Idelber Avelar

Para nossa alegria e para o bem de nossa vontade de sempre aprender, *ele* está de volta: ontem foi o aviso de reinauguração. Hoje, a maestria de sempre;  como ele mesmo diz a segunda reencarnação (?).

Seja muito (re) bem vindo, querido, mas como  já lhe disse, embora pesadamente político, desde quando música, literatura, cultura e …filosofia não são pesadamente políticos? Para qualquer extremo do compasso:-).

STRANGE FRUIT.

strange_fruit

Eu sei, eu sei: sai o Weblog do Pedro Dória, um blog do meu coração, ele, nosso contemporâneo, sendo ele, o Pedrinho,  quem ‘nos’ recebeu – um dos pouquísimos jornalistas que não era como quase todos os outros a essa época, primeiro semestre de 2001:  na maioria acerbos críticos, de uma estreiteza de mente que levou a uma bloody generalização, a de que blog era diário tipo “ah! que c’est beau mon p’tit omblier”.
Em resumo para 99,98% dos brutos, blog era coisa de gente sem noção (OK, alguns eram mesmo). Acho que eles eram sinceros, pois a coisa “pegou” mesmo para os incréus e  *lerdos* foi depois do 11 de setembro.  Agora, o irônico  é que graças a pessoas como Pedrinho (não é forçação de intimidade, é que alguns de nós sempre o tratamos assim e assim ele era para nós: e ele era a a própria representação do NO – Notícia e Opinião) e Cora Rónai, (esta deu a famosa resposta a Marcelo Tas qando ele numa entrevista perguntou: ‘Você pode traçar um perfeil de um cara que faz blog?’ e ela respondeu: ‘Vem cá, dá pra traçar um perfil da Humanidade, cara pálida?’ – citação de memória portanto muito infiel nas palavras mas precisa, precisa demais no sentido -)  é que os blogs puderam se firmar, alguns excelentes, eu diria mesmo imbatíveis, nunca superados em qualidade, outros desistiram, outros foram deixando de er o que dizer e desapareceram para o oblívio:-) e outros, claro, nunca chegaram a ter seus 15 minutos de alguma coisa, a não ser..bem, orbitando em torno de algum deslize possível ou imaginário de outros –  bom,  mas foi graças as pessoas como eles, Ped e Cora Rónai, que, *num vu*, ironicamente, tudo que era jornalista passou a ter blog, chegando  mesmo a haver um fase em que  blog mesmo só  valia se fosse de jornalista… Se é que me entendem, embora em circunstâncias beeeeem diferentes, parece que tudo voltou a ser a mesma coisa. Blog parece só valer se for escrito por jornalista. E os jornalistas brigam entre si, e…. O que eu acho mesmo é que falta alguém dessa época, que seja bem articulado e que tenha boa visão e excelente memória contar o que foi a história dos blogs no Brasil. É uma história de fases, e rio muito de uma especial em que se cunha a estranha, estranhíssima frase dubitativa: “Blog é literatura?”

E sim, ou melhor não,  não vou deixar de falar no professor e escritor Idelber Avelar. Como ele já esteve fora, interrompeu  a atualização do blog, uma vez e voltou; como ele não disse que está deixando de blogar , mas ralentando. então não conta. Só estranho, um direito que tenho como leitora e  admiradora,  porém ele explicou muito bem, que ele se tenha despedido num post em que não diz uma única palavra sobre a situação política atual. Mormente sobre certas situações gritantemente constrangedoras. Que quanto a isso, claro sempre as há. Mas falta-me o parecer dele, tão atuante e afiado que é .  A tudo tão tão atento. Eu digo isso  porque o Idelber, era – no blog –  antes de tudo, não um intelectual, mas um crítico político e dos muitíssimo bons. E dos mais polêmicos e desafiadores. Não que ele não seja um intelectual. Mas ele mesmo deve estar me entendendo muito bem, melhor do que ninguém.  Nessa hora, nessa  precisa hora, eu não esperava que ele saísse. Ou talvez, I mean, eu me sinto confusa sem o blog  dele num momento tão especial, tão rico, tão decisivo, eleições etc etal… Tão  carecendo de pessoas  com a fibra singular que ele  tem.  Mas se só está hibernando, então ele sabe o que está fazendo.  Ele tem o que se chama de accuracy. Então, escolheu convenientemente. Sabe a hora que escolheu para tal. Só desejo a ele grande sucesso. E rápido retorno.

Já o  Pedro faz a gente ficar tristealegretriste, embora  eu e acho que todos esperamos que volte logo. Tipo assim, fora de jornal jornal;-)  E  sempre de uma forma renovada, rica e diferentemente semelhante.

♣♣♣♣♣

Mas, muito bem, o que tem a ver o título e a ilustração deste post com esse intróito “ceroso”?

É que para algumas pessoas amigas eu disse que hoje daria (porque só hoje saberia) uma resposta a respeito de como eu vou, como eu estou. Uma consulta importante etc etc…l. Pois bem, estou djoinha, pulei uma grande fogueira. E, como símbolo desse estado, bom, maravilhoso e, sobretudo, esperançoso,   essa fruta aí acima entrou hoje no meu cardápio,  por recomendação médica. Vou ficar ultrajantemente mais bonita, mais saudável, até mais  nova com ela :oO.   Agora a fruta, Putzgrilo, a fruta…. Tem nomes lindíssimos e é bonita, embora seja um cacto!: olhem aqui. Tem até flor com nome poético, literário demais.

Querem ler a respeito e tirar suas conclusões? :-c . Pois é, os  resultados dos exames foram ótimos.  E sabe, gente, eu até desconfio, com perdão do Grande Lord (que lordeza/nobreza pouca é bobagem,  tee-hee) que voltei a ser mais chique até do que eu já era. pisc*

Essa foto,  eu tirei da minha casa, da janela da minha cozinha amazônica.

*****

Eu, que agora ninguém me segura, já comecei a responder a todos, todíssimos que comentaram aqui. São todos uns lindos, megníficos. Mille mercis.

***

Reparem quantos anacolutos.

Tudo isso pra dizer que os bons blogs fecham e eu aqui falando de.. frutas, estranhas frutas, exóticas frutas.

Fazer o quê. Aqui tudos, praticamente tudos sobre essas lindas cactáceas:-))

*****

E isso:

Triste Marta! Triste, Marta.

Every-body who’s anybody”, como diria Cole Porter , não se furtou a falar no triste papel de Marta Suplicy na campanha para a prefeitura de São Paulo,  trazendo um tom de aviltante moralismo e atropelamento da ética.

Evito o máximo falar em política neste blog. Só me manifesto se for impossível deixar de fazê-lo.
Já comprei muita briga e principalmente pelos outros. Discutir política em blog faz com que você rapidamente navegue pelo mar do desafeto e da inimizade.
De uma forma tão leviana quanto espúria não ser petista passou a ser sinômimo de direitista e tem até uma ex-célebre pessoa (tipo ex-amigo) que ganhou epíteto de neocon ou neo-con, por declarar não ‘ser’ PT.

A esta altura do campeonato, os poucos que me lêem sabem que não sou de direita – o que não me impede de me dar bem com pessoas bacanas, honestas e amigas que o sejam e admitam – do mesmo modo que admiro (por outros motivos) – pessoas que até se declaram petistas e até xiitas e nunca disse que eles eram ‘xaatos’, como dizia o grande Carlito Maia.

Mas hoje tenho de falar. Tudo porque um dia essa triste senhora já fez parte de meu Panteón particular.
Essa senhora, acreditem ou não, já esteve na vanguarda do pensamento, aquele que se caracteriza pela open mind, pela largueza e amplitude do pensamento  numa época obscurantista. Seu pensamento me ajudou  como professora  a abrir algumas aléias  de tolerância e bom convívio com a diversidade. Em mim mesma e em alunos meus.

Hoje, afinal,  é o Dia do Professor, e como todos sabem  Professor não é só aquele que a gente tem em sala de aula.  E o mais importante,  Professor também tem os seus Professores , por toda a vida.

