Alma Lusa, por Luis C. Nelson

            Quando,  em abril deste ano,  discutíamos a respeito da lírica portuguesa, a do conceptismo, a do Cancioneiro Geral, com a valorosa e aguerrida equipe de comentaristas que, imodéstia à parte, só o Sub Rosa tem;-), o meu amigo Nelsinho (Luís C. Nelson, do blog Mukandas ) manifestou neste belo comentário (clique para ler) (“Devo ter recebido um pouco da alma de Bernardim, a julgar pelas vezes que entro em choque frontal comigo próprio...”)  a sua identificação com Bernardim Ribeiro, o poeta do Eu dividido.
Gostamos tanto do comentário,  que logo  surgiu a questão:  nós, brasileiros, teríamos  herdado algo da   triste, melancólica por natureza, alma lusitana? O que se entende por “alma melancólica do português” ? E, ao fim e ao cabo, portugueses e brasileiros partilhariam o mesmo substrato melancólico?
Claro que diante disso, eu não ia deixar por menos. Pedi a Nelson que – em sendo possível, expandisse para nós esse conceito.
E ele – que há muito me honra com sua amizade, não regateou esforços para, a despeito da sua eterna falta de tempo, produzir este belíssimo texto que se segue.
Deixem-me apenas dizer que o texto a seguir   vem reconfirmar que seja onde quer que escreva, no seu blog, em sua página pessoal no Facebook, nos comentários, Nelsinho faz de cada lugar um palco textual em que – utilizando o distanciamento da ironia, na observação da realidade e sua percepção poética –  algumas das suas  inquietações metafísicas e, por que não dizer?, alguns sutis malaises existenciais, encontram a sua melhor expressão literária. Muitíssimo obrigada, Nelsinho.

ALMA LUSA
“Se meu mestre estivesse aqui para me elucidar e ajudar a escrever algumas frases sobre a tão cantada alma lusitana, por certo ele começaria com uma afirmação, que poderia muito bem ser …

“…que dos lusos poetas os corações,

de tão tristes parecem talhados,
com aqueles mesmos machados
que talham as tábuas dos seus caixões…”

Não disponho de tempo para os caminhos da pesquisa nos velhos e belos alfarrábios do Real Gabinete Português de Leitura, ou nas fontes mais ou menos escondidas, mais ou menos esclarecidas nos meandros da Internet, sobre as origens dessa tão intrínseca tristeza, que de tão intrínseca, é tumor que o tempo não logra extirpar.
Recuo decididamente no tempo, diretamente para as madrugadas de frias névoas. Junto-me aos rudes, andrajosos e miseráveis autômatos que desfilam ecoando seu calçado de madeira com brôchas de ferro pelas graníticas vielas e quelhos da aldeia sem idade, suas enxadas às costas, seus mirrados estômagos roncando de mau humor a água-ardente e algumas gramas de pão de milho oferecidos pelo senhor da terra como mata-bicho, até que suas mulheres lhes aportem às lavouras, a habitual e pobre malga de caldo de cebola. Exausto, sigo-os enquanto descem os montes ao final da massacrante jornada de sol-a-sol. Olho as reações dos seus rostos tristes, que tão tristemente se alegram com as parcas moedas que, com desprezo, são colocadas sobre suas calejadas mãos. Completando o soldo, um copo único de vinho tinto e uma côdea a mais de pão de milho. A poesia sai-me esfomeada e mortalmente triste, mortalmente tísica…

Flano para os meus verdes anos e relembro a minha paixão pelos grandes veleiros aparelhados para a pesca do bacalhau. Furtivo e ladino, escalo o portaló e esgueiro-me por entre os dóris empilhados ao longo do convés, do qual se solta e sobe aquele inebriante odor do piche e da estopa do madeirame recém calafetado. Encho os pulmões, inspirando a coragem e sacrifício daqueles homens de rudes modos por cujas faces rolam lágrimas enquanto agitam lenços brancos em resposta aos amargurados acenos de despedida das mulheres em prantos, com suas crianças ao colo, sua triste sina da difícil sobrevivência em terra, enquanto esperam a promessa de improváveis melhores dias com boas comissões de pescado. Muitos meses passarão, alguns perecerão, perdidos dentros dos seus pequenos doris que remam frenéticamente para o nada, no meio do súbito e assassino nevoeiro, sobre as geladas águas da Terra Nova. A poesia sai-me soluçada em saudade, solidão, medo e sofrimento atroz…

