela sua sedutora imagem de artista. Não a achava bela de feições, mas era de elegância invejável e de grande competência como atriz. Na foto, ela é muito jovem ainda.
    Ponto pra você.

    • sub rosa disse:

      Ah! legal isso.
      Sabe o que me deixa encucada, Maga?
      Eu acho, não sei se estou errada:
      A Katherine Hepburn parece reunir em si, o exatemente oposto de quase todas as estrelas de Hollywood:
      Ela carrega o estereótipo da falta de beleza e o primado da inteligência sobre o sex appeal.
      Assim como algumas, entre elas a Marilyn, eram por estereótipo, louras, belas mas “burras”.
      Não acha?
      Mas as duas coisas devem pesar muito.

      Nesta foto, acho que alguém resolveu corrigir isso;-)
      bjs

  11. Adélia Prado é magnífica. Me impressiono em cada detalhe que vejo ou fico sabendo sobre ela. Obrigada por nos agraciar com este vídeo!

    • sub rosa disse:

      Sabrina,
      nós aqui é que agradecemos por seu comentário.
      Concordamos na admiração por Adélia que, felizmente, tem seu valor e destaque realçados.
      Tenha este espaço como seu também.
      Muito obrugada:-)

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