Sem contar que a ação do Professor deve transpor o espaço intramuros da sala de aula e ganhar a Cidade, a Polis (πόλις).

Daí minha profunda comoção ao ver aquela Marta que na antiga TV MULHER, como psicóloga e sexóloga (?!) ajudava alunos e professores a se tornarem maiores que o preconceito, maiores que as estreitezas da intolerância. Ensinava , enfim, que ter princípios ainda era e deveria ser sempre o norte de nossas ações.
Hoje, tristemente constato que Marta Suplicy numa desenfreada sucessão de gestos cada vez mais comprometores de quem não sabe pedir desculpas à Cidade e ao País, por um erro (já que houve sim um erro) , e mais: negação do óbvio, recibo de irresponsabilidade (‘eu não sabia’)  enfim…mostra que que pode até saber de moralismo, no seu pior sentido, mas esfacela a ética.
O que é uma coisa lamentável e condenável, para quem disputa um cargo na Pólis! Bom,  isto para quem entende a diferença entre o grego éthos (“ἔθος” )– com o “e” longo e que significa propriedade do caráter – , éthos (‘ἤθος”) com o “e” breve que significa costume – que é igual a mores – tradução para o latim que se confundiu com a primeira acepção de éthos.
Triste Marta. Parece que nunca mais vai poder sequer mencionar ,nem no todo  nem em parte, o que era um dos seus mais belos e importantes conhecimentos.

Agora do outro ponto de vista, mas como tudo é político e o referencial é o mesmo, aqui estão pessoas que escreveram bem, muito bem, o melhor possível. Esses dois  primeiros foram os que melhor sintetizaram o que realmente está em jogo.

Pedro Dória
Ricardo Kotscho

Mais além:
Jayme Serva

Gilberto Dimenstein

Pedro Alexandre Sanches

e vários, vááários outros.

VIVA MARINA! (UPDATED)

Para uma coisa isso tudo serviu, para retirar qualquer ambiguidade acerca desse governo. Mostrou o que realmente é.
Na verdade, Marina demorou o tempo necessário para ser desfeiteada, desrespeitada *PUBLICAMENTE* , usada o suficiente e  agora – não há mais qualquer dúvida sobre o que é o que é.
Embora com a ressalva que sempre fiz e que os meus amigos mais íntimos sabem, nunca fui petista, muito menos lulista ,  mas  sempre achei que devíamos identificar corretamente quem eram os bad guys. E jamais neguei os mérios que eventualmente esse governo teve.
Mas não dá pra ser acrítico.
Estou chateada, estou arrasada. Dá até vontade de pensar  que Marina era insuportável neste e para este governo por ser tão respeitável.
Desculpem, mas  ‘pessoalmente’ me sinto écartelée. Crushed. Qu se danem os Mangabeiras. $#@%

Aqui vão alguns links da repercussão:

BBC: Saída de ministra afeta imagem do Brasil, diz professor da London School of Economics

RESPEITABILIDADE E RECONHCIMENTO INTERNACIONAL

REUTERS:
Her resignation is a disaster for the Lula administration. If the government had any global credibility in environmental issues, it was because of minister Marina,”

Although Lula has adopted the environmental talk, the practice is development at whatever cost,”

THE GUARDIAN: Fears for Amazon rainforest as Brazil’s environment minister resigns

E mais: se alguém achar que achar que environment  e desenvolvimento a qualquer custo (em qualquer idoma) numa mesma frase é coisa de  (…) ecochatos e outros nomes dados não por mim, mas pelos que acham assim, quero mais é que se “atritem nos moluscos bivalves”.

 Desculpem, sei que os que me entendem, entendem.

ADENDA: Depois de uma conversa e  como resposta a um comment do Milton Ribeiro, um dos mais influentes e conscientes bloggers que pontifica no blogworld, que –  aqui pra nós – não tenhamos falsas expectativas – é o último reduto da informação poucas vezes relevantes:

Ecologia – é bom lembrar – vem do grego oîkos que significa casa, morada  e estabelece relações entre todos os moradores dessa casa no seu sentido primeiro , primevo e ontológico, que são os seres vivos.
Sabe o que é ridículo? é que a gente tenha vergonha, um certo pudor de falar em ecologia,  de  falar em ambientalismo, que é a inglória tarefa  de preservar melhores e maiores graus de qualidade de vida e muitas outras coisas importantes.

E por que? porque temos uma visão empobrecida, paupérrima e dicotomicamente reducionista, de achar que a Natureza, a Terra, só existe e só deve ser considerada como se fosse a *propriedade absoluta* do Homo sapiens sapiens.

(Não sou contra a produção de bens, muito ao contrário, adoro conforto e ter tudo do bom e do marrom (glacê ;-)) e quero que todos tenham também.
Felizmente há quem esteja mais alerta e que possua  inteligência e discernimento de forma mais abrangente e veja que recursos naturais são fonte de vida para todos.
Mas, realmente, como digo sempre, a pior forma de maldade e prejuízo ainda é a ignorância arrogante.

***

E uma excelente supresa que a desinformada aqui não conhecia:  Leiam este post  rápido e certeiro, comme il faut : A ministra, os bagres e os cabeças de bagre – com direito à luxuosa caricatura do talentosíssmo e meu caríssimo desde os tempos do NO , o Leo Martins.

E o blog inteiro, que é muito bom, da Marilia.  (bookmark  que vale)
=-=-=-=

RECOMENDO VIVAMENTE: O artigo de Gilson Caroni Filho.

DESCULPEM, mas…

OLHEM SÓ:

desculpem, mas  agora F*D**!!!!

PUTZGRILO!

Y a pas plus Mai 68: 10-11 (La nuit de barricades)

Foi exatamente na noite de hoje, há 40 anos – de 10 para 11 de maio –   que realmente  a Revolução Estudantil e Operária na França deixou a latência e se converteu em realidade o que , hoje 40 anos depois, ainda ninguém sabe explicar em toda a sua abrangência.

Mesmo os soixante-huitards discordam entre si, mas é essa a riqueza de um movimento plural,  que não quis o poder, mas o desejo de mudar.

Porém, há lembranças , il y a de souvenirs:

Nuit verte
Celle des barricades… ?
Nuit verte ou rouge ou bleue ou noire
Qu’importe camarades ?
L’espoir de la victoire !
Cela importe camarade !!!

Je suis venu
J’ai vu
J’ai cru
 ….

Fiquem aqui com uma entrevista de Alan Finkielkraut , um dos mais expressivos nome da direita;-)) francesa, em relação ao movimento que pregava  entre outras  coisas É PROIBIDO PROIBIR  (Il est interdit d’interdire) e SEJAMOS REALISTAS PEÇAMOS O IMPOSSÍVEL: (Soyons réalistes, démandons l’impossible!)

ALAIN FINKIELKRAUT

Nascido em Paris em 1949, Alain Finkielkraut é ensaísta, produtor da rádio France-Culture e professor de história das idéias na Escola Politécnica.
Midiático e polêmico, é considerado uma das referências do pensamento de direita na França. Em 2005, criticou a onda de revoltas juvenis ocorrida nos subúrbios franceses.
Também afirmou que a seleção francesa de futebol não era “Branco, Azul e Vermelho” nem “Branco, Preto e Pardo” (como se diz desde a Copa de 98), mas sim “Preto, Preto e Preto”. Nesta entrevista concedida a Aude Lancelin, do “Nouvel Observateur”, o autor de “A Ingratidão” (Objetiva) e “A Humanidade Perdida” (Ática) comenta as influências de 1968 sobre a família.  

PERGUNTA – Em 1977, em “Le Nouveau Désordre Amoureux” [A Nova Desordem Amorosa], o sr. escreveu que tínhamos passado de uma era de “repressão sexual” para uma espécie de imperativo categórico de gozar, que era igualmente coercivo. Tudo o que aconteceu desde então confirmou sua opinião?
ALAIN FINKIELKRAUT
– Aquele foi um livro anti-1968 habitado pelo espírito de 1968. Era a época do “tudo é político”, e o discurso sobre o sexo remetia ao registro judiciário da acusação.
Na contramão disso, optamos pelo gênero da celebração, especialmente pelo elogio do gozo feminino. Sem a liberação sexual, não poderíamos ter escrito esse livro. Mas o escrevemos para libertar o amor do domínio do discurso da libertação. De fato, o que é o desejo amoroso senão a experiência de uma maravilhosa sujeição?

