SR-10 : Delícias da Selminha: arroz duetto, camarão do Pará e bacalhau do Porto.(updated)

Seguinte, venham comigo:

O Sub Rosa, como (nem)  todos sabem, completa, no próximo dia 19 de setembro, 10 anos no ‘jardim florido de sua existência’ (hohoho). E como 10 anos, em valores internetianos, é uma loooonga vida, acho que a gente pode se permitir umas certas coisas, nunca dantes pensadas nem ousadas. Quem foi mesmo que disse que a cada dez anos é lícito perder a cabeça? Vai daí que hoje, como parte das intensas comemorações da efeméride (hahah, gostaram?), publico, com toda a pompa e circunstância, uma receita (é, sim, e feche essa boca!) da minha querida Selminha, a professora Selma Amadora Henriques Santalices.  Neste post,  tudo é dela, eu só fiz copiar a receita e claro, tirar as (nefandas) fotos (Pater peccavi).

Voilà, segurem os cintos e me digam qualquer coisa, depois.

Arroz DUETTO: camarão seco salgado e bacalhau.

ARROZ DUETTO (Camarão (seco salgado) e Bacalhau) by  Selminha
INGREDIENTES:

  • 600g de camarão salgado (fumado) seco e grande  (não são os da Bahia e sim os do Norte: Pará e Maranhão.
  • 2 xícaras(chá) de arroz  parboilizado (o que é isso?) ou arroz integral  –  *atenção*: não use o arroz branco beneficiado, o comum, de cada dia – você verá depois o porquê:-)
  • 600 g de bacalhau –
  • 2 cebolas grandes cortadas em fatias ou tiras.
  •  2 dentes (grandes) de alho amassados ou 3 se forem médios.
  •  1 tomate grande picado, com pele e sem sementes.
  • 100 gr de azeitonas portuguesas pretas sem caroço, picadas.
  • 1 xícara  (chá) de salsinha picada e coentro a gosto.
  •  1 colher de sopa de açafrão ou raminhos de açafrão. (não confundir com cúrcuma)
  • 1 vidro (250g) de leite de coco.
  • Opcionalmente, um tantinho assim de curry (caril), a gosto.
  • 1 pimentão vermelho picado (em cubos)
  • pimenta a gosto
  •  1 maço de brócolis
  •  Azeite de oliva, q.b – ou seja, a gosto.

MODO DE PREPARAR:

Dessalgue o bacalhau (ponha-o de molho de véspera mudando a água umas 4 vezes). Retire a pele e as espinhas, dê uma fervura, reserve a água e desfie o bacalhau em lascas ou pedaços médios. Refogue-o em azeite com bastante alho, cebola, tomate, pimentão, coentro,  cebolinha verde. Deixe apurar o refogado e reserve.

Descasque o camarão, dessalgue-o (deixe-o de molho umas 8 horas, trocando a água 3 vezes)  e reserve alguns – dos grandes e bonitões – para enfeitar. Refogue-o (em azeite) com cebola, tomate, pimentão, salsinha, manjericão.

Cozinhe os brócolis mas, por favor, não deixe que amoleçam, o ponto deve ser al dente, mezzo crocante. Separe as flores e refogue-os rapidamente em azeite. Reserve.

Cozinhe o arroz utilizando a água do bacalhau (se a quantidade for pequena, complete até o suficiente). Aqui, a explicação da “exigência” de arroz parboilizado ou integral: para ‘contracenar’ com o duetto bacalhau & camarão, o arroz não pode ser mole, tipo molenga, empapado ou mesmo tipo risoto. Deve oferecer resistência ao ser mastigado, ‘tendeu? Vá pela Selminha;-), que está aqui ao lado.

Adicione o leite de coco ao camarão refogado no azeite, e deixe ferver e então misture-o com o arroz. Em seguida, adicione o bacalhau. Só no final, isto é, depois de tudo, adicione o brócolis (a “crocância”:-), lembra?), as azeitonas, misturando delicadamente , por fim, a salsinha.

Agora, tal como o Michelangelo, contemple sua obra de arte, e ao invés de bater com o martelo, use a sua energia, seu bom gosto para enfeitá-la: pode usar azeitonas inteiras, aqueles camarões, insinuantes e bonitões cozidos com casca e flores de brócolis. Sim, pode usar ovos cozidos cortados em 4 partes etc.

Você pode fazer qualquer coisa que goste, acrescentar o que quer que você ache que vai bem no prato e sirva imediatamente, não sem antes pedir ao seu companheiro (a) que faça a escolha na carta de vinhos:-). Bon appetit!

Depois, é só correr para o abraço, beijinhos e carinho sem ter fim…

Arroz duetto:camarão do Pará e Bacalhau do… Porto

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Bom, sabem como é, não é? A receita da Selminha é maravilhosa mas também pode servir  apenas como um ponto de partida, você vê aí, pode imprimir a sua marca pessoal, afinal é a desobediência à receita que faz descer a ponte levadiça da sua criatividade. (viva o  clichê hihihi). Se você usar variações bem-sucedidas, por favor, deixe-nos saber. Mande-nos dizer.

Afinal é  assim que a banda toca, o mundo gira, foi assim que  saímos da Idade da Pedra e estamos aqui hoje, o Sub Rosa postando receitas ahá!:). Sem contar que Selminha, matemática (professora de Cáculo Diferencial e Integral e Cáculo Numérico – feche a boca de novo) e também apaixonada por química,   agora não quer saber de outra vida :  “faz chover” na alquimia dos saberes e dos sabores. E conta com você, diga lá:)

Por fim, aqui, Selminha e … a garotinha do  Wizard of Oz, over the rainbow, elas são as minhas duas meninas,  minha versão pessoal do Rose et Bleu (Les demoiselles Cahen d’Anvers) d’après Renoir. Digam se elas não são iguaizinhas(sp):-)

Disclaimer: isso foi antes, agora não faço mais a maldade” de colocar vestidinhos na Dorothy. Pater peccavi, e perdoai-me meu Deus, eu não sabia o que fazia. Sorry:-(

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UPDATE: (em 25/08/2011): Justiça se faça, sobre a culinária paraense, seus peixes, frutos do mar e outros departamentos, nada como esse blog, dessa mulher-maravilha, maravilhosa, carioca, apaixonada pela minha/nossa terra: a gastrônoma Andrea Potsch. Dê uma lida aqui e veja porque a culinária é uma arte nobre. Apicius (tanto o nobre romano quanto o nobilíssimo brasileiro) que o digam. Cultura é isso!
(**) Sobre o grande jornalista brasileiro, Apicius, ou Roberto Marinho de Azevedo, Rebecca Lockwood escreveu esta brilhante monografia. q.v.). Rebecca , entre outras tantas distinções, é formada em Jornalismo,  UniverCidade RJ.  A  formação gastronômica – Chef de Cuisine, pela École Le Courdon Bleu de Paris. E mais, Curso de Iniciação à Prova de Vinhos Integrado na Equimagos, em Portugal. Confiram no site.

Sorry, banlieue:-) – que pode ser traduzido pelo simpático e reconfortante: “Te mete!”
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Ah! e já que falaram em música. Olhem, digo, ouçam esta. Se combina com a ementa, eu não sei, mas que é divina, lá isso é:

Billie HolidaySolitude de Duke Ellington, Eddie DeLange e Irving Mills (adouro, adouro, adouro):

http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8333004-ef3

Gentlemen Like Alfred Hitchcock Prefer Blondes

São muitas as desvantagens (nem sei se há vantagem alguma) de se manter um blog por dez anos, uma delas é que as datas queridas, lembradas, se repetem, o amor se renova (ou não, claro) e a cada ano fica-se sem saber o que dizer o que falar, o que mostrar o que relembrar. Mas quem sabe sabe. Os que nos conhecem adivinham a que nos leva a  “devoção”.  Nunca esqueço.
Geralmente só se rememoram as datas chamadas  “redondas”, mas isso não é comigo. Se deixo de escrever a respeito é por total incapacidade e não falta de vontade.

Assim, hoje, dia do aniversário de nascimento do bruxo, do mago, do fetrichista, do  KBE  Sir Alfred Joseph Hitchcock (Londres, 13 de Agosto de 1899 — Los Angeles, 29 de Abril de 1980)  eu tenho pouco ou nada a dizer que  já não tenha sido dito.

Por exemplo, vejam aqui em  2007: Happy Birthday,  Alfred Hitchcock.
Ou mesmo aqui, também, em 2009 – : The Hitchcock’s Best Blondes.

Não deixem de ler e notar os poucos mas maravilhosos comentários…;-) Chic alors!

Fico então com o encanto irrecorrível das imagens. E lembrando que  “Gentlemen (like Alfred Hitchcock) Prefer Blondes uh la la – deixo aqui  algumas loiras-fetiches da “coleção Hitch”. As ‘menos votadas’ , tadinhas que não nasceram Grace Kelly, Ingrid Bergman ou mesmo a adorável, e lindíssima, Kim Novak , inexplicavelmente esnobada pelo bruxo, digo, fetichista, perv…ah! digo, mestre. Voilà, as louras do indirect sex appeal, do inner fire e cool surface:-)



Pois é, uma delas, entre essas lindonas, marrravilhosas, aí acima, foi a única atriz a receber um OSCAR® por atuar num filme dele. Engraçado, isso nunca me ocorrera antes… é são as vantagens se ter um blog por 10 anos. pisc*

É isso. Elas… Você sabe…

Whaddya got?

Mildred: “What’re you rebelling against, Johnny?”
Johnny:  “Whaddya got?”

Antológico. Lembrei hoje.

Eu volto, tento fazer uma homenagem ao escritor Haroldo Maranhão mas, como sempre, tenho a impressão de que não vou conseguir. Vamos a ‘veire’, ai, ai, ai . O.O

P.S. ” E , juro, falando em cinema: sabe a Denise Richards, ex-entre-tapas-e-beijos-Sra. Charlie Sheen? Pois é, contrariando a ditadura do bom gosto e coisa e tal, eu na minha fase moouito rebelde:-) peguei a segunda metade  de Garotas Selvagens (Wild Things, 1998), com a própria “no auge do pelotaço”.
É filmeco, mas muuuito bem levado, pelo John McNaughton um “thriller” (tem também Matt Dillon, Kevin Bacon, Neve Campbell de “white trash”, Bill Murray (oba! olha só, não disse que vale uma olhada?), Theresa Russel, Robert Wagner e outros menos votados) com um “plot twist”, e um “plot twist”, e um “plot twist”, e um “plot twist”, e um “plot twist”, e um “plot twist”, e um fim, e, nos créditos finais, *outro* “plot twist”, e *mais outro* “plot twist”…  Pipoca pura.
Nada mal pra uma noite fria.” (aí no Rio, claro, Carlos e Julio).

Ainda volto, um dia, com uma lista de filmes analisada pelo meu crítico (de arte/cinema do coração). Socializo, juro.

Coda: Poiesis e Techné

   

     A publicação do  texto a seguir foi inspirada pela Dra.  Marília Jackelyne Nunes, a minha querida Marília, preciosa amiga, de muito tempo, a quem tanto admiro, sobretudo pela lucidez e inteligência proficientes. Advogada e poetisa, dupla qualificação que maneja com igual habilidade, conduziu um vivo debate, no Sub Rosa, a respeito do fazer literário, seu valor, sua utilidade, seu sentido, sua função e objetivo. Movida pelo apreço a este espaço, em minha ausência, acorreu voluntariamente no difícil momento, introduzindo uma discussão acerca do valor das duas linguagens, a poética e a técnica. Claro está que ela “mimetizou” o verdadeiro questionamento do tema. Seu objetivo real, creio -firmemente -, era acender a troca de opiniões – o velho exercício grego tão caro a esta que vos tecla.
Como o tema geral do debate é de minha particular preferência e estima, só posso agradecer à querida Marília, pelo desvelo, carinho e respeito. Pela sensatez e sabedoria (tão jovem ela é) com que ela sempre nos proporciona viver plenamente a única e breve vida que nos é dada. Ter uma amiga como a Marília  só faz me dar uma inveja danada de mim mesma:-). Pertinente ao tema, peço licença a todos os leitores, para dedicar a ela este curioso e esclarecedor(?) artigo.

“Psicoterapeutas estão sempre diante de um objeto de trabalho fugidio, fluido, impossível de ser aprisionado completamente nas teias da compreensão racional. A literatura técnica é preciosa, porém muitas vezes árida e complexa, fazendo com que o pensamento e a comunicação se tornem densos, pesados e obscuros.