Serão estes dois exemplos suficientes para justificar a alma de um povo? Certamente que não mas, se o pesquisador se embrenhar pelos “mists”da história, por guerras e perigos esforçado muito mais do que promete a força humana, por vidas errantes, por terras estranhas, por sofrimentos lancinantes, por dores tamanhas…”

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“Nelson Castro, ou Luis C. Nelson, ou simplesmente Nelsinho,  nasceu na invicta e mui nobre cidade do Porto, Portugal, nos idos de 1944. Seu pai era um daqueles fotógrafos-artistas de studio, que retocava pacientemente os negativos e coloria manualmente suas incríveis ampliações, delas fazendo verdadeiras obras de arte, geralmente muito mal pagas.

De seu pai, recebeu não só o gosto pela fotografia e paixão pela literatura e musica, mas também “skill” para as coisas técnicas. E foram as habilidades técnicas que o levaram a ingressar na Escola Técnica Elementar e depois na Escola Industrial Infante D. Henrique, o que lhe valeu a inesquecível honra de haver sido aluno do Poeta Pedro Homem de Melo, que nesse estabelecimento lecionava língua portuguesa.

Sua trajetória profissional incluiu estaleiros navais em Angola e no Brasil, mas gastou a maior parte da sua vida nas lides da exploração de Petróleo ou a ela ligado ao redor do planeta, motivo pelo qual gosta de dizer-se simplesmente ‘Oilman’.

A poesia é sua mais cara atividade no universo das letras, no qual aliás não possui nenhum crédito acadêmico, dedicando-se também a contos e crônicas da vida real.”

Ora bem, agora teremos música, a condizer com o tema e com o texto. Ouçamos:
Havemos de ir a Viana
Música: Alain Oulman e Letra: Pedro Homem de Mello
Intérprete: Amália Rodrigues (Disco: Amalia e Vinicius)

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Fado triste
Autor: Vitorino/Intérprete: Misia
(Disco: Paixões Diagonais)

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Ser Aquele
Letra: o poema “Ser Aquele”, de Fernando Pessoa
Intérprete: Camané (Disco: Sempre de Mim)

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Professor e seus professores

dia do professor - cosac naiff
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Hoje, afinal,  é o Dia do Professor, e como todos sabem  Professor não é só aquele que a gente tem em sala de aula.  Mais importante,  professor também tem os seus professores , durante toda a vida, reconhecendo-os ou não. Sem contar que a ação do professor deve transpor o espaço intramuros da sala de aula e ganhar a Cidade, a Polis (πόλις). Que aqui, além do sentido político mais imediato, significa também, num sentido mais amplo, os mundos –  o universo, aquele em que vivemos (“Dasein) e aquele que nós fazemos, que construímos permanentemente (“Lebenswelt“).
Nesses nove anos de blog, o Sub Rosa, tenho escrito bastante sobre a importância (e até mesmo sobre a ‘desimportância’) dessa e de outras datas. Hoje, porém, tendo em vista o horizonte atual – tão cinzento de desencanto e ações que apequenam o humano em nós, deixo este poema, já que, como todos sabemos, fora da poesia não há salvação.

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu deus.
Tempo de absoluta deturpação.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho , a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice ?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam ( os delicados ) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade.Sentimento do Mundo In: Poesia Completa.

=-=-=-=-=-=

E -também oportuno -um texto, uma denúncia de um fato emblemático e que não se pode deixar de levar em conta.

Sub rosa: Axiomas

Agora em meu retorno, após quase um ano no estaleiro, me vem uma sensação em que creio que não tenho mais ou quase não tenho mais nada a dizer em blog. Os blogs agora parecem fora de moda, depassés, exceto os de política ou os corporativos.
Isso merece um post: *para que serve um blog, after all?*(***)
Vejo uma quantidade imensa de blogs que eram meus favoritos e que ao se chegar lá há uma mensagem : “aberto exclusivamente a leitores convidados”, beijomeliga. Pfui! Triste! afinal o que  eu posso fazer pra ser convidada? Eles nem vão saber que eu fui lá:-( . Lembro  o  grande Groucho Marx:  “Não entro pra clube que me aceita como sócio”…
Então, fico chupando o dedo, imaginando que meu tempo (o tempo do blog) passou. É como diz na missa: ‘felizes os convidados par a ceia do Senhor’.
Volto cabisbaixa. E vou me queixar à Magaly que tem uma percepção muito correta do que acontece e do que deixa de acontecer:-)
Insisto, porém – já que estou alegre e cheia de vida (e cheia de amor pra dar, hoho) – pelo menos por algum tempo, nos meus poemas, nas minhas rosas e fico com a leve impressão de quando eu deixar de fazer o Sub Rosa, já vou tarde, como diria o Chico, na canção.
Me voilà:

AXIOMAS
Orides FontelaSempre é melhor
saber
que não saber

Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer

Sempre é melhor
desfazer
que tecer

Sem mão
não acorda
a pedra

sem língua
não ascende
o canto

sem olho
não existe
o sol .

Orides Fontela (São Paulo, 1940- 1998)
P.S. Não deixem de ler o artigo do também Poeta Donizete Galvão no mesmo site.
Infelizmente, esgotadíssimo, a Livraria Duas Cidades editou a obra completa de Orides, na admirável coleção “Claro Enigma”

****
That is it.

***Em tempo, ainda em tempo:
Fui visitar o querido  Lord Broken Pottery e lhes digo, esqueçam tudo o que eu disse acima. Vim de lá a tal ponto tocada que  só posso, sem palavras, recomendar que leiam aqui:

Maria Guimaraes Sampaio

e aqui:

Alguém escreveu

Toques de encantarias. Alumbramento.

STRANGE FRUIT.

strange_fruit

Eu sei, eu sei: sai o Weblog do Pedro Dória, um blog do meu coração, ele, nosso contemporâneo, sendo ele, o Pedrinho,  quem ‘nos’ recebeu – um dos pouquísimos jornalistas que não era como quase todos os outros a essa época, primeiro semestre de 2001:  na maioria acerbos críticos, de uma estreiteza de mente que levou a uma bloody generalização, a de que blog era diário tipo “ah! que c’est beau mon p’tit omblier”.
Em resumo para 99,98% dos brutos, blog era coisa de gente sem noção (OK, alguns eram mesmo). Acho que eles eram sinceros, pois a coisa “pegou” mesmo para os incréus e  *lerdos* foi depois do 11 de setembro.  Agora, o irônico  é que graças a pessoas como Pedrinho (não é forçação de intimidade, é que alguns de nós sempre o tratamos assim e assim ele era para nós: e ele era a a própria representação do NO – Notícia e Opinião) e Cora Rónai, (esta deu a famosa resposta a Marcelo Tas qando ele numa entrevista perguntou: ‘Você pode traçar um perfeil de um cara que faz blog?’ e ela respondeu: ‘Vem cá, dá pra traçar um perfil da Humanidade, cara pálida?’ – citação de memória portanto muito infiel nas palavras mas precisa, precisa demais no sentido -)  é que os blogs puderam se firmar, alguns excelentes, eu diria mesmo imbatíveis, nunca superados em qualidade, outros desistiram, outros foram deixando de er o que dizer e desapareceram para o oblívio:-) e outros, claro, nunca chegaram a ter seus 15 minutos de alguma coisa, a não ser..bem, orbitando em torno de algum deslize possível ou imaginário de outros –  bom,  mas foi graças as pessoas como eles, Ped e Cora Rónai, que, *num vu*, ironicamente, tudo que era jornalista passou a ter blog, chegando  mesmo a haver um fase em que  blog mesmo só  valia se fosse de jornalista… Se é que me entendem, embora em circunstâncias beeeeem diferentes, parece que tudo voltou a ser a mesma coisa. Blog parece só valer se for escrito por jornalista. E os jornalistas brigam entre si, e…. O que eu acho mesmo é que falta alguém dessa época, que seja bem articulado e que tenha boa visão e excelente memória contar o que foi a história dos blogs no Brasil. É uma história de fases, e rio muito de uma especial em que se cunha a estranha, estranhíssima frase dubitativa: “Blog é literatura?”

E sim, ou melhor não,  não vou deixar de falar no professor e escritor Idelber Avelar. Como ele já esteve fora, interrompeu  a atualização do blog, uma vez e voltou; como ele não disse que está deixando de blogar , mas ralentando. então não conta. Só estranho, um direito que tenho como leitora e  admiradora,  porém ele explicou muito bem, que ele se tenha despedido num post em que não diz uma única palavra sobre a situação política atual. Mormente sobre certas situações gritantemente constrangedoras. Que quanto a isso, claro sempre as há. Mas falta-me o parecer dele, tão atuante e afiado que é .  A tudo tão tão atento. Eu digo isso  porque o Idelber, era – no blog –  antes de tudo, não um intelectual, mas um crítico político e dos muitíssimo bons. E dos mais polêmicos e desafiadores. Não que ele não seja um intelectual. Mas ele mesmo deve estar me entendendo muito bem, melhor do que ninguém.  Nessa hora, nessa  precisa hora, eu não esperava que ele saísse. Ou talvez, I mean, eu me sinto confusa sem o blog  dele num momento tão especial, tão rico, tão decisivo, eleições etc etal… Tão  carecendo de pessoas  com a fibra singular que ele  tem.  Mas se só está hibernando, então ele sabe o que está fazendo.  Ele tem o que se chama de accuracy. Então, escolheu convenientemente. Sabe a hora que escolheu para tal. Só desejo a ele grande sucesso. E rápido retorno.

Já o  Pedro faz a gente ficar tristealegretriste, embora  eu e acho que todos esperamos que volte logo. Tipo assim, fora de jornal jornal;-)  E  sempre de uma forma renovada, rica e diferentemente semelhante.

♣♣♣♣♣

Mas, muito bem, o que tem a ver o título e a ilustração deste post com esse intróito “ceroso”?

É que para algumas pessoas amigas eu disse que hoje daria (porque só hoje saberia) uma resposta a respeito de como eu vou, como eu estou. Uma consulta importante etc etc…l. Pois bem, estou djoinha, pulei uma grande fogueira. E, como símbolo desse estado, bom, maravilhoso e, sobretudo, esperançoso,   essa fruta aí acima entrou hoje no meu cardápio,  por recomendação médica. Vou ficar ultrajantemente mais bonita, mais saudável, até mais  nova com ela :oO.   Agora a fruta, Putzgrilo, a fruta…. Tem nomes lindíssimos e é bonita, embora seja um cacto!: olhem aqui. Tem até flor com nome poético, literário demais.

Querem ler a respeito e tirar suas conclusões? :-c . Pois é, os  resultados dos exames foram ótimos.  E sabe, gente, eu até desconfio, com perdão do Grande Lord (que lordeza/nobreza pouca é bobagem,  tee-hee) que voltei a ser mais chique até do que eu já era. pisc*

Essa foto,  eu tirei da minha casa, da janela da minha cozinha amazônica.

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Eu, que agora ninguém me segura, já comecei a responder a todos, todíssimos que comentaram aqui. São todos uns lindos, megníficos. Mille mercis.

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Reparem quantos anacolutos.

Tudo isso pra dizer que os bons blogs fecham e eu aqui falando de.. frutas, estranhas frutas, exóticas frutas.

Fazer o quê. Aqui tudos, praticamente tudos sobre essas lindas cactáceas:-))

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E isso: