Chapeau, M. Claude Chabrol!

chabrol, o (outro) que amava as mulheres

“Sempre filmei não importa o quê, mas nunca não importa como

Claude Chabrol

Éric Rohmer, em janeiro . Agora, Claude Chabrol, nascido em 24 de junho 1930 e saído de cena em 12 de setembro de 2010. Longa vida a Godard!
Fico meio constrangida ao escrever este post sobre Claude Chabrol, reconhecidamente um mestre ( Hitchcock disse certa vez que gostaria de ter feito o “Le Boucher/”O açougueiro) filme que Chabrol dirigiu em 1970. Puxa… se fosse comigo eu não falava mais com ninguém. Acrescente-se a isso o fato de que Chabrol foi diretor, ator, realizador, produtor, roteirista, adaptador, (dialoguista) , cenarista, cenógrafo, jornalista, crítico de cinema da mítica revista Cahiers du Cinéma -entre 1952 e 1957 – e tudo o que decorreu dessa aventura, enfim, jogou nas onze, bateu escanteio e cabeceou.
Devo confessar que, primeiro, fui ao blog do Milton Ribeiro, pois ele sempre faz   e muito bem) essas homenagens do tipo necrológio, ou se preferirem, o elogio fúnebre dos escritores, cineastas, compositores de música erudita. Basta dizer que o melhor que já li, no gênero, entre tantos, foi seu tributo a Robert Wise.
Não encontrei nada, daí que resolvi escrever alguma coisa a respeito de um dos meus cineastas preferidos, verdadeiramente um mestre , no sentido rigoroso do termo – mas muito se escreveu sobre ele, sua morte e, principalmente, sua biografia, de modo que falar a respeito resulta em insossa repetição de tudo o que está aí, basta olhar o Google.
Assim sendo, vou dizer algumas coisas muito particulares de minha experiência pessoal de fã. Que é um risco. Assim sendo, peço a todos: read at your own peril:

Dono de uma filmografia vastíssima e com vários núcleos de interesse ou temática – podemos citar, pelo menos três, cruzando-se uns com os outros: (1) os de crítica ferrenha (embora, com ironia e humor, muitas vezes) às contradições de uma burguesia provinciana, que ele bem conheceu quando viveu grande parte de sua adolescência, no interior da França e que lhe permitiu retratar um painel dessa classe, uma espécie do que Balzac realizou em muitíssimo maior escala, na literatura, 2) os chamados polar,(misto de policial com noir) em que Chabrol mostra toda a sua excelência, não fosse ele, admirador entusiasmado de Hitchcock. São filmes com mistério e suspense, não raro assassinatos e adultério, triângulos mistos. E neles, a ilocução proveniente das câmeras são tão expressivas – às vezes, mais – quanto a dos personagens, a câmera, em seus planos, travellings, resultado do olhar do diretor.  E finalmente (mas não só) o que justifica a legenda da foto: a exemplo de Truffaut, a questão das mulheres, os assuntos de mulheres. Pertencentes a todas as classes, mas retratadas com distanciamento e rigor, em seus comportamentos, faux-semblants, hábitos, segredos, vistas também com ironia e  um certo tipo de humor cáustico. Chabrol é dono de um incrível senso de humor.
Não coloco exemplos que ilustrem as temáticas, primeiro porque eu não saberia fazer isso, os filmes de Chabrol são um desafio a classificação. E depois porque como já disse, as temáticas se entrecruzam.
Também é preciso dizer que a carreira de Chabrol é brilhante e irregular, mas mesmo nos períodos de filmes mais comerciais, a sua marca, o que faz dele um mestre do mis-em-scene, se destaca em todos eles.
E. como diz a legenda da foto acima, Chabrol dirigiu e tratou de temas que envolvia e sublinhava questões femininas, e sua carreira é também marcad pelo perído de suas musas; Stéphane Audran, sua segunda esposa, e a grande ligação cinematográfica que ele teve com Isabelle Huppert, só para citar duas entre elas..

