If we don’t, remember me

Eu estava pensando assim, quem inventou a carta? Não a carta de baralho, que essas a gente sabe, estuda na escola, mas as cartas cartas mesmo, quando foram inventadas, quem primeiro se viu distante um do outro que teve a idéia de  “cobrir” a distancia e ausencia com uma… carta,  ou bilhete,  epístola, misssiva , não é? No Brasil, até onde se sabe  a primeira carta foi a de Pero Vaz e seguem sendo  (ou não são?) insubstituíveis, pelo menos até o aparecimento do telefone…  Pois bem, esse post é sobre palavras (a dita e a escrita) e as imagens, esse fascínio que pega de jeito gente como eu.

Então, tão: já não é mais novidade para ninguém, e eu corro o risco de ser a última da classe… mas, com dizem os nossos irmãos do outro lado do oceano,  mais vale tarde que mais tarde e aqui está minha homenagem  e agradecimento ao moço (meu companheiro de Tumblr) do blog IWDRM,  que é campeão absoluto no quesito, luxo, riqueza e poder:-)  Estou encantada, um amor de perdição, pelas GIF‘s! Este post foi adiado desde dezembro do ano passado e acho que jamais o publicaria pois cismei que as gifs não funcionavam (perdiam o sutil movimento) no WordPress. (bem, eu ainda não sei, me digam, vocês). Burrinha, eu. Obrigada, Cat Miron.

Voilà: algumas gifs, todas de amados meus, incluindo ele, o mais poderoso, que faz aniversário no dia 31, ai, Jesus, apaga a luz! o meu Clint, ô lá em casa!…

“Hi, Lloyd. Little slow tonight, isn’t it?”

The Shining – (O Iluminado, 1980) – meu filme ‘tenebroso’ preferido. Jack Nicholson, adorado. Um Kubrick perfeito que a gente vê de olhos bem… fechados, lembram? ♦ ♦ ♦ Ela.  Mais linda, rycah e phynah impossível! Kim Novak:

kim novak

“Only one is a wanderer. Two together are always going somewhere”. Vertigo (Um corpo que cai), Hitchcock, 1958.

♦ ♦ ♦ OMG!

clint rulz: the good the bad the ugly

“Every gun makes its own tune.” (The good, the bad and the beautiful, Três homens em conflito, 1966

♦ ♦ ♦

Mas nem só de GIF’s vive a nossa atual fantasia. Também há lugar para as imagens digamos, tradicionais (JPG). Leia mais deste post

Anotações

marlon brando, desconheço a fonte desta foto.

* * *

” Há dois pecados humanos capitais, dos quais todos os outros decorrem: a impaciência e a preguiça. Por causa da sua impaciência, foi o homem expulso do paraíso. Por sua preguiça nao retornou a ele. Talvez não exista senão um pecado capital, a impaciência. Por causa da impaciência, foi o homem expulso, por causa dela não consegue voltar. Tenhamos paciência — uma longa, interminável paciência – e tudo nos será dado por acréscimo”.

Diário Íntimo. Franz Kafka)

* * *

“A pessoa que não consegue enfrentar a vida – sempre precisa, enquanto viva, de uma mão para a afastar um pouco de seu desespero pelo seu destino… mas com a sua outra mão ela pode anotar o que vê entre as ruínas, pois vê mais coisas, e diferentes, do que as outras; afinal está morto durante sua vida e é o verdadeiro sobrevivente.”

Franz Kafka. Diários. Apontamentos de 19 de outubro de 1921

* * *

“Deus é sutil mas não é maldoso”
(Einstein)
* * *
* * *
“As esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vêm até nós.”
(Júlio Cortázar)
* * *

Entre mim e mim há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos…”

(Cecília Meireles)
* * *

“A gente sempre destrói aquilo que mais ama – em campo aberto ou numa emboscada.  Alguns, com a leveza do carinho; outros, com a dureza da palavra.  Os valentes, destroem com a espada. Os covardes destroem com um beijo.”

