Escrever, uma paixão.

Escritor importante da vanguarda francesa, André Breton escreveu muito sobre a escrita, a escritura, o escrever. Propôs todo tipo de subversão às belas letras, incitando rupturas, não apenas fissuras, e levantando grandes questionamentos em torno da prática literária.  Ideólogo do surrealismo, um dos lançadores do Manifesto do Surrealismo, em março de 1919, fundou a revista Littérature, com Louis Aragon e Philippe Soupault, e  tinha uma verdadeira obsessão pela palavra e seus significados. Justamente uma de suas investigações foi em torno da questão literária e a existencia e  foi deflagrada, em 21 de setembro de 1919, por uma carta do então jovem poeta Tristan Tzara. Na carta a Breton, Tzara, um dos fundadores do dadaísmo,  afirmou: “Se escrevemos, é apenas por refúgio, de todo ‘ponto-de-vista’. Não escrevo por profissão”. Foi o que bastou para os editores da revista lançarem, três meses depois, a célebre enquete: “”Pourquoi écrivez-vous?”, em bom português, “Por que você escreve?” Instados, romancistas e poetas da época, responderam, mas certamente chamaram atenção as respostas mais radicais. O poeta Paul Valéry foi irônico e niilista: jurou que escrevia “por fraqueza”. O escritor norueguês Knut Hamsun foi mais delicado: “Escrevo para abreviar o tempo”. A questão, por sua complexidade e interesse, perpetua-se ao longo das décadas e certamente move autores e intelectuais um século depois — e, provavelmente, por uma eternidade. Transposta a pergunta a seis escritores e poetas brasileiros, pelo Suplemento de Literatura do jornal O GLOBO, eles aceitaram responder à abstrata indagação. Os escritores/poetas  falaram do seu fascínio pelas letras, conforme a profecia de Breton: “O escritor será capaz de responder à queima-roupa a uma pergunta bem simples”. Segue-se o resultado da enquete feita pelo jornal.

Clarice Lispector: “Vou lhe responder com outra pergunta: – Por que você bebe água? Quer dizer, você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.”

Millôr Fernandes: “Escrevo porque escrevo, se me pagassem eu só falava.”

Lygia Fagundes Telles: “Mas vocação é a felicidade de exercer o ofício da paixão. Se eu estou apaixonada, estou exercendo esse ofício com paixão. Tem uma coisa ainda: quando eu era jovem, quando comecei a escrever, achava que falar em vocação trazia nisso uma certa arrogância. – Por que você escreve? – me perguntavam aqueles entrevistadores, jornalistas e tal. Aquela mocinha e tal. É preciso dizer que comecei a escrever na idade da pedra lascada, havia muito preconceito em relação à mulher, ao sexo feminino, ao qual eu pertenço. Portanto, havia uma certa ironia, quando vinham alguns jornalistas com o lápis, com a caneta, perguntar: – Por que a senhora escreve? Eu tinha algum pudor de dizer: eu escrevo porque esta é a minha vocação, porque, na minha pobre cabeça, achava que vocação inclui sucesso; eu achava que era arrogante dizer: eu escrevo porque é a minha vocação. Ficava constrangida, eu dizia: escrevo porque gosto, não falava em vocação. Com o tempo, olha o tempo maravilhoso, comecei a entender que, na vocação, não está incluído o sucesso. Não, não está! Fiquei felicíssima: não está incluído o sucesso, você pode ter vocação, e no entanto, passar a sua vida trabalhando, fazendo uma mesa, fazendo um relógio, uma casa, um edifício, sem conseguir sucesso. Mas a alegria, a paixão dentro de você, fazem com que você dê o melhor de si mesmo, e agora estou falando como jogador de futebol: – Dei o melhor de mim mesmo, suei a camisa. Pois é. Isso acontece quando você está escrevendo, dentro daquele instante em que você escreve, em que você trabalha, em que você se entrega à sua paixão. Olha a paixão. ”

Manoel de Barros: “Minha relação com as palavras é orgástica. Escrevo porque preciso ter relações com elas para viver em paz. Depois que uso uma palavra nova, ela me beija. Quer dizer que gostou de mim. Eu sou de bem com as palavras que uso por que elas me são.”

Marcelo Rubens Paiva: “Sempre perguntam a um escritor: «Por que você escreve?». Por que sempre aos escritores perguntam isso? Perguntem a um dentista porque ele obtura. Ou a um pipoqueiro por que ele vende pipocas e não diamantes? Já sei o que um piloto de avião diria. «Meu sonho, desde criança era voar», ele diria. Um comissário de bordo tinha esse sonho, mas descobriu, tarde, que não passa de um garçom, equilibrista de luxo e turbulências. Perguntei a ginecologistas por que escolheram a especialidade. Suas respostas nunca me satisfizeram, e nem seus sorrisos eram marotos. E, a um advogado civil, sempre pergunto por que não criminal. E, se eu insistir, ameaça me processar. Está bem. Também já me perguntei por que escrevo. Ser dono de um banco traria mais conforto. Herdar um seria mais cômodo. Roubar é arriscado. Dentista eu não seria. Menos ainda ginecologista. Vender pipocas não traz o conforto de quem possui um banco. Pilotar aviões, são muitos os botões. Não advogar nem engenheirar. Endinheirar-se é para os estressados. Médicos, dizem, curam estresse. E existe profissão mais estressante que médico? Existe. Cobrador, me disseram. Em especial onde a tarifa de ônibus é R$ 0,77. Por que fazem isso com cobradores? Catar moedas, ouvir reclamações quando falta troco e, nas curvas fechadas, se segurar com os centavos. A profissão mais idiota do mundo é a do motorista de elevador, o ascensorista. Faz algo que todos sabem fazer, colocar um elevador em movimento. Passa o dia sentado numa caixa fechada. Escuta conversas incompletas e piadas sem finais. E tem seus rins e fígado sempre em movimento. Um ioiô humano. A existência de ascensoristas só não é mais estranha que a da gravata. Ou alguém, em sã consciência entende porque laçamos tiras de pano estampado ao redor do pescoço? Existem hábitos inexplicáveis, como enfiar na boca um tubo com algodão na ponta, colocar fogo na outra ponta, chupar uma fumaça, inalar e soltar. Chamam isso de fumar. Dizem que mata. Faço isso há tantos anos… Coisas estranhas. Por que temos cachorros e gatos e vacas domesticadas que nos fartem de leite? Por que o zero está no final do teclado, e não no começo? Por que mordemos canetas e mascamos chicletes? Talvez por isso eu escreva, para que me respondam: Para quê?”.

Marcio de Souza: “Escrever é minha profissão, é meu trabalho. Escrevo porque minha sobrevivência depende disso. Eu vivo do meu trabalho literário. Não tenho outra fonte de renda. Me tornei escritor profissional em 1976 quando da publicação do meu romance Galvez, Imperador do Acre. Sempre fui um profissional em tudo que fiz. Como filho de operário não vejo outra significação para o meu trabalho do que a necessidade de assegurar minha subsistência. A visão burguesa segundo a qual a literatura não é uma profissão, parece-me tão exótica quanto o frio polar para um amazonense. É por isso que eu luto pela dignidade do trabalho de escritor que, aqui no Brasil, é considerado como fruto de horas de lazer ou como uma moeda sem valor de capital social no tráfico de influências. É por isso também que em cada uma das minhas obras me comprometo cada vêz mais junto aos meus leitores para recriar o Brasil contemporâneo.”

Maria Clara Machado: “Não sei definir meu trabalho, eu crio a partir do zero, é vocação, nascí para fazer isso, as teorias ficam para os críticos. Um poeta não escreve assim por causa daquilo. Somos intuitivos, é uma questão de momento.”

Lêdo Ivo: “É muito difícil escrever. Lembro-me de uma observação de Goethe que diz que nós somos seres coletivos. O escritor é aquele que fala pelos que não falam, que canta pelos que não cantam, que não têm até, num certo sentido, biografia pessoal. É muito difícil eu dizer isso porque desde a infância eu queria ser escritor; então, talvez, eu admitisse que escrevo por uma espécie de afirmação pessoal. Se eu não escrevesse, não me sentiria vivo, não me sentitiria existindo. A única explicação que me ocorre é que eu escrevo para ser, para sentir que existo. É aquela história: escrevo, logo existo. Uma reposta meio cartesiana.”

Antônio Torres: “Para quem, como eu, nasceu na roça e estava destinado ao serviço braçal, no cabo de uma enxada, de uma estrovenga e de um machado, tornar-se escritor parecia uma possibilidade remota, praticamente impossível. No mundo onde me criei, lá num ignoto sertão baiano, não havia letrados. Nem livros havia. Mas um dia minha mãe – e nem sei que artes do destino a levaram a ser uma mulher alfabetizada – pois um dia dona Durvalice me mostrou um ABC. E, enquanto me dizia como se chamavam as letras do abecedário, eu me encantava com o desenho, com a forma de cada uma. Foi um deslumbramento. Depois veio a cartilha, da qual não me desgrudava, até mesmo de noite, à luz de um candeeiro. Quando fui para a escola – uma escola rural – a professora percebeu o meu gosto pelas letras. E me botou para ler em voz alta um livrinho chamado “Seleta escolar”, que na verdade era uma pequena antologia de poemas, crônicas e contos. Castro Alves, Gonçalves Dias etc. E depois, ela pedia que eu escrevesse uma composição, cujo tema dizia respeito ao nosso cotidiano. Daí começaram a me pedir para escrever cartas, tanto para os apaixonados do lugar que não sabiam ler, quanto para as mulheres dos migrantes. Isso, de alguma maneira, me levou a crer que a palavra escrita era uma coisa encantatória e socialmente útil. Logo, escrever foi o meu sonho de criança. E, até hoje, quando escrevo, sinto que é aquele menino quem o faz por mim. Dá-lhe, garoto!”

Lya Luft: “Escrevo por uma lúdica paixão. Porque nasci para fazer isso. Porque me alegra, me diverte, me instiga – e me exaure. Porque tenho necessidade e prazer em elaborar com palavras esse traçado de tantas vidas, tantas criaturas, tantos destinos e aventuras que povoam minha imaginação, e que acabarão – ou não – vivendo nos meus textos. Quando escrevo, inicia-se essa escavação, essa arqueologia, começa a desenrolar-se o fio que nasce em mim. Aracne, minha fantasia, produz sempre mais novelos para que eu os teça. Escrevo para seduzir leitores que sejam meus cúmplices na inquietação fundamental, na busca de entender o mundo – e jamais o entenderemos. E também escrevo porque desejo uma releitura dos valores familiares e sociais de meu tempo: cada um de meus romances pode e deve ser lido como uma denúncia da hipocrisia, da superficialidade, da indiferença, da negligência e da mentira nas relações humanas, amorosas, familiares e sociais. Os artistas são recipientes de carvões em brasa e têm visões que tentam esconjurar com traços, gestos, música ou palavras. E nesse trânsito entre realidade e sonho, cujas fronteiras para eles pouco importam, vão e vêm entre territórios que igualmente os convocam. Escrevo porque sou parte disso.”

Ferreira Gullar: “A resposta é a mais simples e óbvia: escrevo para me expressar. Naturalmente, esse “expressar-me” muda conforme as circunstâncias: por exemplo, às vezes escrevo para conseguir pensar claro, já que não consigo fazê-lo sem escrever; às vezes escrevo para contestar idéias contrárias às minhas (e nem publico, só anoto); às vezes escrevo para manifestar meu entusiasmo com uma obra alheia. Quando sou tomado por um “espanto”, que parece revelar-me um lado ainda não percebido do real, tento escrever poesia.”

Moacyr Scliar: “Escrevo movido por um impulso cuja natureza desconheço (e que não quero conhecer), o mesmo impulso que leva algumas pessoas a desenhar, outras a fazer música, outras a trabalhar a terra. Escrevo pelo prazer de contar histórias – o mesmo prazer que tinham meus pais, emigrantes pobres e soberbos narradores. Escrevo porque sempre admirei a obra de escritores, mas escrevo também pelo prazer lúdico de combinar palavras – o mesmo prazer que sentia em criança quando, na marcenaria de meu tio, fabricava com pedaços de madeira aviões e navios. Escrevo para partilhar com outros idéias e emoções, as duas coisas estando sempre juntas. Escrevo por causa da angústia, a angústia de não encontrar respostas para as grandes questões da vida. Escrevo para não me fazer perguntas. Como esta: por que escrevo?”

