Você sabe do quê hoje é dia? – E uma abordagem acerca de BOLAÑO

Eu sabia mas não lembrava.;-)
Meu amigo, o jornalista Ronald Junqueiro, encarregou-se de  lembrar  e dizem até que a comemoração é reconhecida internacionalmente.
Aliás, eu acho que sim, porque um dia vi a Liz Lemmon,  ops.. a TINA FEY,  falr sobre esse dia tão importante do Saturday Night Live. Eu vi,  sim…ora se ouvi.
O Ronald fez um histórico, parece que ele é expert hohoho. E ficou sensas… (Veja lá!)
E mais:  falou nos orangutanguinhos.
Que se você não sabe são meus animais preferidos e estão em vias de extinção…Mas também quem não está?:-o(((
Valeu, Rurunardo SAN. A coisa toda será dia 08/08/08, mas que  dia ótimo para falar deles.
Danke schön!
Para TODAS as meninas e TODOS os meninos: Chico Buarque e Elza Soares, com direito a ilustração do ANGELI -clique, plz
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ADENDA:
Para uma abordagem preciosa sobre o escritor latinoamericano (nasceu no Chile) ROBERTO BOLAÑO, aqui cinco preciosos post no pensador mais selvagem entre os pensadores selvagens. Clique. O ganho é seu!

Fragmentos de um evangelho apócrifo (I)

Franco Murer (Italia-século XX)

Franco Murer (Italia-século XX)


3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
4. Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto.

5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.

6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.

7. Feliz o que não insiste em ter razão porque ninguém a tem ou todos a tem.

8. Feliz o que perdoa aos outros e o que se perdoa a si mesmo.

9. Bem-aventurados os mansos porque não condescendem com a discórdia.

10. Bem-aventurados os que não têm fome de justiça porque sabem que nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.

11. Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.

12. Bem-aventurados os de limpo coração, porque vêem a Deus.

13. Bem-aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu destino humano.

14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.

15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum homem a veja. Deus a verá.

16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.

17. O que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.

18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.

19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.

20. Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide…

24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido, com razão muitas vezes.

25. Não jures porque todo juramento é uma ênfase.

26. Resiste ao mal, mas sem espanto e sem ira. A quem te ferir na face direita, podes oferecer-lhe a outra, sempre que não te mova o temor.

27. Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.

28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justica e nao é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.

29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de comprazer tua vaidade.

30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.

31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu o erro.

32. Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida.

33. Dá o santo aos cães, deita tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.

34. Busca pelo agrado de buscar, não pelo de encontrar…

39. A porta é a que escolhe, não o homem.

40. Não julgues a árvore por seus frutos nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.

41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia…

47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.

48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas.

49. Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.

50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.

51. Felizes os felizes.

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Jorge Luís BORGES (1899-1986). O Elogio da Sombra. Trad. Carlos Nejar e Alfredo Jacques. (Rev Trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz), 1969. IN: Borges, J. L. Obras Completas. S. Paulo : Globo, 2000.

N.E. Borges fará outros fragmentos apócrifos , um dos quais em Os Conjurados.

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 Este post é  dedicado ao  Amigo Ricardo [de Medeiros Ramos] Filho Escritor talentosíssimo, ganhador de vários prêmios (veja este aqui)  e que num mundo tão frio e cinzento e de ligações tão oscilantes e frágeis, que se rompem, às vezes de forma incompreensível (leia-se Zygmunt Bauman )-, ele, ao contrário,  lindo e elegante (Lady Cordélia que o diga)  ilumina esses meus difícieis dias gris dizendo o que se pode ler aqui, (comentário nº 16) e que eu imodestamente não cometeria a deselegância de esconder;-))      Não é o má-xi-mo?  Pois é! Eu fico sem poder dizer mais nada.
BTW,
Leia esse post e saiba mais sobre o
Ricardo – o Lord Broken-Pottery e a escritora Vivina de Assis Viana que é uma querida, mas tão desaparecida dos meus olhos amazônicos.;-)

Franco Murer

 

 

Madame, classe é classe(*)… e ‘A modernidade da tradição’)

Pois é...e tem mais.

Pois é... e tem mais;-)

Pois é, hoje amanheci desse jeito, não que nos outros seja diferente;-))) mas hoje foi de-mais. Olhem só, tipo assim bem Broadway.
Falando nisso, a Biscoito Fino, que demora mas não é boba (e como não é!) lançou o maravilhoso disco do meu querido cantor e amigo Marco Sacramento: A Modernidade da Tradição.  Se vc for olhar (e ler) o ABOUT ME? l/v/erá que desde 2001 eu já dizia que ele era o melhorrrr cantor brasileiro, depois de Orlando Silva – na fase áurea –  e João Gilberto que provou que  a perfeição existe.  Aê, Sacra! Corram!
E entre tradição e modernidade, mon coeur balance:-)

Ah sobre a Jean Muir, podem ver aqüi:-).
(*)– Nem sei por que estou es-cla-le-cen-do:”Madame, classe é classe” era um bordão de um ator que fazia o papel de mordomo num reclame (?) das louças ou whatever da marca Tramontina. Só que isso faz muito tempo. Foi na Era plectocênica e ninguém, a não ser eu e os dinossauros, era nascido. Hohoho.”Sweet Mary, ;-) The Kinks é ,claro, para todos, mas é especial procê,
Ah cadê o Fenômeno?;-))))

PAINTING & MUSIC – CROSSOVER: Robert Black, Ige D’Aquino, Cláudio Boczon

Absolutamente imperdível:

Performance no Conservatório e no site USTREAM.tv

Performance no Conservatório de Tatuí e no site USTREAM.tv

Ai de quem não assistir!;-) Eu estou de olho em vocês!;-)
Eles são a vanguarda da vanguarda, the cream of the crop da artes.
No site da USTREAM – (AQUI) você se “matricula”;-) e faz login para assistir, certo?

Olhem só:
O contrabaixista (double bass) americano Robert Black e o famoso e reconhecido artista plástico brasileiro Ige D´Aquino fazem performance inédita no Brasil:

Música e pintura, duas importantes vertentes da arte, executadas simultaneamente num mesmo palco.

Com essa proposta inovadora, o contrabaixista americano Robert Black e o artista plástico brasileiro Ige D´Aquino apresentam-se no teatro “Procópio Ferreira”, do Conservatório de Tatuí, a 130km de São Paulo, no dia 26 de julho a partir das 20h30.
A performance de música e pintura, denominada “Painting Music – Crossover Performance Multimidia”, já foi executada na Europa e Estados Unidos e promete surpreender os espectadores.
Também participará da performance o artista plástico curitibano Claudio Boczon. (o bonitão de óculos) :-)
A ação também será realizada nas cidades de Itu e Campinas, também no interior de São Paulo.
Em “Painting Music”, artistas que dominam diferentes linguagens da arte contemporânea fazem apresentação única. Enquanto Robert Black executa música atonal em seu contrabaixo acústico, o artista plástico Ige D’Aquino pinta sobre telas amplificadas (microfones minúsculos são fixados atrás das telas) – há, ainda, envolvimento de Claudio Boczon conectado à tela, com sintetizador que constrói uma base musical para o artista plástico e o contrabaixista trabalharem.
Segundo Ige D´Aquino, um artista sofre a interação com o outro, resultando numa catarse: o músico utiliza pedais eletrificados para prolongar a sonoridade de seu baixo com o arco enquanto o pintor utiliza-se dos pincéis e espátulas sobre as telas indicando uma percussão na tentativa de acompanhar o músico.
“Ao término da performance, Robert Black e Claudio Boczon interferem na tela com seus cabelos pintados ou ‘chicoteando’ as telas com o arco ou arremessando o corpo contra as telas ou… como foi dito, é improviso, tampouco os artistas sabem o resultado final”, afirma Ige D´Aquino.
A parceria de D´Aquino e Black já completa 10 anos de atividades no Brasil e no mundo. A participação do artista Claudio Boczon – o bonitão de óculos, é novidade e deverá enriquecer a performance.
A apresentação tem apoio cultural da Sabesp. A criação coletiva, ao vivo, resultará numa obra de arte que será doada ao Conservatório de Tatuí.
RESSALTE-SE que em Tatuí a iniciativa terá caráter filantrópico: os 437 ingressos disponíveis serão trocados por alimentos não-perecíveis que, posteriormente, serão doados ao Fundo Social de Solidariedade.
********

Clique em ” more” que você terá uma mini-bio de cada um dos três artistas que nos privilegiam com sua performance, OK?

