Coda: Poiesis e Techné

   

     A publicação do  texto a seguir foi inspirada pela Dra.  Marília Jackelyne Nunes, a minha querida Marília, preciosa amiga, de muito tempo, a quem tanto admiro, sobretudo pela lucidez e inteligência proficientes. Advogada e poetisa, dupla qualificação que maneja com igual habilidade, conduziu um vivo debate, no Sub Rosa, a respeito do fazer literário, seu valor, sua utilidade, seu sentido, sua função e objetivo. Movida pelo apreço a este espaço, em minha ausência, acorreu voluntariamente no difícil momento, introduzindo uma discussão acerca do valor das duas linguagens, a poética e a técnica. Claro está que ela “mimetizou” o verdadeiro questionamento do tema. Seu objetivo real, creio -firmemente -, era acender a troca de opiniões – o velho exercício grego tão caro a esta que vos tecla.
Como o tema geral do debate é de minha particular preferência e estima, só posso agradecer à querida Marília, pelo desvelo, carinho e respeito. Pela sensatez e sabedoria (tão jovem ela é) com que ela sempre nos proporciona viver plenamente a única e breve vida que nos é dada. Ter uma amiga como a Marília  só faz me dar uma inveja danada de mim mesma:-). Pertinente ao tema, peço licença a todos os leitores, para dedicar a ela este curioso e esclarecedor(?) artigo.

“Psicoterapeutas estão sempre diante de um objeto de trabalho fugidio, fluido, impossível de ser aprisionado completamente nas teias da compreensão racional. A literatura técnica é preciosa, porém muitas vezes árida e complexa, fazendo com que o pensamento e a comunicação se tornem densos, pesados e obscuros.

Um jeito de sair desse dilema é ter contato com a poesia. Com ela se aprende a dizer o indizível, a falar e a pensar de um jeito que vai diretamente ao coração e aos sentidos, a expressar as coisas mais complexas de um jeito cativante e belo. Como exemplo, convido o leitor a um exercício lúdico com base em um soneto de Fernando Pessoa. Quero, através da justaposição de discursos diversos, alcançar uma região onde possa haver uma ressonância e fecundação mútua entre as diferentes formas de expressão. De um lado a científica, que rodeia e detalha o tema, com estrutura voltada para a coerência e a clareza. De outro, a poética:  fluida, vibrante, contundente, aberta. Vamos a ele:

“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.”

Nesta primeira parte do poema, o poeta pode estar descrevendo o fato de haver frequentemente, no processo de desenvolvimento pessoal, uma ruptura precoce (primeiros anos de vida) com algo muito essencial no âmbito emocional e psíquico. Há a criação como que de uma “casca” que não é realmente o indivíduo, uma camada que recobre a essência e que é mostrada ao mundo e a si mesmo como sendo o “eu”. Diversos autores descreveram esse fenômeno, com nomes e explicações diferentes, mas com diversas semelhanças entre si: Gerda Boyesen o chamou de personalidade secundária; Reich, de caráter neurótico; Winnicott, de falso self, Jung de identificação com a persona. Encontramos ainda em Freud o conceito de amnésia infantil, que apresenta ressonâncias com o tema abordado.

Verificamos que, apesar do falso self ser algo diferente da essência do ser, a maioria das pessoas está identificada com essa camada externa. Muitas vezes o fluir da vida e seus acontecimentos acabam levando à percepção de que há “algo mais”, que aquilo que parecia ser o “eu” na realidade não o é, e que permanecer nessa camada seria levar uma vida oca e sem sentido. O poema parece falar desse momento em que é percebido o vazio da armadura externa, e do desejo de buscar aquilo em si mesmo que é essencial, que necessariamente é infantil (uma ruptura dessa magnitude só poderia se dar num estágio precoce do desenvolvimento) e chora (sem sofrimento não haveria pressão suficiente para tal cisão).

Se fossemos utilizar o jargão, ficaria mais ou menos assim em linguagem técnica:

No meu desenvolvimento psicossexual, no decorrer da minha infância, houve conflitos que me fizeram sofrer. Meu ego, usando o recalque e outros mecanismos de defesa, tornou esse conflito inconsciente, havendo como consequência uma fixação da libido em uma das fases desse desenvolvimento. Gerou-se em mim uma típica amnésia infantil que me pro¬tege de memórias doloridas e conflituosas. Esse processo foi tão intenso e profundo que deu-se uma ruptura no contato com meu cerne biológico, criando-se em mim uma estrutura de caráter neurótico, uma personalidade secundária. Muito cedo na vida meu self verdadeiro não encontrou um ambiente que permitisse sua expressão espontânea e livre. Devido a isto, criei um falso self através da submissão às exigências ambientais e é isto que vivo hoje como sendo o meu eu, tendo a vaga noção de que em algum lugar de mim existe este self verdadeiro, aguardando um momento propício para vir à tona, qual semente em solo seco esperando a chuva. Isso tudo bloqueia minha circulação libidinal e minha capacidade de auto-regulação, a um ponto tal que impede o contato com meu desejo e com minha energia vital, e por isso sinto minha vida bloqueada e sem sentido. Quero reverter este quadro e creio que o caminho a ser trilhado nesse sentido é o de retornar ao momento do conflito infantil original para tentar resgatar a minha essência vital. Devo, para tanto, conscientizar aquilo que é inconsciente para poder resgatar o material infantil patogênico causador da minha neurose e do meu descontato comigo mesmo.

Observamos que a linguagem da psicanálise é mais detalhada e precisa. Mas nunca terá o sabor, o impacto e a concisão de um bom poema.
Podemos e devemos pensar como Freud, mas seria bom se pudéssemos nos expressar como Pessoa.
Como diz Helena Rosenfeld, “a arte, a linguagem poética e metafórica, é um dos meios pelos quais podemos tangenciar o indizível, roçar o não-representável, isso que escapa da designação, essa realidade que a linguagem busca e não acha”.

Fica aqui o convite ao leitor para que, caso tenha achado interessante a brincadeira, divirta-se com o poema completo:

“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.”

Ricardo Amaral Rego
Médico e psicoterapeuta. Diretor do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica.