Alma Lusa, por Luis C. Nelson

            Quando,  em abril deste ano,  discutíamos a respeito da lírica portuguesa, a do conceptismo, a do Cancioneiro Geral, com a valorosa e aguerrida equipe de comentaristas que, imodéstia à parte, só o Sub Rosa tem;-), o meu amigo Nelsinho (Luís C. Nelson, do blog Mukandas ) manifestou neste belo comentário (clique para ler) (“Devo ter recebido um pouco da alma de Bernardim, a julgar pelas vezes que entro em choque frontal comigo próprio...”)  a sua identificação com Bernardim Ribeiro, o poeta do Eu dividido.
Gostamos tanto do comentário,  que logo  surgiu a questão:  nós, brasileiros, teríamos  herdado algo da   triste, melancólica por natureza, alma lusitana? O que se entende por “alma melancólica do português” ? E, ao fim e ao cabo, portugueses e brasileiros partilhariam o mesmo substrato melancólico?
Claro que diante disso, eu não ia deixar por menos. Pedi a Nelson que – em sendo possível, expandisse para nós esse conceito.
E ele – que há muito me honra com sua amizade, não regateou esforços para, a despeito da sua eterna falta de tempo, produzir este belíssimo texto que se segue.
Deixem-me apenas dizer que o texto a seguir   vem reconfirmar que seja onde quer que escreva, no seu blog, em sua página pessoal no Facebook, nos comentários, Nelsinho faz de cada lugar um palco textual em que – utilizando o distanciamento da ironia, na observação da realidade e sua percepção poética –  algumas das suas  inquietações metafísicas e, por que não dizer?, alguns sutis malaises existenciais, encontram a sua melhor expressão literária. Muitíssimo obrigada, Nelsinho.

ALMA LUSA
“Se meu mestre estivesse aqui para me elucidar e ajudar a escrever algumas frases sobre a tão cantada alma lusitana, por certo ele começaria com uma afirmação, que poderia muito bem ser …

“…que dos lusos poetas os corações,

de tão tristes parecem talhados,
com aqueles mesmos machados
que talham as tábuas dos seus caixões…”

Não disponho de tempo para os caminhos da pesquisa nos velhos e belos alfarrábios do Real Gabinete Português de Leitura, ou nas fontes mais ou menos escondidas, mais ou menos esclarecidas nos meandros da Internet, sobre as origens dessa tão intrínseca tristeza, que de tão intrínseca, é tumor que o tempo não logra extirpar.
Recuo decididamente no tempo, diretamente para as madrugadas de frias névoas. Junto-me aos rudes, andrajosos e miseráveis autômatos que desfilam ecoando seu calçado de madeira com brôchas de ferro pelas graníticas vielas e quelhos da aldeia sem idade, suas enxadas às costas, seus mirrados estômagos roncando de mau humor a água-ardente e algumas gramas de pão de milho oferecidos pelo senhor da terra como mata-bicho, até que suas mulheres lhes aportem às lavouras, a habitual e pobre malga de caldo de cebola. Exausto, sigo-os enquanto descem os montes ao final da massacrante jornada de sol-a-sol. Olho as reações dos seus rostos tristes, que tão tristemente se alegram com as parcas moedas que, com desprezo, são colocadas sobre suas calejadas mãos. Completando o soldo, um copo único de vinho tinto e uma côdea a mais de pão de milho. A poesia sai-me esfomeada e mortalmente triste, mortalmente tísica…

Flano para os meus verdes anos e relembro a minha paixão pelos grandes veleiros aparelhados para a pesca do bacalhau. Furtivo e ladino, escalo o portaló e esgueiro-me por entre os dóris empilhados ao longo do convés, do qual se solta e sobe aquele inebriante odor do piche e da estopa do madeirame recém calafetado. Encho os pulmões, inspirando a coragem e sacrifício daqueles homens de rudes modos por cujas faces rolam lágrimas enquanto agitam lenços brancos em resposta aos amargurados acenos de despedida das mulheres em prantos, com suas crianças ao colo, sua triste sina da difícil sobrevivência em terra, enquanto esperam a promessa de improváveis melhores dias com boas comissões de pescado. Muitos meses passarão, alguns perecerão, perdidos dentros dos seus pequenos doris que remam frenéticamente para o nada, no meio do súbito e assassino nevoeiro, sobre as geladas águas da Terra Nova. A poesia sai-me soluçada em saudade, solidão, medo e sofrimento atroz…