PERGUNTA – O filósofo americano Allan Bloom, nos anos 1990, disse: “Você pode ser um romântico hoje, se quiser, mas isso seria um pouco como ser uma virgem num puteiro”. O sr. pensa, como ele, que o amor hoje em dia está comprometido?
FINKIELKRAUT
– O que compromete o amor é o fato de não se enxergar senão um confronto entre as exigências do desejo e sua repressão. É essa a razão pela qual, em “A Nova Desordem Amorosa”, Pascal Bruckner [co-autor do livro] e eu quisemos reintroduzir o personagem esquecido do amado.
Contudo, se hoje fosse escrever uma seqüência para esse livro, começaria por um elogio erótico ao pudor. Este não é apenas uma restrição arcaica, o resquício de um preconceito burguês -pelo contrário, eu o vejo como um atributo ontológico da mulher.

PERGUNTA – Um autor como Michel Houellebecq propaga uma visão segundo a qual 1968, longe de ter dado início a uma era de libertação sexual real, teria estendido o domínio da luta capitalista para o próprio sexo, de tal modo que cada um se torna substituível, em estado de insegurança permanente. O sr. concorda com essa visão?
FINKIELKRAUT
– Quisemos acreditar que a libertação sexual iria suprimir a dimensão da infelicidade. Mas não é porque tudo é permitido que tudo é possível, Houellebecq teve o mérito imenso de ter chamado a nossa atenção para isso. O desejo é uma escolha, e escolher é excluir.
Sem dúvida hoje, mais do que nunca, é difícil ser feio, tímido ou antiquado. A proibição era um álibi para o fracasso. Nossa época é mais livre e, portanto, de certa maneira, mais cruel.

PERGUNTA – Ensaístas como Michel Schneider ou Eric Zemmour denunciam hoje uma confusão ou sobreposição das identidades sexuais e tendem a atribuir às mulheres as desordens que, segundo eles, solapam a sociedade ocidental. Como o sr. vê esse tipo de receio?
FINKIELKRAUT
– Não vejo como certo que a sexualidade seja a instância última de todos os nossos comportamentos.
Em outras palavras: não sou freudiano. Assim, não penso que a crise atual da transmissão em nossas sociedades proceda mecanicamente de um desaparecimento da função “viril”, nem, a fortiori, de uma conspiração feminina.
Em contrapartida, observo que se perdeu uma certa idéia do pai. E o problema não se reduz à questão de saber se os pais estão certos ou errados em trocar as fraldas de seus filhos -a meu ver, estão certos. A família tornou-se lugar de uma negociação perpétua.
Hoje tudo acontece num registro puramente afetivo, e não mais simbólico. Maio de 1968 não terá sido, em tudo isso, mais que um momento de aceleração do processo democrático que nos carrega há muito tempo.
A democracia -como afirmação da igualdade de todos os indivíduos, como passagem de uma vida suportada para uma vida desejada- se adapta muito dificilmente à partilha dos papéis. Assim, a família deixa de ser uma instituição para converter-se em uma associação precária. Se isso é bom ou mau, não posso dizer.

 

 

A íntegra desta entrevista foi publicada no “Nouvel Observateur”. Aude Lancelin (c) 2008 “Le Nouvel Observateur”. Tradução de Clara Allain .

 

Retirado do suplemento MAIS! da Folha de S. Paulo, de domingo 4 de maio de 2008. 