Mais vale, então, mostar os filmes que eu vi, os que mais amo, e aqueles que eu sinto muito por não ter visto, uma vez que da extensa, prolífica produção do mestre, muito, mas muito pouco ‘passou’ no Brasil. E a maior parte destes,foi vista por privilegiados, em mostras especiais, ou raras e felizes sessões em cineclubes. Ah! sim, e na Tv a cabo, . Eu, por ex,. vi muitos deles em Mostras do canal Eurochannel, que já foi muito bom, acreditem.

Voilà:
1- La Céremonie, 1995 – com o infame título em português, Mulheres diabólicas.-Primeiro filme que vi. Fiquei boba Emoção. Aturdimento.
2- Le boucher/O açogueiro, 1969 – para quase todos, o ponto mais alto da filmografia de Chabrol.

3- Un affair des femmes/Um assunto de mulheres,1988 – Aqui Isabelle Huppert está magistral.

4- Les biches/As corças, 1968 -Stephanie Audran , esposa e musa do cineasta, brilha ao lado de  J.acqueline Sassard
5- La rupture/Trágica separação, 1970
6- Une femme coupée em deux/Uma garota dividida em dois,2007 – Belo filme, com a lindíssima Ludivine Sagnier.
7- La femme infidèle/A mulher infiel, 1969

Eis aí, minha relação, mas não significa que sejam os melhores filmes. Para mim, são. E são os filmes que consegui ver. Nunca vi Mme. Bovary, adaptação de Chabrol para o romance de Flaubert. Mas dizem que livro e filme se afastam bastante. Acredito. Afinal,, a camera de Chabrol *contava* uma história. Outra história, com produção de muitos e novos sentidos.  Afinal ele era o metteur en scene, por excelência.Mas vou  sempre querer ver os outros.

Bem, agora,  torço para que, se quiserem – e eu quero muito –, cada um de vocês acrescente ou retire filmes que sejam seus favoritos.  Ou que não gostarem, claro. (Grande parte dos filmes famosos de Chabrol, podem ser vistos no YouTube).

Quanto a mim, só resta dizer: Chapeau bas, maitre Chabrol!


Benedito Nunes – homenagem

Mais uma homenagem ao grande sábio:

mais homenagens

clique.

O professor, crítico, ensaísta, pensador e escritor Benedito Nunes ganha homenagem da Saraiva

Ele será homenageado em meio ao coquetel de lançamento da inauguração  da Saraiva Megastore, aqui em Belém, na quinta, 19, às 19 horas.

Leia aqui um perfil de um dos mais respeitados intelectuais reconhecido mundialmente, ainda em vida. Leia e aí então vc vai entender por que ele é uma glória, simplesmente o “mACSSimo”, um orgulho para o Brasil, em tempos de valorização de tanta mediocridade.

Ah! sim, não é por nada, não, mas é que eu vejo e leio por aí tanta gente se definindo como “filósofo” (grossas aspas e fat chance) que fica meio difícil a gente saber por que um estudioso e pensador da mais rara estirpe filosófica, recusa o título de filósofo ligado a seu nome.

Haroldo Maranhão por Benedito Nunes

Minha homenagem no dia do aniversário de nascimento do grande escritor brasileiro HAROLDO MARANHÃO (Belém, 7 de agosto 1927 – Rio de Janeiro, 15 de julho de 2004). É também homenagem ao professor BENEDITO NUNES, pensador, crítico literário, ensaísta e escritor que, entre tantos prêmios nacionais e internacionais, recebeu no dia 20 de julho,  da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra e seu perfil, o “Prêmio Machado de Assis” de 2010, a mais importante comenda literária brasileira, concedida todos os anos desde 1941.

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EU e HAROLDO
eu_e-haroldo
por Benedito Nunes

Conhecemo-nos em 1943, eu com 14 e Haroldo com 16 anos, já ele então diretor de O Colegial, um jornalzinho impresso, que circulava entre os ginásios de Belém, publicando fotos e notícias de interesse estudantil. Haroldo foi o primeiro presidente do Grêmio Cívico e
Literário do Colégio Moderno, no tempo de seus fundadores, os irmãos Serra, Augusto e Osvaldo (Serrão e Serrinha como os chamávamos), e eu o segundo, nossas gestões sucessivas sob o regime de um benevolente despotismo esclarecido. Politicamente, estávamos na fase final da ditadura getulista, o chamado Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial. Iniciava-se entre nós uma longa amizade, regada por afinidades eletivas mútuas em torno de literatura e música.

Desde cedo Haroldo tinha biblioteca própria, distinta e separada da de seu ilustre avô, o jornalista Paulo Maranhão, e localizada em prolongamento da residência do pai dele, João, no terceiro andar do edificio art nouveau da Folha do Norte, à altura da redação, em prédio novo, de um dos jornais da empresa Folha do Norte, O Imparcial, que desde então eu freqüentava. Embora lêssemos muito, àquela época ainda éramos passadistas, combatendo o movimento [moderrnista] de 22 sem conhecê-lo. Por isso decidimos ambos fundar um círculo de defesa e culto do clássico Parnaso, a Academia dos Novos, organizada nos moldes da Academia Brasileira de Letras, unindo-nos a outros incipientes literatos de nossa idade, como, principalmente, Jurandir Bezerra, Alonso Rocha, Max Martins e Antonio Comaru, que se tornara voluntário da FEB. De modo que nos tornamos imortais muito cedo e por conta própria.
Mas também muito cedo Haroldo se fizera jornalista. Morava no jornal, tal como o outro no samba de Noel Rosa morava na filosofia: era Secretário do Vespertino da Folha do Norte, e habitava com a família no prédio onde também se redigiam e imprimiam os dois diários da empresa. Em 46, se não me falha a memória, descobrimos juntos o modernismo. E o sinal dessa entusiástica descoberta foi a publicação, desde aquela data, sob a direção de Haroldo, do Suplemento Literário da Folha do Norte, que teve como colaboradores, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira e de outros muitos poetas cariocas, paulistas e mineiros, alguns dos antigos membros da Academia dos Novos, tardiamente convertidos ao modernismo. A Faculdade de Direito do Largo da Trindade foi para nós outro lugar de reunião já aí ampliado pela presença de Mário Faustino, nosso amigo comum, que por algum tempo trabalhou na Folha, depois de ter sido cronista, numa acepção que não é a de hoje, de A Província do Pará, dirigida por Frederico Barata. Muito jovens, confluíamos os três em torno dos mais velhos, Machado Coelho, Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu, Raymundo Moura, Cléo Bernardo, Silvio Braga e Rui Coutinho, alguns desses reunidos conosco quase diariamente, de noite, sob a liderança intelectual do professor de Literatura, Francisco Paulo Mendes, numa das bancas ou mesas do Café Central, que, como uma das casas da infância de Manuel Bandeira no Recife, existe hoje tão só parado no ar da lembrança. Depois, por volta de 1960, Haroldo virou livreiro. Abriu a ‘Dom Quixote’, a melhor livraria de Belém àquela época, e nessa mesma década mudou-se para o Rio de Janeiro.