Leia mais deste post

FASTER…

faster russ_meyer
Queridos:
Uma ‘viagem’ e volto no final do mês.
Mas não podia deixar de dizer que o *rumor* mais quente, em termos de cinema – cinema mesmo ;-))- é o remake desse filme cult, fantástico que adoramos. O mais cult e mais pop. Ou o pop mais cult. Vocês vêem aí;-)
Adivinha por quem?
Só posso desejar que tudo dê certo e que quem não conheça procure conhecer. O filme existe em DVD, aí pertinho da sua casa.  Repetindo, o filme é cult é crássico e é pop. Quer mais?
Mas isso nao é mesmo  a cara do meu San Quentin?;-) Aê Taranta!
OK, tá certo que Grindhouse foi…nhan, mas… vida de artista é isso. Olha o Odair José, né não, Marie, querida?

Torçam por mim,  wishmeluck, OK?  (obrigada, obrigada!)  assim que possa, passo por aqui …
Beijos, obrigada por tudo  e… tiau!

P.S. Eu ia deixar uma citação do Nietzsche sobre a vaidade, mas… pensei melhor e entre Nietzsche e Tarantino, advinhem quem venceu?;-)

Beijos e um especial para você, querido. Volte logo, sim?

INCOMPLETO(S) – Updated

… em verdade, sempre será conto, aquilo que seu autor batizou com o nome de conto.”
Mario de Andrade. in “Contos e contistas”.

Não sei se alguém vai se interessar, mas é que fui fazer a, digamos, apreciação de um livro, do qual ouvi/ouli coisas espantosas….

Aí todos já sabem: assim que comecei a ler o livro, fiz  uma grande “viagem para as Ilhas Polinésicas”, (os que sabem, sabem) e agora o bendito do livro não me deixa em paz.
Falar por falar, eu podia. Parece que sei escrever um pouquinho.
O caso é que o danado do livro é muito mais do que é,  e mais ainda do que  parece ser. Mais do que ouvi escrito;-) e, em alguns casos, em direção oposta. O que não é mau, muito pelo contrário. Só mostra as inúmeras possiblidades que o  livro tem de *ser”.
E como todos sabem, eu – embora ache que *TUDO É INCOMPLETO* – diante de um livro desses,preciso saber mais, ir mais além. E se for para falar dele, qualquer coisa que seja, ou dependendo dos inúmeros aspectos que o livro  apresente e se ofereça, às vezes em entrega só aparente, eu tenho que dizer: aguardem, mas… leiam logo o seu, a 1ª edição já esgotou e agora só tem essa edição, em formato pocket book. A que me coube.
Mas também para que não fiquem esperando tanto (pelo menos, não  taaanto) de mim, bem entendido, o livro é sempre mais do que se espera, ficam logo algumas coisas interessantes que tive de ler e ouvir, além do livro.
E que partilho (não quero roubar de) com vocês.

capa do livro na forma pocket book

SERVIÇO:
Autor: Albano Martins Ribeiro
Título: INCOMPLETOS:
-Contos (quase) eróticos
Ano: 2008
Ilustração: Eduardo Schaal

Edição Os Viralata (2ª)/ 100 p.

Não liguem muito pra esse “quase” eróticos. Na minha opinião, é claro.

Links correlatos:
Laboratório da Leitura – ouçam, em especial, a parte sobre literatura independente –  e me digam.

E vejam só quem é a entidade que escreveu o livro: o AUTOR! o AUTOR!
Aqui- no
Site do Autor

E o blog do Autor.

Pois é, vão por mim. E  tchau.

Disclaimer to myself: Pode ser que eu “me” ameaçanndo assim, não escreva ou me impeça de escrever uma tese sobre conto, narrativa, fluxo de consciência, conto breve, monólogo interior etc etc.. E diga simplesmente por que acho que o livro é muito bom. [E que o excelente é que é o inimigo do bom;-), viu Albano?]

E impeça, principalmente, que eu  queira compará-lo a Julio Cortázar ou a algum outro escritor. O Albano não lembra ninguém, ele já tem uma escrita que é a sua  identidade própria como escritor.
Agora, vem cá: Por favor, nada contra quem vê similitudes, ou influências, ou ressonâncias de um outro autor. E falo isso porque li esse ponto de vista em resenhas feitas por pessoas  cuja opinião respeito muito. E isso não é mau. Reflete, como já disse a riqueza da fortuna crítica do danado desse livro;-)))

Um beijo a todos.

E não me aguardem. Vão lá na página do Projeto relacionado à Literatura Independente Os Viralata, um projeto fantástico de bom, vejam tudo. Ou escrevam pra ele.

Smacks, babes.

Eu volto assim que clarear mais um pouco o “vale  das sombras” ou,  como diz a Cat, quando passar “A cinza das horas…”

♣  ♣  ♣

EM TEMPO: Recomendo fortemente a leitura deste artigo:

ESPECULAÇÕES, de Carlos Eduardo Martins.

Comentários  são bem-vindos.

ALUMBRAMENTOS: misticismo e erotismo em MANUEL BANDEIRA

Albayde, Alexandre Cabanel, 1848

Por toda a obra poética de Manuel Bandeira (Recife, 1886 — Rio de Janeiro, 1968) encontraremos poemas nos quais misticismo e erotismo se fundem em ‘síntese feliz’.
Um dos mais expressivos é “Alumbramento“, escrito em Clavadel, na Suíça, em 1913, e que também aparece no livro Carnaval,em 1919.

Descartando-se, desde já, a idéia de que Bandeira deva ser considerado poeta católico, como um Dante em italiano, um Claudel em francês, um Gerard Manley Hopkins em inglês, um Silesius em alemão, um Juan de la Cruz em espanhol ou um Murilo Mendes em português, é mais que plausível considerá-lo como poeta religioso e até místico.  Sim, “religioso sem igreja” daí que muitas vezes entregue-se ao misticismo lidima e abertamente; em outras vezes, sinta-se a agonia da tensão, em outras, a inflamada afirmação do erótico, como se pode ver em Vulgívaga ou Duas Canções do Beco, ou Cântico do Canticos até o enlace reconciliado entre corpo e alma.

1-O relance erótico.

*ALUMBRAMENTO

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela… e sinto-a pura…

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma…

Eu vi a estrela do pastor…
Vi a licorne alvinitente!…
Vi… vi o rastro do Senhor!…

E vi a Via-Láctea ardente…
Vi comunhões… capelas… véus…
Súbito… alucinadamente…
Vi carros triunfais… troféus…
Pérolas grandes como a lua…
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

– Eu vi-a nua… toda nua!

Clavadel, 1913.

**CÂNTICO DOS CÂNTICOS

Ela – Quem me busca a esta hora tardia?

Ele – Alguém que treme de desejo.

Ela – Sou teu vale, zéfiro, e aguardo

Teu hálito… A noite é tão fria!

Ele – Meu hálito não, meu bafejo,

Meu calor, meu túrgido dardo

Ela – Quando por mais assegurada

Contra os golpes de Amor me tinha

Eis que irrompes por mim deiscente…

Ele– Cântico! Púrpura! Alvorada!

Ela – Eis que me entras profundamente

Como um deus em sua morada!

Ele – Como a espada em sua bainha.

Nota – Não confundir (sei que os leitores mais atentos não o farão) com os poemas da produção pornográfica de Bandeira que é, realmente, *hot*;-).
Mas, notem o poético termo *deiscente* como imagem do órgão sexual feminino. Em morfologia vegetal, fruto deiscente é aquele que se abre, maduro, deixando escapar as sementes.
Notar também que o toque místico no erótico é a alusão ao livro búblico mais erótico que há e que é… o Cântico dos Cânticos.

III- VULGÍVAGA
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos.

Fui de um… Fui de outro… Este era médico…
Um, poeta… Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie.
Que inspira… E aos tímidos – o orgulho.