 Mais fotos, slogans  e cronologia aqui: Le Monde – Le Mai 68 jour après jour 

Não perca – À ne pas rater:-)

Feliz dia! Obrigada por comentarem;-)

LANA – EM TOM MAIOR. (R.I.P) – Updated

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Quando eu a conheci, descendo de um belo carro, enorme, prateado e se dirigindo para a minha casa, eu sabia que ela era ela. Com um tailleur, cabelos loiros armados em um coque, elegantíssima, a mulher, a pessoa, a senhora mais bonita que eu já vira. Ela vinha do trabalho, quer dizer;-) do Cartório que pertencia à sua família e convidou-me a ir à noite em sua casa.
Quando a vi de novo, no mesmo dia, à tardinha, ela me levou para o seu studio (chique a até não poder mais.) A primeira coisa que eu reparei foi um poster, adivinhem, da front page do jornal New York Times, do dia 8 de novembro de 1917, sim, pois é!, a que noticiava a Revolução Russa. Então, olhei novamente para ela e comecei com a minha marca registrada que é – e temo, sempre será – *cometer* gaffes. O que eu disse? Claro que não sou boba de dizer aqui. Mas tinha a ver com com o fato de ela estar mais alta, os cabelos mais louros e soltos do coque da manhã. E o sorriso.
Idade? mas qual mulher bonita tem idade? Ela não tinha.
Conversamos, conversamos, eu não sei sobre o quê, porque só via os discos, os quadros e os livros… quantos livros, ah! e havia os livros do Che, do Mao. Um poster do Che, belo como nunca. Eu jurava que aquele estúdio era um universo daqueles, os paralelos. Foi assim.
Elanyr Pessoa Gomes da Silva, a majestosa, admirável LANA, que era dondoca, do high,high, high,high society, esposa, mãe de dois filhos, Beth e Eduardo – todos diziam que ela era a cara de várias atrizes lindas do cinema, era a Faye Dunaway, (e era), aqui está outra) e, segundo uns amigos, dizem que foi com ela que nasceu a expressão “uma loura de fechar o comércio” (que, claro ninguém entende, assim de pronto, só contando a história).
A partir desse dia, minha vida mudou completamente. Os filósofos chamam isso de clivagem. OK, eu concordo . E daí a alguns dias eu também vim saber que Lana havia passado também por uma clivagem. Ou melhor, vivia (n)uma clivagem.
A dondoca, a mulher de sociedade, da alta burguesia, soube usar brilhantemente esse lado de sua vida, para exercer um papel do qual muitas pessoas se lembram porque foram atingidas por ele: ela era a protetora, a mecena$, aquela que dava cobertura a praticamente todos os militantes que combatiam o golpe de 1964. e devo dizer que nessa época eu só sabia de ouvir falar, muito de longe, a palavra S*U*B*V*E*R*S*I*V*O*(S). Ajudava com dinheiro quem precisava, colocava pra ir levar revistas pros presos. Isso era chamado *tarefa*. Transportava fugitivos e encrencados.
Mas também, em seu estúdio recebia a “intelligentsia” da terra e os artistas que vinham à cidade (não é pra me fazer de importante, mas adivinhem onde eu troquei as primeiras palavras com o Caetano Veloso? Iuhu!!! E uma pintora, que todos os artistas conhecerão, Maria Bonomi, também conheci lá. Ney Matogrosso, ai que bonito que era. E tantos outros.
E isto sem contar que ela tinha um cinema particular em casa, onde levava filmes que jamais vi depois, nem em circuitos de cinemas de arte.
Bom, ela morreu ontem (anteontem) e sua história fascinante inclui – sem que precisasse- uma opção que fez por trabalhar fora, fora do cartório da família: trabalhou em propaganda numa firma importante a MENDES PUBLICIDADE (ela conhecia e era conhecida por todo o mundo). Depois foi ser jornalista. E o que mais ela poderia fazer melhor no jornalismo? Isso mesmo, colunismo social. E com o pseudônimo de Jeannete Blanche (por aí vocês tiram hoho). Mas logo ela viu que não era essa bem a praia que ela queria, e com a carteira de jornalista que obteve, ela passou a assinar uma coluna conceituadíssima EM TOM MAIOR, sobre artes, promoção e cobertura de eventos culturais e, claro, política. Era uma conspiradora eficiente.
Mas não deixou jamais de ser o que já tinha sido em anos de dondoquice: era hors councours das listas de Dez mais Elegantes. E por muitos anos, comandava uma mesa cativa no Hotel Hilton.
Foi professora da Universidade Federal do Pará, do curso de Jornalismo. Fez Curso de Mestrado. Em Literatura e ensinava Literatura Paraense. E vivia com um fulgurante entusiasmo (no sentido grego da palavra) das pessoas que se consomem no que fazem ou escolhem fazer. Foi magnífica como Diretora de um dos Teatros mais belos do mundo e um dos mais importantes do Brasil, o Teatro da Paz, -( aqui também )- do qual cuidava como se fosse sua casa. Claro que a chamavam de chata, mas quem entendia de preservação de monumentos…? Era zelosa demais e intervinha com dinheiro dela para gerir dificuldades de orçamento. Isso, *eu vi*, eu testemunhei.
Eu sei que este post, tal como todos os meus posts, deve estar ainda mais deconexo: eu não paro de chorar.
E então, ainda que eu tenha mais uns milhões de recordações, de anedotas, de irreverências, gaffes cometidas, eu vou parar por aqui. Não sem antes dizer, que ela era insuportável nessa coisa de ter uma opinião e não voltar atrás – o que me irritava demais – nunca aceitou que eu sofresse de depressão, arre! mas eu a adorava por ser das pouquíssimas pessoas que eu conheci que eram realmente destituídas de dois tipos de inveja: Não invejava nem o sucesso dos demais e … oh! por Gaia, ou por Jove! ela, a Lana, jamais teve inveja de quem era feliz no amor. Disso eu tenho provas. E mais, ela adorava a minha melhor amiga, a jornalista Regina Alves e quem gosta de quem eu gosto, me adoça por inteiro. E era muito amiga da fabulosa jornalista Helena Cardoso, pessoa que eu adorava também.
Ela gostava de cantar e eu ria muito de ela cantar umas músicas antigonas, das quais eu vim a gostar depois: tangos e boleros;-) . Não achei nem para comprar o tango UNO, nem NOSTALGIAS… mas, como sou uma pessoa de sorte, lembro de certa vez ela me ter dito, solenemente, qual música era mais significativa para ela.
E desta vez, Laníssima, a Lei de Murphy não funcionou. Eu achei! Aí está a tua música e letra. Fazes-me falta, querida. E serei sempre, sempre muito agradecida por tudo.

