Passageira em Trânsito – Marina Colasanti

Marina Colasanti, escritora, contista, ensaísta e poeta  receberá, no dia 4 de novembro, pela 4ª vez, o prestigioso Premio Jabuti, categoria Poesia, com o livro “Passageira em trânsito”. O Sub Rosa, privilegiado que é, publica aqui uma recensão de autoria da também poeta  Magaly Campelo  Magalhães, em estilo preciso e sensível, acerca do livro de Marina.

Falando de Passageira em Trânsito, de Marina Colasanti, premiada com o Jabuti/2010 em Poesia.

Magaly Campelo Magalhães(*)

Delicioso o trânsito desta passageira desde os primeiros minutos em que seu avião taxiou na pista e ‘fez-se ave’, na figura criada por sua delicada percepção, elevou-se às alturas, descortinando um mundo de sensações, o ‘andar da paisagem’, o pressentido ‘rumor de águas escuras’ ou o fragor do mar que, ‘próximo, despenca´. O leitor sufoca, tal a intensidade das emoções captadas dos gestos humanos, da diversidade dos tipos e paisagens, da complexidade das aproximações, das aparentes ou não inclusões / exclusões, tudo isso guarnecido com reveladoras impressões pessoais. Esse agudo senso de observação mesclado ora de lirismo, ora de humor crítico, ou de sensualidade impressiona e encanta, como em:

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Amor condusse noi ad una morte

Quando o olhar adivinhando a vida
prende-se a outro olhar de criatura
o espaço se converte na moldura,
o tempo incide incerto sem medida.

As mãos que procuram ficam presas,
os dedos estreitados lembram garras
da ave de rapina quando agarra
a carne de outras aves indefesas.

A pele encontra pele e se arrepia,
oprime o peito o peito que estremece,
outro rosto desafia.

A carne entrando a carne se consome,
suspira o corpo todo e desfalece
e triste volta a si com sede e fome.

PAULO MENDES CAMPOS
(Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 — Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991)

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1- Este soneto foi concebido em prosa. A divisão é minha seguindo o ritmo da ilocução. É o que mais (me) impressiona em Paulo Mendes Campos, o arrojo inventivo. Além de ele ser grande poeta, é claro. Que foi também cronista, contista, jornalista, redator de publicidade (propaganda), funcionário público (IPASE),  diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, entre outras ocupações. Foi também um grande tradutor tanto de prosa quanto de poesia. Foi um dos quatro cavaleiros da crônica apocalíptica, juntamente com Hélio Pelegrino, Otto Lara Resende e Fernando Sabino.
Alguns amigos meus acham que ele foi o primeiro blogueiro brasileiro:-). Eu concordo.

Sub rosa: Axiomas

Agora em meu retorno, após quase um ano no estaleiro, me vem uma sensação em que creio que não tenho mais ou quase não tenho mais nada a dizer em blog. Os blogs agora parecem fora de moda, depassés, exceto os de política ou os corporativos.
Isso merece um post: *para que serve um blog, after all?*(***)
Vejo uma quantidade imensa de blogs que eram meus favoritos e que ao se chegar lá há uma mensagem : “aberto exclusivamente a leitores convidados”, beijomeliga. Pfui! Triste! afinal o que  eu posso fazer pra ser convidada? Eles nem vão saber que eu fui lá:-( . Lembro  o  grande Groucho Marx:  “Não entro pra clube que me aceita como sócio”…
Então, fico chupando o dedo, imaginando que meu tempo (o tempo do blog) passou. É como diz na missa: ‘felizes os convidados par a ceia do Senhor’.
Volto cabisbaixa. E vou me queixar à Magaly que tem uma percepção muito correta do que acontece e do que deixa de acontecer:-)
Insisto, porém – já que estou alegre e cheia de vida (e cheia de amor pra dar, hoho) – pelo menos por algum tempo, nos meus poemas, nas minhas rosas e fico com a leve impressão de quando eu deixar de fazer o Sub Rosa, já vou tarde, como diria o Chico, na canção.
Me voilà:

AXIOMAS
Orides FontelaSempre é melhor
saber
que não saber

Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer

Sempre é melhor
desfazer
que tecer

Sem mão
não acorda
a pedra

sem língua
não ascende
o canto

sem olho
não existe
o sol .

Orides Fontela (São Paulo, 1940- 1998)
P.S. Não deixem de ler o artigo do também Poeta Donizete Galvão no mesmo site.
Infelizmente, esgotadíssimo, a Livraria Duas Cidades editou a obra completa de Orides, na admirável coleção “Claro Enigma”

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That is it.

***Em tempo, ainda em tempo:
Fui visitar o querido  Lord Broken Pottery e lhes digo, esqueçam tudo o que eu disse acima. Vim de lá a tal ponto tocada que  só posso, sem palavras, recomendar que leiam aqui:

Maria Guimaraes Sampaio

e aqui:

Alguém escreveu

Toques de encantarias. Alumbramento.

Deslumbramentos – Cesário Verde

Mylady é perigoso contemplá-la
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com a firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem! Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, mylady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais,
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor de Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas!

Cesário Verde
(1855-1886)

(*) Um poeta que influencia Fernando Pessoa, segundo Fernando Pessoa.

ONTEM FOI O DIA DA POESIA (II)

Tal como foi no ano passado, deixo um poema para comemorar a data, um dia depois.
Sabemos todos que fora da Poesia não há salvação. Eu queria Celan, ou René Char que quase nunca publico, ou mesmo Mario Faustino que já vejo ser um pouquinho mais citado. Mas estou re-re-reapaixonada por Vinicius de Moraes. Todo o Rio de Janeiro está e acho que o Brasil precisava esquecer um pouco os estereótipos de enfant gaté, e letrista, boêmio e os diminutivos e se voltar para ao menos tentar (re) conhecer o grande poeta que ele foi. (Uma excelente sugestão seria o ler o próprio Vinícius acuradamente e ao mesmo tempo ler o livro do crítico e ensaísta José Castello, que já é um clássico: Vinícius, o Poeta da Paixão.
Assim sendo, permitam-me hoje homenagear Poeta e Poesia, com Vinicus de Moraes…porque hoje é sábado. Com este poema que o Poetinha (urgh!) certamente deve ter escrito, inspirando-se na ‘ideiazinha’ do querido Milton Ribeiro, neste “superpostzinho” aqui. Vinícius chamaria Miltinho, veja lá.

Este é um poema muito comentado e pouco conhecido: Leia mais deste post