Um jeito de sair desse dilema é ter contato com a poesia. Com ela se aprende a dizer o indizível, a falar e a pensar de um jeito que vai diretamente ao coração e aos sentidos, a expressar as coisas mais complexas de um jeito cativante e belo. Como exemplo, convido o leitor a um exercício lúdico com base em um soneto de Fernando Pessoa. Quero, através da justaposição de discursos diversos, alcançar uma região onde possa haver uma ressonância e fecundação mútua entre as diferentes formas de expressão. De um lado a científica, que rodeia e detalha o tema, com estrutura voltada para a coerência e a clareza. De outro, a poética:  fluida, vibrante, contundente, aberta. Vamos a ele:

“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.”

Nesta primeira parte do poema, o poeta pode estar descrevendo o fato de haver frequentemente, no processo de desenvolvimento pessoal, uma ruptura precoce (primeiros anos de vida) com algo muito essencial no âmbito emocional e psíquico. Há a criação como que de uma “casca” que não é realmente o indivíduo, uma camada que recobre a essência e que é mostrada ao mundo e a si mesmo como sendo o “eu”. Diversos autores descreveram esse fenômeno, com nomes e explicações diferentes, mas com diversas semelhanças entre si: Gerda Boyesen o chamou de personalidade secundária; Reich, de caráter neurótico; Winnicott, de falso self, Jung de identificação com a persona. Encontramos ainda em Freud o conceito de amnésia infantil, que apresenta ressonâncias com o tema abordado.

Verificamos que, apesar do falso self ser algo diferente da essência do ser, a maioria das pessoas está identificada com essa camada externa. Muitas vezes o fluir da vida e seus acontecimentos acabam levando à percepção de que há “algo mais”, que aquilo que parecia ser o “eu” na realidade não o é, e que permanecer nessa camada seria levar uma vida oca e sem sentido. O poema parece falar desse momento em que é percebido o vazio da armadura externa, e do desejo de buscar aquilo em si mesmo que é essencial, que necessariamente é infantil (uma ruptura dessa magnitude só poderia se dar num estágio precoce do desenvolvimento) e chora (sem sofrimento não haveria pressão suficiente para tal cisão).

Se fossemos utilizar o jargão, ficaria mais ou menos assim em linguagem técnica:

No meu desenvolvimento psicossexual, no decorrer da minha infância, houve conflitos que me fizeram sofrer. Meu ego, usando o recalque e outros mecanismos de defesa, tornou esse conflito inconsciente, havendo como consequência uma fixação da libido em uma das fases desse desenvolvimento. Gerou-se em mim uma típica amnésia infantil que me pro¬tege de memórias doloridas e conflituosas. Esse processo foi tão intenso e profundo que deu-se uma ruptura no contato com meu cerne biológico, criando-se em mim uma estrutura de caráter neurótico, uma personalidade secundária. Muito cedo na vida meu self verdadeiro não encontrou um ambiente que permitisse sua expressão espontânea e livre. Devido a isto, criei um falso self através da submissão às exigências ambientais e é isto que vivo hoje como sendo o meu eu, tendo a vaga noção de que em algum lugar de mim existe este self verdadeiro, aguardando um momento propício para vir à tona, qual semente em solo seco esperando a chuva. Isso tudo bloqueia minha circulação libidinal e minha capacidade de auto-regulação, a um ponto tal que impede o contato com meu desejo e com minha energia vital, e por isso sinto minha vida bloqueada e sem sentido. Quero reverter este quadro e creio que o caminho a ser trilhado nesse sentido é o de retornar ao momento do conflito infantil original para tentar resgatar a minha essência vital. Devo, para tanto, conscientizar aquilo que é inconsciente para poder resgatar o material infantil patogênico causador da minha neurose e do meu descontato comigo mesmo.

Observamos que a linguagem da psicanálise é mais detalhada e precisa. Mas nunca terá o sabor, o impacto e a concisão de um bom poema.
Podemos e devemos pensar como Freud, mas seria bom se pudéssemos nos expressar como Pessoa.
Como diz Helena Rosenfeld, “a arte, a linguagem poética e metafórica, é um dos meios pelos quais podemos tangenciar o indizível, roçar o não-representável, isso que escapa da designação, essa realidade que a linguagem busca e não acha”.

Fica aqui o convite ao leitor para que, caso tenha achado interessante a brincadeira, divirta-se com o poema completo:

“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.”

Ricardo Amaral Rego
Médico e psicoterapeuta. Diretor do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica.