Vou-me embora…

… pro passado.
Não o meu, nem, muito menos, o seu, claro *pisc,  mas…
Confira.
Será que é um canto de sereia?  Terá sido tão bom assim? Ah!

Ab-so-lu-ment  dé-li-cieux!

Depois, me conte.

****

Links adicionais, após leitura e com a ajuda preciosa da Rose e outros leitores, como Maria Helena e Selma:

O tempo passa.
Ramenzoni – história das marcas.
Marinetti.

RIMANCETE

RIMANCETE

À dona de seu encanto,
à bem-amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto,
O seu amante suplica:

-O que me darás, donzela,
Por preço do meu amor?
Dou-te os meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sem senhor…
– Ai não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço do meu amor?
Dou-te meus lábios (disse ela),
Os meus lábios sem senhor…
– Ai não me enganes assim,
Sonho meu! Coisa tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
-__ Dou te as minhas mãos (disse ela),
As minhas mãos sem senhor
– Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
Dou-te os meus peitos (disse ela),
Os meus peitos sem senhor…
– Não me tortures assim!
Mentes! Dádiva tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
Minha rosa e minha vida…
Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor…
– Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela?…
Deixas-me triste e sombria,
Cismo… Não atino o quê…
Dava-te quando podia…
Que queres mais que te dê?

Responde o moço destarte:
– Teu pensamento quero eu!
Isso não… não posso dar-te…
Que há muito tempo ele é teu…

MANUEL BANDEIRA. Ritmo Dissoluto.In: BANDEIRA. Manuel Carneiro de Souza BANDEIRA Filho) *Estrela da Vida Inteira *; poesias reunidas e poemas traduzidos). Introdução de Gilda e Antônio Cândido. Estudos de Otto Maria Carpeaux. Edição Comemorativa do Centenário de Nascimento do Bardo (1886-1986). Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1986 .

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ALUMBRAMENTOS: misticismo e erotismo em MANUEL BANDEIRA

Albayde, Alexandre Cabanel, 1848

Por toda a obra poética de Manuel Bandeira (Recife, 1886 — Rio de Janeiro, 1968) encontraremos poemas nos quais misticismo e erotismo se fundem em ‘síntese feliz’.
Um dos mais expressivos é “Alumbramento“, escrito em Clavadel, na Suíça, em 1913, e que também aparece no livro Carnaval,em 1919.

Descartando-se, desde já, a idéia de que Bandeira deva ser considerado poeta católico, como um Dante em italiano, um Claudel em francês, um Gerard Manley Hopkins em inglês, um Silesius em alemão, um Juan de la Cruz em espanhol ou um Murilo Mendes em português, é mais que plausível considerá-lo como poeta religioso e até místico.  Sim, “religioso sem igreja” daí que muitas vezes entregue-se ao misticismo lidima e abertamente; em outras vezes, sinta-se a agonia da tensão, em outras, a inflamada afirmação do erótico, como se pode ver em Vulgívaga ou Duas Canções do Beco, ou Cântico do Canticos até o enlace reconciliado entre corpo e alma.

1-O relance erótico.

*ALUMBRAMENTO

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela… e sinto-a pura…

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma…

Eu vi a estrela do pastor…
Vi a licorne alvinitente!…
Vi… vi o rastro do Senhor!…

E vi a Via-Láctea ardente…
Vi comunhões… capelas… véus…
Súbito… alucinadamente…
Vi carros triunfais… troféus…
Pérolas grandes como a lua…
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

– Eu vi-a nua… toda nua!

Clavadel, 1913.

**CÂNTICO DOS CÂNTICOS

Ela – Quem me busca a esta hora tardia?

Ele – Alguém que treme de desejo.

Ela – Sou teu vale, zéfiro, e aguardo

Teu hálito… A noite é tão fria!

Ele – Meu hálito não, meu bafejo,

Meu calor, meu túrgido dardo

Ela – Quando por mais assegurada

Contra os golpes de Amor me tinha

Eis que irrompes por mim deiscente…

Ele– Cântico! Púrpura! Alvorada!

Ela – Eis que me entras profundamente

Como um deus em sua morada!

Ele – Como a espada em sua bainha.

Nota – Não confundir (sei que os leitores mais atentos não o farão) com os poemas da produção pornográfica de Bandeira que é, realmente, *hot*;-).
Mas, notem o poético termo *deiscente* como imagem do órgão sexual feminino. Em morfologia vegetal, fruto deiscente é aquele que se abre, maduro, deixando escapar as sementes.
Notar também que o toque místico no erótico é a alusão ao livro búblico mais erótico que há e que é… o Cântico dos Cânticos.

III- VULGÍVAGA
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos.

Fui de um… Fui de outro… Este era médico…
Um, poeta… Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie.
Que inspira… E aos tímidos – o orgulho.

Estes, caçôo e depeno-os:
A canga fez-se para o boi…
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!
E todavia se o primeiro
Que encontro, fere a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo… dou dinheiro…

Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas quebrada
Do seu colérico arremesso…

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas…

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico

É a visão de um prostituta, é um caso de empatia próprio dos grandes criadores. De viver sentimentos e estados de espírito alheios a ele. A raiz da palavra é vulgus, (aquele,a que se avilta ou que se prostitui).

♣♣♣

2-A CONTRIÇÃO – MÍSTICA: SEPARAÇÃO E UNIÃO CORPO E ALMA

CONTRIÇÃO
“Quero banhar-me nas águas límpidas
Quero banhar-me nas águas puras
Sou a mais baixa das criaturas

.Me sinto sórdido

Confiei às feras as minhas lágrimas
Rolei de borco pelas calçadas
Cobri meu rosto de bofetadas

Meu Deus valei-me

Vozes da infância contai a história
Da vida boa que nunca veio
E eu caia ouvindo-a no calmo seio

Da eternidade

Os momentos místicos e eróticos em Bandeira não são estanques . Este poema é do seu livro Estrela da Manhã (1960). E foi comparado pela sua majestosa religiosidade aos Salmo 50 da Bíblia.

♣♣♣

3- A SEPARAÇÃO CORPO – ALMA

air

Manuel Bandeira teve seus momentos de agnosticismo. E até de satanismo à la Baudelaire, Verlaine e Rimbaud:
Veja, por exemplo, do livro Belo, belo o poema ARTE DE AMAR. Desde Ovídio, todo grande poeta escreveu sua arte de amar.
Note que esta de Bandeira é, ao mesmo tempo, bela e estranha, porque é EXCLUSIVAMENTE carnal e faz a linha, obviamente, da separação entre corpo e alma:

A ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

♣♣♣

3.1 A COMUNHÃO CORPO E ALMA

NU
Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
– Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –
Brilham. Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma

Nua, nua, nua…

In: Estrela da Manhã, 1960.

Para esta tentativa, e sob esta rubrica, nada mais lógico e significativo que concluir com outro também conhecidíssimo poema de Bandeira, cujo título já denota uma ‘síntese feliz’ entre o misticismo e o erotismo, entre a carne e o espírito, entre corpo e alma.


UNIDADE

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.

[Manuel Bandeira]

♣♣♣

Manuel, Bandeira do Brasil, meu poeta de culto e devoção, no 40º aniversário de sua morte.
Manuel, estrela da vida inteira, cuja única imprecisão foi dizer, um dia, que era um “poeta menor”. Errou. Mas confirmou sua grandiosidade.

♣♣♣

ADENDA: 1-Este post é dedicado a todos, claro, mas mais especialmente ao querido Amigo que é quem mantém o excelente blog Afinidades Efectivas.
. Pedindo desculpas pela primariedade do trabalho, sem esquecer que foi feito para ser contido em um blog.

2- Manuel Bandeira disse no Itinerário para Pasárgada: “Não há nada de que goste mais do que de música“. Ele é o Poeta brasileiro com maior número de poemas musicados. Escolho, não só por gosto pessoal, Azulão, musicado por Jayme Ovalle, cantado por Nara Leão, como pela noite inesquecível em que assisti Jessye Norman (oh yeah!) interprepretá-la na sua primeira vez no Brasil, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Dia inefável.

Esta gravação foi muito, muito gentilmente cedida pelo artista plástico e meu amigo querido Claudio Boczon. Além, claro, de ser o músico melhor e o DJ insuperável no mundo inteiro e na Santa Felicidade;-) Obrigada, querido, e milhões de Pocalunki, com l cortado, para você.

UPDATE importantíssimo:
Vejam que autêntica maravilha esse link, do INSTITUTO CAMÕES, uma conferência de Gilberto Mendonça Telles: “A experimentação poética em Manuel Bandeira”, com que a Tereza, amabilíssima, nos presenteou.
Não é por nada não, mas os leitores do Sub Rosa são, simplesmente *o* barato total;-) – Gíria que acabei de inventar…cuidado!

***
 Obrigada, querida, por enriquecer o presente feito ao nosso querido Amigo Réprobo.