Escrever, uma paixão.

Escritor importante da vanguarda francesa, André Breton escreveu muito sobre a escrita, a escritura, o escrever. Propôs todo tipo de subversão às belas letras, incitando rupturas, não apenas fissuras, e levantando grandes questionamentos em torno da prática literária.  Ideólogo do surrealismo, um dos lançadores do Manifesto do Surrealismo, em março de 1919, fundou a revista Littérature, com Louis Aragon e Philippe Soupault, e  tinha uma verdadeira obsessão pela palavra e seus significados. Justamente uma de suas investigações foi em torno da questão literária e a existencia e  foi deflagrada, em 21 de setembro de 1919, por uma carta do então jovem poeta Tristan Tzara. Na carta a Breton, Tzara, um dos fundadores do dadaísmo,  afirmou: “Se escrevemos, é apenas por refúgio, de todo ‘ponto-de-vista’. Não escrevo por profissão”. Foi o que bastou para os editores da revista lançarem, três meses depois, a célebre enquete: “”Pourquoi écrivez-vous?”, em bom português, “Por que você escreve?” Instados, romancistas e poetas da época, responderam, mas certamente chamaram atenção as respostas mais radicais. O poeta Paul Valéry foi irônico e niilista: jurou que escrevia “por fraqueza”. O escritor norueguês Knut Hamsun foi mais delicado: “Escrevo para abreviar o tempo”. A questão, por sua complexidade e interesse, perpetua-se ao longo das décadas e certamente move autores e intelectuais um século depois — e, provavelmente, por uma eternidade. Transposta a pergunta a seis escritores e poetas brasileiros, pelo Suplemento de Literatura do jornal O GLOBO, eles aceitaram responder à abstrata indagação. Os escritores/poetas  falaram do seu fascínio pelas letras, conforme a profecia de Breton: “O escritor será capaz de responder à queima-roupa a uma pergunta bem simples”. Segue-se o resultado da enquete feita pelo jornal.

Clarice Lispector: “Vou lhe responder com outra pergunta: – Por que você bebe água? Quer dizer, você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.”

Millôr Fernandes: “Escrevo porque escrevo, se me pagassem eu só falava.”

Lygia Fagundes Telles: “Mas vocação é a felicidade de exercer o ofício da paixão. Se eu estou apaixonada, estou exercendo esse ofício com paixão. Tem uma coisa ainda: quando eu era jovem, quando comecei a escrever, achava que falar em vocação trazia nisso uma certa arrogância. – Por que você escreve? – me perguntavam aqueles entrevistadores, jornalistas e tal. Aquela mocinha e tal. É preciso dizer que comecei a escrever na idade da pedra lascada, havia muito preconceito em relação à mulher, ao sexo feminino, ao qual eu pertenço. Portanto, havia uma certa ironia, quando vinham alguns jornalistas com o lápis, com a caneta, perguntar: – Por que a senhora escreve? Eu tinha algum pudor de dizer: eu escrevo porque esta é a minha vocação, porque, na minha pobre cabeça, achava que vocação inclui sucesso; eu achava que era arrogante dizer: eu escrevo porque é a minha vocação. Ficava constrangida, eu dizia: escrevo porque gosto, não falava em vocação. Com o tempo, olha o tempo maravilhoso, comecei a entender que, na vocação, não está incluído o sucesso. Não, não está! Fiquei felicíssima: não está incluído o sucesso, você pode ter vocação, e no entanto, passar a sua vida trabalhando, fazendo uma mesa, fazendo um relógio, uma casa, um edifício, sem conseguir sucesso. Mas a alegria, a paixão dentro de você, fazem com que você dê o melhor de si mesmo, e agora estou falando como jogador de futebol: – Dei o melhor de mim mesmo, suei a camisa. Pois é. Isso acontece quando você está escrevendo, dentro daquele instante em que você escreve, em que você trabalha, em que você se entrega à sua paixão. Olha a paixão. ”

Manoel de Barros: “Minha relação com as palavras é orgástica. Escrevo porque preciso ter relações com elas para viver em paz. Depois que uso uma palavra nova, ela me beija. Quer dizer que gostou de mim. Eu sou de bem com as palavras que uso por que elas me são.”