Alexei Bueno: “A humanidade tem o dom de gerar todas as vocações de que precisa, mesmo as mais improváveis, e no número certo. Daí sempre existirem astrônomos, entomólogos, legistas ou poetas, atividades estranhas, na última das quais me incluo. Quanto ao motivo de escrever, como o de criar qualquer arte, há um único: o Amor que move o sol e os outros astros. É preciso sair de si, livrar-se do egoísmo, praga suprema da espécie e forma geral de estupidez. É preciso fazer falar os mortos. É preciso ter mais vidas que a paupérrima vida nossa. É preciso celebrar a fabulosa grandeza do homem e a nossa terrível miséria. Como brasileiro, e para só falar de literatura, muito pouco eu seria sem o finado Brás Cubas, sem o mestre Aristarco, sem a Tróia de taipa dos jagunços, sem o capitão Riobaldo ou alguns milhares de versos que guardo na memória. É esse amor pletórico pelo que não fomos, pelas nuvens, pelas pedras, que nos expulsa do nosso pobre e efêmero eu. Mas para não ser do egoísmo, paradoxalmente, na mais reles civilização hedonista, é preciso ser ferozmente individual. Só o indivíduo de identidade pétrea pode se dar ao luxo de mandar o egoísmo ao inferno nesta sociedade de massas. Tudo isso ordena o Amor que move o universo. O resto é jogo de palavras. Mediocridade.”

Ivan Junqueira: “Escrevo por uma espécie de fatalidade, por um compromisso inarredável com a beleza e porque, tendo que me expressar, vi-me na contingência de escolher o meio mais eficaz em que poderia fazê-lo, e essa escolha recaiu sobre a palavra escrita ou, mais especificamente, sobre a palavra poética, graças ao seu poder de síntese, de encantamento, de musicalidade e de concreção sígnica. Durante algum tempo, entretanto, cheguei a supor que poderia escapar ao jugo e ao fascínio da poesia através de uma expressão mais plástica e visual, ou seja, do desenho e da pintura, mas cedo descobri que jamais conseguiria dizer o que queria por meio das formas, dos volumes e das cores. Acrescento ainda que, pelo menos no meu caso, a poesia não constitui apenas um veículo de expressão, mas também uma forma de gnose, de teoria do conhecimento que não me foi possível adquirir quando, entre os 20 e 25 anos, estudei medicina e, depois, filosofia, disciplinas que em boa hora abandonei para consagrar-me inteiramente à indisciplina e ao tormento da poesia”.

****

Publicado no blog Sub Rosa, em 25 de julho de 2002. A propósito do dia 25 de julho, considerado o Dia do Escritor.

E porque eu a-do-ro meus leitores e muito em especial o valoroso grupo dos que comentam aqui:-) vou fazer um adendo, eles compreenderão: Breton defendia uma arte do inconsciente, sem grandes depurações ou decantações e promoveu diversas enquetes nesse estilo acima, segundo ele “para ampliar percepções”. Daí que na edição de 15 de dezembro de 1929 da revista La révolution surréaliste (criada em 1925) ele fez uma enquete famosa: “Que tipo de esperança você projeta no amor?”:-).
Aqui, no blog, o grupo também fez uma, ligeiramente diferente, mas com o mesmo tema.:-)

Minúsculos assassinatos… máxima escrita

minúsculos assassinatos e alguns copos de leite

Não é que a Fal seja ‘apenas’ uma pessoa que escreve bem, ela é *a* escritora;aquela de vencer tormentosos desafios que lança para si mesma. A que não se desvia da vertigem quando transita da doçura e delicadeza do amor e do afeto até o peso esmagador da *HÝBRIS* (ὕβρις) que tinge as perdas , as ausências, as raivas sentidas e ‘indirigidas’ (inventei essa palavra agorinha, e daí?) e indigeridas.

