Minúsculos assassinatos… máxima escrita

minúsculos assassinatos e alguns copos de leite

Não é que a Fal seja ‘apenas’ uma pessoa que escreve bem, ela é *a* escritora;aquela de vencer tormentosos desafios que lança para si mesma. A que não se desvia da vertigem quando transita da doçura e delicadeza do amor e do afeto até o peso esmagador da *HÝBRIS* (ὕβρις) que tinge as perdas , as ausências, as raivas sentidas e ‘indirigidas’ (inventei essa palavra agorinha, e daí?) e indigeridas.

São as belezas e valores e presenças que compõem a instabilidade do ser, convergências e exílios de sentimentos, frustrações , perdas e ranger de dentes, que nos projetam para os males e dores da s perdas e danos, das ausências que se quer ou não se quer esquecer. Mas que se pretende expor. E se tenta. Agora, expressar isso com maestria e torná-lo obra de arte, já é outro departamento, outro guichê, ali, mais para além do que chegam os médios, os medianos. Isso é para os grandes.”

Este é um excerto do que escrevi à época do  vient-de-paraître. Mais de dois anos depois, a cada vez que leio e releio o livro, quando o escolho para presentear alguém, a impressão é reforçada:
Na microscopia da escrita, desde o antes, Fal se dedica às tarefas de expor, sondar e fiar alma e emoções, grande empreitada que executa com a leveza das mãos que conhecem muito bem a fibra do tecido que recorta. Mãos que sabem ser sutis, penetrantes, delicadas e – não duvide – sem subterfúgios – com humor muitas vezes feroz.

Minha sugestão para presente. No Natal, mas não vejo porque só no Natal. Em todas as ocasiões.
E taí… um presente para você mesmo. Você vai ficar feliz com a lembrança. Vá por mim

E o livro vai ser adaptado para uma peça. Veja aqui.

****   ****   *****

Robert Goren

Image via Wikipedia

P.S: Como se não bastasse, Fal é fã do  Goren (ah! full metal). E eu, para ser gentil, deixei de assediá-lo:  agora, além do Clint eu estou apaixonada mesmo pelo Dr. (Sam Westerton)McCoy, the real McCoy. Fica tudo em família, tudo em casa, né, maninha?

Curtas e delicadas

the greeting /le Salut/1938/paul delvaux

the greeting /le salut/1938/Paul Delvaux

Felipe Fortuna (*) num  *exercício crítico*, cheio de  ironia e sarcasmo, fustigando o ridículo, o moralismo das mazelas tão amplamente terrenas da vida literária.  Retrata a esgrima dos contrários, a “discordia concors“, o cânone posto do avesso. A chamada lex inversa. Um certo tom muriliano e  talvez, sem querer, em algumas provocações, deixa ressair uma ponta de dor e sim, uma espécie de compaixão. Curtas e  cruelmente delicadas. Com ou sem *notalgia*.
O que você acha?

***

O provérbio transforma a realidade num vasto lugar-comum.

***

O poeta mais ou menos mostra seu poema a outros poetas mais ou menos. Juntos, decidem publicar uma revista e tudo termina sem mais nem menos.

***

Durante a Semana de Arte Moderna, quanto subiu o preço do café?

***

O livro de bolso não publicou os textos do artista minimalista. Por sua vez, impressa em papel bíblia, a obra extensa do poeta ficou reduzida ao Gênesis e ao Apocalipse.

***

O bibliófilo acaricia dia e noite o cólofon e o frontispício: fica sozinho entre livros por toda a vida, sem amor e sem folha de rosto.

***

De repente, percebeu que o escritor tinha muito mais livros publicados do que ideias.

***

O cantor popular afirma que suas canções são poemas. O poeta precisa transformar o seu poema numa canção, pois está sem dinheiro. Juntos, o cantor e o poeta concorrem à nova edição do Big Brother Brasil.

***

Dou um boi morto, de Manuel Bandeira, para não entrar em briga; e a boiada vai, como um navio, de Guimarães Rosa, para não sair.

***

O lugar-comum transforma o provérbio numa vasta realidade.

***

Tarde da noite, o PhD em sonetos se encontra com o aprendiz de poeta concreto. Juntos, fundam a Tradicional Família da Forma.

***

Durante a Exposição Nacional de Arte Concreta, quantos prédios foram erguidos em Brasília?

***

Uma epigrama mordaz, porém escrita pelo epígono. Ainda assim, sentiu-se no epicentro da vida literária, onde o que há de mais profundo é a epiderme, segundo escreveu o imitado poeta francês. À procura de uma epifania, acabou sendo apenas um episódio, que hoje se lê em epígrafe.

***

Fui tomando notas enquanto lia aqueles poemas muito eruditos, que, segundo me garantiu o amigo, “têm peso”. Em silêncio, lembrei que a dor na região dorsal se chama notalgia.

***

Há de tudo na internet, por que se preocupar? Já se pode surfar de Platão a Schopenhauer, de Anchieta e Euclides, de Deleuze a Derrida. Mas quem disse que o surfista tem tempo para ler em alto mar?

***

“O seu poema visual tem mesmo influência de Mondrian?” “Tem sim senhor, não seja quadrado…” “Mas eu estou apenas perguntando…” “Se meu verso não deu certo, foi seu olho que entortou.”

***

Então está combinado: eu escrevo o poema no domingo e você publica um comentário elogioso no sábado. A literatura brasileira só acabará quando for abolido o fim de semana.

***

Durante o Festival Nacional da Canção, as aves que aqui gorjeiam gorjearam como lá?

***

O poeta encontra a musa. Juntos, haveria um baby boom?

***

Agora que existe poesia feminina, gay, racial, religiosa, grupal, é hora de se preocupar com o leitor desamparado.

***

Aqui jaz o Príncipe dos Poetas, que deu seu reino por um enjambement e evitou o blog porque não suportava os numerosos acessos. Preferiu mesmo, juntamente com o trono, uma edição fora do comércio.

***

Ainda que mal lhe pergunte, e agora, José?

***

Concordo: cada um tem um modo de usar as palavras. Mas as palavras fazem amor, como lembrou Roland Barthes, e eu não vou ficar aqui plantado de voyeur.

***

Etiqueta, até onde entendo, é o uso da ética com o menor esforço possível.

***

“Sou professor de literatura e me especializei em vanguardas literárias.” “E que autores o senhor mais estuda?” “Aqueles que aceitam as vanguardas literárias.”

***

De dois em dois anos, durante a Bienal do Livro, quantos escritores ímpares comparecem?

***

O poeta mandou seu livro pelo correio, mas esqueceu de escrever na frente do envelope a crise do verso.

***

Durante a Festa Literária Internacional de Parati, quantos poetas herméticos mereceram tradução simultânea?

***

A realidade transforma o lugar-comum num vasto provérbio.
*** *** ****

(*) Publicado, com o título Pílulas de sabedoria, no  Jornal do Brasil Caderno Ideias & Livros. 31 Jan 2009.
Faz parte do seu livro, Esta Poesia e mais outra, 2010, lançado pela Topbooks.  Veja resenha de Antonio Miranda.
Do qual se falou aqui no Sub Rosa.

— ‘Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata, Felipe Fortuna estreou com o livro de poemas Ou vice-versa (1986), a que se seguiram Atrito (92) e Estante (97), este pela Topbooks, que no ano seguinte editou também Curvas, ladeiras – bairro de Santa Teresa, dedicado ao lugar onde o autor viveu no Rio de Janeiro. Esta poesia e mais outra reúne uma série de textos de crítica literária capazes de fazer o leitor refletir sobre os mais diferentes temas: do projeto totalizante do Livro de Mallarmé às origens medievais da canção “Coração materno”, sucesso de Vicente Celestino, passando pelo famoso ficcionista e crítico francês Philippe Sollers e pelos poetas brasileiros Armando Freitas Filho e Paulo Henriques Britto, entre muitos outros. Para o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero, que assina o texto de apresentação, “este livro invulgarmente perspicaz, erudito e espirituoso traz uma contribuição preciosa à nossa reflexão sobre a literatura e, em particular, sobre a poesia”.

Leia Felipe Fortuna –  por Antonio Cícero.
*
Site de Felipe Fortuna


*** **** *****
Leia mais deste post

O julgamento de Monteiro Lobato: vai para o Index?

Pessoas, vão por mim: se há alguém que entenda de flagelação, julgamento, veredicto e aplicação de sentença pela Internet esse alguém sou eu, e nunca escondi: quem sabe, sabe, quem não sabe, faça-me a delicadeza de não  perguntar.
Em geral, o carnaval dura muito, mas a essência é a do processo sumário: libelo e a contrariedade.  Claro que vai haver muita gente que se sente pessoalmente ofendida (o povo que adora ser protagonista mesmo que não lhe caiba sequer  o papel de figurante quanto mais o de coadjuvante) então, vou falar pouco e proceder, por questão de coerência,   atendendo a um mínimo da deontologia que é necessária, o registro aqui no Sub Rosa, do pouco que eu tenho lido, e que me sinto à vontade e não-impedida de referir. Não importando que eu esteja em acordo ou desacordo com seus conteúdos.
Claro que eu me lembro de Ezra Pound e, bem de tantos outros,  ah! sim, de Borges, sim de Jorge Luis Borges, outros que  já estiveram no Index (*).  Mas eles pertencem a um tempo em que não havia Internet e está claro que temos de nos adaptar novos  tempora e mores, não é mesmo?
Aos autos:-) Leia mais deste post

Passageira em Trânsito – Marina Colasanti

Marina Colasanti, escritora, contista, ensaísta e poeta  receberá, no dia 4 de novembro, pela 4ª vez, o prestigioso Premio Jabuti, categoria Poesia, com o livro “Passageira em trânsito”. O Sub Rosa, privilegiado que é, publica aqui uma recensão de autoria da também poeta  Magaly Campelo  Magalhães, em estilo preciso e sensível, acerca do livro de Marina.

Falando de Passageira em Trânsito, de Marina Colasanti, premiada com o Jabuti/2010 em Poesia.

Magaly Campelo Magalhães(*)

Delicioso o trânsito desta passageira desde os primeiros minutos em que seu avião taxiou na pista e ‘fez-se ave’, na figura criada por sua delicada percepção, elevou-se às alturas, descortinando um mundo de sensações, o ‘andar da paisagem’, o pressentido ‘rumor de águas escuras’ ou o fragor do mar que, ‘próximo, despenca´. O leitor sufoca, tal a intensidade das emoções captadas dos gestos humanos, da diversidade dos tipos e paisagens, da complexidade das aproximações, das aparentes ou não inclusões / exclusões, tudo isso guarnecido com reveladoras impressões pessoais. Esse agudo senso de observação mesclado ora de lirismo, ora de humor crítico, ou de sensualidade impressiona e encanta, como em:

Viagem por um fio Leia mais deste post

Benedito Nunes ganha Premio Jabuti 2010

Mais um prêmio relevante  (todos os prêmios e homenagens são mais que merecidos) para Benedito Nunes, o escritor, pensador, crítico, ensaísta e professor paraense Benedito Nunes.
“A primeira fase do 52º Prêmio Jabuti já foi concluída e comemorada pelos vencedores das 21 categorias da premiação. Uma delas é Teoria/Crítica Literária, cujo primeiro lugar é do paraense Benedito Nunes, com a obra A Clave do Poético. Editado pela Companhia das Letras e organizado por Victor Sales Pinheiro, o livro reúne uma série de ensaios sobre os pontos altos da produção de Benedito Nunes. A Clave do Poético – O crítico, filósofo e professor discorre nos ensaios sobre a filosofia de Nietzsche, Spinoza e Wittgenstein e vai até os mais recentes desenvolvimentos da literatura brasileira contemporânea.”

Leia mais aqui: Benedito Nunes recebe o Prêmio Jabuti…

Penso que os leitores do Sub Rosa são como eu mesma: adoramos saber do Leia mais deste post

Benedito Nunes – homenagem

Mais uma homenagem ao grande sábio:

mais homenagens

clique.

O professor, crítico, ensaísta, pensador e escritor Benedito Nunes ganha homenagem da Saraiva

Ele será homenageado em meio ao coquetel de lançamento da inauguração  da Saraiva Megastore, aqui em Belém, na quinta, 19, às 19 horas.

Leia aqui um perfil de um dos mais respeitados intelectuais reconhecido mundialmente, ainda em vida. Leia e aí então vc vai entender por que ele é uma glória, simplesmente o “mACSSimo”, um orgulho para o Brasil, em tempos de valorização de tanta mediocridade.

Ah! sim, não é por nada, não, mas é que eu vejo e leio por aí tanta gente se definindo como “filósofo” (grossas aspas e fat chance) que fica meio difícil a gente saber por que um estudioso e pensador da mais rara estirpe filosófica, recusa o título de filósofo ligado a seu nome.