Marcelo Rubens Paiva: “Sempre perguntam a um escritor: «Por que você escreve?». Por que sempre aos escritores perguntam isso? Perguntem a um dentista porque ele obtura. Ou a um pipoqueiro por que ele vende pipocas e não diamantes? Já sei o que um piloto de avião diria. «Meu sonho, desde criança era voar», ele diria. Um comissário de bordo tinha esse sonho, mas descobriu, tarde, que não passa de um garçom, equilibrista de luxo e turbulências. Perguntei a ginecologistas por que escolheram a especialidade. Suas respostas nunca me satisfizeram, e nem seus sorrisos eram marotos. E, a um advogado civil, sempre pergunto por que não criminal. E, se eu insistir, ameaça me processar. Está bem. Também já me perguntei por que escrevo. Ser dono de um banco traria mais conforto. Herdar um seria mais cômodo. Roubar é arriscado. Dentista eu não seria. Menos ainda ginecologista. Vender pipocas não traz o conforto de quem possui um banco. Pilotar aviões, são muitos os botões. Não advogar nem engenheirar. Endinheirar-se é para os estressados. Médicos, dizem, curam estresse. E existe profissão mais estressante que médico? Existe. Cobrador, me disseram. Em especial onde a tarifa de ônibus é R$ 0,77. Por que fazem isso com cobradores? Catar moedas, ouvir reclamações quando falta troco e, nas curvas fechadas, se segurar com os centavos. A profissão mais idiota do mundo é a do motorista de elevador, o ascensorista. Faz algo que todos sabem fazer, colocar um elevador em movimento. Passa o dia sentado numa caixa fechada. Escuta conversas incompletas e piadas sem finais. E tem seus rins e fígado sempre em movimento. Um ioiô humano. A existência de ascensoristas só não é mais estranha que a da gravata. Ou alguém, em sã consciência entende porque laçamos tiras de pano estampado ao redor do pescoço? Existem hábitos inexplicáveis, como enfiar na boca um tubo com algodão na ponta, colocar fogo na outra ponta, chupar uma fumaça, inalar e soltar. Chamam isso de fumar. Dizem que mata. Faço isso há tantos anos… Coisas estranhas. Por que temos cachorros e gatos e vacas domesticadas que nos fartem de leite? Por que o zero está no final do teclado, e não no começo? Por que mordemos canetas e mascamos chicletes? Talvez por isso eu escreva, para que me respondam: Para quê?”.

Marcio de Souza: “Escrever é minha profissão, é meu trabalho. Escrevo porque minha sobrevivência depende disso. Eu vivo do meu trabalho literário. Não tenho outra fonte de renda. Me tornei escritor profissional em 1976 quando da publicação do meu romance Galvez, Imperador do Acre. Sempre fui um profissional em tudo que fiz. Como filho de operário não vejo outra significação para o meu trabalho do que a necessidade de assegurar minha subsistência. A visão burguesa segundo a qual a literatura não é uma profissão, parece-me tão exótica quanto o frio polar para um amazonense. É por isso que eu luto pela dignidade do trabalho de escritor que, aqui no Brasil, é considerado como fruto de horas de lazer ou como uma moeda sem valor de capital social no tráfico de influências. É por isso também que em cada uma das minhas obras me comprometo cada vêz mais junto aos meus leitores para recriar o Brasil contemporâneo.”

Maria Clara Machado: “Não sei definir meu trabalho, eu crio a partir do zero, é vocação, nascí para fazer isso, as teorias ficam para os críticos. Um poeta não escreve assim por causa daquilo. Somos intuitivos, é uma questão de momento.”