São as belezas e valores e presenças que compõem a instabilidade do ser, convergências e exílios de sentimentos, frustrações , perdas e ranger de dentes, que nos projetam para os males e dores da s perdas e danos, das ausências que se quer ou não se quer esquecer. Mas que se pretende expor. E se tenta. Agora, expressar isso com maestria e torná-lo obra de arte, já é outro departamento, outro guichê, ali, mais para além do que chegam os médios, os medianos. Isso é para os grandes.”

Este é um excerto do que escrevi à época do  vient-de-paraître. Mais de dois anos depois, a cada vez que leio e releio o livro, quando o escolho para presentear alguém, a impressão é reforçada:
Na microscopia da escrita, desde o antes, Fal se dedica às tarefas de expor, sondar e fiar alma e emoções, grande empreitada que executa com a leveza das mãos que conhecem muito bem a fibra do tecido que recorta. Mãos que sabem ser sutis, penetrantes, delicadas e – não duvide – sem subterfúgios – com humor muitas vezes feroz.

Minha sugestão para presente. No Natal, mas não vejo porque só no Natal. Em todas as ocasiões.
E taí… um presente para você mesmo. Você vai ficar feliz com a lembrança. Vá por mim

E o livro vai ser adaptado para uma peça. Veja aqui.

****   ****   *****

Robert Goren

Image via Wikipedia

P.S: Como se não bastasse, Fal é fã do  Goren (ah! full metal). E eu, para ser gentil, deixei de assediá-lo:  agora, além do Clint eu estou apaixonada mesmo pelo Dr. (Sam Westerton)McCoy, the real McCoy. Fica tudo em família, tudo em casa, né, maninha?

João Guimaraes Rosa, sua Hora e sua vez

JGR Museu cordisburgo
.

Tude se finge, primeiro; germina autêntico é depois.”
De um dos prefácios de Tutaméia.

 

Uns tesouros que quero dividir com vocês: são fragmentos de uma homenagem feita a Guimaraes Rosa, por um amigo seu, médico, escritor, intelectual brilhante e Professor Emérito da Faculdade de Medicina da UFMG,  Luiz Otávio Savassi Rocha.
Publiquei este excerto no Sub Rosinha… bem, leiam até o fim,  lá nos encontramos:-) Naqueles dias de 2001, não havia o Google – e dá pra se imaginar o mundo sem o Google? – hoje, não digo que seja mais fácil, longe de mim,  é apenas mais simplestudo está aqui. Leia mais deste post

Passageira em Trânsito – Marina Colasanti

Marina Colasanti, escritora, contista, ensaísta e poeta  receberá, no dia 4 de novembro, pela 4ª vez, o prestigioso Premio Jabuti, categoria Poesia, com o livro “Passageira em trânsito”. O Sub Rosa, privilegiado que é, publica aqui uma recensão de autoria da também poeta  Magaly Campelo  Magalhães, em estilo preciso e sensível, acerca do livro de Marina.

Falando de Passageira em Trânsito, de Marina Colasanti, premiada com o Jabuti/2010 em Poesia.

Magaly Campelo Magalhães(*)

Delicioso o trânsito desta passageira desde os primeiros minutos em que seu avião taxiou na pista e ‘fez-se ave’, na figura criada por sua delicada percepção, elevou-se às alturas, descortinando um mundo de sensações, o ‘andar da paisagem’, o pressentido ‘rumor de águas escuras’ ou o fragor do mar que, ‘próximo, despenca´. O leitor sufoca, tal a intensidade das emoções captadas dos gestos humanos, da diversidade dos tipos e paisagens, da complexidade das aproximações, das aparentes ou não inclusões / exclusões, tudo isso guarnecido com reveladoras impressões pessoais. Esse agudo senso de observação mesclado ora de lirismo, ora de humor crítico, ou de sensualidade impressiona e encanta, como em:

Viagem por um fio Leia mais deste post

ZUENIR, VERÍSSIMO e(m) BELÉM -Só Vendo.

Entre os dias 25 de agosto e 5 de setembro, realizou-se em Belém, a XIV  FEIRA PAN-AMAZÔNICA DO LIVRO . O mundo inteiro e  mais algumas  pessoas frequentaram o local (HANGAR, centro de convenções) durante esses dias, como podem ver no link.
O jornalista e escritor Zuenir Ventura, o escritor e colunista Luis Fernando Veríssimo, entre muitos outros, estiveram aqui como conferencistas e participantes em debates . No dia 8, de setembro, já de volta ao Rio Janeiro, mestre Zuenir escreveu no jornal O Globo esta crônica. Muito a contragosto, deixo de fazer qualquer comentário. Eu e meus adjetivos saímos de cena.( Afinal, como diria Noel Rosa: a Vila não quer abafar ninguém…)

ZUENIR VENTURA

SÓ VENDO

Acostumados com o clichê preconceituoso que acredita não haver vida inteligente fora do eixo Rio-São Paulo, nos surpreendemos quando encontramos alguma atividade cultural em cidades do chamado “interior” — o “centro” somos nós, claro. Por exemplo: onde é possível reunir cerca de 650 mil pessoas, um terço dos moradores, para tratar de um assunto meio fora de moda, a leitura? Pois acabo de ver o fenômeno em Belém, na XIV Feira Pan-Amazônica do Livro, um dos três principais eventos do gênero no Brasil, este ano dedicada à África de fala portuguesa. Houve shows com Gilberto Gil, Lenine, Emílio Santiago, Luiza Possi, mas o destaque foram os R$30 milhões faturados com a venda de 500 mil volumes, superando, segundo os organizadores, a Bienal do Rio.

Há cidades brasileiras que só vendo. A capital do Pará é uma delas. Além de ser uma das mais hospitaleiras do país, gosta de seu passado e é hoje um exemplo de como revitalizá-lo. Já escrevi e repito que a intervenção que o arquiteto Paulo Chaves fez no cais da cidade, transformando armazéns e galpões na monumental Estação das Docas, é uma obra que não deve nada à que foi realizada em Barcelona ou Nova York (o prefeito Eduardo Paes devia ir lá ver). Outro genial exemplo de reaproveitamento é o centro onde se realiza a Feira, o Hangar, um gigantesco espaço que antes, como diz o nome, servia de estacionamento para aviões.

E não fica nisso. Há roteiros culturais como o do núcleo Feliz Lusitânia e seu Museu de Arte Sacra, onde se encontram uma Pietá toda em madeira, o São Sebastião de cabelos ondulados e a famosa N. S. do Leite, com o seio esquerdo à mostra dando de mamar. Sem falar nos museus do Encontro e de Gemas do Pará, e numa ida a Icoaraci para ver as cerâmicas marajoara, tapajônica e rupestre.

Para quem gosta de experiências antropológicas, recomenda-se — além dos 48 sabores regionais, a maioria, do sorvete Cairu — uma manhã no mercado Ver-o-Peso, onde me delicio nas barracas de banhos de cheiro lendo os rótulos: “Pega não me larga”, “Amansa corno”, “Afasta espírito”, “Chora nos meus pés”. Com destaque para o patchuli, que a vendedora me diz ser o odor de Belém. Mas antes deve-se passar pela área dos peixes: douradas, sardas, tucunarés, enchovas, piranhas, tará-açus. “Esse aqui é o piramutaba”, vai me mostrando o nosso guia, o cronista Denis Cavalcanti; “aquele é o mapará, olha o tamanho desse filhote”.

Desta vez, o ponto alto da visita foi uma respeitável velhinha fazendo o comercial do Viagra Amazônico para mim e o Luis Fernando Verissimo: “O sr. dá três sem tirar, e depois ainda toca uma punhetinha”. Isso com a cara mais séria do mundo, sem qualquer malícia, como se estivesse receitando um remédio pra dor de cabeça. Só vendo.

Publicado no Jornal O Globo . Fonte: Radio do Moreno

-=–=-=-
Brevíssima iconografia da crônica de Zuenir:
XIV FEIRA PAN-AMAZÔNICA DO LIVRO – ESCRITORES
ZUENIR VENTURA:

Zuenir na XIX FPL
Zuenir na XIV FPL

XIV FEIRA PAN-AMAZÔNICA DO LIVRO – ARTISTAS


A Pietà, do Museu da Arte Sacra:
belem3.jpg
Pietà, Museu de Arte Sacra, Belém/PA foto Octavio Cardoso.

2- A Estação das Docas – projeto de Paulo Chaves.
belem2.jpg

3- O Mercado Ver-o-Peso, onde Veríssimo e Zuenir receberam a receita. Não que precisassem, é claro:-)

mercado ver o peso

E, last but not least …. ele!

viagra natural
viagra natural (amazônico)

Com isso, estou *fazendo a minha parte*, viu Denise Rangel, e viu, só, Allan? :-)
(a) Viagra Natural
(b). No Facebook – Sustentabilidade.

Nota :

Devo este post ao jornalista Fernando Jares Martins que escreveu sobre o assunto, em seu ótimo blog “Pelas Ruas de Belém”..

PEDRO NAVA

SOBRE A AMIZADE

pedro nava

“Aparentar-se pelo coração é ser *AMIGO*.
É preciso dons inatos de solidariedade, bondade e compreensão, a que se juntam também o momento especial de superposição e coincidência de interesses, opiniões, princípios, regras, desregras – momento que pode ser fugaz ou transformar-se em duração da vida inteira.”

Pedro Nava (1903-1984) inBeira-mar

====

Arte difícil e mágica. Mas tão fácil quando é espontanea.

Estou lendo ( ou tentando ler) – entre outras coisas – o sexto volume (Balão Cativo) da extensa auto biografia de Pedro Nava, uma das minhas mais caras admirações. Foi um profícuo memorialista.  Vida muito rica, fascinante e intensa,  como pode ser observada aqui.

Mas no fundo,  foi uma sacada muito bem feita da professora  Monique Le Moing, que ao escrever seu livro de Doutorado sobre o médico e poeta mineiro, deu-lhe o título de “Solidão povoada”.

Melhor título não seria mais apropriado.

Haroldo Maranhão por Benedito Nunes

Minha homenagem no dia do aniversário de nascimento do grande escritor brasileiro HAROLDO MARANHÃO (Belém, 7 de agosto 1927 – Rio de Janeiro, 15 de julho de 2004). É também homenagem ao professor BENEDITO NUNES, pensador, crítico literário, ensaísta e escritor que, entre tantos prêmios nacionais e internacionais, recebeu no dia 20 de julho,  da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra e seu perfil, o “Prêmio Machado de Assis” de 2010, a mais importante comenda literária brasileira, concedida todos os anos desde 1941.

=-=-=-=–=-=-=-=-=-=-

EU e HAROLDO
eu_e-haroldo
por Benedito Nunes

Conhecemo-nos em 1943, eu com 14 e Haroldo com 16 anos, já ele então diretor de O Colegial, um jornalzinho impresso, que circulava entre os ginásios de Belém, publicando fotos e notícias de interesse estudantil. Haroldo foi o primeiro presidente do Grêmio Cívico e
Literário do Colégio Moderno, no tempo de seus fundadores, os irmãos Serra, Augusto e Osvaldo (Serrão e Serrinha como os chamávamos), e eu o segundo, nossas gestões sucessivas sob o regime de um benevolente despotismo esclarecido. Politicamente, estávamos na fase final da ditadura getulista, o chamado Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial. Iniciava-se entre nós uma longa amizade, regada por afinidades eletivas mútuas em torno de literatura e música.

Desde cedo Haroldo tinha biblioteca própria, distinta e separada da de seu ilustre avô, o jornalista Paulo Maranhão, e localizada em prolongamento da residência do pai dele, João, no terceiro andar do edificio art nouveau da Folha do Norte, à altura da redação, em prédio novo, de um dos jornais da empresa Folha do Norte, O Imparcial, que desde então eu freqüentava. Embora lêssemos muito, àquela época ainda éramos passadistas, combatendo o movimento [moderrnista] de 22 sem conhecê-lo. Por isso decidimos ambos fundar um círculo de defesa e culto do clássico Parnaso, a Academia dos Novos, organizada nos moldes da Academia Brasileira de Letras, unindo-nos a outros incipientes literatos de nossa idade, como, principalmente, Jurandir Bezerra, Alonso Rocha, Max Martins e Antonio Comaru, que se tornara voluntário da FEB. De modo que nos tornamos imortais muito cedo e por conta própria.
Mas também muito cedo Haroldo se fizera jornalista. Morava no jornal, tal como o outro no samba de Noel Rosa morava na filosofia: era Secretário do Vespertino da Folha do Norte, e habitava com a família no prédio onde também se redigiam e imprimiam os dois diários da empresa. Em 46, se não me falha a memória, descobrimos juntos o modernismo. E o sinal dessa entusiástica descoberta foi a publicação, desde aquela data, sob a direção de Haroldo, do Suplemento Literário da Folha do Norte, que teve como colaboradores, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira e de outros muitos poetas cariocas, paulistas e mineiros, alguns dos antigos membros da Academia dos Novos, tardiamente convertidos ao modernismo. A Faculdade de Direito do Largo da Trindade foi para nós outro lugar de reunião já aí ampliado pela presença de Mário Faustino, nosso amigo comum, que por algum tempo trabalhou na Folha, depois de ter sido cronista, numa acepção que não é a de hoje, de A Província do Pará, dirigida por Frederico Barata. Muito jovens, confluíamos os três em torno dos mais velhos, Machado Coelho, Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu, Raymundo Moura, Cléo Bernardo, Silvio Braga e Rui Coutinho, alguns desses reunidos conosco quase diariamente, de noite, sob a liderança intelectual do professor de Literatura, Francisco Paulo Mendes, numa das bancas ou mesas do Café Central, que, como uma das casas da infância de Manuel Bandeira no Recife, existe hoje tão só parado no ar da lembrança. Depois, por volta de 1960, Haroldo virou livreiro. Abriu a ‘Dom Quixote’, a melhor livraria de Belém àquela época, e nessa mesma década mudou-se para o Rio de Janeiro.

Paro por aqui, porque se não, terei que escrever duas biografias, tão entrelaçadas foram em vários momentos nossas vidas ao longo de uma amizade sexagenária – 61 anos – unindo juventude e velhice. Mas tenho que dizer, pelo menos, que a biografia de Haroldo correu por outras linhas além daquelas que escreveu à mão ou à máquina para o jornal que viveu e trasviveu: as linhas do conto e do romance, pois que foi, como autor de tantos textos literários, vinte ao todo, um dos grandes atores da literatura brasileira, a que deu uma pulsação ficcional extraordinária.
O momento de hoje em que o relembramos, tal como ele gostaria, em estilo escorreito, livre de adjetivaçães retumbantes, foi antecipado em sua novela, de título irônico senão sarcástico: A Morte de Haroldo Maranhão (1981). Proeza humorística de um homem que viveu intensamente setenta e sete anos, de um homem temulento – embriagado sem estar bêbado, na classificação tipológica de Guimarães Rosa, romancista de que se aproximou pela potência de criação verbal, e que projetando-se, como Dalcídio Jurandir, num plano de importância literária nacional e mundial, conseguiu ultrapassar a tradicional mediania regionalista do extremo-Norte do país. Como temulento, Haroldo foi um Dom Quixote da linguagem, um possesso ou um embriagado da língua portuguesa, usando, na fase final, em vez da lança do cavaleiro de Cervantes, um veloz computador, que lhe permitiu fazer da escrita uma rápida arma de crítica social, de autoconhecimento e de invenção poética da realidade.

Benedito [José Vianna da Costa] Nunes
Belém, julho de 2004
** ** **
-=-=-=-=-=

Retirado de: EU E HAROLDO – por Benedito Nunes. Publicado em plaquette, Belém, 2006 – Homenagem do Governo do Estado do Pará, através da Secretaria Executiva de Cultura, e de todos os amigos de Haroldo Maranhão, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.(*)

Uma homenagem, nem tanto um necrológio, mas, reparem, um bem-humorado *elogium* de Benedito Nunes. O Mestre falando de seu amigo urdidor de histórias. Um temulento.

-=-=-=-=-=-=-=–

(*) A plaquete foi enviada para mim, no Rio de Janeiro, em 2006, pela minha querida amiga, a jornalista Regina Alves, a melhor entre os melhores… Agora, estamos todos em Belém.

(**) No meu (outro) blog TEXTOS ESPECIAIS, leia entrevista de Benedito Nunes concedida ao Jornal “O LIBERAL” em 2007.

(***)
Na ilustração, temos a capa da plaquette: o retrato (foto) do Haroldo e a assinatura do professor Benedito.