* * *

– “A pior forma de tirania que o mundo sempre viu é a tirania do fraco sobre o forte. Esta é a única forma de tirania que dura.”

(Oscar Wilde)
* * *

Não sei vocês, mas eu tenho, ainda, o hábito de fazer anotações em uma agenda. Claro que isso só vale para os que conhecem uma vida antes da atual, on line.  De tempos em tempos,  eu as revisito.  E,  de lá,  retiro essas notas. Outro dia, vi que o Carlos Drummond de Andrade até publicou um livro, dentro desse método. Chama-se  O Observador no escritório, 1943 . Por aqui e por enquanto,  estou observando o mundo, da janela do carro, dos consultórios ou laboratórios médicos. Vocês nem imaginam as maravilhas que tenho encontrado. Essas são algumas, poucas, que divido com vocês. O Marlon Brando, também.

Até mais ver/ler. Obrigada por cuidarem do blog. Ah! sim, não que não concorde com você que está achando que isso só se faz quando falta imaginação para um post mais comme il faut:-)

Ah! sim 2– :  tem aqui mais algumas do Millôr. Afinal, quem é que não sabe, uma, duas ou centenas de tiradas do Millôr? Algumas eu  quase não consigo escrever, morro de rir. Outras eu sei desde… antigamente.:-)

* Comida é bom, bebida é ótimo, música é admirável, literatura é sublime; mas só o sexo provoca ereção.
*É um desses livros que quando você larga, não consegue mais pegar”
* A falsa modéstia é o rabo escondido com o gato de fora.
* Grande erro da Natureza é incompetência não doer.
*O haddock é um bacalhau que venceu na vida.
*O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas.
*Não existe tendência para engordar. Existe tendência para comer.
* “Morrer é um coisa que se deve deixar sempre pra depois.”
*O importante não é o relógio; importante são as horas.
* O padre deu uma topada e fez um silêncio cheio de heresias
* Era um homem tão forte, tão saudável que um dia sentiu-se mal, foi ao médico e disse: Doutor, sinto-me fraco como um touro.
♣  ♣  ♣
*Há males que vêm pra pior.
*Eu posso não ser um bom exemplo. Mas sou um bom aviso.
* Quando você está fora de si, o pessoal vê melhor o que você tem dentro.
* Dinheiro compra até amor verdadeiro.
* À noite (na penumbra aconchegante das alcovas permissivas) todos os pardos são gatos.
* O quartzo é o mineral que fica entre o terzo e quintzo.
*Toda fotografia antiga é uma punhalada.
*Quem sai aos seus não endireita mais.
* A humildade é uma espécie de orgulho que aposta no perdedor.

♣ ♣ ♣

* Se os animais falassem não seria conosco que iriam bater papo.
* Nos momentos de perigo é fundamental manter a presença de espírito, embora o ideal fosse conseguir a ausência do corpo.
* Bahia – a maior agência de publicidade do mundo.
* O mal do mundo é que Deus e o Diabo envelheceram, mas o diabo fez plástica.
* Baiano só tem pânico no dia seguinte.

***^***^***^

* O maior erro de Noé foi não ter matado as duas baratas que entraram na Arca.-
* A morte é hereditária.
* Todo homem nasce original e morre plágio
* A psicanálise não tem cura.
* O dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro

O SEBO – Carlos Drummond de Andrade (updated)

***

O filme. O texto. A música.

onde mais se pode encontrar

the clock -o ponteiro da saudade judy garland v. minelli – onde mais se poderia encontrar um filme assim?

O amigo informa que a cidade tem mais um sebo. Exulto com a boa-nova e corro ao endereço indicado. Ressalvada a resistência heróica de um Carlos Ribeiro, de um Roberto Cunha e pouco mais, os sebos cariocas foram se acabando, cedendo lugar a lojas sofisticadas, onde o livro é exposto como artigo de moda, e há volumes mais chamativos do que as mais doidas gravatas, antes objeto de decoração, do que de leitura.
Para onde foram os livros usados, os que tinham na capa este visgo publicitário, as brochuras encardidas, as encadernações de pobre, os folhetos, as revistas do tempo de Rodrigues Alves? Tudo isso também é “gente”, na cidade das letras, e como “gente”, ninho de surpresas: no mar de obras condenadas ao esquecimento, pesca-se às vezes o livrinho raro, não digo raro de todo, pois o faro do mercador arguto o escondeu atrás do balcão, e destina-o a Plínio Doyle, ao Mindlin paulista ou à Library of Congress, que não dorme no ponto… mas pelo menos, o relativamente raro, sobretudo aquele volumeco imprevisto, que não andávamos catando, e que nos pede para tirá-lo dali, pois está ligado a circunstâncias de nossa vida : operação de resgate, a que procedemos com alguma ternura. Vem para a minha estante, Marcelo Gama, amigo velho, ou antes, volta para ela, de onde não devias ter saído; sumiste porque naqueles tempos me faltou dinheiro para levar a namorada ao cinema, e tive de sacrificar-te, ou foi um pilantra que me pediu emprestado e não te devolveu? Perdão, Marcelo, mas por 5 cruzeiros terei de novo a tua companhia.
Matutando no desaparecimento de tantos sebos ilustres, inclusive o do Brasielas chego a este novo. É agradavelmente desarrumado, mas não muito, como convém ao gênero de comércio, para deixar o freguês à vontade. Os fregueses, mesmo não se dando a conhecer uns aos outros, são todos conhecidos como frequentadores crônicos de sebo. Caras peculiares. Em geral usam roupas escuras, de certo uso ( como os livros ), falam baixo, andam devagar. Uns têm a ponta dos dedos ressecada e gretada pela alergia à poeira, mas que remédio, se a poeira é o preço de uma alegria bibliográfica?
Formam uma confraria silenciosa, que procura sempre e infatigavelmente uma pérola ou um diamante setecentista, elzeveriano, sabendo que não o encontrará nunca entre aqueles restos de literatura, mas qualquer encontro a satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é ótimo. Não há a primeira edição dos Lusíadas mas há do Eu, e cumpre negociá-la com discrição, para que o vizinho não desconfie do achado e nos suplante com o seu poder econômico. À falta da primeira, a segunda, ou outro livro qualquer, cujo preço já é uma sugestão: “Me leva”. Lá em casa não cabe mais nem aviso de conta de luz, tanto mais que as listas telefônicas estão ocupando lugar dos dicionários, mas o frequentador de sebo leva assim mesmo o volume, que não irá folhear. A mulher espera-o zangada: “Trouxe mais uma porcaria pra casa!”. Porcaria? Tem um verso que nos comoveu, quando a gente se comovia fácil, tem uma vinheta, um traço particular, um agrado só para nós, e basta.
A inenarrável prosmicuidade dos sebos! Dante em contubérnio com o relatório do Ministro da Fazenda, os eleatas junto do almanaque de palavras cruzadas, Tolstói e Cornélio Pires, Mandrake e Sóror Juana Inés de la Cruz… Nenhum deles reclama. A paz é absoluta. O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.

Carlos Drummond de Andrade

Agora, a música tem de ser um standard:

Outstanding Blossom Dearie singin’ The Best is yet to come

Este texto, o poster do filme e a música –   um presente de aniversário (soy tan pobre que otra cosa puedo dar...:-) para uma amiga muito especial.

Eu adoro esse filme: Minelli e Judy Garland?: não tem erro.

judy garland robert walker the clock 1945 dir vincent minell

judy garland e robert walker

A melhor tradução de flabbergasted

Flabbergasted já foi eleita há alguns anos a palavra mais bonita (?) da língua inglesa. Numa outra votação, deu *serendipity* Eu adoro as duas. Agora, traduzir já são outros ‘five hundreds’ .Vi isso (a eleição) há séculos, num dicionário online desses bons. Daí…

Minha homenagem ao CATLOVERSDAY ( * )

funny pictures-I am not often shocked. Right now I am totally flabbergasted.
see more Lolcats and funny pictures

(*) Muito lindão, não é? Que fique claro, no entanto, que foi com autorização expressa de minha filha, minha cã – a Dorothy (over the rainbow) Guimarães.

(**) Obrigada, figliolinha:-)

Haroldo Maranhão por Benedito Nunes

Minha homenagem no dia do aniversário de nascimento do grande escritor brasileiro HAROLDO MARANHÃO (Belém, 7 de agosto 1927 – Rio de Janeiro, 15 de julho de 2004). É também homenagem ao professor BENEDITO NUNES, pensador, crítico literário, ensaísta e escritor que, entre tantos prêmios nacionais e internacionais, recebeu no dia 20 de julho,  da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra e seu perfil, o “Prêmio Machado de Assis” de 2010, a mais importante comenda literária brasileira, concedida todos os anos desde 1941.

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EU e HAROLDO
eu_e-haroldo
por Benedito Nunes

Conhecemo-nos em 1943, eu com 14 e Haroldo com 16 anos, já ele então diretor de O Colegial, um jornalzinho impresso, que circulava entre os ginásios de Belém, publicando fotos e notícias de interesse estudantil. Haroldo foi o primeiro presidente do Grêmio Cívico e
Literário do Colégio Moderno, no tempo de seus fundadores, os irmãos Serra, Augusto e Osvaldo (Serrão e Serrinha como os chamávamos), e eu o segundo, nossas gestões sucessivas sob o regime de um benevolente despotismo esclarecido. Politicamente, estávamos na fase final da ditadura getulista, o chamado Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial. Iniciava-se entre nós uma longa amizade, regada por afinidades eletivas mútuas em torno de literatura e música.

Desde cedo Haroldo tinha biblioteca própria, distinta e separada da de seu ilustre avô, o jornalista Paulo Maranhão, e localizada em prolongamento da residência do pai dele, João, no terceiro andar do edificio art nouveau da Folha do Norte, à altura da redação, em prédio novo, de um dos jornais da empresa Folha do Norte, O Imparcial, que desde então eu freqüentava. Embora lêssemos muito, àquela época ainda éramos passadistas, combatendo o movimento [moderrnista] de 22 sem conhecê-lo. Por isso decidimos ambos fundar um círculo de defesa e culto do clássico Parnaso, a Academia dos Novos, organizada nos moldes da Academia Brasileira de Letras, unindo-nos a outros incipientes literatos de nossa idade, como, principalmente, Jurandir Bezerra, Alonso Rocha, Max Martins e Antonio Comaru, que se tornara voluntário da FEB. De modo que nos tornamos imortais muito cedo e por conta própria.
Mas também muito cedo Haroldo se fizera jornalista. Morava no jornal, tal como o outro no samba de Noel Rosa morava na filosofia: era Secretário do Vespertino da Folha do Norte, e habitava com a família no prédio onde também se redigiam e imprimiam os dois diários da empresa. Em 46, se não me falha a memória, descobrimos juntos o modernismo. E o sinal dessa entusiástica descoberta foi a publicação, desde aquela data, sob a direção de Haroldo, do Suplemento Literário da Folha do Norte, que teve como colaboradores, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira e de outros muitos poetas cariocas, paulistas e mineiros, alguns dos antigos membros da Academia dos Novos, tardiamente convertidos ao modernismo. A Faculdade de Direito do Largo da Trindade foi para nós outro lugar de reunião já aí ampliado pela presença de Mário Faustino, nosso amigo comum, que por algum tempo trabalhou na Folha, depois de ter sido cronista, numa acepção que não é a de hoje, de A Província do Pará, dirigida por Frederico Barata. Muito jovens, confluíamos os três em torno dos mais velhos, Machado Coelho, Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu, Raymundo Moura, Cléo Bernardo, Silvio Braga e Rui Coutinho, alguns desses reunidos conosco quase diariamente, de noite, sob a liderança intelectual do professor de Literatura, Francisco Paulo Mendes, numa das bancas ou mesas do Café Central, que, como uma das casas da infância de Manuel Bandeira no Recife, existe hoje tão só parado no ar da lembrança. Depois, por volta de 1960, Haroldo virou livreiro. Abriu a ‘Dom Quixote’, a melhor livraria de Belém àquela época, e nessa mesma década mudou-se para o Rio de Janeiro.