Lêdo Ivo: “É muito difícil escrever. Lembro-me de uma observação de Goethe que diz que nós somos seres coletivos. O escritor é aquele que fala pelos que não falam, que canta pelos que não cantam, que não têm até, num certo sentido, biografia pessoal. É muito difícil eu dizer isso porque desde a infância eu queria ser escritor; então, talvez, eu admitisse que escrevo por uma espécie de afirmação pessoal. Se eu não escrevesse, não me sentiria vivo, não me sentitiria existindo. A única explicação que me ocorre é que eu escrevo para ser, para sentir que existo. É aquela história: escrevo, logo existo. Uma reposta meio cartesiana.”

Antônio Torres: “Para quem, como eu, nasceu na roça e estava destinado ao serviço braçal, no cabo de uma enxada, de uma estrovenga e de um machado, tornar-se escritor parecia uma possibilidade remota, praticamente impossível. No mundo onde me criei, lá num ignoto sertão baiano, não havia letrados. Nem livros havia. Mas um dia minha mãe – e nem sei que artes do destino a levaram a ser uma mulher alfabetizada – pois um dia dona Durvalice me mostrou um ABC. E, enquanto me dizia como se chamavam as letras do abecedário, eu me encantava com o desenho, com a forma de cada uma. Foi um deslumbramento. Depois veio a cartilha, da qual não me desgrudava, até mesmo de noite, à luz de um candeeiro. Quando fui para a escola – uma escola rural – a professora percebeu o meu gosto pelas letras. E me botou para ler em voz alta um livrinho chamado “Seleta escolar”, que na verdade era uma pequena antologia de poemas, crônicas e contos. Castro Alves, Gonçalves Dias etc. E depois, ela pedia que eu escrevesse uma composição, cujo tema dizia respeito ao nosso cotidiano. Daí começaram a me pedir para escrever cartas, tanto para os apaixonados do lugar que não sabiam ler, quanto para as mulheres dos migrantes. Isso, de alguma maneira, me levou a crer que a palavra escrita era uma coisa encantatória e socialmente útil. Logo, escrever foi o meu sonho de criança. E, até hoje, quando escrevo, sinto que é aquele menino quem o faz por mim. Dá-lhe, garoto!”

Lya Luft: “Escrevo por uma lúdica paixão. Porque nasci para fazer isso. Porque me alegra, me diverte, me instiga – e me exaure. Porque tenho necessidade e prazer em elaborar com palavras esse traçado de tantas vidas, tantas criaturas, tantos destinos e aventuras que povoam minha imaginação, e que acabarão – ou não – vivendo nos meus textos. Quando escrevo, inicia-se essa escavação, essa arqueologia, começa a desenrolar-se o fio que nasce em mim. Aracne, minha fantasia, produz sempre mais novelos para que eu os teça. Escrevo para seduzir leitores que sejam meus cúmplices na inquietação fundamental, na busca de entender o mundo – e jamais o entenderemos. E também escrevo porque desejo uma releitura dos valores familiares e sociais de meu tempo: cada um de meus romances pode e deve ser lido como uma denúncia da hipocrisia, da superficialidade, da indiferença, da negligência e da mentira nas relações humanas, amorosas, familiares e sociais. Os artistas são recipientes de carvões em brasa e têm visões que tentam esconjurar com traços, gestos, música ou palavras. E nesse trânsito entre realidade e sonho, cujas fronteiras para eles pouco importam, vão e vêm entre territórios que igualmente os convocam. Escrevo porque sou parte disso.”

Ferreira Gullar: “A resposta é a mais simples e óbvia: escrevo para me expressar. Naturalmente, esse “expressar-me” muda conforme as circunstâncias: por exemplo, às vezes escrevo para conseguir pensar claro, já que não consigo fazê-lo sem escrever; às vezes escrevo para contestar idéias contrárias às minhas (e nem publico, só anoto); às vezes escrevo para manifestar meu entusiasmo com uma obra alheia. Quando sou tomado por um “espanto”, que parece revelar-me um lado ainda não percebido do real, tento escrever poesia.”

Moacyr Scliar: “Escrevo movido por um impulso cuja natureza desconheço (e que não quero conhecer), o mesmo impulso que leva algumas pessoas a desenhar, outras a fazer música, outras a trabalhar a terra. Escrevo pelo prazer de contar histórias – o mesmo prazer que tinham meus pais, emigrantes pobres e soberbos narradores. Escrevo porque sempre admirei a obra de escritores, mas escrevo também pelo prazer lúdico de combinar palavras – o mesmo prazer que sentia em criança quando, na marcenaria de meu tio, fabricava com pedaços de madeira aviões e navios. Escrevo para partilhar com outros idéias e emoções, as duas coisas estando sempre juntas. Escrevo por causa da angústia, a angústia de não encontrar respostas para as grandes questões da vida. Escrevo para não me fazer perguntas. Como esta: por que escrevo?”

Alexei Bueno: “A humanidade tem o dom de gerar todas as vocações de que precisa, mesmo as mais improváveis, e no número certo. Daí sempre existirem astrônomos, entomólogos, legistas ou poetas, atividades estranhas, na última das quais me incluo. Quanto ao motivo de escrever, como o de criar qualquer arte, há um único: o Amor que move o sol e os outros astros. É preciso sair de si, livrar-se do egoísmo, praga suprema da espécie e forma geral de estupidez. É preciso fazer falar os mortos. É preciso ter mais vidas que a paupérrima vida nossa. É preciso celebrar a fabulosa grandeza do homem e a nossa terrível miséria. Como brasileiro, e para só falar de literatura, muito pouco eu seria sem o finado Brás Cubas, sem o mestre Aristarco, sem a Tróia de taipa dos jagunços, sem o capitão Riobaldo ou alguns milhares de versos que guardo na memória. É esse amor pletórico pelo que não fomos, pelas nuvens, pelas pedras, que nos expulsa do nosso pobre e efêmero eu. Mas para não ser do egoísmo, paradoxalmente, na mais reles civilização hedonista, é preciso ser ferozmente individual. Só o indivíduo de identidade pétrea pode se dar ao luxo de mandar o egoísmo ao inferno nesta sociedade de massas. Tudo isso ordena o Amor que move o universo. O resto é jogo de palavras. Mediocridade.”

Ivan Junqueira: “Escrevo por uma espécie de fatalidade, por um compromisso inarredável com a beleza e porque, tendo que me expressar, vi-me na contingência de escolher o meio mais eficaz em que poderia fazê-lo, e essa escolha recaiu sobre a palavra escrita ou, mais especificamente, sobre a palavra poética, graças ao seu poder de síntese, de encantamento, de musicalidade e de concreção sígnica. Durante algum tempo, entretanto, cheguei a supor que poderia escapar ao jugo e ao fascínio da poesia através de uma expressão mais plástica e visual, ou seja, do desenho e da pintura, mas cedo descobri que jamais conseguiria dizer o que queria por meio das formas, dos volumes e das cores. Acrescento ainda que, pelo menos no meu caso, a poesia não constitui apenas um veículo de expressão, mas também uma forma de gnose, de teoria do conhecimento que não me foi possível adquirir quando, entre os 20 e 25 anos, estudei medicina e, depois, filosofia, disciplinas que em boa hora abandonei para consagrar-me inteiramente à indisciplina e ao tormento da poesia”.

****

Publicado no blog Sub Rosa, em 25 de julho de 2002. A propósito do dia 25 de julho, considerado o Dia do Escritor.

E porque eu a-do-ro meus leitores e muito em especial o valoroso grupo dos que comentam aqui:-) vou fazer um adendo, eles compreenderão: Breton defendia uma arte do inconsciente, sem grandes depurações ou decantações e promoveu diversas enquetes nesse estilo acima, segundo ele “para ampliar percepções”. Daí que na edição de 15 de dezembro de 1929 da revista La révolution surréaliste (criada em 1925) ele fez uma enquete famosa: “Que tipo de esperança você projeta no amor?”:-).
Aqui, no blog, o grupo também fez uma, ligeiramente diferente, mas com o mesmo tema.:-)

Benedito Nunes (1929-2011) RIP (Updated)

Hoje, em Belém, morreu o professor, pensador, escritor, crítico de arte e ensaísta, Benedito José Viana da Costa Nunes. Palavras? Palavras não há.

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Benedito Nunes, um sábio, o mestre. clique para ampliar

Leia aqui, o texto-homenagem:

Benedito Nunes, o iluminista dos trópicos.

Na excelente Revista Brasileiros.

E aqui, uma bela matéria da revista CULT – clique.
***
Folha de S. Paulo.

Jornal do Brasil

O Estado de São Paulo

Entrevista para o jornal O Liberal. Não deixem de ler os comentários.

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Update:


Benedito Nunes,  insuperável  crítico de arte, fala a respeito de pintura e fotografia com Jorge Coli (em video do Itaú Cultural)

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Rose, muito obrigada, esse vídeo é precioso. Eu não conhecia, claro… se não fosse você...

LILITCHKA – Updated

lilia brik (direitos de img reservados)

LÍLITCHKA!

Em lugar de uma carta

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchônikh. (1)
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração — aço.-
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua .
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor, meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

-==-=-=-

Wladimir Maiakóvski.Em lugar de uma carta“.
26 de maio de 1916 (Petrogrado)
(Tradução: Augusto de Campos)

(1) Alusão ao poema “Um jogo no inferno
de A. Krutchônikh e V. Khliébnikov.

Sobre Lilia Brik ler aqui. Ou ainda nestedossiê Maiakovski

‘Três mulheres em sua vida: Lilia Brik, Veronika (Nora) Polônskaia e Tatiana Iácovlieva. Quis casar com Tatiana, uma russa branca, mas não o fez. Também quis casar com Nora, mas ela não aceitou. Viveu com Lilia e com o marido dela, caso que estarreceu a sociedade e que foi batizado, ocidentalmente, de ménage à trois e, pela própria Lilia, de “uma ideologia amorosa”, fundamentada no livro de Tchernichévski – Que fazer? – que pregava a não-possessividade entre marido e mulher.

O caso teria acontecido mais ou menos assim, como narrado no livro I LOVE , the story of Vladimir Maikaovski and Lilia Brik, de autoria dos norte-americanos Ann e Samuel Carters, que passaram sete anos na Rússia bisbilhotando tudo a respeito desse outro lado da vida do poeta: Lilia era casada com Ossip Brik, crítico literário, e ambos vieram a conhecer Maiakovski quando este procurava um quarto para alugar. Passando a morar com o casal, os três tornaram-se muito amigos. Lilia e Maiakovski apaixonaram-se um pelo outro. Contaram a Ossip, que não viu motivos para deixar a casa. E continuaram a viver os três sob o mesmo teto.

Lilia foi “a mulher” na vida de Maiakovski, aquela para quem ele ofereceu poemas, aquela que recebeu o que viria a ser conhecido como “poema concreto”: um anel, gravado com as iniciais de seu nome – L – I – UB – que, ordenadas de forma circular, formavam a palavra LIUBLIU (AMO).

Em julho de 1972, Lilia Brik concedeu entrevista ao brasileiro Boris Schnaiderman, em sua residência perto de Moscou. Lilia garante que não tinha mais nada com Ossip Brik quando começou relacionar-se com Maiakovski. Quando desta visita de Boris, Lilia já estava casada há quarenta anos com V.A. Katanian, também amigo de Maiakovski, e ambos sempre se dedicaram a estudar e divulgar a obra do poeta. Em 1978, aos 86 anos, Lilia suicidou-se.’

Em que circunstâncias, uma pessoa como Lilia Brik se suicidaria , em idade tão avançada?

Este é um assunto fascinante e foi tratado em tese de doutorado pelo jornalista e professor de Filosofia Arthur Dapieve e -pessoalmente- o tenho considerado objeto de reflexão. O mesmo ocorreu com (1)Primo Levi, escritor italiano, químico, sobrevivente do campo de concentração Awschwitz-Bierkenau, autor dos livros  É isso um Homem e Tabela Periódica. Nasceu em 1919 e suicidou-se 1987, emTurim . (2) Gilles Deleuze (1925-1995) suicidou-se após grande sofrimento com um cancer de pulmão. 3-Há cerca de dois meses, em 29 de novembro de 2010, o grande cineasta Mario Monicelli , suicidou-se, depois de ter feito uma brilhante carreira e ser reponsável pela criação de algumas obras primas, aos 95 anos.

Nada de morbidez, asseguro,  apenas, estranhamento. O assunto, o importante, a essência, continua sendo o poético, o humanamente  poético.

***

=-=-=-=

Update:

Maria Schneider – R.I.P

O SEBO – Carlos Drummond de Andrade (updated)

***

O filme. O texto. A música.

onde mais se pode encontrar

the clock -o ponteiro da saudade judy garland v. minelli – onde mais se poderia encontrar um filme assim?

O amigo informa que a cidade tem mais um sebo. Exulto com a boa-nova e corro ao endereço indicado. Ressalvada a resistência heróica de um Carlos Ribeiro, de um Roberto Cunha e pouco mais, os sebos cariocas foram se acabando, cedendo lugar a lojas sofisticadas, onde o livro é exposto como artigo de moda, e há volumes mais chamativos do que as mais doidas gravatas, antes objeto de decoração, do que de leitura.
Para onde foram os livros usados, os que tinham na capa este visgo publicitário, as brochuras encardidas, as encadernações de pobre, os folhetos, as revistas do tempo de Rodrigues Alves? Tudo isso também é “gente”, na cidade das letras, e como “gente”, ninho de surpresas: no mar de obras condenadas ao esquecimento, pesca-se às vezes o livrinho raro, não digo raro de todo, pois o faro do mercador arguto o escondeu atrás do balcão, e destina-o a Plínio Doyle, ao Mindlin paulista ou à Library of Congress, que não dorme no ponto… mas pelo menos, o relativamente raro, sobretudo aquele volumeco imprevisto, que não andávamos catando, e que nos pede para tirá-lo dali, pois está ligado a circunstâncias de nossa vida : operação de resgate, a que procedemos com alguma ternura. Vem para a minha estante, Marcelo Gama, amigo velho, ou antes, volta para ela, de onde não devias ter saído; sumiste porque naqueles tempos me faltou dinheiro para levar a namorada ao cinema, e tive de sacrificar-te, ou foi um pilantra que me pediu emprestado e não te devolveu? Perdão, Marcelo, mas por 5 cruzeiros terei de novo a tua companhia.
Matutando no desaparecimento de tantos sebos ilustres, inclusive o do Brasielas chego a este novo. É agradavelmente desarrumado, mas não muito, como convém ao gênero de comércio, para deixar o freguês à vontade. Os fregueses, mesmo não se dando a conhecer uns aos outros, são todos conhecidos como frequentadores crônicos de sebo. Caras peculiares. Em geral usam roupas escuras, de certo uso ( como os livros ), falam baixo, andam devagar. Uns têm a ponta dos dedos ressecada e gretada pela alergia à poeira, mas que remédio, se a poeira é o preço de uma alegria bibliográfica?
Formam uma confraria silenciosa, que procura sempre e infatigavelmente uma pérola ou um diamante setecentista, elzeveriano, sabendo que não o encontrará nunca entre aqueles restos de literatura, mas qualquer encontro a satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é ótimo. Não há a primeira edição dos Lusíadas mas há do Eu, e cumpre negociá-la com discrição, para que o vizinho não desconfie do achado e nos suplante com o seu poder econômico. À falta da primeira, a segunda, ou outro livro qualquer, cujo preço já é uma sugestão: “Me leva”. Lá em casa não cabe mais nem aviso de conta de luz, tanto mais que as listas telefônicas estão ocupando lugar dos dicionários, mas o frequentador de sebo leva assim mesmo o volume, que não irá folhear. A mulher espera-o zangada: “Trouxe mais uma porcaria pra casa!”. Porcaria? Tem um verso que nos comoveu, quando a gente se comovia fácil, tem uma vinheta, um traço particular, um agrado só para nós, e basta.
A inenarrável prosmicuidade dos sebos! Dante em contubérnio com o relatório do Ministro da Fazenda, os eleatas junto do almanaque de palavras cruzadas, Tolstói e Cornélio Pires, Mandrake e Sóror Juana Inés de la Cruz… Nenhum deles reclama. A paz é absoluta. O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.

Carlos Drummond de Andrade

Agora, a música tem de ser um standard:

Outstanding Blossom Dearie singin’ The Best is yet to come

Este texto, o poster do filme e a música –   um presente de aniversário (soy tan pobre que otra cosa puedo dar...:-) para uma amiga muito especial.

Eu adoro esse filme: Minelli e Judy Garland?: não tem erro.

judy garland robert walker the clock 1945 dir vincent minell

judy garland e robert walker

Acerca da vida, da amizade e … da crítica.

sandra bréa em foto de antonio guerreiro, seu ex-marido. em 1970

sandra bréa.foto de antonio guerreiro.seu ex-marido. em 1970

“Brevity is the soul of wit”. Shakespeare. Hamlet.Act 2, Scene 2

“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sae perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

“Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas ás vezes (não repare na acentuação, quem acentua pra mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.[…]

“Vc foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando […]. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que meu presente [..] foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

“Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então eu vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei … [..]. Sua, Clarice”

Em 11 de dezembro de 1970, Clarice Lispector escreveu essa carta para Olga Borelli, escritora, professora, sua amiga, secretária e acompanhante.

Sei que é uma coisa muito feia, querer fazer *bonito* com o talento dos outros, mas eu, tal como aquele rapaz grego, o Sócrates, não tenho em mim nenhum talento, sabedoria, nenhuma capacidade criadora. E nisso reside a pequeníssima diferença que me faz ser … assim, digamos, diferente. (o grifo da ironia).Talvez acredite mesmo que sou especial. (modesta, então nem se fala). Aliás, a modéstia é o segredo do meu sucesso e não me pergunte: que sucesso?
Essas considerações, portanto, são inspiradas nas inseguranças – fragilidades – incoerências -inadequações de Clarice, já se vê.
A única coisa que eu sei, é que a vida é muito pouco pra tudo o que eu desejo e preciso aprender. E sei que amo a Vida. Sem apego, mas com zelo.
O resultado disso é que é espantoso: ao viver, desenvolvi uma habilidade singular, meu olho (quase) só vê a beleza, a delicadeza de um mundo de pessoas gentis. Elegantes (lat. elègans ‘que sabe escolher; bem escolhido). Consigo ver à distância o que é bom, o que é bonito, o que tem valor. Mesmo que esse valor esteja muuuito escondido. Preciso muito de ser assim, e agradeço por ser assim, pois como não morrer de tristeza, quando há tanta coisa feia nesse mundo, ao redor, ao perto e ao longe. Ao saber que na Amazônia, meu país, mon royaume, assassinaram o velejador neozelandês Sir Peter Blake. A Irmã Dorothy? E aí onde você está, ontem foi a guerra! O horror! O horror. E  um ror de coisas mais.
Um poeta espanhol que eu amo muito, Juan Jose Jiménez (1811-1958), poeta de los poetas cunhou a frase que me tem servido de lema de vida, e como não terei epitáfio, queria ser lembrada por ela. “ Não sou eu que escolhe o melhor; o melhor é que me escolhe.”
Vivo sempre como se me restassem horas de vida, e precisasse ver toda a beleza. Pessoas desabrochando. Florescendo. Expressando o seu *melhor*.
Paulo Francis, uma de minhas paixões irrecorríveis, (OK, há que se ter coragem pra dizer isso nos tempos atuais, diga lá?… ‘pero soy uma chica con clase’) Francis costumava dizer, nos últimos tempos, todos sabem, que se sentia tecnicamente morto. Eu , se passar um dia sem que tenha descoberto algo de bom, papa fina, como se dizia antes, algo de que eu possa falar bem, sou vice-morta.
Não, não se trata de “só falar bem” do que  é escrito ou criado, (*) a diferença é sutil, o que eu quero é escrever acerca do que realmente é bom e tentar mostrar porque o que é bom é bom.
Um dia alguém descobrirá isso , ou ninguém descobrirá e minha vida terá sido em vão. Se descobrirem captarão a ânsia que pauta até o próprio ato de (eu) respirar…
‘Viver nunca foi pra mim uma calma tessitura de dias que se juntam hesitantemente a outros dias, plácido trabalho, lentíssima costura…’ sou ansiosa, não paro pra ser gentil, tenho um gênio danado de danado,  tenho urgências e corro o mais rápido que posso, para chegar aonde? Ao que você, meu outro, faça ou crie e que seja algo original (se é que existe o… original), que você escreva ou crie o melhor.
O que fazer com a ânsia, se viver começa pela paciência da espera? A escrita começa pela paciência da espera. A música começa pela vitória sobre a pausa. (depois da paciência da espera). Quem é músico sabe, quem é escritor sabe.
Eu apenas ardo e espero.
* * *
(*) Para os que acham que só é bom crítico aquele que fala mal (crítico bom é ‘crítico cruel’, o que desce o “pau” hmmm… Masoch perde) eu ainda vou escrever algo  sobre a origem da crítica que remonta aos três trágicos, você sabe, aqueles Ésquilo, Eurípedes, Sófocles. Acredite, se quiser, crítica não é assim. Não era (para ser) assim. Era critério para saber a diferença entre o bom e o fazer bem.
Sorry.

* * *
Rose Marinho Prado, esta ‘crônica'(?) é para você. Obrigada pelo texto, Clarice está em Clarice. Por que a Sandra Bréa? Ora, e não é Clarice?!, você depois verá. Imprevisto, hora da estrela, brevidade… você sabe.

O julgamento de Monteiro Lobato: vai para o Index?

Pessoas, vão por mim: se há alguém que entenda de flagelação, julgamento, veredicto e aplicação de sentença pela Internet esse alguém sou eu, e nunca escondi: quem sabe, sabe, quem não sabe, faça-me a delicadeza de não  perguntar.
Em geral, o carnaval dura muito, mas a essência é a do processo sumário: libelo e a contrariedade.  Claro que vai haver muita gente que se sente pessoalmente ofendida (o povo que adora ser protagonista mesmo que não lhe caiba sequer  o papel de figurante quanto mais o de coadjuvante) então, vou falar pouco e proceder, por questão de coerência,   atendendo a um mínimo da deontologia que é necessária, o registro aqui no Sub Rosa, do pouco que eu tenho lido, e que me sinto à vontade e não-impedida de referir. Não importando que eu esteja em acordo ou desacordo com seus conteúdos.
Claro que eu me lembro de Ezra Pound e, bem de tantos outros,  ah! sim, de Borges, sim de Jorge Luis Borges, outros que  já estiveram no Index (*).  Mas eles pertencem a um tempo em que não havia Internet e está claro que temos de nos adaptar novos  tempora e mores, não é mesmo?
Aos autos:-) Leia mais deste post

João Guimaraes Rosa, sua Hora e sua vez

JGR Museu cordisburgo
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Tude se finge, primeiro; germina autêntico é depois.”
De um dos prefácios de Tutaméia.

 

Uns tesouros que quero dividir com vocês: são fragmentos de uma homenagem feita a Guimaraes Rosa, por um amigo seu, médico, escritor, intelectual brilhante e Professor Emérito da Faculdade de Medicina da UFMG,  Luiz Otávio Savassi Rocha.
Publiquei este excerto no Sub Rosinha… bem, leiam até o fim,  lá nos encontramos:-) Naqueles dias de 2001, não havia o Google – e dá pra se imaginar o mundo sem o Google? – hoje, não digo que seja mais fácil, longe de mim,  é apenas mais simplestudo está aqui. Leia mais deste post