Pequeno concerto que virou canção
(Geraldo Vandré)
Não,
Não há por que mentir ou esconder
A dor que foi maior do que é capaz meu coração
Não,
Nem há por que seguir
Cantando só para explicar
Não vai nunca entender de amor
Quem nunca soube amar.
Ah…
Eu vou voltar pra mim
Seguir sozinho assim
Até me consumir
Ou consumir
Toda essa dor
Até sentir de novo
O coração
Capaz de amor.

Agora, um tango que ela adorava cantar e eu morria de rir, até que hoje vi bem a letra e entendi porque ela me chamava de Hermana;-) Hey, Obrigada, you rule!,

É um tango de reponsa, olha só o “tamanho do estrago” – como diz Ali G. – que é a letra:
=-=-=-=
Nostalgias
Juan Carlos Cobián/Enrique Cadícamo/con orquesta/Canta: Charlo/

Quiero emborrachar mi corazón
para apagar un loco amor
que más que amor es un sufrir…
Y aquí vengo para eso,
a borrar antiguos besos
en los besos de otras bocas…
Si su amor fue “flor de un día”
¿porqué causa es siempre mía
esa cruel preocupación?
Quiero por los dos mi copa alzar
para olvidar mi obstinación
y más la vuelvo a recordar.
Nostalgias
de escuchar su risa loca
y sentir junto a mi boca
como un fuego su respiración.
Angustias
de sentirme abandonado
y pensar que otro a su lado
pronto… pronto le hablará de amor…
¡Hermano!
Yo no quiero rebajarme,
ni pedirle, ni llorarle,
ni decirle que no puedo más vivir…
Desde mi triste soledad veré caer
las rosas muertas de mi juventud.