Paro por aqui, porque se não, terei que escrever duas biografias, tão entrelaçadas foram em vários momentos nossas vidas ao longo de uma amizade sexagenária – 61 anos – unindo juventude e velhice. Mas tenho que dizer, pelo menos, que a biografia de Haroldo correu por outras linhas além daquelas que escreveu à mão ou à máquina para o jornal que viveu e trasviveu: as linhas do conto e do romance, pois que foi, como autor de tantos textos literários, vinte ao todo, um dos grandes atores da literatura brasileira, a que deu uma pulsação ficcional extraordinária.
O momento de hoje em que o relembramos, tal como ele gostaria, em estilo escorreito, livre de adjetivaçães retumbantes, foi antecipado em sua novela, de título irônico senão sarcástico: A Morte de Haroldo Maranhão (1981). Proeza humorística de um homem que viveu intensamente setenta e sete anos, de um homem temulento – embriagado sem estar bêbado, na classificação tipológica de Guimarães Rosa, romancista de que se aproximou pela potência de criação verbal, e que projetando-se, como Dalcídio Jurandir, num plano de importância literária nacional e mundial, conseguiu ultrapassar a tradicional mediania regionalista do extremo-Norte do país. Como temulento, Haroldo foi um Dom Quixote da linguagem, um possesso ou um embriagado da língua portuguesa, usando, na fase final, em vez da lança do cavaleiro de Cervantes, um veloz computador, que lhe permitiu fazer da escrita uma rápida arma de crítica social, de autoconhecimento e de invenção poética da realidade.

Benedito [José Vianna da Costa] Nunes
Belém, julho de 2004
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Retirado de: EU E HAROLDO – por Benedito Nunes. Publicado em plaquette, Belém, 2006 – Homenagem do Governo do Estado do Pará, através da Secretaria Executiva de Cultura, e de todos os amigos de Haroldo Maranhão, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.(*)

Uma homenagem, nem tanto um necrológio, mas, reparem, um bem-humorado *elogium* de Benedito Nunes. O Mestre falando de seu amigo urdidor de histórias. Um temulento.

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(*) A plaquete foi enviada para mim, no Rio de Janeiro, em 2006, pela minha querida amiga, a jornalista Regina Alves, a melhor entre os melhores… Agora, estamos todos em Belém.

(**) No meu (outro) blog TEXTOS ESPECIAIS, leia entrevista de Benedito Nunes concedida ao Jornal “O LIBERAL” em 2007.

(***)
Na ilustração, temos a capa da plaquette: o retrato (foto) do Haroldo e a assinatura do professor Benedito.

Bom tempo.

“Um marinheiro me contou/ Que a boa brisa lhe soprou/Que vem aí bom tempo/  O pescador me confirmou/  Que  o passarinho lhe cantou/ Que vem aí bom tempo…” (Chico Buarque)

Delicado equilíbrio (aff… como o diz o maior blogueiro do mundo Rafael Galvão: “Sem trema. Acabaram com o trema. Coisa chata.”).

Meus grandes amigos, independente de idade, mais novos, mais velhos, amigos queridos, outros nem tanto, mas pessoas que de algum modo admirei, pessoas que amei como o querido Walter Bandeira, meu professor na Escola de Teatro,  *o*  cantor – confessa e confessada paixão musical de Elis Regina-poucos sabem disso)  enfim, pessoas que faziam parte da população afetiva do *meu* mundo. E do mundo em que  (me) vivi. Do mundo do qual, no tempo hábil, emigrei para  me impor – a partir deles – os standards de altitude e platitude que eu seguiria ou recusaria.

Não foi só Walter, foram vários. Mas em Walter homenageio todos eles. Cada um deles,  cada uma delas, nesses últimos tempos, , de maneira diferente, levam ao morrer, um pouco de minha compleição interna, dos *golden slumbers*; do desenho, do traço de minha existência (na concepção de Ortega y Gasset).

Sinto-me mais aferrada, mais ligada e mais amante de meus Amigos, dos meus mais íntimos.  Nem quero ir , nem quero que eles me deixem.

Daí os dois trechos: uma promessa, à qual me agarro. E como não posso deixar de ser quem sou, orgulhosa em minha solidão, busco o Poeta (um dos maiores) para o consolo de quem espera. Afinal, il faut avoir de la patience, la grande patiente…  Il faut “pacienter”.

“O trágico, na medida em que não depende da culpa, mas do momento em que o destino se cumpre, afasta-se da moral. Dificilmente podemos falar de moral quando há situações que não controlamos. Mas não deixam de ser trágicas, uma vez que são também irreversíveis, desequilibradas e injustas.”  Teócrito.

Meu carinho a todos. Bom fim de semana. Carpe diem!


PAULO MENDES CAMPOS (IV e V)- Feliz Aniversário, Paulo!

kiki de Montparnasse/Man Ray

Kiki de Monparnasse por Man Ray

SABEDORIA

Se acaso, por um momento, teu coração, como o de teu pai, ficar vazio, arruma a casa, abre a janela, põe tua roupa nova — para que o vento a caminho, mais uma vez, te arrebate vivo.
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Fotógrafo de parque faz instantâneo de eternidade.
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Vinho farto e mulheres limpas consolarão do exílio o estrangeiro.
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São seis os elementos: ar, terra, fogo, água, sexo e morte. Não, são sete: e lirismo.
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Sabedoria… a máxima seria anoitecer como um bêbado e amanhecer como um abstêmio.
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Maturidade é recolocar, em juízo, os dramas do adolescente.
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Rebeldia é instinto de conservação do entendimento.
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O diabo da escola da vida é a bagunça do método pedagógico.
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O bom historiador que escreve mal devia entregar o seu material ao mau historiador que escreve normal.
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Quase todos vivem em permanente rendição. Os melhores alternam períodos longos de rendição com tumultos libertários. E só os raros vivem em guerra permanente pela independência.
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A verdade, esta mitômana.
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O vazio me enche.
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O grave do homem grave é que ele não está fingindo: é grave mesmo.
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Fotógrafo de parque documenta para a posteridade o insuportável silêncio do anonimato.
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Executados os exercícios da dor, os ofícios humanos se arrastam numa gelatina desculpavelmente ridícula.
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A natureza para ser comandada precisa ser obedecida.
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Quem jamais foi traído não sabe o que perdeu.
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O povo é o silêncio. Serei o advogado desse silêncio.
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O amor amplia o horror da morte.
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Todo herói acaba chato.
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Medo. Tem-se. Mas não se deixa ele mandar na gente.
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Morte. Não estou pronto agora, mas, se ela chegar agora, estou pronto.
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Homem sou: e um bom pedaço do que é humano me é alheio.
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Mandamento marginal: não tirar ninguém de seu engano.
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APANHADAS NO CHÃO

– De um amigo meu, no bar: “Trabalho tanto que não tenho tempo para nada; à noite, bebo um pouco para lembrar as minhas mágoas.”

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– De um vendedor de cinzeiros de barro em Belém: “Se eu escrever [cinzeiro]com C, em vez de S, ninguém vai comprar.”
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– De um conhecido meu, quando lhe disse que certo homem público, embora de poucas luzes, era grave e honesto: “O jumento também é grave e honesto.”
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– Do mais preto, passando por mim, quando o menos preto lhe disse que ele só pensava em mulher: “Ué, pensar então em quê?”
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– De uma expressão mineira: “Fala mais que pobre na chuva.”
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– Do finado Humphrey Bogart: “Um homem está sempre duas doses abaixo do normal.”
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– De um forjador de provérbios: “Caranguejo idoso pensa muito e brinca pouco.”
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– De um velhinho, ante o ar conjectural do caixeiro, quando pediu na livraria um manual sobre limitação de filhos: “Não é para mim; é para papai.”
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– Do matuto para o médico: “Foi tiro e queda, doutor: a pílula desceu e parou direitinho na casa da dor.”
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– De um velho do interior ao provar soda pela primeira vez: “Tem um gostim de pé dormente.”
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– De Jaime Ovalle: “O importante não é saber se a pessoa gosta de uísque, mas se o uísque gosta da pessoa.”
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– De Camilo Paraguassu, em um poema: “Vista de Paquetá, a lua é linda.”
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– De Garrincha, muito absorto, meio segundo antes de ser dada a saída no jogo do Brasil com o selecionado soviético em 1958: “Olha ali, Nilton, aquele bandeirinha é a cara de seu Carlito…”
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– Do mesmo, contando ao colega onde comprara uma gravata (Roma): “Foi naquela cidade onde seu Zezé deu um tombo no vestiário.
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– Do mesmo para um companheiro de pelada: “Quer parar de driblar!”
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– De “Osvaldo Cabeça de Ovo, no dia em que seu time de areia perdia de cinco a zero: “Arrecui os arfe para invitar a catastre.”
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– Do treinador, também de praia, Trindade: “A missão do centrefór é atrapaiar os beque.”
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– De um outro treinador para o goleiro: “Carambolou, arreia.”
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– De um torcedor a meu lado, vendo uma jogada magistral do enciclopédia Nilton Santos, errando, paroxismado, na tônica: “Dá-lhe, catédra!”
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– De Graciliano Ramos, quando ouviu pela primeira vez um rouxinol: “Eta passarinho chato!”
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– Do cabo Firmino, na revolução de 30, promovido pelo comandante da Força Pública Mineira, por ato de bravura em batismo de fogo: “Uai, seu coronel, tava pensando que era manobra.”
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– De Hemingway sobre a famosa modelo Kiki de Montparnasse: “A única mulher que nunca dormiu em sua própria cama.”
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– De um estudante para mim: “Escritor é o Euclides! Olha só: O sertanejo é — vírgula! — antes de tudo — vírgula! — um forte — ponto!”

Paulo Mendes Campos (1922-1991)- De um caderno cinzento — Apanhadas no chão – Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro,1969

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Prestem atenção em todas, mas reparem a do “nosso” Graciliano;-)

Este post – no qual, reconheço não ter mérito algum, a não ser o carinho da escolha, é para todos, mas mui especialmente, um regalo para o meu Queridíssimo PAULO CUNHA PORTO, um Cavalheiro. Cavaleiro da Ordem da Jarreteira e dos Corsets . Honni soit…:-). Parabéns e Felicidade, all my best wishes pelo seu aniversário . Um bocadinho chateada pois ele está tomando de assalto os corações das meninas brasileiras. Que o digam Marie e Maríla;-).
Obrigada, imenso, pelos dardos! Você é simplesmente *o* MÁC-SI-MO!!!:-)

Meu presente musical .. ai, ai, vc não gosta de música brasileira, mas vou arriscar esta: