A perda do eu.


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“Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio – nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para além dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa verdadeira obsessão a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência.”

Inês Pedrosa.

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“A profunda harmonia entre ela e o mundo – uma harmonia difícil, instável, porque ela insistia sempre em viver com rigor, com uma atenção que não afrouxava nunca, mesmo quando dormia – o rigor, por exemplo, com que domava ou desmanchava os sonhos, obrigando-se a lembrá-los, obrigando-os a saltar por dentro de arcos incendiados, as flores imaginadas formando finalmente um ramo, as flores de sombra, de sol, de areia, domar o vento, aprender a cavalgar o vento, pôr um risco de azul a contornar o mar, a dura acrobacia do seu corpo, ao mesmo tempo solto e geométrico, os difíceis exercícios interiores, os saltos mortais de olhos vendados sobre um fio de arame estendido entre o possível e o impossível.”

Gersão, Teolinda. Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 2ª ed. Lisboa, Dom Quixote, 1997.

“Perdi-me dentro de mim/ Porque eu era labirinto/ E hoje quando me sinto,/ É com saudades de mim…”

“Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…” 

Mario de Sá-Carneiro. Dispersão. Quase. (fragmentos), 1914.