Serão estes dois exemplos suficientes para justificar a alma de um povo? Certamente que não mas, se o pesquisador se embrenhar pelos “mists”da história, por guerras e perigos esforçado muito mais do que promete a força humana, por vidas errantes, por terras estranhas, por sofrimentos lancinantes, por dores tamanhas…”

.
“Nelson Castro, ou Luis C. Nelson, ou simplesmente Nelsinho,  nasceu na invicta e mui nobre cidade do Porto, Portugal, nos idos de 1944. Seu pai era um daqueles fotógrafos-artistas de studio, que retocava pacientemente os negativos e coloria manualmente suas incríveis ampliações, delas fazendo verdadeiras obras de arte, geralmente muito mal pagas.

De seu pai, recebeu não só o gosto pela fotografia e paixão pela literatura e musica, mas também “skill” para as coisas técnicas. E foram as habilidades técnicas que o levaram a ingressar na Escola Técnica Elementar e depois na Escola Industrial Infante D. Henrique, o que lhe valeu a inesquecível honra de haver sido aluno do Poeta Pedro Homem de Melo, que nesse estabelecimento lecionava língua portuguesa.

Sua trajetória profissional incluiu estaleiros navais em Angola e no Brasil, mas gastou a maior parte da sua vida nas lides da exploração de Petróleo ou a ela ligado ao redor do planeta, motivo pelo qual gosta de dizer-se simplesmente ‘Oilman’.

A poesia é sua mais cara atividade no universo das letras, no qual aliás não possui nenhum crédito acadêmico, dedicando-se também a contos e crônicas da vida real.”

Ora bem, agora teremos música, a condizer com o tema e com o texto. Ouçamos:
Havemos de ir a Viana
Música: Alain Oulman e Letra: Pedro Homem de Mello
Intérprete: Amália Rodrigues (Disco: Amalia e Vinicius)

***
Fado triste
Autor: Vitorino/Intérprete: Misia
(Disco: Paixões Diagonais)

***
Ser Aquele
Letra: o poema “Ser Aquele”, de Fernando Pessoa
Intérprete: Camané (Disco: Sempre de Mim)

***

Sociedade da poetisa viva – Adília Lopes

canova

NO MORE TEARS
Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

IN: O decote da dama de espadas, 1988

*** *** ***
NÃO GOSTO TANTO

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.

In:Florbela Espanca espanca (1999)

***  ***  ***
FRAGMENTO


“Em 81 disse à Dr.ª Manuela Brazette, psiquiatra, “Eu sou feia”. Ela disse-me “Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atractivos sexuais”. Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego. Lembrei-me do homem, da cara do homem vagamente, mas lembrei-me muito bem do que ele me tinha dito ao passar por mim. Tinha-me dito “Lambia-te esse peitinho todo”. Lembrei-me também da meia-dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinha dito quando eu passava “Coisinha boa” e “Borrachinho”. Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens. Pensei que estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões. Mas quem estava a avacalhar era a Dr.ª Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona. Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma mulher como outra mulher.

(In: Irmã barata, irmã batata. Braga/Coimbra: Angelus Novus, 2000)

**** **** *****
COUP DE GRÂCE

Uma mulher
nunca pode
apaixonar-se
por um homem
antes de o homem
se apaixonar
por ela
o homem pune-a
por isso
e por muito mais
o homem não a abate
vai-se embora
fechado em copas
a mulher pune-se
a si mesma
se não tem vergonha
por si
tem pena
menina e mãe
num saco
estóicas
como a pescada
que antes de o ser
já o era

(In: Obra. Lisboa: Mariposa Azual, 2000

**** **** *****

Não podemos
desamar
quem nos ama

Se nem
quem nos desama
podemos desamar
****
Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

IN:Caderno, &Etc, 2007

*******

COM FOGO NÃO SE BRINCA

Com fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
e muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo.

In: Um Jogo bastante perigoso, 1985.

********

Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
ficam os peixes
como disse Santo António
aos textos.

******
Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras
para não arranjarmos complicações.

In: Clube da Poetisa Morta, 1997

*** *** ***
Palavra (escolhidas) de Adília:


“Adília Lopes e Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira são uma e a mesma pessoa. São eu.”

*****
“Há sempre uma grande carga de violência, de dor, de seriedade e de santidade naquilo que escrevo”.

*****
“Tive um esgotamento psíquico no Natal e estou a escrever isto no princípio da Primavera. Sinto que ainda não estou bem. Peço desculpa por o texto ser breve e aos saltos, aos trambolhões.
Escrevo sempre por inspiração e num impulso. Sophia de Mello Breyner Andresen diz muito melhor do que eu o que é e como é para mim escrever um poema. Está tudo em “Arte Poética IV” de Dual.
O poema que ilustra e encima este meu texto foi escrito da seguinte maneira que passo a registar.
Eu vivo de uma maneira sofrida actualmente porque tenha uma doença psíquica, posso vir a ter dificuldades de dinheiro e o mundo não está cor-de-rosa. O dia a dia é muito sofrido. Desde que o meu pai morreu que decidi deixar crescer o cabelo que usei sempre muito curtinho durante 21 anos seguidos. Passados dois anos e só dois pequenos acertos do cabelo, decidi experimentar fazer rabo de cavalo. Comprei um elástico e quatro ganchos. Essa compra motiva o poema, a meu ver.
O poema surge assim de minha vida presente e passada. É autobiográfico à sua maneira. Já não uso rabo de cavalo. Surge da leitura. E surge da Sophia. Decalquei o poema “Soror Mariana – Beja”, de O nome das coisas.

SOROR MARIANA – BEJA

Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.

A expressão “em rabo de cavalo” é o quotidiano. As minhas grandes influências, que admito e reconheço, são Sophia, Ruy Belo e Sylvia Plath. Foi com eles que comecei a escrever e é com eles e por eles que continuo a escrever e a ler.
Eu tenho a minha vida, mas assim como digo “Bom dia!” e a expressão “Bom dia!” não é de minha autoria, alguém a inventou muito antes de mim, a minha poesia é como se não fosse minha. Sinto-me despojada, desapossada, despossuída da minha poesia. O que faço é conviver: pôr a minha vida em comum.
A ideia das sombras e do desassombro não é também minha. Um namorado dizia a certa altura que havia menos sombras em mim, o que me fez ver que tinha havido e que havia sombras em mim. Um programador de televisão falou de desassombro a respeito de algumas das minhas prestações televisivas.
A minha poesia é uma poesia ao quadrado. Fiz uma metáfora de uma metáfora: em vez de trigos cortados, o cabelo apanhado em rabo de cavalo. Acrescentei um capitel: as sombras. Onde a Sophia viu paisagem, eu vi o meu corpo.”

(publicado originalmente na revista Relâmpago número 14, de Portugal e em 2008 na revista Inimigo Rumor nº 20)

*****

OBRAS DE ADÍLIA:

Este é um grande problema. Só tomei conhecimento do mundo de  Adília Lopes, quando ela “desembarcou” no Brasil, em 2002, com a ‘Antologia’, organizada pelo Carlito Azevedo, com posfácio da Flora Susssekind – minha ‘ídola’-  publicada pela  Cosac Naify, e a essa altura, ela já fazia poemas e poesia há tempos. (Observem os títulos, o que já é uma pista “quente” sobre a autora e os sutilíssimos vieses de sua obra. Sempre sarcástica, irônica e dedoublée. Aparentemente ingênua ou de menor importância, devia vir com um aviso: cuidado, o que vc está lendo  contém referências – as  nem sempre  e as completamente – explícitas a Ann Sexton, Sylvia Plath, Rimbaud, Verlaine, Camões, Clarice Lispector, Soror Mariana Alcoforado, Fernando Pessoa, Sophia, ah! e as intertextualidades todas e mais algumas…  ). Adília não tem medo do ridículo. Faz-se de tonta e muitos dizem que se expõe mais do que se devia.  Fala de sua doença e de sua aparência. E daí? Afinal… e o risco subscrito que faz parte do jogo perigoso?

Deliberadamente não escrevi nada pessoal ou (im)pessoalmente crítico. Para quê? Não só agora, Adília é já conhecidíssima, a internet está coberta de ‘adílias’. Uma verdadeira *sociedade da poetisa viva*.  Reparem, ela escreveu um  livro chamado “Clube da poetisa morta”.  Melhor alusão que essa? Para além disso, a mistura que faz entre o (auto)biografismo, o lírico  e o poético e o prosaismo da narração, alguns de seus poemas são narrativas – ela faz questão de mostrar… é o  que  imprime beleza,  em seu modo tão ‘despreconceituoso’ , a uma  invenção intertextual, que é  um verdadeiro  ganho insuspeito para quem a souber ler. Leiam comigo e descubra – e me ajudem a descobrir,  as marcas, os slogans, os aforismos, os *ditados*, os provérbios reconstruídos (a pão e agua de colônia, não é lindo e genial?), seus gatos que gostam de brincar com as baratas (dela). Vocês  lembram de um shampoo [xampu] chamado Vidal Sassoon?, pois Adília faz a festa, com Judith, Dalila e Salomé e seus próprios cabelos.

Pois bem, falando de águas que são passadas e de moínhos que são movidos, até que não faz mal dar uma lida  aqui na wikipedia.

Só para (não) finalizar, fiquem com esse presente  que me dei: Adilia Lopes; as crônicas do meu moínho.

***** Bibliografia:
[Primeiras edições:  Um jogo bastante perigoso. Lisboa: da Autora, 1985;
O poeta de Pondichéry. Lisboa: Frenesi/ & etc., 1986;
A pão e água de colônia (seguido de uma autobiografia sumária). Lisboa: Frenesi/ & etc., 1987;
O marquês de Chamilly (Kabale und Liebe). Lisboa: Hiena, 1987;
O decote da dama de espadas (romances).  Lisboa: INCM/Gota D’Água, 1988;
Os 5 livros de versos salvaram o tio. Lisboa: da Autora, 1991;
Maria Cristina Martins. Lisboa: Black Sun, 1992;
O peixe na água. Lisboa: & etc., 1993;
A continuação do fim do mundo. Lisboa: & etc., 1995;
A bela acordada. Lisboa: Black Sun, 1997;
Clube da poetisa morta. Lisboa: Black Sun, 1997;
Sete rios entre campos. Lisboa: & etc., 1999;
Florbela Espanca espanca. Lisboa: Black Sun, 1999;
Irmã barata, irmã batata. Braga/Coimbra: Angelus Novus, 2000.]
A mulher-a-dias. Lisboa: & etc., 2002.
César a César. Lisboa: & etc., 2003.
Poemas novos. Lisboa: & etc., 2004.
Le vitrail la nuit * A árvore cortada. Lisboa: & etc., 2006
***
E mais:
Dobra – Poesia Reunida. Assírio & Alvim, 2009
Apanhar Ar. Assírio & Alvim, 2010

(Neste, último, o que reservará Adília para nós? Eu, confesso muito triste, ainda não sei. E você o que achou? O que acha? Foi para vocês que fiz o post, talvez tenha ficado assim mais ou menos,  mais pra menos, mas lhes digo, falar de Adília é isso, uma odisséia, verdadeira  tarefa de Ulisses:-)

(updated)

Curtas e delicadas

the greeting /le Salut/1938/paul delvaux

the greeting /le salut/1938/Paul Delvaux

Felipe Fortuna (*) num  *exercício crítico*, cheio de  ironia e sarcasmo, fustigando o ridículo, o moralismo das mazelas tão amplamente terrenas da vida literária.  Retrata a esgrima dos contrários, a “discordia concors“, o cânone posto do avesso. A chamada lex inversa. Um certo tom muriliano e  talvez, sem querer, em algumas provocações, deixa ressair uma ponta de dor e sim, uma espécie de compaixão. Curtas e  cruelmente delicadas. Com ou sem *notalgia*.
O que você acha?

***

O provérbio transforma a realidade num vasto lugar-comum.

***

O poeta mais ou menos mostra seu poema a outros poetas mais ou menos. Juntos, decidem publicar uma revista e tudo termina sem mais nem menos.

***

Durante a Semana de Arte Moderna, quanto subiu o preço do café?

***

O livro de bolso não publicou os textos do artista minimalista. Por sua vez, impressa em papel bíblia, a obra extensa do poeta ficou reduzida ao Gênesis e ao Apocalipse.

***

O bibliófilo acaricia dia e noite o cólofon e o frontispício: fica sozinho entre livros por toda a vida, sem amor e sem folha de rosto.

***

De repente, percebeu que o escritor tinha muito mais livros publicados do que ideias.

***

O cantor popular afirma que suas canções são poemas. O poeta precisa transformar o seu poema numa canção, pois está sem dinheiro. Juntos, o cantor e o poeta concorrem à nova edição do Big Brother Brasil.

***

Dou um boi morto, de Manuel Bandeira, para não entrar em briga; e a boiada vai, como um navio, de Guimarães Rosa, para não sair.

***

O lugar-comum transforma o provérbio numa vasta realidade.

***

Tarde da noite, o PhD em sonetos se encontra com o aprendiz de poeta concreto. Juntos, fundam a Tradicional Família da Forma.

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Durante a Exposição Nacional de Arte Concreta, quantos prédios foram erguidos em Brasília?

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Uma epigrama mordaz, porém escrita pelo epígono. Ainda assim, sentiu-se no epicentro da vida literária, onde o que há de mais profundo é a epiderme, segundo escreveu o imitado poeta francês. À procura de uma epifania, acabou sendo apenas um episódio, que hoje se lê em epígrafe.

***

Fui tomando notas enquanto lia aqueles poemas muito eruditos, que, segundo me garantiu o amigo, “têm peso”. Em silêncio, lembrei que a dor na região dorsal se chama notalgia.

***

Há de tudo na internet, por que se preocupar? Já se pode surfar de Platão a Schopenhauer, de Anchieta e Euclides, de Deleuze a Derrida. Mas quem disse que o surfista tem tempo para ler em alto mar?

***

“O seu poema visual tem mesmo influência de Mondrian?” “Tem sim senhor, não seja quadrado…” “Mas eu estou apenas perguntando…” “Se meu verso não deu certo, foi seu olho que entortou.”

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Então está combinado: eu escrevo o poema no domingo e você publica um comentário elogioso no sábado. A literatura brasileira só acabará quando for abolido o fim de semana.

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Durante o Festival Nacional da Canção, as aves que aqui gorjeiam gorjearam como lá?

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O poeta encontra a musa. Juntos, haveria um baby boom?

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Agora que existe poesia feminina, gay, racial, religiosa, grupal, é hora de se preocupar com o leitor desamparado.

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Aqui jaz o Príncipe dos Poetas, que deu seu reino por um enjambement e evitou o blog porque não suportava os numerosos acessos. Preferiu mesmo, juntamente com o trono, uma edição fora do comércio.

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Ainda que mal lhe pergunte, e agora, José?

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Concordo: cada um tem um modo de usar as palavras. Mas as palavras fazem amor, como lembrou Roland Barthes, e eu não vou ficar aqui plantado de voyeur.

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Etiqueta, até onde entendo, é o uso da ética com o menor esforço possível.

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“Sou professor de literatura e me especializei em vanguardas literárias.” “E que autores o senhor mais estuda?” “Aqueles que aceitam as vanguardas literárias.”

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De dois em dois anos, durante a Bienal do Livro, quantos escritores ímpares comparecem?

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O poeta mandou seu livro pelo correio, mas esqueceu de escrever na frente do envelope a crise do verso.

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Durante a Festa Literária Internacional de Parati, quantos poetas herméticos mereceram tradução simultânea?

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A realidade transforma o lugar-comum num vasto provérbio.
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(*) Publicado, com o título Pílulas de sabedoria, no  Jornal do Brasil Caderno Ideias & Livros. 31 Jan 2009.
Faz parte do seu livro, Esta Poesia e mais outra, 2010, lançado pela Topbooks.  Veja resenha de Antonio Miranda.
Do qual se falou aqui no Sub Rosa.

— ‘Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata, Felipe Fortuna estreou com o livro de poemas Ou vice-versa (1986), a que se seguiram Atrito (92) e Estante (97), este pela Topbooks, que no ano seguinte editou também Curvas, ladeiras – bairro de Santa Teresa, dedicado ao lugar onde o autor viveu no Rio de Janeiro. Esta poesia e mais outra reúne uma série de textos de crítica literária capazes de fazer o leitor refletir sobre os mais diferentes temas: do projeto totalizante do Livro de Mallarmé às origens medievais da canção “Coração materno”, sucesso de Vicente Celestino, passando pelo famoso ficcionista e crítico francês Philippe Sollers e pelos poetas brasileiros Armando Freitas Filho e Paulo Henriques Britto, entre muitos outros. Para o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero, que assina o texto de apresentação, “este livro invulgarmente perspicaz, erudito e espirituoso traz uma contribuição preciosa à nossa reflexão sobre a literatura e, em particular, sobre a poesia”.

Leia Felipe Fortuna –  por Antonio Cícero.
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Site de Felipe Fortuna


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Acerca da vida, da amizade e … da crítica.

sandra bréa em foto de antonio guerreiro, seu ex-marido. em 1970

sandra bréa.foto de antonio guerreiro.seu ex-marido. em 1970

“Brevity is the soul of wit”. Shakespeare. Hamlet.Act 2, Scene 2

“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sae perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

“Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas ás vezes (não repare na acentuação, quem acentua pra mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.[…]

“Vc foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando […]. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que meu presente [..] foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

“Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então eu vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei … [..]. Sua, Clarice”

Em 11 de dezembro de 1970, Clarice Lispector escreveu essa carta para Olga Borelli, escritora, professora, sua amiga, secretária e acompanhante.

Sei que é uma coisa muito feia, querer fazer *bonito* com o talento dos outros, mas eu, tal como aquele rapaz grego, o Sócrates, não tenho em mim nenhum talento, sabedoria, nenhuma capacidade criadora. E nisso reside a pequeníssima diferença que me faz ser … assim, digamos, diferente. (o grifo da ironia).Talvez acredite mesmo que sou especial. (modesta, então nem se fala). Aliás, a modéstia é o segredo do meu sucesso e não me pergunte: que sucesso?
Essas considerações, portanto, são inspiradas nas inseguranças – fragilidades – incoerências -inadequações de Clarice, já se vê.
A única coisa que eu sei, é que a vida é muito pouco pra tudo o que eu desejo e preciso aprender. E sei que amo a Vida. Sem apego, mas com zelo.
O resultado disso é que é espantoso: ao viver, desenvolvi uma habilidade singular, meu olho (quase) só vê a beleza, a delicadeza de um mundo de pessoas gentis. Elegantes (lat. elègans ‘que sabe escolher; bem escolhido). Consigo ver à distância o que é bom, o que é bonito, o que tem valor. Mesmo que esse valor esteja muuuito escondido. Preciso muito de ser assim, e agradeço por ser assim, pois como não morrer de tristeza, quando há tanta coisa feia nesse mundo, ao redor, ao perto e ao longe. Ao saber que na Amazônia, meu país, mon royaume, assassinaram o velejador neozelandês Sir Peter Blake. A Irmã Dorothy? E aí onde você está, ontem foi a guerra! O horror! O horror. E  um ror de coisas mais.
Um poeta espanhol que eu amo muito, Juan Jose Jiménez (1811-1958), poeta de los poetas cunhou a frase que me tem servido de lema de vida, e como não terei epitáfio, queria ser lembrada por ela. “ Não sou eu que escolhe o melhor; o melhor é que me escolhe.”
Vivo sempre como se me restassem horas de vida, e precisasse ver toda a beleza. Pessoas desabrochando. Florescendo. Expressando o seu *melhor*.
Paulo Francis, uma de minhas paixões irrecorríveis, (OK, há que se ter coragem pra dizer isso nos tempos atuais, diga lá?… ‘pero soy uma chica con clase’) Francis costumava dizer, nos últimos tempos, todos sabem, que se sentia tecnicamente morto. Eu , se passar um dia sem que tenha descoberto algo de bom, papa fina, como se dizia antes, algo de que eu possa falar bem, sou vice-morta.
Não, não se trata de “só falar bem” do que  é escrito ou criado, (*) a diferença é sutil, o que eu quero é escrever acerca do que realmente é bom e tentar mostrar porque o que é bom é bom.
Um dia alguém descobrirá isso , ou ninguém descobrirá e minha vida terá sido em vão. Se descobrirem captarão a ânsia que pauta até o próprio ato de (eu) respirar…
‘Viver nunca foi pra mim uma calma tessitura de dias que se juntam hesitantemente a outros dias, plácido trabalho, lentíssima costura…’ sou ansiosa, não paro pra ser gentil, tenho um gênio danado de danado,  tenho urgências e corro o mais rápido que posso, para chegar aonde? Ao que você, meu outro, faça ou crie e que seja algo original (se é que existe o… original), que você escreva ou crie o melhor.
O que fazer com a ânsia, se viver começa pela paciência da espera? A escrita começa pela paciência da espera. A música começa pela vitória sobre a pausa. (depois da paciência da espera). Quem é músico sabe, quem é escritor sabe.
Eu apenas ardo e espero.
* * *
(*) Para os que acham que só é bom crítico aquele que fala mal (crítico bom é ‘crítico cruel’, o que desce o “pau” hmmm… Masoch perde) eu ainda vou escrever algo  sobre a origem da crítica que remonta aos três trágicos, você sabe, aqueles Ésquilo, Eurípedes, Sófocles. Acredite, se quiser, crítica não é assim. Não era (para ser) assim. Era critério para saber a diferença entre o bom e o fazer bem.
Sorry.

* * *
Rose Marinho Prado, esta ‘crônica'(?) é para você. Obrigada pelo texto, Clarice está em Clarice. Por que a Sandra Bréa? Ora, e não é Clarice?!, você depois verá. Imprevisto, hora da estrela, brevidade… você sabe.

Vivina de Assis Viana: ‘Será que estou lendo o que estou lendo?’

Será que estou lendo o que estou lendo?

“Nos últimos tempos, com uma frequência que eu gostaria que fosse menor, tenho me perguntado se realmente estou lendo o que estou lendo. Ou ouvindo o que estou ouvindo… Explico: às vezes, é tudo tão absurdo, tão irreal, que fico pensando que minha mãe, que me alfabetizou – à noite, na cozinha da fazenda –, não trabalhou direito. Ensinou errado. […]
“Li, nos jornais diários, que uma professora de Belo Horizonte, justamente da UFMG, enviou um parecer ao MEC sugerindo que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não seja distribuído nas escolas públicas, por induzir ao preconceito.” […]
“Literatura não é coisa que chega pronta, nunca foi. É uma linha de pensamento que nasce no autor e atinge, na outra ponta, o leitor. Não passivamente. Pensativamente. Discordando, questionando, indagando. Até concordando, por que não?[..]” Leia mais deste post

Passageira em Trânsito – Marina Colasanti

Marina Colasanti, escritora, contista, ensaísta e poeta  receberá, no dia 4 de novembro, pela 4ª vez, o prestigioso Premio Jabuti, categoria Poesia, com o livro “Passageira em trânsito”. O Sub Rosa, privilegiado que é, publica aqui uma recensão de autoria da também poeta  Magaly Campelo  Magalhães, em estilo preciso e sensível, acerca do livro de Marina.

Falando de Passageira em Trânsito, de Marina Colasanti, premiada com o Jabuti/2010 em Poesia.

Magaly Campelo Magalhães(*)

Delicioso o trânsito desta passageira desde os primeiros minutos em que seu avião taxiou na pista e ‘fez-se ave’, na figura criada por sua delicada percepção, elevou-se às alturas, descortinando um mundo de sensações, o ‘andar da paisagem’, o pressentido ‘rumor de águas escuras’ ou o fragor do mar que, ‘próximo, despenca´. O leitor sufoca, tal a intensidade das emoções captadas dos gestos humanos, da diversidade dos tipos e paisagens, da complexidade das aproximações, das aparentes ou não inclusões / exclusões, tudo isso guarnecido com reveladoras impressões pessoais. Esse agudo senso de observação mesclado ora de lirismo, ora de humor crítico, ou de sensualidade impressiona e encanta, como em:

Viagem por um fio Leia mais deste post

Professor e seus professores

dia do professor - cosac naiff
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Hoje, afinal,  é o Dia do Professor, e como todos sabem  Professor não é só aquele que a gente tem em sala de aula.  Mais importante,  professor também tem os seus professores , durante toda a vida, reconhecendo-os ou não. Sem contar que a ação do professor deve transpor o espaço intramuros da sala de aula e ganhar a Cidade, a Polis (πόλις). Que aqui, além do sentido político mais imediato, significa também, num sentido mais amplo, os mundos –  o universo, aquele em que vivemos (“Dasein) e aquele que nós fazemos, que construímos permanentemente (“Lebenswelt“).
Nesses nove anos de blog, o Sub Rosa, tenho escrito bastante sobre a importância (e até mesmo sobre a ‘desimportância’) dessa e de outras datas. Hoje, porém, tendo em vista o horizonte atual – tão cinzento de desencanto e ações que apequenam o humano em nós, deixo este poema, já que, como todos sabemos, fora da poesia não há salvação.

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu deus.
Tempo de absoluta deturpação.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho , a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice ?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam ( os delicados ) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade.Sentimento do Mundo In: Poesia Completa.

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E -também oportuno -um texto, uma denúncia de um fato emblemático e que não se pode deixar de levar em conta.