SR-10: TITE DE LEMOS – Rio de Janeiro – 1942 – 1989

TITE DE LEMOS

Et in Acardia ego. Nicolas Poussin sec 17

Newton Lisboa Lemos Filho (Rio de Janeiro RJ, 1942 – idem, 1989). Foi  poeta, letrista., dramaturgo e jornalista.
Publicou seus primeiros livros de poesia, Marcas do Zorro Corcovado Park, em 1979. No final dos anos de 1970 produziu três peças teatrais: A SerraA Liça e A Bola. Trabalhou como jornalista, nos anos seguintes; foi redator do jornal carioca O Globo. Em 1988 foi lançado seu livro Caderno de Sonetos e, em 1989, ocorreu a publicação póstuma de Outros Sonetos do Caderno. No ano de 1970, escreveu em parceria com Gutemberg Guarabira, Luiz Carlos Maciel, Sidney Miller, Paulo Affonso Grisolli e Marcos Flaksman, o musical “Alice no país divino-maravilhoso”, do qual participou Sulei Costa, que viria a se tornar sua parceria musical mais constante. O espetáculo estreou no Teatro Casa Grande, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro. No início da década de 1970, junto a Luís Carlos Maciel, Torquato Neto e Rogério Duarte, foi editor da revista literária Flor do Mal. A ilustração que escolhi faz referência ao campo de sua poesia que gravitava entre o clássico e o experimental.

Sobre sua obra poética, Otto Lara Rezende afirmou:

a disciplina do soneto vem seduzindo os poetas de todos os tempos, do Dante ao Petrarca, do Sá de Miranda ao Camões, para só falar de remotos antepassados portugueses e italianos. (…) Esta velha escola de uma técnica sempre resistente e sempre renovável, depois do enxurro parnasiano que grassou no Brasil, com as exceções da regra, a certa altura pareceu banida pelo afã modernizador de 1922. Logo, porém, voltaria, como voltou, na joalheria de um Jorge de Lima, de um Manuel Bandeira, de um Dante Milano e até de um Carlos Drummond de Andrade. Tite de Lemos está assim situado na antiga e na mais recente tradição – e assim está não por acaso, mas por uma escolha de quem conhece, na intimidade, por dentro, as requintadas oficinas do soneto.”

E  Armando Freitas Filho, também poeta da  chamada Geração de 1970:

“A poética de Tite de Lemos constrói-se por elipses, por alusões à la Salinger ou Carlos Süssekind, nas pistas que só duram um minuto, onde a sugestão tem valor igual à expressão. Só assim é que se conseguirá capturar o célere, os dados do acaso, a sensação que está prestes a sumir, sem deixar memória escrita.”

Tite de Lemos, tal como Cacaso (Antônio Carlos de Brito) sobre quem já postei no Sub Rosa, várias vezes  é de um geração de poetas contemporâneos que tiveram uma passagem brevíssima pela Vida.

Antônio Houaiss, Ivan Junqueira também se referiram com entusiasmo em relação à obra ao poeta. Mas para minha infinita tristeza, constato que os blogs e os cadernos ou suplementos culturais dos jornais insistem em chover no molhado, divulgar ad nauseam os que já são conhecidos, deixando assim de revelar o que nem nós mesmos conhecemos: a contemporaneidade.

DOIS POEMAS DE TITE DE LEMOS:

MARCAS DO ZORRO

Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
às vezes me castigas e outras vezes não
vou cegamente aonde a Tua mão me guia
mas em segredo me pergunto aonde vão

essas desconhecidas Tuas rotas minhas
eu preferia ser apenas o cantor
o jardineiro um leopardo uma florzinha
capaz de em cada outono sucumbir de amor

dizem que és um vingador Te chamam Zorro
uns outros Te nomeiam Christian Rosenkreutz
me humilhas sei e me maltratas mas eu morro

da Tua ausência mais do que quando me açoitas
ah eu desejaria uivar gemer e calo
por ser dos duros deuses todos o cavalo

In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. [Prefacio de Ivan Junqueira]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis).

===
IRMANDADE

O meu irmão habita os pântanos e os bosques
ermos, os fundos dos quintais onde não vai
ninguém. Eu tive a mesma mãe e o mesmo pai
mas gosto mais das aquarelas dos pomares,

dos lugares aéreos, de coisas assim.
Eu toco címbalo e marimba, ele mergulha
nas oceânicas igrejas, conchas, símbolos
significando nada além dos seus barulhos

e é um devorador de ostras e escraviza
toda mulher que ama, todos os dragões
que doma; e o meu esporte é cavalgar a brisa

passageira. Seremos para sempre dois
— como o chá e o limão, a coca-cola e o rum —
até que o acaso nos convide a ser só um

In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. [Prefácio de . Ivan Junqueira]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis).
********

II [Um coração boxeur que bate, bate]

Um coração boxeur que bate, bate
mas convenhamos gosta de apanhar
e bater pernas pelo bulevar:
assim é o meu, desgovernado iate

— não sou piloto para o tripular.
Onde céus ele vai? tatibitate
atrás de um outro coração que o mate
ou lhe acenda uma luz crepuscular

antes que a noite finalmente caia,
noite definitiva carta escrita
em braille, noite noiva predileta,

antes que o dia saia e torne maya
tudo isso que passa por estrita
realidade, dor, desejo, meta.

In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

XXIII [TODA VIDA É RASCUNHO PERMANENTE ]
Toda vida é rascunho impermanente
manuscrito com tinta azul lavável.
Não divise futuros, não invente
eternidades nem se torne escrava

de horizontes perdidos e apagados.
Somos mortais, por isso celebramos
casuais centelhas de imortalidade.
Por mais que dure e se transvie em ramos,

uma árvore tem a sua hora.
Se a chuva a curva, sofre mas não chora,
senão, dizem, até se alegra e gosta

sem se dar ao trabalho de sorrir.
Deus, amor, lhe dê olhos de menina
que a paisagem de hoje descortinem.

In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988
****
Bnus:

*****
Aqui uma mostra de Tite de Lemos como letrista. A música é de Sueli Costa (grande nome, aliás mais um outro grande nome da música brasileira, injustiçado, que, vergonhosamente, conhecemos muito pouco). A letra de Tite de Lemos é lindísima, é esta, é  esta:
Você me deixa um pouco tonta/
assim meio maluca/
quando me conta essas tolices e segredos/
e me beija na testa, e me morde na boca/
e me lambe na nuca/
você me deixa surda e cega/
você me desgoverna/
quando me pega assim/
nos flancos e nas pernas/
como fosse o meu dono/
ou então meu amigo/
ou senão meu escravo/
e eu sinto o corpo mole/
e eu quase que faleço/
quando você me bole e bole/
e mexe e mexe/
e me bate na cara/
e me dobra os joelhos/
e me vira a cabeça/
mas eu não sei se quero ou se não quero/
esse insensato amor/que eu desconheço/
e que nem sei se é falso ou se é sincero/
que me despe e me vira pelo avesso./

não eu não sei se gosto ou se não gosto/
de sentir o que eu sinto/
e que me atormenta/
e eu confesso que tremo desse sentimento/
que de repente chega/
e que me ataca/
e assim me faz perder-me/
e nem saber se esses carinhos/
são suaves ou velozes/
se o que escuto é o silêncio/
ou se ouço vozes.
——-
Em 2010, mais de vinte anos após sua morte, a Editora 7 Letras publicou Bella Donna, livro com poemas inéditos do autor. Confira aqui

Este post, descuidado, sem rigor, foi feito em plena vigência de uma temporada em que estou vivendo sob o signo de Saturno, expressão indebitamente emprestada de Susan Sontag. E é dedicado, neste período de aniversário do Sub Rosa, como homenagem a uma pessoa culta, elegante, generosa e muito querida que desde há muito me tem servido de apoio e  inspiração: a iluminada Luma Rosacuja luz  por si só inaugura uma festa sempre que se apresenta. E que parece ter nascido com dom de ser blogger;-)  Oh  yes, Luma is the party.

Coda: Poiesis e Techné

   

     A publicação do  texto a seguir foi inspirada pela Dra.  Marília Jackelyne Nunes, a minha querida Marília, preciosa amiga, de muito tempo, a quem tanto admiro, sobretudo pela lucidez e inteligência proficientes. Advogada e poetisa, dupla qualificação que maneja com igual habilidade, conduziu um vivo debate, no Sub Rosa, a respeito do fazer literário, seu valor, sua utilidade, seu sentido, sua função e objetivo. Movida pelo apreço a este espaço, em minha ausência, acorreu voluntariamente no difícil momento, introduzindo uma discussão acerca do valor das duas linguagens, a poética e a técnica. Claro está que ela “mimetizou” o verdadeiro questionamento do tema. Seu objetivo real, creio -firmemente -, era acender a troca de opiniões – o velho exercício grego tão caro a esta que vos tecla.
Como o tema geral do debate é de minha particular preferência e estima, só posso agradecer à querida Marília, pelo desvelo, carinho e respeito. Pela sensatez e sabedoria (tão jovem ela é) com que ela sempre nos proporciona viver plenamente a única e breve vida que nos é dada. Ter uma amiga como a Marília  só faz me dar uma inveja danada de mim mesma:-). Pertinente ao tema, peço licença a todos os leitores, para dedicar a ela este curioso e esclarecedor(?) artigo.

“Psicoterapeutas estão sempre diante de um objeto de trabalho fugidio, fluido, impossível de ser aprisionado completamente nas teias da compreensão racional. A literatura técnica é preciosa, porém muitas vezes árida e complexa, fazendo com que o pensamento e a comunicação se tornem densos, pesados e obscuros.

Um jeito de sair desse dilema é ter contato com a poesia. Com ela se aprende a dizer o indizível, a falar e a pensar de um jeito que vai diretamente ao coração e aos sentidos, a expressar as coisas mais complexas de um jeito cativante e belo. Como exemplo, convido o leitor a um exercício lúdico com base em um soneto de Fernando Pessoa. Quero, através da justaposição de discursos diversos, alcançar uma região onde possa haver uma ressonância e fecundação mútua entre as diferentes formas de expressão. De um lado a científica, que rodeia e detalha o tema, com estrutura voltada para a coerência e a clareza. De outro, a poética:  fluida, vibrante, contundente, aberta. Vamos a ele:

“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.”

Nesta primeira parte do poema, o poeta pode estar descrevendo o fato de haver frequentemente, no processo de desenvolvimento pessoal, uma ruptura precoce (primeiros anos de vida) com algo muito essencial no âmbito emocional e psíquico. Há a criação como que de uma “casca” que não é realmente o indivíduo, uma camada que recobre a essência e que é mostrada ao mundo e a si mesmo como sendo o “eu”. Diversos autores descreveram esse fenômeno, com nomes e explicações diferentes, mas com diversas semelhanças entre si: Gerda Boyesen o chamou de personalidade secundária; Reich, de caráter neurótico; Winnicott, de falso self, Jung de identificação com a persona. Encontramos ainda em Freud o conceito de amnésia infantil, que apresenta ressonâncias com o tema abordado.

