Tudo é exílio. Tudo exceto a poesia.
Esta será a ocupação mais pura entre os humanos.
Aprisionar e libertar os seres pelo canto, como faz Orfeu.
Dante Milano.
A primeira vez que ouvi falar de Dante Milano foi através da brilhante musicista e professora Laura Rónai de quem sou amiga desde 2001, – - admiradora, eu já era iiih! desde que a ouvi pela primeira vez, num concerto de música barroca, no CCBB, no Rio de Janeiro, em 1990) [Já que estão aqui, leiam este CV de Laurinha e morram, suicidem-se de inveja - como eu faço toda vez que seu nome é mencionado]
Pois bem, estávamos em minha casa (com o querido Hermano S. Taruma) quando Laura me apresentou um poema, um soneto, de Dante Milano e eu fiquei impregnada da beleza e elegância dos versos e verbos mas também impregnada da sensação de desamparo que se costuma sentir quando o conhecimento não nos apoia, quem seria o poeta?
Parece que todos estamos assentes em que apresentar, indicar a poesia de alguém é ato de extrema sensibilidade e de algum modo é lisonjeiro também para quem a recebe, pois supõe uma identidade de gosto, uma es pécie de afinidade (estética) eletiva, não é?
Pois bem, gora, no período em que este blog Sub Rosa completa dez anos, e por eu ter sido delicadamente pressionada por leitores (pouquíssimos) que reclamam do fato de eu só publicar poetas estrangeiros (o que é um exagero, a bem da verdade), acho oportuno falar um pouquinho e mostrar um pouco mais de Dante Milano, o poeta que, de certa forma, se caracteriza por ser admirado e visitado por grandes poetas, artistas e intelectuais como Aníbal Machado, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Celso Antonio, Di Cavalcanti, Jaime Ovalle, Manuel Bandeira, Odilo Costa Filho, Olegário Mariano, Paulo Mendes Campos, Portinari, Ribeiro Couto, Sérgio Buarque , Paulo Rónai (Dante Milano foi também excelente tradutor e importante por seus trabalhos com poemas de Baudelaire e Mallarmé). Mas que, infelizmente, se caracteriza também pelo que chamei de olvidamento - forma poética que escolhi para o olvido, o esquecimento , o silêncio, a falta de memória – o que, embora lamentado, não diminui e com isso impede tanto o reconhecimento que merece quanto a divulgação e a circulação, a crítica(*), a discussão, o estudo que tanta falta faz a um poeta tão singular. Insisto nisso pois parece muitas vezes que Dante Milano e olvido chegam a ser termos coextensivos, um sempre ao lado do outro.
Em 2001, quando busquei saber a respeito dele, encontrei pouquíssima coisa, mas já se chamava atenção para o fato; agora 10(dez) anos depois, e vinte anos após sua morte, o silêncio persiste. Eu pergunto, por que isso acontece, por que são raríssimas as teses, as comunicações acadêmicas a respeito de sua poética?
Bom, talvez porque ela tenha se constituído à margem de inovações literárias modernistas, apesar de ser dotada em alto grau das marcas de modernidade poética, sua poesia , segundo o grande crítico Franklin de Oliveira, ” é de um caráter “antilírico, nua e desértica” .
Ou talvez pelo seu caráter taciturno, angustiado, sombrio e em algumas até mórbido, por seu retraimento, talvez até mesmo pela aura de mistério que ele criou em torno de si, se não, vejamos isso:
Embora tenha sido poeta, tradutor, escritor e escultor, Milano não teve educação formal, não pode cursar o Ginásio (correspondente ao que hoje se chama de “2º grau”, mesmo assim aos 14 anos, vai trabalhar como assistente de revisão no Jornal da Manhã e no Jornal do Comércio. (jornais de projeção à época. Aos 17, consegue emprego de revisor na Gazeta de Notícias, e conhece o português Pinto de Sousa, que lhe apresenta à literatura portuguesa, sobretudo à poesia de Camões, a quem ele homenageia em sua obra. Na década de 1920, consegue um posto no Juizado de Menores do Rio de Janeiro. E foi diretor por muitos anos diretor do Museu da Magia do Rio de Janeiro, fato que vai influir intensamente em sua poesia. De fato existe em sua obra uma espécie de “sócio-antropologia do mal” (Deixem-me dizer aqui, antes de mais, que essa poética do mal é uma linha que vem desde Dante (a procura de sua Beatriz) e passa por seu maior representante, Charles Baudelaire – tenham em mente as “Flores do Mal” . Envolve, no imaginário literário, o mito do eterno feminino, a mulher como representação do mal (e algumas vezes do Bem, como a Beatriz , a amada e musa de Dante Alighieri) , o mito da musa, enfim todos os ingredientes que colocam a mulher como a principal figura nas representações antigas e modernas do Mal.