Paro por aqui, porque se não, terei que escrever duas biografias, tão entrelaçadas foram em vários momentos nossas vidas ao longo de uma amizade sexagenária – 61 anos – unindo juventude e velhice. Mas tenho que dizer, pelo menos, que a biografia de Haroldo correu por outras linhas além daquelas que escreveu à mão ou à máquina para o jornal que viveu e trasviveu: as linhas do conto e do romance, pois que foi, como autor de tantos textos literários, vinte ao todo, um dos grandes atores da literatura brasileira, a que deu uma pulsação ficcional extraordinária.
O momento de hoje em que o relembramos, tal como ele gostaria, em estilo escorreito, livre de adjetivaçães retumbantes, foi antecipado em sua novela, de título irônico senão sarcástico: A Morte de Haroldo Maranhão (1981). Proeza humorística de um homem que viveu intensamente setenta e sete anos, de um homem temulento – embriagado sem estar bêbado, na classificação tipológica de Guimarães Rosa, romancista de que se aproximou pela potência de criação verbal, e que projetando-se, como Dalcídio Jurandir, num plano de importância literária nacional e mundial, conseguiu ultrapassar a tradicional mediania regionalista do extremo-Norte do país. Como temulento, Haroldo foi um Dom Quixote da linguagem, um possesso ou um embriagado da língua portuguesa, usando, na fase final, em vez da lança do cavaleiro de Cervantes, um veloz computador, que lhe permitiu fazer da escrita uma rápida arma de crítica social, de autoconhecimento e de invenção poética da realidade.

Benedito [José Vianna da Costa] Nunes
Belém, julho de 2004
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Retirado de: EU E HAROLDO – por Benedito Nunes. Publicado em plaquette, Belém, 2006 – Homenagem do Governo do Estado do Pará, através da Secretaria Executiva de Cultura, e de todos os amigos de Haroldo Maranhão, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.(*)

Uma homenagem, nem tanto um necrológio, mas, reparem, um bem-humorado *elogium* de Benedito Nunes. O Mestre falando de seu amigo urdidor de histórias. Um temulento.

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(*) A plaquete foi enviada para mim, no Rio de Janeiro, em 2006, pela minha querida amiga, a jornalista Regina Alves, a melhor entre os melhores… Agora, estamos todos em Belém.

(**) No meu (outro) blog TEXTOS ESPECIAIS, leia entrevista de Benedito Nunes concedida ao Jornal “O LIBERAL” em 2007.

(***)
Na ilustração, temos a capa da plaquette: o retrato (foto) do Haroldo e a assinatura do professor Benedito.

I’m back. Com Clint e Marilyn

Estou quase de volta. Morta de saudade de todos. Longos meses no estaleiro :-( . Mas não resisti a dois motivos para um comeback: hoje aniversário de Clint e amanhã o de Marilyn Monroe.


Clint e “minha enteada” Allison :o)

Veja aqui:
Clint faz hoje 80 anos. Na flor da idade, of course:-)

É só isso, folks. Tô na área.
Beijos a todos. Obrigada pelos comments e e-mails

Meglyn Eastwood. :-)

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P.S. So sorry por Dennis Hoper – R.I.P

P.S.2 – Subiu Louise Bourgeois (1911-2010)- R.I.P
E agora, como ficam as er.. aranhas?

Coda – Vivina de Assis Viana escreve…

Quando fiz a consulta às pessoas que mais admiro na blogosfera  acerca de Graciliano Ramos, soube logo que seria imprescindível consultar a consagrada escritora Vivina de Assis Viana, que conheci há bastante tempo através dos livros que li (eu e Regina Alves, professora da UFPa e minha melhor amiga) e que como mágica, vi aparecer – um dia! –  em letra e espírito, nas caixas de comentários de vários blogs amigos, em especial a do Lord Broken Pottery.
Enlevada, magnetizada e com a excitação de quem vê um(a) deus(a) do Olimpo se materializar,  escrevi à Regina, e logo iniciamos um contato por email. A freqüência dependia das viagens que Vivina faz grande parte do tempo para a fazenda que possui no interior das Minas Gerais. E, claro, de suas (muitas) ocupações.

Quando enviei as peguntas às quais Vivina respondeu com o estilo elegante de sempre, trocamos um breve comentário. Claro que como sou “saída, apresentada e saliente” , tudo  culminou hoje com a publicação de um texto que Vivina de Assis Viana escreveu  es-pe-ci-al-men-te para o Sub Rosa (conheceram, er…queridos? ;-)

Então, em grande estilo, a coda (excelsa conclusão) à homenagem a Graciliano Ramos, ao seu filho e ao seu neto.  Uma família dinástica.
Fiquem com ela . Primeiro as respostas, o que facilmente se encadeia com o texto especialíssimo.  Obviamente, palmas ao final:-)

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano …
Se você se refere a contato pessoal, não tive, infelizmente não o conheci.
Conheci Ricardo Ramos, filho dele, que entrevistei quando fiz, para o Jornalivro, um trabalho sobre o pai. Isso deve ter sido em 71, 72.
Se você se refere a contato literário, eu o conheci cursando a faculdade de Letras, em Belo Horizonte, anos sessenta. O primeiro livro dele que li foi São Bernardo, que nunca mais esqueci. Até hoje é o livro de que mais gosto, daqui ao fim do mundo.

2-Acha que o texto dele é de difícil leitura (leitura “difícil”)
Não, de forma alguma. Trata-se, isso sim, de um texto elaboradíssimo. De uma concisão e de uma simplicidade resultantes de muito trabalho e muito talento.
Afinal, escrever “fácil” é que é “difícil”.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
O que seria um autor popular?
Ser lido, conhecido pela maior parte da população? Se for isso, não.
Escrever sobre seu povo, denunciar, descrever, lutar com palavras e idéias? Se for isso, sim.
Ser conhecido, lido e respeitado por professores, escritores, intelectuais em geral? Se for isso, claro que sim.
Não, Graciliano não é freqüentemente citado/lembrado, mas deveria. Como sonhar não é proibido, sonho com o dia em que isso aconteça, com justiça e propriedade.

Fui – e sou – amiga da família, sim. Família muito afetuosa, muito generosa quando se trata de sentimentos. Sempre me senti bem entre eles e, como disse, eu os conheci por causa de meu primeiro trabalho sobre o Graciliano.
Quem dirigia o
Jornalivro era o Roberto Freire, que me sugeriu conversar com o Ricardo – que eu não conhecia – sobre o pai. Roberto soube que eu gostava do Graciliano, essas coisas.
Pois bem:conheci o Ricardo na agência McCann-Ericsson , ele era o diretor. Conversamos após o expediente, ficou tarde, ele me sugeriu continuarmos outro dia, na casa dele, à noite.
O outro dia virou outros dias, muitos, todos.
Conheci Marise, a mulher, os filhos Ricardo e Rogério, adolescentes, Mariana, oito/nove. Depois conheci D. Heloisa, pessoa maravilhosa, avó homenageada – com razão – nas histórias do
Caco.(*)
Começamos a conviver, nunca mais paramos. Almoços, jantares, ora em casa deles, ora na nossa, papos sem fim, meus primeiros textos, meus filhos nascendo, visitas na maternidade, aniversários, casamentos dos filhos dele, ah, quanta convivência enriquecedora.
Mais tarde, 78, quando eu estava grávida do segundo filho, Bernardo, fui convidada pra escrever o volume Graciliano Ramos para a coleção Literatura Comentada, da Abril Cultural.
O livro ficou legal, D. Heloisa gostou muito, os afetos cresceram.
Nos anos 80, Ricardo me convidou pra trabalhar com ele na Fundação Nestlé de Cultura, onde ele coordenava a Bienal Nestlé de Literatura Brasileira.
Daí pra frente, você já sabe:
Ricardo Filho, o Caco, começou a escrever, Ricardo pai me mostrou os originais, me entusiasmei, você sabe.
De todos os escritores, Graciliano é o que eu mais gostaria de ter conhecido. ( Entre os cantores, meu sonho tá realizado: conheço o Paulinho da Viola).
Como não aconteceu – ele faleceu em 53, eu tinha treze anos, no interior mineiro – sinto que, através destes descendentes tão queridos, pude conhecer um pouco – ao menos um pouco – mais do escritor talentoso que os livros sempre me mostraram.
Conheci um pouco mais do pai por inúmeras conversas com Ricardo, e por algumas outras, poucas, como Luísa, irmã dele que mora na Bahia, e que eu encontrava em festas, casamentos, um Natal.
Conheci um pouco do companheiro por muitas conversas com D. Heloisa que, sentindo o fervor de minha admiração, contava casos dele, deles, se revelava, me enriquecia.
Conheci um pouco do sogro, e não me esqueço de Marise me dizer que ele queria vê-la vestida de noiva, mas não podia, estava mal, hospitalizado. Pois o casal foi ao hospital, e a noiva foi considerada linda pelo sogro emocionado, que se iria logo depois.”

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Vivina, coisas como essa a gente não consegue expressar, não se abarca com as mãos e nem com as palavras, como disse um admirador de Graciliano Ramos, o J.G.R. o que você escreveu é “puro brilho de estrelas”.

Podria haver conclusão mais bela, melhor, para  um trabalho?  Fico muito honrada e agradecida.  No fim das contas esse trabalho todo foi tecido com o etéreo estado de graça que dominou todas pessoas envolvidas. Eu apenas uni os fios da tessitura.

Todas as flores do mundo para você, e muitas músicas de Paulinho da Viola (preferência nacional, espero) .Obrigada, Vivina.

Escritora, feminista, SIMONE DE BEAUVOIR, mulher e mulher-militante (UPDATED)

OK, gente, sei que não pediram minha opinião, e até já estou chegando um pouquinho tarde mas confesso a vocês que gosto muito mais de Simone de Beauvoir hoje do que gostava antes.
Simone Lucie-Ernestine-Marie-Bertrand de Beauvoir (1908-2008).
Muito “certa” (certinha – não confundir com as certinhas do Lalau, embora tenha sido muito bonita – no sentido de rangée) e muito exemplar, antes parecia uma mulher congelada e seu feminismo de um rigor que afastava as garotas da minha idade… ela era tudo o que jamais seríamos ou queríamos. Pior, o que nenhuma mulher gostaria de ser. O seu livro Segundo Sexo, era muito “avant-la-lettre– para ser percebido, por nós, meninas estudantes da PUC do Rio de Janeiro, como feminista, e foi muito mais tido e havido como uma masculinização da mulher. Na verdade, Simone preconizou e foi precursora do que viria ser o feminismo. Ela estava e esteve à frente da Beth Friedman, e até mesmo de Ms. Steinheim, esta é que é a verdade;-)
Mas hoje, com a descobertas do que os idiotas de plantão chamariam de deslizes, e nós mulheres, aceitamos perfeitamente num ser apaixonado, os seu amores, *O* amor, e sua renúncia a este amor , em favor de uma escolha (por Sartre)…. sua militância oriunda de uma reflexão que só se consegue após muitos golpes na consciência, Simone é mais compreensível e mais próxima. Quem pode – se é que alguém pode – julgar Simone – a intelectual que nos faz refletir sobre a moral da ambigüidade: prevendo (o que hoje se sabe) que cabe ao indivíduo criar laços com seus pares através de ações éticas – o que requer projetos que expressem e então, encorajam a liberdade. E principalmente a meta cognitiva e de práxis de que se o homem é livre de um jugo (ou um D/d/eus?) que garanta a ação moralmente correta, eis que Simone nos apresenta à idéia de que a liberdade humana depende da liberdade de todos para ser efetiva. Um bem para além do nosso próprio bem: mas o bem de todos.
E por fim , confesso que foi a Simone tardive que me fez gostar muito mais, mas muito mesmo de Camille Paglia, outra que também anda pensa) sempre na frente, analisando o presente e prevendo o futuro. Salut Camille!
Esqueçam Cerimônia do Adeus (menos a maravilhosa frase final: « Sa mort nous sépare. Ma mort ne nous réunira pas. c’est ainsi ; il est déjà beau que nos vies aient pu si longtemps s’accorder. » e comemoremos os Cem anos de Simone! Viva Simone!

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French writer and philosopher Simone de Beauvoir was born on this day in 1908. Her seminal book, The Second Sex, is considered by many to have launched the contemporary feminist movement. PARIS — Simone de Beauvoir, 1952. © Elliott Erwitt / Magnum Photos .. SLATE Magazine January 9, 2008

Os claro-escuros de Simone de Beauvoir : Comemorações do centenário da intelectual feminista
Octavi Martí, em Paris

Fadela Amara, a atual secretária de Estado para a Cidade do governo Sarkozy-Fillon, encabeçou suas felicitações de Natal com a seguinte frase: “Ser livre é querer a liberdade dos outros. É uma citação de Simone de Beauvoir. O fato de uma ministra de um Executivo que tem entre seus objetivos “acabar com o pensamento de maio de 68″ citar Beauvoir, fundadora do feminismo moderno, maoísta ocasional e que se autodefinia como “totalmente de esquerda” e “desejosa da queda do capitalismo”, combina mal com o lema sarkozista de “trabalhar mais para ganhar mais”, horizonte insuperável do atual presidente da República Francesa.

Simone de Beauvoir (Paris, 1908-1986) foi romancista, ensaísta e militante política, mas essa última faceta demorou para se manifestar. “Lamento que tenha sido necessária a guerra para me fazer compreender que vivia no mundo, e não fora dele”, escreveu em 1985, referindo-se ao período da ocupação alemã, quando ela e seu companheiro, Jean-Paul Sartre, quase não manifestaram qualquer inquietação política, convencidos, já em 1941, de que os americanos viriam libertá-los e que era melhor esperar em casa, junto à lareira, escrevendo romances, peças de teatro ou reflexões filosóficas, tudo salpicado de “amores contingentes” -o que Jean-Paul e Simone mantinham era um “amor necessário”.

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Simone de Beauvoir ao lado do escritor Jorge Amado (centro) e do filósofo Jean-Paul Sartre

Hoje, através de biografias, depoimentos e análises, o “casal livre” que Sartre e Beauvoir simbolizaram é criticado por alguns. Não foram tão “resistentes” como diziam, não foram tão “livres” como pareciam, não tiveram tanta razão como se acreditava. Além disso, a história, a grande história, ridicularizou muitos de seus posicionamentos, boa parte de suas críticas a Camus, Aron ou Merleau-Ponty. E o marxismo já não é o sistema filosófico, e sim mais um entre eles, como esse existencialismo do qual eles foram os profetas; os países comunistas cuja revolução apoiaram com sua presença -Rússia, Cuba, China, Vietnã- hoje são paraísos do capitalismo selvagem ou exemplos ruinosos de aonde pode levar uma teoria quando se omite a realidade. Jacques-Pierre Amette, no semanário “Le Point”, se atreve a perguntar se “Sartre e Beauvoir não serão os Ginger Rogers e Fred Astaire do existencialismo”. No entanto…

O “no entanto” não está exclusivamente nos 1,2 milhão de exemplares vendidos desde 1949 -só em francês- de “O Segundo Sexo”, livro de referência do feminismo, nem na influência do mesmo na evolução da mentalidade contemporânea. Talvez também não esteja na qualidade e no interesse literário da obra de Simone de Beauvoir, que são muito altos e precisam de reavaliação. “Todos os Homens São Mortais” (1946) é um grande exemplo de “novela filosófica”, um gênero hoje malvisto, assim como “Os Mandarins” (1954), que põe em cena o antagonismo entre Sartre e Camus através de personagens reais, que não são meros portadores de mensagens.

E “Memórias de uma Jovem Formal” (1958) é um livro belíssimo, mas toma certas liberdades com a verdade. Nelas, conta-nos que “Sartre correspondia ao desejo que formulei quando tinha 15 anos: era o duplo no qual eu encontrava, levadas à incandescência, todas as minhas manias. Com ele sempre podia compartilhar tudo. Quando nos separamos no início de agosto sabia que nunca mais sairia de minha vida”. E aprendemos que teve como companheiros de claustro Maurice Merleau-Ponty e Claude Lévi-Strauss. “Eu já conhecia um pouco os dois. O primeiro sempre me havia inspirado uma longínqua simpatia. O segundo me intimidava por sua fleuma, mas sabia usá-la e o achei muito divertido quando, com voz neutra e um rosto impenetrável, expôs diante de nosso auditório a loucura das paixões.”

Todo um mundo intelectual é evocado nessas memórias e nos volumes seguintes -”A Força da Idade” (1963) e “A Força das Coisas” (1963)- e isso, somado a essa atitude pública hoje tão criticada, assim como a influência de suas reflexões feministas, transformou Simone de Beauvoir em um mito. E um mito com o encanto da proximidade. Alguns a aproveitam só para descobrir que seus pés eram de barro. Com efeito, de barro humano.

Como no caso de Sartre, Simone de Beauvoir é hoje uma figura mundial, mais respeitada nos EUA do que na França. Em seu país não sabem o que fazer com ela. A televisão lhe dedicará dois filmes, mas em canais menores, como Arte ou France5. Como está distante esse 1984 em que a TF1 -ainda pública- exibiu uma série para comemorar os 35 anos de “O Segundo Sexo”!

Um colóquio internacional reuniu em Paris de 9 a 11 de janeiro especialistas do mundo inteiro para discutir a atualidade de sua obra. Danièle Sallenave publica uma biografia crítica -”Castor de Guerre”- pela Gallimard, editora que também publica um volume hagiográfico: “Simone de Beauvoir, écrire pour temoigner” [Escrever para testemunhar], concebido por Jacques Deguy e Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha adotiva da escritora. E a mesma editora reedita um texto de Beauvoir de 1948 que estava esgotado: “O Existencialismo e a Sabedoria Popular”. E isso é tudo o que a época permite.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

SOBRE O FEMINISMO

“Se ser feminista é ser um homem como qualquer outro, como queria Beauvoir, então não sou feminista!”Antoinette Fouque, fundadora do Movimento de Libertação daMulher, na França. “
A leitura de seu livro ‘O Segundo Sexo’ me causou a impressão de ter-me colocado óculos para ver o mundo.” Wendy Delorme, escritora, atriz e militante das Panteras Rosa.
É importante que tenha demonstrado que a masculinidade não estava reservada aos homens, mas era um signo cultural e social acessível a todas. Isso é o revolucionário.” – Marie-Hélène Bourcier, estudiosa e crítica da obra de Simone de Beauvoir.
“A posição ética de Beauvoir me apaixona por seu radicalismo: ela prefere mudar a ordem do mundo do que mudar de desejos.”Danièle Sallenave, autora da biografia crítica de Beauvoir “Castor de Guerre“.
EL PAÍS – – Visite o site do jornal.
Leiam mais estes “amuse-gueule” que escolhi especialmente para nós, vocês e eu;-); enquanto eu fico boazinha, – ainda estou com dor na cabeça do tamanho de um balãozão. Um beijo a todos.
Em especial para as minhas Palpi, Rose, e (Pulsy)Cat;-)) perdoem-me não ter vindo antes.
1- Artes: dois pontos. // 2- Voltaire Schilling //3- Label France //4- Simone- … feminismo

Para os francophiles:
1- Une vie d’écriture et liberté ///2- Simone, la scandaleuse/// 3- Julia KRISTEVA – Dossier- Programme

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A propósito de análises e avaliações: não deixe de ler mais um texto “matador” do professor GILSON CARONI FILHO, sobre a “a judicialização da política e a politização do judiciário” e a figura digamos “atirada” do juiz Marco Aurélio Mello. Se o professor me permite, um certeiro “tiro ao álvaro”! Não percam. Clique aqui
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Registro com alegria e agradeço o prêmio Post de Ouro , conferido por Ery Roberto Corrêa a este post. Ueba! ;-)!!!!
Obrigadíssima, Ery!

CHARLOT – 30 anos sem…

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Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade.
Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.
Sem essas virtudes, a vida será de violência
e tudo será perdido.

Charles Spencer Chaplin

(16 abril 1889-25 dezembro 1977)