Verificamos que, apesar do falso self ser algo diferente da essência do ser, a maioria das pessoas está identificada com essa camada externa. Muitas vezes o fluir da vida e seus acontecimentos acabam levando à percepção de que há “algo mais”, que aquilo que parecia ser o “eu” na realidade não o é, e que permanecer nessa camada seria levar uma vida oca e sem sentido. O poema parece falar desse momento em que é percebido o vazio da armadura externa, e do desejo de buscar aquilo em si mesmo que é essencial, que necessariamente é infantil (uma ruptura dessa magnitude só poderia se dar num estágio precoce do desenvolvimento) e chora (sem sofrimento não haveria pressão suficiente para tal cisão).

Se fossemos utilizar o jargão, ficaria mais ou menos assim em linguagem técnica:

No meu desenvolvimento psicossexual, no decorrer da minha infância, houve conflitos que me fizeram sofrer. Meu ego, usando o recalque e outros mecanismos de defesa, tornou esse conflito inconsciente, havendo como consequência uma fixação da libido em uma das fases desse desenvolvimento. Gerou-se em mim uma típica amnésia infantil que me pro¬tege de memórias doloridas e conflituosas. Esse processo foi tão intenso e profundo que deu-se uma ruptura no contato com meu cerne biológico, criando-se em mim uma estrutura de caráter neurótico, uma personalidade secundária. Muito cedo na vida meu self verdadeiro não encontrou um ambiente que permitisse sua expressão espontânea e livre. Devido a isto, criei um falso self através da submissão às exigências ambientais e é isto que vivo hoje como sendo o meu eu, tendo a vaga noção de que em algum lugar de mim existe este self verdadeiro, aguardando um momento propício para vir à tona, qual semente em solo seco esperando a chuva. Isso tudo bloqueia minha circulação libidinal e minha capacidade de auto-regulação, a um ponto tal que impede o contato com meu desejo e com minha energia vital, e por isso sinto minha vida bloqueada e sem sentido. Quero reverter este quadro e creio que o caminho a ser trilhado nesse sentido é o de retornar ao momento do conflito infantil original para tentar resgatar a minha essência vital. Devo, para tanto, conscientizar aquilo que é inconsciente para poder resgatar o material infantil patogênico causador da minha neurose e do meu descontato comigo mesmo.

Observamos que a linguagem da psicanálise é mais detalhada e precisa. Mas nunca terá o sabor, o impacto e a concisão de um bom poema.
Podemos e devemos pensar como Freud, mas seria bom se pudéssemos nos expressar como Pessoa.
Como diz Helena Rosenfeld, “a arte, a linguagem poética e metafórica, é um dos meios pelos quais podemos tangenciar o indizível, roçar o não-representável, isso que escapa da designação, essa realidade que a linguagem busca e não acha”.

Fica aqui o convite ao leitor para que, caso tenha achado interessante a brincadeira, divirta-se com o poema completo:

“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.”

Ricardo Amaral Rego
Médico e psicoterapeuta. Diretor do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica.

Alma Lusa, por Luis C. Nelson

            Quando,  em abril deste ano,  discutíamos a respeito da lírica portuguesa, a do conceptismo, a do Cancioneiro Geral, com a valorosa e aguerrida equipe de comentaristas que, imodéstia à parte, só o Sub Rosa tem;-), o meu amigo Nelsinho (Luís C. Nelson, do blog Mukandas ) manifestou neste belo comentário (clique para ler) (“Devo ter recebido um pouco da alma de Bernardim, a julgar pelas vezes que entro em choque frontal comigo próprio...”)  a sua identificação com Bernardim Ribeiro, o poeta do Eu dividido.
Gostamos tanto do comentário,  que logo  surgiu a questão:  nós, brasileiros, teríamos  herdado algo da   triste, melancólica por natureza, alma lusitana? O que se entende por “alma melancólica do português” ? E, ao fim e ao cabo, portugueses e brasileiros partilhariam o mesmo substrato melancólico?
Claro que diante disso, eu não ia deixar por menos. Pedi a Nelson que – em sendo possível, expandisse para nós esse conceito.
E ele – que há muito me honra com sua amizade, não regateou esforços para, a despeito da sua eterna falta de tempo, produzir este belíssimo texto que se segue.
Deixem-me apenas dizer que o texto a seguir   vem reconfirmar que seja onde quer que escreva, no seu blog, em sua página pessoal no Facebook, nos comentários, Nelsinho faz de cada lugar um palco textual em que – utilizando o distanciamento da ironia, na observação da realidade e sua percepção poética –  algumas das suas  inquietações metafísicas e, por que não dizer?, alguns sutis malaises existenciais, encontram a sua melhor expressão literária. Muitíssimo obrigada, Nelsinho.

ALMA LUSA
“Se meu mestre estivesse aqui para me elucidar e ajudar a escrever algumas frases sobre a tão cantada alma lusitana, por certo ele começaria com uma afirmação, que poderia muito bem ser …

“…que dos lusos poetas os corações,

de tão tristes parecem talhados,
com aqueles mesmos machados
que talham as tábuas dos seus caixões…”

Não disponho de tempo para os caminhos da pesquisa nos velhos e belos alfarrábios do Real Gabinete Português de Leitura, ou nas fontes mais ou menos escondidas, mais ou menos esclarecidas nos meandros da Internet, sobre as origens dessa tão intrínseca tristeza, que de tão intrínseca, é tumor que o tempo não logra extirpar.
Recuo decididamente no tempo, diretamente para as madrugadas de frias névoas. Junto-me aos rudes, andrajosos e miseráveis autômatos que desfilam ecoando seu calçado de madeira com brôchas de ferro pelas graníticas vielas e quelhos da aldeia sem idade, suas enxadas às costas, seus mirrados estômagos roncando de mau humor a água-ardente e algumas gramas de pão de milho oferecidos pelo senhor da terra como mata-bicho, até que suas mulheres lhes aportem às lavouras, a habitual e pobre malga de caldo de cebola. Exausto, sigo-os enquanto descem os montes ao final da massacrante jornada de sol-a-sol. Olho as reações dos seus rostos tristes, que tão tristemente se alegram com as parcas moedas que, com desprezo, são colocadas sobre suas calejadas mãos. Completando o soldo, um copo único de vinho tinto e uma côdea a mais de pão de milho. A poesia sai-me esfomeada e mortalmente triste, mortalmente tísica…

Flano para os meus verdes anos e relembro a minha paixão pelos grandes veleiros aparelhados para a pesca do bacalhau. Furtivo e ladino, escalo o portaló e esgueiro-me por entre os dóris empilhados ao longo do convés, do qual se solta e sobe aquele inebriante odor do piche e da estopa do madeirame recém calafetado. Encho os pulmões, inspirando a coragem e sacrifício daqueles homens de rudes modos por cujas faces rolam lágrimas enquanto agitam lenços brancos em resposta aos amargurados acenos de despedida das mulheres em prantos, com suas crianças ao colo, sua triste sina da difícil sobrevivência em terra, enquanto esperam a promessa de improváveis melhores dias com boas comissões de pescado. Muitos meses passarão, alguns perecerão, perdidos dentros dos seus pequenos doris que remam frenéticamente para o nada, no meio do súbito e assassino nevoeiro, sobre as geladas águas da Terra Nova. A poesia sai-me soluçada em saudade, solidão, medo e sofrimento atroz…

Serão estes dois exemplos suficientes para justificar a alma de um povo? Certamente que não mas, se o pesquisador se embrenhar pelos “mists”da história, por guerras e perigos esforçado muito mais do que promete a força humana, por vidas errantes, por terras estranhas, por sofrimentos lancinantes, por dores tamanhas…”

.
“Nelson Castro, ou Luis C. Nelson, ou simplesmente Nelsinho,  nasceu na invicta e mui nobre cidade do Porto, Portugal, nos idos de 1944. Seu pai era um daqueles fotógrafos-artistas de studio, que retocava pacientemente os negativos e coloria manualmente suas incríveis ampliações, delas fazendo verdadeiras obras de arte, geralmente muito mal pagas.

De seu pai, recebeu não só o gosto pela fotografia e paixão pela literatura e musica, mas também “skill” para as coisas técnicas. E foram as habilidades técnicas que o levaram a ingressar na Escola Técnica Elementar e depois na Escola Industrial Infante D. Henrique, o que lhe valeu a inesquecível honra de haver sido aluno do Poeta Pedro Homem de Melo, que nesse estabelecimento lecionava língua portuguesa.

Sua trajetória profissional incluiu estaleiros navais em Angola e no Brasil, mas gastou a maior parte da sua vida nas lides da exploração de Petróleo ou a ela ligado ao redor do planeta, motivo pelo qual gosta de dizer-se simplesmente ‘Oilman’.

A poesia é sua mais cara atividade no universo das letras, no qual aliás não possui nenhum crédito acadêmico, dedicando-se também a contos e crônicas da vida real.”

Ora bem, agora teremos música, a condizer com o tema e com o texto. Ouçamos:
Havemos de ir a Viana
Música: Alain Oulman e Letra: Pedro Homem de Mello
Intérprete: Amália Rodrigues (Disco: Amalia e Vinicius)

***
Fado triste
Autor: Vitorino/Intérprete: Misia
(Disco: Paixões Diagonais)

***
Ser Aquele
Letra: o poema “Ser Aquele”, de Fernando Pessoa
Intérprete: Camané (Disco: Sempre de Mim)

***

‘Excuse my dust’ – Dorothy Parker

 

retrato da terrível quando jovem

Dorothy, a terrível.

A mais arrasadora personalidade feminina de sua época, Dorothy (nascida Rotschild) Parker (1893-1967), considerada “the wittiest woman in América, escreveu nas revistas Vogue, Vanity Fair e pontificou na mais especial e brilhante revista semanal americana,  The New Yorker.
Jornalista, poetisa, contista, roteirista e crítica teatral, ficou famosa nas décadas de 1920 e 1930 pelos seus poemas curtos e implacáveis. Espírito mordaz, crítico , marcada por algumas tragédias e pela causticidade de seu estilo, ela era devastadora, atingiu a todos e não poupou a si mesma do riso.
Ficou conhecida, justamente, por ser a mais espirituosa e irreverente escritora do século passado.

O texto da orelha da edição da “Modern Library” diz que seus poemas são “aguçados como pontas de flechas, e mergulhados no ácido borbulhante de seu humor.” Poucas mulheres (e poucos homens, aliás) terão tido uma vocação tão grande para a metáfora surpreendente, para a comparação “na mosca”, para o soco demolidor com luvas de pelica, para as coisas ternas ditas com crueldade e vice-versa.

“There’s a hell of a difference between wisecracking and wit.
Wit has truth in it; wisecracking is just calisthenics with words.”

Ela foi uma dessas mulheres que não têm medo de homem nenhum e, como todas elas, pagou um preço maior do que podia, além de suas posses. Casamentos, divórcios, abortos, tentativas de suicídio (várias, o que chegou a virar um folclore), rejeições, depressões e decepções, tudo está rigorosamente dito e descrito em suas biografias e, claro, na internet, em várias homepages.
A primeira vez que publiquei algo a respeito de Dorothy foi em 2001 e a principal página na Internet dedicada a ela, continua a mesma. É a da revista Bohemian Ink, a literary underground review.
Ou seja, uma escritora do mainstream mas tratada e retratada  (muito bem) por uma publicação underground, não é o máximo? E até hoje, apesar de em um grande período ter ficado quase esquecida, o culto ainda hoje persiste. Aqui mesmo no WordPress, temos a Sociedade Dorothy Parker. E tantos outros, que vocês mesmos vão me ajudar a descobrir. Fan pages é que não faltam, nas melhores famílias.
Em seus poemas, ficou a auto-imagem de uma mulher ao mesmo tempo cínica e carente, cuja vida amorosa foi “uma sucessão de saltos no escuro e de ossos partidos; de convalescenças e de recaídas.
Sua linguagem poética é minimalista, dando preferência às estrofes com esquema silábico britânico (8-6-8-6), ocasionais sonetos no modelo italiano, pequenos epigramas em quadras ou dísticos. O mais famoso deles é:
“Men seldom make passes / at girls who wear glasses”
para o qual assenta bem esta tradução:
“Os homens não roubam ósculos / de garotas que usam óculos”

***  ***  ***
Sua poesia é difícil de traduzir, mesmo tendo uma linguagem simples, de imagens fortes e diretas. Grande parte do seu charme reside em ser impecavelmente rimada e metrificada, a um ponto quase impossível de preservar nos versinhos curtos e compactos que eram sua forma predileta.
Seu talento para a rima rica e original é também famoso. Seu poema mais conhecido talvez seja este:

Razors pain you; Rivers are damp;
Acids stain you; And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful; Nooses give;
Gas smells awful; You might as well live.

Résumé

“Résumé”, é sobre o suicídio. Tradução mais adotada:

“Navalha dói./Rios são úmidos./
Ácido mancha. Drogas dão cãibras./
Revólveres são ilegais. Forcas cedem.
O gás tem um cheiro horrível. Melhor ficar viva.”

*** *** ***
Dorothy também foi roteirista em Hollywood (duas vezes indicada ao Oscar, em 1937 e 47).
Depois da guerra, voltou para New York e para o trabalho jornalístico. Em 1944, Dorothy ganhou edição luxuosa do Portable, uma coleção prestigiadíssima, reunindo o melhor dos melhores escritores, onde ela fica, ao lado de Shakespeare e da Bíblia, como as três, únicas, coleções a serem editadas ou reimpressas contínuamente. Ruy Castro em  Big Loira,  diz que Dorothy está, de fato, em companhia de Oscar Wilde, Mark Twain, Platão, Voltaire, James Joyce, Cervantes e Nietzche e por aí vai, até mesmo a Bíblia. E arremata: “isso é o que se pode chamar de uma escritora em boa companhia. Resta saber é se Dorothy gostaria da companhia deles.”. Eu acho que sim.

Ao envelhecer, afastou-se dos círculos intelectuais onde um dia chegou a ser considerada “a mulher mais espirituosa dos EUA”. E a mais amarga, também: morreu aos 73 anos, sozinha num quarto de hotel. Sua morte pegou de surpresa muitas pessoas que a imaginavam morta há muito tempo. Quando morreu, em seu testamento, para desespero de Lilian Hellman sua amiga e espécie de protetora de Dorothy (alguns dizem que ela esperava ser herdeira da amiga, fosse do que fosse) e espanto de todos os demais, havia deixado tudo o que possuia, para Martin Luther King (e a causa negra), a quem não conhecia e , ele, jamais sequer ouvira falar dela.
Dorothy apoiou muitas causas da esquerda nos Estados Unidos. E chegou a ser alvo de investigações por supostas ligações com o comunismo. A tal Comissão Mc Carthy de investigações “antiamericanas”.
Suas cinzas ficaram vinte anos num escritório jurídico, sem que ninguém as reclamasse. Coisas de Dorothy, que certa vez, ao escolher seu epitáfio, escreveu: “Excuse my dust”.

*** *** ***

Dorothy tornou-se um daqueles casos em que a personalidade do artista supera sua obra na memória coletiva. A presença do inferno da rejeição, abandono,  amores fracassados, alcoolismo, inúmeras tentativas de suicídio(*) e, principalmente,  porque todos esses ingredientes sustentam as suas inúmeras tiradas de humor mordaz – por essas, absolutamente tantalizantes e geniais, é que Dorothy ficou, para sempre,  na memória da literatura.
Aqui, algumas dessas tiradas. Algumas em português, na tradução de Angela Carneiro e outras, em inglês, porque são absolutamente, intraduzíveis.
(Grande parte delas ganharam vida, nas reuniões promovidas na famosa  Round Table do (hotel) The Algoquin : ao lado de Dorothy Parker, Harold Ross (fundador da The New Yorker) e Robert Benchley, Franklin Pierce Adams, colunistas e Heywood Broun, Ruth Hale; o crítico Alexander Woollcott; o comediante Harpo Marx, os dramaturgos George S. Kaufman, Marc Connelly, a escritora Edna Ferber, e Robert Sherwood, todos esses formando o seleto e fechado vicious circle, a Mesa Redonda do Algonquin, que incorporou a fina flor da inteligência e o espírito de  uma era em que  foi mudado para sempre a cara do humor e costumes americanos. Da era do jazz, uma era de ouro.
(*) A respeito das várias tentativas de suicídio, Dorothy, judia que era, chegada a uma tragédia, numa certa época, tentava o suicídio quase toda semana. Dizem que certa vez, o maravilhoso, adorável (esses adjetivos são meus) Robert Benchley , seu amigo, olhou para ela e, sinceramente, preocupadíssimo, lhe disse, “Dottie, tome cuidado, menina: essa coisa de  tentar se suicidar toda semana, puxa, um dia  você ainda acaba ficando doente!”.)
*** *** ***
Deixo algumas aqui, que retiro de meus livros sobre Dorothy… E não sou boba de querer traduzir algumas, não é , mesmo? Quer ver? Vejam:

  • *** You know, that woman speaks eighteen languages. And she can’t say “No” in any of them.
  • **** Scratch an actor and find an actress.
  • **** Everything that isn’t writing is fun.
  • **** Hemingway avoids New York, for he has the most valuable asset an artist can possess – the fear of what he knows is bad for him.
  • **** Respondendo a um interrogatório do FBI: “Listen, I can’t even get my dog to stay down. Do I look like someone who could overthrow the government?”
  • **** I require only three things of a man: he must be handsome, ruthless and stupid.
  • *** I like to think of my shining tombstone. It gives me, as you might say, something to live for.
  • *** I write doodads because it’s a doodad kind of town.
  • ***
  • *** Time doth flit; oh shit.
  • *** I’d kiss you, but I’m not sure it’d come out right.
  • ***Men seldom make passes At girls who wear glasses
  • *** Travel, trouble, music, art A kiss, a frock, a rhyme – I never said they feed my heart But still they pass the time

*** *** ***

Ave ! Dottie. Em português:

  • “Só exijo três coisas de um homem : que ele seja bonito, insensível e burro”
  • (Quando lhe disseram que sua arqui-rival, Clare Boothe Luce, era muito gentil “com os seus inferiores”): “E onde é que ela os encontra ?!?”
  • Ainda a respeito de Clare, que era a mulher do editor da Revista Time, ouviu desta, que era mais nova: “As velhas antes das belas”. A resposta foi: “As pérolas, antes das porcas”
  • “Essa mulher fala 18 línguas e não sabe dizer não em nenhuma delas”
  • “A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade.”
  • “Brevidade é a alma de lingerie” (parafraseando Shakespeare que disse, “Brevidade é a alma do espírito –> “Brevity is the soul of wit”)
  • “Fui expulsa de um convento em Nova Iorque por insistir em que a Imaculada Conceição não passou de uma combustão espontânea” (essa aqui, aqui pra nós, é meio difícil de entender , seja em inglês ou em qualquer outra língua. Eu não entendi e também não gostei, mas  como está entre as mais citadas… noblesse oblige)
  • “Dinheiro não pode comprar saúde. Mas eu me contentaria com uma cadeira de rodas cravejada de diamantes” . (adoro essa e sempre digo hohoho)
  • (Quando lhe pediram que dissesse o epitáfio que gostaria de ter sobre seu túmulo) “DESCULPE A POEIRA… “
  • “Dele só ganhei até hoje uma flor  /  E tão terna, mas com um coração à espreita  /  Pura, púrpura, e tendo do orvalho o odor  /  Uma rosa perfeita.  /  Já conheço a linguagem do buquê  /  “Nestas folhas frágeis  /  Meu coração se estreita”.  /  E imagino perfeitamente em quê :  /  Numa rosa perfeita.  /  Bolas, por que nunca me dão  /  Uma bela limusine – ou…você não suspeita ?!?  /  Não, todos eles me mandam  /  Uma rosa perfeita”.
  • (Depois do fracasso de suas inúmeras tentativas de suicídio) ” Navalhas machucam / Rios são úmidos / Ácidos mancham / E drogas dão cãimbras / Armas são ilegais / Nós escorregam / Gás tem mau cheiro / É melhor viver”
  • “Qualquer mulher que aspire a comportar-se como um homem, é certo que carece de ambição.”
  • “Quatro coisas há que eu passaria melhor sem elas: amor, curiosidade, pecados e dúvidas”
  • “Mulheres e elefantes nunca esquecem.”
  • “Este não é um livro para ser sutilmente jogado de lado. Ele tem que ser jogado com toda a força”
  • Dorothy nasceu de sete meses. Depois diria: “Foi a última vez que cheguei cedo para um compromisso”.
  • Onde está o homem capaz de acalmar tão bem um coração quanto -uma camisola de cetim?
  • ♣ ♣ ♣

    (*) A tradução de todos os poemas e citações, aqui,   são de Angela Carneiro.

    Alguns links, especialmente escolhidos: (**)

    Modern American Poetry. . – Em especial este ensaio: Dorothy Parker and Her Intimate Public.

    As Malvadas./ Recanto das Letras

    Big Loira

    O espantoso obituário do New York Times. Quando Dorothy morreu, em 1967, estava tão esquecida que todo mundo se espantou com as notícias estampada nas front pages dos mais importantes jornais. Este obituário, na front page do NYT foi decisivo: os poucos que lembravam dela achavam que já tivesse morrido. Os outros não tinham a real dimensão de sua importância.

    Dorothy em tese. USP,  por Juliana Rosenthal Knoepfelmacher.
    A dependência feminina do telefonema masculino.

    Socidade Dorothy Parker (aqui tem coisas do arco da velha e da nova).

    DOT AUDIO: Vídeos interessantíssimos com Dorothy. (enviados pela Rose)

    ♣ ♣ ♣

    Livros em português:

    Praticamente não há uma bibliografia em português a respeito de Dorothy Parker, a não ser a coletânea de contos Big loira e outras histórias, de Ruy Castro, lançada pela Companhia das Letras. E, pela editora Civilização Brasileira uma biografia “A extravagante Dorothy Parker“, pela escritora francesa Dominique de Saint Pern , o que é ótimo. Mas, cuidado, é longa e maçante, o que pode afastar os que já não estejam convencidos de que vale a pena. E a tradução…tsc, tsc… (embora eu dificilmente fale mal de tradutrores. Tenho o maior respeito pela classe laboriosa , da qual faz parte, a minha adorável e querida tradutora preferidíssima Fal Azevedo. Que fez a magistral tradução do livro O amor é fogo , da não menos adorável Nora Ephron. Que aconselho veementemente.

    (**)Eu disse que este seria um post in progress. E interativo. É verdade: o melhor do post vem depois, nos comentários. Pelo menos aqui é assim *pisc.  Simplesmente os melhores links. Melhor, muito melhor do que eu poderia fazer. Então os links virão depois, com os devidos créditos:-). Agora é com vocês, queridas. Voilà! (*pisc, de novo.)

    Ah! queria dividir uma coisa com você: eu hesitei em dizer aqui que tenho uma linda puppy, uma cadelinha yorkshire, lindíssima, of course, chamada Dorothy (que torce pelo Yuri). Adivinhem qual a razão do nome? Pois é!  Agora, o melhor de tudo foi encontrar um blog em que a autora conta que  os filhos de sua foram ‘batizados’ com os seguintes nome:s Dot (ponto) Dash (traço) e Ray. Agora, por quê? Simplesmente, os nomes foram inspirados em Dottie Parker, Dashiel Hammet (lembram o marido da Lilian Hellman?) e Raymond Chandler. Quem gosta de romances policiais, aí, levante o braço:-). O blog é aqui. E Dorothy adorava cães. Ela era per-fei-ta!

    EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005)



    Eugénio de Andrade 

    ADEUS

    Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
    e o que nos ficou não chega
    para afastar o frio de quatro paredes.
    Gastámos tudo menos o silêncio.
    Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
    gastámos as mãos à força de as apertarmos,
    gastámos o relógio e as pedras das esquinas
    em esperas inúteis.

    Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
    Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
    era como se todas as coisas fossem minhas:
    quanto mais te dava mais tinha para te dar.
    Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
    E eu acreditava.
    Acreditava,
    porque ao teu lado
    todas as coisas eram possíveis.

    Mas isso era no tempo dos segredos,
    era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
    era no tempo em que os meus olhos
    eram realmente peixes verdes.
    Hoje são apenas os meus olhos.
    É pouco mas é verdade,
    uns olhos como todos os outros.

    Já gastámos as palavras.
    Quando agora digo: meu amor,
    já não se passa absolutamente nada.
    E no entanto, antes das palavras gastas,
    tenho a certeza
    de que todas as coisas estremeciam
    só de murmurar o teu nome
    no silêncio do meu coração.

    Não temos já nada para dar.
    Dentro de ti
    não há nada que me peça água.
    O passado é inútil como um trapo.
    E já te disse: as palavras estão gastas.
    Adeus.

    In «Os Amantes sem Dinheiro» (1950)

    Eugénio de Andrade (*)
    =-

    ***** *** ***** *** ******

    CHUVA DE MARÇO

    A chuva detrás dos vidros,
    a chuva de março,
    acesa até aos lábios, dança.
    Mas a maravilha
    não é a primavera chegar assim
    como se não fora nada,
    a maravilha são os versos
    de Williams
    sobre a rasteira e amarela
    flor da mostarda.

    in “Rente ao Dizer” (1992)
    ***

    Poemas enviados pela Isabela Percov, uma arquiteta, amiga nossa (de todos os que leem este blog) em Portugal. Manda beijos e cita com saudade, a Marilia Jacqueline, a Magaly,   a Tereza e a Rose, (“estou cheiiinha de saudades“). Ela vive em Sintra, ‘ um sítio de sonho’ e que Lord Byron considerou um paraíso, dizendo que “A vila de Cintra na Estremadura é, talvez, a mais bela do mundo inteiro”.

    E em  mim ficou a dúvida: afinal é Sintra ou Cintra? Mas, para quem em os leitores que tenho, isso não vai ser problema. Não mais.( pisc*)

    Tenho a honra de  ter também a Isabela como leitora. Assim são as alegrias que  este blog e sua caixa de comentários me dão.

    *****

    (*) Eugénio de Andrade é um dos meus poetas de culto. Isabela recomendou especificamente, o acento agudo :-)
    (*) Dali de minha estante, olha-me o livro O mistério da estrada de Sintra, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão :-)
    Lord Byron – Ultra Romantismo na Poesia

    Vou-me embora…

    … pro passado.
    Não o meu, nem, muito menos, o seu, claro *pisc,  mas…
    Confira.
    Será que é um canto de sereia?  Terá sido tão bom assim? Ah!

    Ab-so-lu-ment  dé-li-cieux!

    Depois, me conte.

    ****

    Links adicionais, após leitura e com a ajuda preciosa da Rose e outros leitores, como Maria Helena e Selma:

    O tempo passa.
    Ramenzoni – história das marcas.
    Marinetti.

    Adélia – a coisa mais fina do mundo

    Hoje me deu tristeza,
    sofri três tipos de medo
    acrescido do fato irreversível:
    não sou mais jovem.
    Discuti política, feminismo,
    a pertinência da reforma penal,
    mas ao fim dos assuntos
    tirava do bolso meu caquinho de espelho
    e enchia os olhos de lágrimas:
    não sou mais jovem.
    As ciências não me deram socorro,
    não tenho por definitivo consolo
    o respeito dos moços.
    Fui no Livro Sagrado
    buscar perdão pra minha carne soberba
    e lá estava escrito:
    Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
    se tornou capaz de ter uma descendência…”

    Se alguém me fixasse, insisti ainda,
    num quadro, numa poesia…
    e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
    Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
    das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
    sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
    não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
    condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
    e varrer a casa de manhã.

    Uma tal esperança imploro a Deus.

    Adélia Prado. Dolores‘.

    *  *  *

    Adélia Luzia  Prado completou 75 anos no dia 13 de dezembro de 2010. As comemorações foram intensas, a repercussão foi imensa. Como Adélia sempre foi “santa do meu altar”, aqui uma mostra reduzidíssima dessas homenagens:

    * Lançamento do livro: A duração do dia (Record, 2010)

    **  A simplicidade de um estilo – Entrevista Saraiva-Conteúdo

    * * *Entrevista – Globonews:

    (*)
    A seguir,  uma bibliografia de Adélia que me foi enviada pelo  querido amigo Antônio Augusto Bocaiúva.
    ” OBRAS:
    Individuais

    POESIA:

    – Bagagem, Imago – 1976
    – O coração disparado, Nova Fronteira – 1978
    – Terra de Santa Cruz, Nova Fronteira – 1981
    – O pelicano, Rio de Janeiro – 1987
    – A faca no peito, Rocco – 1988
    – Oráculos de maio, Siciliano – 1999
    – A duração do dia, Record – 2010

    PROSA:
    – Solte os cachorros, Nova Fronteira – 1979
    – Cacos para um vitral, Nova Fronteira – 1980
    – Os componentes da banda, Nova Fronteira – 1984
    – O homem da mão seca, Siciliano – 1994
    – Manuscritos de Felipa, Siciliano – 1999
    Filandras, Record – 2001
    – Quero minha mãe – Record – 2005
    – Quando eu era pequena – 2006.

    ANTOLOGIAS:
    Mulheres & Mulheres, Nova Fronteira – 1978
    Palavra de Mulher, Fontana – 1979
    Contos Mineiros, Ática – 1984
    Poesia Reunida, Siciliano – 1991 (Bagagem, O Coração Disparado, Terra de Santa Cruz, O pelicano e A faca no peito).
    Antologia da poesia brasileira, Embaixada do Brasil em Pequim – 1994.
    Prosa Reunida, Siciliano – 1999

    BALÉ
    A Imagem Refletida – Balé do Teatro Castro Alves – Salvador – Bahia – Direção Artística de Antônio Carlos Cardoso. Poema escrito por Adélia Prado especialmente para a composição homônima de Gil Jardim.

    Vem de antes do sol
    A luz que em tua pupila me desenha.
    Aceito amar-me assim
    Refletida no olhar com que me vês.

    Ó ventura beijar-te,
    espelho que premido não estilhaça
    e mais brilha porque chora
    e choro de amor radia.

    (Divinópolis, 1998).

    Em parceria

    A lapinha de Jesus (com Lázaro Barreto) – Vozes – 1969
    Caminhos de solidariedade (com Lya Luft, Marcos Mendonça, et al.) – Gente- 2001.

    Traduções
    Para o inglês

    – Adélia Prado: thirteen poems. Tradução de Ellen Watson. Suplemento do The American Poetry Review, jan/fev 1984.
    – The headlong heart (Poesias de Terra de Santa Cruz, O coração disparado e Bagagem). Tradução de Ellen Watson, New York, 1988, Livingston University Press.
    – The alphabet in the park (O alfabeto no parque). Tradução de Ellen Watson, Middletown, Wesleyan University Press, 1990.

    Para o espanhol:

    – El corazón disparado (O coração disparado). Tradução de Cláudia Schwartez e Fernando Roy, Buenos Aires, Leviantan, 1994.
    – Bagaje. Tradução de José Francisco Navarro Huamán. México, Universidade Ibero-Americana no México.

    Para o italiano:

    – Poesie. Antologia em italiano, precedida de estudo do tradutor Goffredo Feretto. Publicada pela Fratelli Frilli Editori, Gênova.

    Participação em antologias

    – Assis Brasil (org.). A poesia mineira no século XX. Imago, 1998.
    – Hortas, Maria de Lurdes (org.). Palavra de mulher, Fontoura, 1989.
    – “Sem enfeite nenhum”. In Prado Adélia et alii. Contos mineiros. Ática, 1984.

    O trabalho acima foi baseado em dados obtidos na Internet (Jornal da Poesia, depoimento à Biblioteca Nacional, “As conversas com Deus” — Luciana Hidalgo – O Globo), BTCA – A.C.Cardoso, Cadernos de Literatura Brasileira – Instituto Moreira Salles, entre outros, e em livros da autora.

    * * * * *

    ====

    (*) Uma pequena nota pessoal:
    Para mim, Adélia é insuperável na poesia. E, ainda assim, na prosa, a meu ver, ela rompe todos os limites ou barreiras da autoexpressão. O que é raríssimo acontecer com as poetisas. Só para dar um exemplo: você  imaginaria o mesmo efeito na experiência do rapto, do transe em Tereza de Ávila, escrito em prosa?)

    *****-
    CODA:
    – Por que Katherine Hepburn?
    – Bem… por que não?.