Apresentarei aqui algumas amostras de sua poesia e surge então a oportunidade para se discutir e expor o que pensam(os) e que ilações podem ser retiradas, dessa leitura. O valor cultural dessa discussão, neste blog, é que por ele ser um espaço não-acadêmico a representatividade pode ser maior. Espero que perdoem a pretensão. E, por menor que seja o nosso conhecimento, esta é uma chance de dividir para somar, partilhar, não é?
Antes porém, vamos ver o que disseram alguns dos críticos mais importantes que romperam o silêncio e anunciar, divulgar também a única tese que conheço, atualmente, [neste momento, agosto de 2011], na convergência de campo e de diálogo, entre a sociologia, a antropologia e a psicanálise, sobre este “intrigante personagem, praticamente desconhecido’. Trata-se de Antropologia, literatura e psicanálise: as representações do mal à brasileira na poética de Dante Milano” tese de pós-doutoramento do professor e pesquisador Alexandre Fernandes Correa, da UFMa.
Vamos às avaliações críticas:
Para o crítico David Arrigucci Jr, Milano, “como o amigo Bandeira, refletiu muito sobre a morte, casando o pensamento à forma enxuta de seus versos – lírica seca e meditativa, avessa ao fácil artifício, onde o ritmo interior persegue em poemas curtos, com justeza e sem alarde, o sentido”.
Manuel Bandeira assim se expressou: ““Dante Milano é, seguramente, o mais retraído dos nossos poetas; e por tão retraído, tão pouco conhecido do grande público, ainda que altamente prezado pela nata de seus confrades”. “Um dos nossos poetas mais fortes e mais perfeitos”. ““Exemplo singularmente raro em nossas letras, parece “escrever seus versos naquele indefinível momento em que o pensamento se faz emoção”.
Mario de Andrade nos diz que a sua poesia era “pensamenteada”, uma alusão ao caráter reflexivo de que era dotada.
Paulo Mendes Campos: “Trata-se essencialmente de um poeta antilírico. A palavra lirismo é equívoca e exige uma conceituação pessoal. André Gide afirmava que sem religião não poderia haver lirismo. Preferia eu dizer que sem o jogo-do-faz-de-conta, sem o sentimento ilusório de que a vida tem um sentido, não pode haver lirismo. Dante Milano é o poeta antipoético, o poeta do desespero. Também este, o desespero, pode ser lírico, mas não o desespero seco, sem lágrimas como um soluço. Em todos os poemas deste livro, encontramos o mesmo timbre árido: em vez de sonho, o pesadelo; em vez da fantasia, a angústia; em vez de amor, um arremedo de posse bruta. O próprio poeta se espantou há muitos anos, quando lhe disse, com admiração, que a sua poesia me parecia sinistra. Releio agora os poemas, procuro cuidadosamente uma fresta lírica, um respiradouro, e chego à antiga conclusão: esta poesia é sinistra, nua, desértica”.
Sérgio Buarque de Hollanda : ”Dante Milano está longe de ser, como se diria, um poeta de ideias, posto que suas ‘ideias’ não sobrevivem separadamente a qualquer espécie de paráfrase em prosa. Em outras palavras, seu pensamento é de fato sua forma”.
Vinícius de Moraes: (que o considerou um poeta bissexto):“…notável pela unidade de sua forma poética de grande pureza”.
E, por favor, pensem muito nisso que nos disse o grande Ivan Junqueira: “Pequena, entre nós, é a obra fundamental de Dante Milano, que morreu aos 91 anos de idade e nos deixou uma exígua produção de 141 poemas, esse Dante Milano que Drummond, no fim da vida, considerava o maior dentre todos os poetas brasileiros do século passado. E se os cito aqui, é porque todos encarnam essa poética do pouco, que teria a coroá-la aquele juízo do poeta expressionista alemão Gottfried Benn, segundo quem o que de fato permanece para sempre de cada grande poeta não chega a oito ou dez poemas dignos desse nome”.
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A minha antologia, a minha escolha:
VOCABULÁRIO
Áridas palavras,
Refratárias, secas
Arestas de fragas
Secretando uma água
Morosa, suada,
Que não mata a sede.
São pedras na boca.
Rolam balbuciantes
Buscando um sentido.
Uma quer ser beijo.
Outra quer ser lágrima.
Não basta dizê-las.
Elas querem ser
Mais do que palavras.
Como captarei
A idéia sem fim
(Não sei de onde vem)
Que tenta exprimir-se…
Áridas palavras
Para as bocas ávidas,
E quando elas brotam
Não são mais que as notas
De uma extinta música…
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AO TEMPO
Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida
A um tempo aproximando e distanciando…
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando
Tempo, vais para diante ou para trás?
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A CIDADE
Ao ver os altos castelos
Do Alhambra, dos Alijares
Lavrados à maravilha,
El-rei Don Juan dizia:
“Se tu quiseres, Granada,
Contigo me casaria
E te daria como arras
Córdova e Seveilha!”
“Não sou solteira nem viúva,
Sou casada, rei Don Juan,
Com Abenámar o Mouro,
Senhor que muito me quer.”
Maior felicidade
Que amar uma mulher,
Amor de longo olhar
E presente saudade,
Amor muito maior
É amar uma cidade!
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SEPARAÇÃO
Onde andarás sem mim nessas ruas enormes?
Quem te acompanha? Quem contigo ri?
Sob as mesmas cobertas com quem dorme
Quem te ama senão eu? Quem pensa em ti?
Vagas sem ter aonde ir e sem saber
O que fazer, ou sem prazer nenhum
Em mãos alheias como um bem comum
A outro te entregas sem lhe pertencer.
Estou pensando em ti… Pensar é estar sozinho…
♣
SONETO VI
Não sei de que cansaços me proveio
O peso que carrego sobre os ombros.
Sou como quem depois de um bombardeio,
Se levanta no meio dos escombros.
E sente a dor das pedras rebentadas,
Mais alta que o grito das criaturas
A dor do chão, dos muros, das calçadas,
De onde o pranto não brota, dores duras.
O único alívio é olhar o céu sem fundo,
O véu de sonho que recobre o mundo,
E absorve, esbate, anula realidade
Sob a expansão do azul intenso e forte.
Dor sem fim, olhar calmo além da morte,
Não desespero, sim perplexidade!
♣
OBJETO DE ARTE
Corpo de ancas opulentas,
Mulher de Angkor,
Coxas e tetas pedrentas
De árduo lavor.
Pedra, lição de escultura,
Da verdadeira
Carnadura, carne dura
Mais que a madeira
Ou o bronze que posto ao forno
Se liquefaz.
A pedra não; seu contorno
Mantém-se em paz
À maneira do medonho
Ser que no Egito
Contém o esfíngico sonho
Do granito.
Já no mármore a figura
Parece menos
Tosca; é mais branca, mais pura,
Mais lisa; é Vênus
Que, mesmo nua, ao expor
Sua vaidade,
Tem do mármore o pudor,
A castidade.
Ou então pedra-sabão,
Pedra-profeta,
Que da fêmea a carnação
Não interpreta.
Mas és da beleza o exemplo,
Pedra qualquer,
Se a figura em ti contemplo
De uma mulher,
Aparição singular,
Sem que me farte
Jamais o prazer de a olhar,
Objeto de arte.
♣
CORPO
Adorei teu corpo,
Tombei de joelhos.
Escostei a fronte,
O rosto, em teu ventre.
Senti o gosto acre
De santidade
Do corpo nu.
Absorvi a existência,
Vi todas as coisas numa coisa só,
Compreendi tudo desde
o princípio do Mundo.
♣♣♣
Penso que, por mim, colocaria aqui todos os 141 poemas de Dante Milano. Se você souber de mais , mais até do que os que se encontram na web, se tiver o seu preferido, por favor, divida conosco, sim? Pode deixar nos comentários. Algo me diz que Dante Milano ainda vai “estourar”, “causar” e ser conhecido por “todomundo”, afinal chega daquela estética meio “cinemanovista” em que só era bom o que era raro, difícil e o que durava pouco. A gente ia assistir no cine-clube a um filme daqueles, você sabem… um do Olphus, por ex. mas o filme só era bom se a máquina pifasse, se a tela se enchesse de riscos… Um sacrifício em nome da arte e do (bom ou mau) gosto ditatorial. Pensando agora em Dante Milano e no silêncio e esquecimento que lhe rodeia, decido não ficar com a estética do ‘quanto pior melhor’, a estética do precário. Agora, não, pra mim, o que é bom é muito bom, circula, é partilhado e dura muito:-). Por favor, diga o que achou, se gostou e, principalmente até, se não gostou e o que não gostou… E se já conhecia ou sabe de algum estudo não mencionado aqui. Obrigada.
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DÉDICACE
Este longuíssimo post que é para ser lido com calma, vagar e, quem sabe? até com prazer, é obviamente para todos os leitores do Sub Rosa, os presentes e os por vir. Mas é, se para isso valer, dedicado a três pessoas também especiais por quem nutro a maior admiração, a saber: o livreiro Luis R. Duarte que tem me socorrido através da sua Fenix Liber.com, o amigo poeta Luis C. Nelson que, além de amigo, é a quem eu freqüentemente recorro para abonar algumas de minhas fracas intuições literárias, e a Ana Barros, poetisa ela mesma, e que se expressa de forma encantadora também em prosa, tanto na semântica quanto na sintaxe. Em plano altíssimo. Obrigada, querida, por toda a tua poesia, e mais aquelas descobertas que partilhas conosco, e mais ainda pela música, a melhor, com que sempre me presenteaste.
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