Estes, caçôo e depeno-os:
A canga fez-se para o boi…
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!
E todavia se o primeiro
Que encontro, fere a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo… dou dinheiro…

Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas quebrada
Do seu colérico arremesso…

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas…

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico

É a visão de um prostituta, é um caso de empatia próprio dos grandes criadores. De viver sentimentos e estados de espírito alheios a ele. A raiz da palavra é vulgus, (aquele,a que se avilta ou que se prostitui).

♣♣♣

2-A CONTRIÇÃO – MÍSTICA: SEPARAÇÃO E UNIÃO CORPO E ALMA

CONTRIÇÃO
“Quero banhar-me nas águas límpidas
Quero banhar-me nas águas puras
Sou a mais baixa das criaturas

.Me sinto sórdido

Confiei às feras as minhas lágrimas
Rolei de borco pelas calçadas
Cobri meu rosto de bofetadas

Meu Deus valei-me

Vozes da infância contai a história
Da vida boa que nunca veio
E eu caia ouvindo-a no calmo seio

Da eternidade

Os momentos místicos e eróticos em Bandeira não são estanques . Este poema é do seu livro Estrela da Manhã (1960). E foi comparado pela sua majestosa religiosidade aos Salmo 50 da Bíblia.

♣♣♣

3- A SEPARAÇÃO CORPO – ALMA

air

Manuel Bandeira teve seus momentos de agnosticismo. E até de satanismo à la Baudelaire, Verlaine e Rimbaud:
Veja, por exemplo, do livro Belo, belo o poema ARTE DE AMAR. Desde Ovídio, todo grande poeta escreveu sua arte de amar.
Note que esta de Bandeira é, ao mesmo tempo, bela e estranha, porque é EXCLUSIVAMENTE carnal e faz a linha, obviamente, da separação entre corpo e alma:

A ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

♣♣♣

3.1 A COMUNHÃO CORPO E ALMA

NU
Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
– Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –
Brilham. Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma

Nua, nua, nua…

In: Estrela da Manhã, 1960.

Para esta tentativa, e sob esta rubrica, nada mais lógico e significativo que concluir com outro também conhecidíssimo poema de Bandeira, cujo título já denota uma ‘síntese feliz’ entre o misticismo e o erotismo, entre a carne e o espírito, entre corpo e alma.


UNIDADE

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.

[Manuel Bandeira]

♣♣♣

Manuel, Bandeira do Brasil, meu poeta de culto e devoção, no 40º aniversário de sua morte.
Manuel, estrela da vida inteira, cuja única imprecisão foi dizer, um dia, que era um “poeta menor”. Errou. Mas confirmou sua grandiosidade.

♣♣♣

ADENDA: 1-Este post é dedicado a todos, claro, mas mais especialmente ao querido Amigo que é quem mantém o excelente blog Afinidades Efectivas.
. Pedindo desculpas pela primariedade do trabalho, sem esquecer que foi feito para ser contido em um blog.

2- Manuel Bandeira disse no Itinerário para Pasárgada: “Não há nada de que goste mais do que de música“. Ele é o Poeta brasileiro com maior número de poemas musicados. Escolho, não só por gosto pessoal, Azulão, musicado por Jayme Ovalle, cantado por Nara Leão, como pela noite inesquecível em que assisti Jessye Norman (oh yeah!) interprepretá-la na sua primeira vez no Brasil, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Dia inefável.

Esta gravação foi muito, muito gentilmente cedida pelo artista plástico e meu amigo querido Claudio Boczon. Além, claro, de ser o músico melhor e o DJ insuperável no mundo inteiro e na Santa Felicidade;-) Obrigada, querido, e milhões de Pocalunki, com l cortado, para você.

UPDATE importantíssimo:
Vejam que autêntica maravilha esse link, do INSTITUTO CAMÕES, uma conferência de Gilberto Mendonça Telles: “A experimentação poética em Manuel Bandeira”, com que a Tereza, amabilíssima, nos presenteou.
Não é por nada não, mas os leitores do Sub Rosa são, simplesmente *o* barato total;-) – Gíria que acabei de inventar…cuidado!

***
 Obrigada, querida, por enriquecer o presente feito ao nosso querido Amigo Réprobo.