Adélia – a coisa mais fina do mundo

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência…”

Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia…
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.

Uma tal esperança imploro a Deus.

Adélia Prado. Dolores‘.

*  *  *

Adélia Luzia  Prado completou 75 anos no dia 13 de dezembro de 2010. As comemorações foram intensas, a repercussão foi imensa. Como Adélia sempre foi “santa do meu altar”, aqui uma mostra reduzidíssima dessas homenagens:

* Lançamento do livro: A duração do dia (Record, 2010)

**  A simplicidade de um estilo – Entrevista Saraiva-Conteúdo

* * *Entrevista – Globonews:

(*)
A seguir,  uma bibliografia de Adélia que me foi enviada pelo  querido amigo Antônio Augusto Bocaiúva.
” OBRAS:
Individuais

POESIA:

– Bagagem, Imago – 1976
– O coração disparado, Nova Fronteira – 1978
– Terra de Santa Cruz, Nova Fronteira – 1981
– O pelicano, Rio de Janeiro – 1987
– A faca no peito, Rocco – 1988
– Oráculos de maio, Siciliano – 1999
– A duração do dia, Record – 2010

PROSA:
– Solte os cachorros, Nova Fronteira – 1979
– Cacos para um vitral, Nova Fronteira – 1980
– Os componentes da banda, Nova Fronteira – 1984
– O homem da mão seca, Siciliano – 1994
– Manuscritos de Felipa, Siciliano – 1999
Filandras, Record – 2001
– Quero minha mãe – Record – 2005
– Quando eu era pequena – 2006.

ANTOLOGIAS:
Mulheres & Mulheres, Nova Fronteira – 1978
Palavra de Mulher, Fontana – 1979
Contos Mineiros, Ática – 1984
Poesia Reunida, Siciliano – 1991 (Bagagem, O Coração Disparado, Terra de Santa Cruz, O pelicano e A faca no peito).
Antologia da poesia brasileira, Embaixada do Brasil em Pequim – 1994.
Prosa Reunida, Siciliano – 1999

BALÉ
A Imagem Refletida – Balé do Teatro Castro Alves – Salvador – Bahia – Direção Artística de Antônio Carlos Cardoso. Poema escrito por Adélia Prado especialmente para a composição homônima de Gil Jardim.

Vem de antes do sol
A luz que em tua pupila me desenha.
Aceito amar-me assim
Refletida no olhar com que me vês.

Ó ventura beijar-te,
espelho que premido não estilhaça
e mais brilha porque chora
e choro de amor radia.

(Divinópolis, 1998).

Em parceria

A lapinha de Jesus (com Lázaro Barreto) – Vozes – 1969
Caminhos de solidariedade (com Lya Luft, Marcos Mendonça, et al.) – Gente- 2001.

Traduções
Para o inglês

– Adélia Prado: thirteen poems. Tradução de Ellen Watson. Suplemento do The American Poetry Review, jan/fev 1984.
– The headlong heart (Poesias de Terra de Santa Cruz, O coração disparado e Bagagem). Tradução de Ellen Watson, New York, 1988, Livingston University Press.
– The alphabet in the park (O alfabeto no parque). Tradução de Ellen Watson, Middletown, Wesleyan University Press, 1990.

Para o espanhol:

– El corazón disparado (O coração disparado). Tradução de Cláudia Schwartez e Fernando Roy, Buenos Aires, Leviantan, 1994.
– Bagaje. Tradução de José Francisco Navarro Huamán. México, Universidade Ibero-Americana no México.

Para o italiano:

– Poesie. Antologia em italiano, precedida de estudo do tradutor Goffredo Feretto. Publicada pela Fratelli Frilli Editori, Gênova.

Participação em antologias

– Assis Brasil (org.). A poesia mineira no século XX. Imago, 1998.
– Hortas, Maria de Lurdes (org.). Palavra de mulher, Fontoura, 1989.
– “Sem enfeite nenhum”. In Prado Adélia et alii. Contos mineiros. Ática, 1984.

O trabalho acima foi baseado em dados obtidos na Internet (Jornal da Poesia, depoimento à Biblioteca Nacional, “As conversas com Deus” — Luciana Hidalgo – O Globo), BTCA – A.C.Cardoso, Cadernos de Literatura Brasileira – Instituto Moreira Salles, entre outros, e em livros da autora.

* * * * *

====

(*) Uma pequena nota pessoal:
Para mim, Adélia é insuperável na poesia. E, ainda assim, na prosa, a meu ver, ela rompe todos os limites ou barreiras da autoexpressão. O que é raríssimo acontecer com as poetisas. Só para dar um exemplo: você  imaginaria o mesmo efeito na experiência do rapto, do transe em Tereza de Ávila, escrito em prosa?)

*****-
CODA:
– Por que Katherine Hepburn?
– Bem… por que não?.

LILITCHKA – Updated

lilia brik (direitos de img reservados)

LÍLITCHKA!

Em lugar de uma carta

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchônikh. (1)
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração — aço.-
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua .
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor, meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

-==-=-=-

Wladimir Maiakóvski.Em lugar de uma carta“.
26 de maio de 1916 (Petrogrado)
(Tradução: Augusto de Campos)

(1) Alusão ao poema “Um jogo no inferno
de A. Krutchônikh e V. Khliébnikov.

Sobre Lilia Brik ler aqui. Ou ainda nestedossiê Maiakovski

‘Três mulheres em sua vida: Lilia Brik, Veronika (Nora) Polônskaia e Tatiana Iácovlieva. Quis casar com Tatiana, uma russa branca, mas não o fez. Também quis casar com Nora, mas ela não aceitou. Viveu com Lilia e com o marido dela, caso que estarreceu a sociedade e que foi batizado, ocidentalmente, de ménage à trois e, pela própria Lilia, de “uma ideologia amorosa”, fundamentada no livro de Tchernichévski – Que fazer? – que pregava a não-possessividade entre marido e mulher.

O caso teria acontecido mais ou menos assim, como narrado no livro I LOVE , the story of Vladimir Maikaovski and Lilia Brik, de autoria dos norte-americanos Ann e Samuel Carters, que passaram sete anos na Rússia bisbilhotando tudo a respeito desse outro lado da vida do poeta: Lilia era casada com Ossip Brik, crítico literário, e ambos vieram a conhecer Maiakovski quando este procurava um quarto para alugar. Passando a morar com o casal, os três tornaram-se muito amigos. Lilia e Maiakovski apaixonaram-se um pelo outro. Contaram a Ossip, que não viu motivos para deixar a casa. E continuaram a viver os três sob o mesmo teto.

Lilia foi “a mulher” na vida de Maiakovski, aquela para quem ele ofereceu poemas, aquela que recebeu o que viria a ser conhecido como “poema concreto”: um anel, gravado com as iniciais de seu nome – L – I – UB – que, ordenadas de forma circular, formavam a palavra LIUBLIU (AMO).

Em julho de 1972, Lilia Brik concedeu entrevista ao brasileiro Boris Schnaiderman, em sua residência perto de Moscou. Lilia garante que não tinha mais nada com Ossip Brik quando começou relacionar-se com Maiakovski. Quando desta visita de Boris, Lilia já estava casada há quarenta anos com V.A. Katanian, também amigo de Maiakovski, e ambos sempre se dedicaram a estudar e divulgar a obra do poeta. Em 1978, aos 86 anos, Lilia suicidou-se.’

Em que circunstâncias, uma pessoa como Lilia Brik se suicidaria , em idade tão avançada?

Este é um assunto fascinante e foi tratado em tese de doutorado pelo jornalista e professor de Filosofia Arthur Dapieve e -pessoalmente- o tenho considerado objeto de reflexão. O mesmo ocorreu com (1)Primo Levi, escritor italiano, químico, sobrevivente do campo de concentração Awschwitz-Bierkenau, autor dos livros  É isso um Homem e Tabela Periódica. Nasceu em 1919 e suicidou-se 1987, emTurim . (2) Gilles Deleuze (1925-1995) suicidou-se após grande sofrimento com um cancer de pulmão. 3-Há cerca de dois meses, em 29 de novembro de 2010, o grande cineasta Mario Monicelli , suicidou-se, depois de ter feito uma brilhante carreira e ser reponsável pela criação de algumas obras primas, aos 95 anos.

Nada de morbidez, asseguro,  apenas, estranhamento. O assunto, o importante, a essência, continua sendo o poético, o humanamente  poético.

***

=-=-=-=

Update:

Maria Schneider – R.I.P

Curtas e delicadas

the greeting /le Salut/1938/paul delvaux

the greeting /le salut/1938/Paul Delvaux

Felipe Fortuna (*) num  *exercício crítico*, cheio de  ironia e sarcasmo, fustigando o ridículo, o moralismo das mazelas tão amplamente terrenas da vida literária.  Retrata a esgrima dos contrários, a “discordia concors“, o cânone posto do avesso. A chamada lex inversa. Um certo tom muriliano e  talvez, sem querer, em algumas provocações, deixa ressair uma ponta de dor e sim, uma espécie de compaixão. Curtas e  cruelmente delicadas. Com ou sem *notalgia*.
O que você acha?

***

O provérbio transforma a realidade num vasto lugar-comum.

***

O poeta mais ou menos mostra seu poema a outros poetas mais ou menos. Juntos, decidem publicar uma revista e tudo termina sem mais nem menos.

***

Durante a Semana de Arte Moderna, quanto subiu o preço do café?

***

O livro de bolso não publicou os textos do artista minimalista. Por sua vez, impressa em papel bíblia, a obra extensa do poeta ficou reduzida ao Gênesis e ao Apocalipse.

***

O bibliófilo acaricia dia e noite o cólofon e o frontispício: fica sozinho entre livros por toda a vida, sem amor e sem folha de rosto.

***

De repente, percebeu que o escritor tinha muito mais livros publicados do que ideias.

***

O cantor popular afirma que suas canções são poemas. O poeta precisa transformar o seu poema numa canção, pois está sem dinheiro. Juntos, o cantor e o poeta concorrem à nova edição do Big Brother Brasil.

***

Dou um boi morto, de Manuel Bandeira, para não entrar em briga; e a boiada vai, como um navio, de Guimarães Rosa, para não sair.

***

O lugar-comum transforma o provérbio numa vasta realidade.

***

Tarde da noite, o PhD em sonetos se encontra com o aprendiz de poeta concreto. Juntos, fundam a Tradicional Família da Forma.

***

Durante a Exposição Nacional de Arte Concreta, quantos prédios foram erguidos em Brasília?

***

Uma epigrama mordaz, porém escrita pelo epígono. Ainda assim, sentiu-se no epicentro da vida literária, onde o que há de mais profundo é a epiderme, segundo escreveu o imitado poeta francês. À procura de uma epifania, acabou sendo apenas um episódio, que hoje se lê em epígrafe.

***

Fui tomando notas enquanto lia aqueles poemas muito eruditos, que, segundo me garantiu o amigo, “têm peso”. Em silêncio, lembrei que a dor na região dorsal se chama notalgia.

***

Há de tudo na internet, por que se preocupar? Já se pode surfar de Platão a Schopenhauer, de Anchieta e Euclides, de Deleuze a Derrida. Mas quem disse que o surfista tem tempo para ler em alto mar?

***

“O seu poema visual tem mesmo influência de Mondrian?” “Tem sim senhor, não seja quadrado…” “Mas eu estou apenas perguntando…” “Se meu verso não deu certo, foi seu olho que entortou.”

***

Então está combinado: eu escrevo o poema no domingo e você publica um comentário elogioso no sábado. A literatura brasileira só acabará quando for abolido o fim de semana.

***

Durante o Festival Nacional da Canção, as aves que aqui gorjeiam gorjearam como lá?

***

O poeta encontra a musa. Juntos, haveria um baby boom?

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Agora que existe poesia feminina, gay, racial, religiosa, grupal, é hora de se preocupar com o leitor desamparado.

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Aqui jaz o Príncipe dos Poetas, que deu seu reino por um enjambement e evitou o blog porque não suportava os numerosos acessos. Preferiu mesmo, juntamente com o trono, uma edição fora do comércio.

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Ainda que mal lhe pergunte, e agora, José?

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Concordo: cada um tem um modo de usar as palavras. Mas as palavras fazem amor, como lembrou Roland Barthes, e eu não vou ficar aqui plantado de voyeur.

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Etiqueta, até onde entendo, é o uso da ética com o menor esforço possível.

***

“Sou professor de literatura e me especializei em vanguardas literárias.” “E que autores o senhor mais estuda?” “Aqueles que aceitam as vanguardas literárias.”

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De dois em dois anos, durante a Bienal do Livro, quantos escritores ímpares comparecem?

***

O poeta mandou seu livro pelo correio, mas esqueceu de escrever na frente do envelope a crise do verso.

***

Durante a Festa Literária Internacional de Parati, quantos poetas herméticos mereceram tradução simultânea?

***

A realidade transforma o lugar-comum num vasto provérbio.
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(*) Publicado, com o título Pílulas de sabedoria, no  Jornal do Brasil Caderno Ideias & Livros. 31 Jan 2009.
Faz parte do seu livro, Esta Poesia e mais outra, 2010, lançado pela Topbooks.  Veja resenha de Antonio Miranda.
Do qual se falou aqui no Sub Rosa.

— ‘Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata, Felipe Fortuna estreou com o livro de poemas Ou vice-versa (1986), a que se seguiram Atrito (92) e Estante (97), este pela Topbooks, que no ano seguinte editou também Curvas, ladeiras – bairro de Santa Teresa, dedicado ao lugar onde o autor viveu no Rio de Janeiro. Esta poesia e mais outra reúne uma série de textos de crítica literária capazes de fazer o leitor refletir sobre os mais diferentes temas: do projeto totalizante do Livro de Mallarmé às origens medievais da canção “Coração materno”, sucesso de Vicente Celestino, passando pelo famoso ficcionista e crítico francês Philippe Sollers e pelos poetas brasileiros Armando Freitas Filho e Paulo Henriques Britto, entre muitos outros. Para o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero, que assina o texto de apresentação, “este livro invulgarmente perspicaz, erudito e espirituoso traz uma contribuição preciosa à nossa reflexão sobre a literatura e, em particular, sobre a poesia”.

Leia Felipe Fortuna –  por Antonio Cícero.
*
Site de Felipe Fortuna


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Leia mais deste post

Acerca da vida, da amizade e … da crítica.

sandra bréa em foto de antonio guerreiro, seu ex-marido. em 1970

sandra bréa.foto de antonio guerreiro.seu ex-marido. em 1970

“Brevity is the soul of wit”. Shakespeare. Hamlet.Act 2, Scene 2

“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sae perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

“Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas ás vezes (não repare na acentuação, quem acentua pra mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.[…]

“Vc foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando […]. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que meu presente [..] foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

“Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então eu vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei … [..]. Sua, Clarice”

Em 11 de dezembro de 1970, Clarice Lispector escreveu essa carta para Olga Borelli, escritora, professora, sua amiga, secretária e acompanhante.

Sei que é uma coisa muito feia, querer fazer *bonito* com o talento dos outros, mas eu, tal como aquele rapaz grego, o Sócrates, não tenho em mim nenhum talento, sabedoria, nenhuma capacidade criadora. E nisso reside a pequeníssima diferença que me faz ser … assim, digamos, diferente. (o grifo da ironia).Talvez acredite mesmo que sou especial. (modesta, então nem se fala). Aliás, a modéstia é o segredo do meu sucesso e não me pergunte: que sucesso?
Essas considerações, portanto, são inspiradas nas inseguranças – fragilidades – incoerências -inadequações de Clarice, já se vê.
A única coisa que eu sei, é que a vida é muito pouco pra tudo o que eu desejo e preciso aprender. E sei que amo a Vida. Sem apego, mas com zelo.
O resultado disso é que é espantoso: ao viver, desenvolvi uma habilidade singular, meu olho (quase) só vê a beleza, a delicadeza de um mundo de pessoas gentis. Elegantes (lat. elègans ‘que sabe escolher; bem escolhido). Consigo ver à distância o que é bom, o que é bonito, o que tem valor. Mesmo que esse valor esteja muuuito escondido. Preciso muito de ser assim, e agradeço por ser assim, pois como não morrer de tristeza, quando há tanta coisa feia nesse mundo, ao redor, ao perto e ao longe. Ao saber que na Amazônia, meu país, mon royaume, assassinaram o velejador neozelandês Sir Peter Blake. A Irmã Dorothy? E aí onde você está, ontem foi a guerra! O horror! O horror. E  um ror de coisas mais.
Um poeta espanhol que eu amo muito, Juan Jose Jiménez (1811-1958), poeta de los poetas cunhou a frase que me tem servido de lema de vida, e como não terei epitáfio, queria ser lembrada por ela. “ Não sou eu que escolhe o melhor; o melhor é que me escolhe.”
Vivo sempre como se me restassem horas de vida, e precisasse ver toda a beleza. Pessoas desabrochando. Florescendo. Expressando o seu *melhor*.
Paulo Francis, uma de minhas paixões irrecorríveis, (OK, há que se ter coragem pra dizer isso nos tempos atuais, diga lá?… ‘pero soy uma chica con clase’) Francis costumava dizer, nos últimos tempos, todos sabem, que se sentia tecnicamente morto. Eu , se passar um dia sem que tenha descoberto algo de bom, papa fina, como se dizia antes, algo de que eu possa falar bem, sou vice-morta.
Não, não se trata de “só falar bem” do que  é escrito ou criado, (*) a diferença é sutil, o que eu quero é escrever acerca do que realmente é bom e tentar mostrar porque o que é bom é bom.
Um dia alguém descobrirá isso , ou ninguém descobrirá e minha vida terá sido em vão. Se descobrirem captarão a ânsia que pauta até o próprio ato de (eu) respirar…
‘Viver nunca foi pra mim uma calma tessitura de dias que se juntam hesitantemente a outros dias, plácido trabalho, lentíssima costura…’ sou ansiosa, não paro pra ser gentil, tenho um gênio danado de danado,  tenho urgências e corro o mais rápido que posso, para chegar aonde? Ao que você, meu outro, faça ou crie e que seja algo original (se é que existe o… original), que você escreva ou crie o melhor.
O que fazer com a ânsia, se viver começa pela paciência da espera? A escrita começa pela paciência da espera. A música começa pela vitória sobre a pausa. (depois da paciência da espera). Quem é músico sabe, quem é escritor sabe.
Eu apenas ardo e espero.
* * *
(*) Para os que acham que só é bom crítico aquele que fala mal (crítico bom é ‘crítico cruel’, o que desce o “pau” hmmm… Masoch perde) eu ainda vou escrever algo  sobre a origem da crítica que remonta aos três trágicos, você sabe, aqueles Ésquilo, Eurípedes, Sófocles. Acredite, se quiser, crítica não é assim. Não era (para ser) assim. Era critério para saber a diferença entre o bom e o fazer bem.
Sorry.

* * *
Rose Marinho Prado, esta ‘crônica'(?) é para você. Obrigada pelo texto, Clarice está em Clarice. Por que a Sandra Bréa? Ora, e não é Clarice?!, você depois verá. Imprevisto, hora da estrela, brevidade… você sabe.

Benedito Nunes – homenagem

Mais uma homenagem ao grande sábio:

mais homenagens

clique.

O professor, crítico, ensaísta, pensador e escritor Benedito Nunes ganha homenagem da Saraiva

Ele será homenageado em meio ao coquetel de lançamento da inauguração  da Saraiva Megastore, aqui em Belém, na quinta, 19, às 19 horas.

Leia aqui um perfil de um dos mais respeitados intelectuais reconhecido mundialmente, ainda em vida. Leia e aí então vc vai entender por que ele é uma glória, simplesmente o “mACSSimo”, um orgulho para o Brasil, em tempos de valorização de tanta mediocridade.

Ah! sim, não é por nada, não, mas é que eu vejo e leio por aí tanta gente se definindo como “filósofo” (grossas aspas e fat chance) que fica meio difícil a gente saber por que um estudioso e pensador da mais rara estirpe filosófica, recusa o título de filósofo ligado a seu nome.

Para a Fal, a mais amada, parabéns para minha sistah quilida…

A deusa italiana é a Fal. Clique em link ali embaixo
Queridos, este é o único post para o qual eu não desejo comentários (tá bom se quiserem…né? deixem, mas só para dizer que sim!
E apôs … todos chispando lá pro site da Falzinha! Minha flawless flower!
Minha linda deusa italiana, eu sou apenas a sua serva muy leal , salve, salve, ó idolatrada.
E duvido que alguém discorde: a humanidade ainda precisa elevar-se muito para chegar perto do que é essa mulher no quesito, agora sim a palavra em seu sentido real, generosidade, doação intensa, ausência de retaliação, além de ser escritora com um dos textos mais preciosos que conheço (e olha que pouquíssimas coisas tenho feito nessa vida além de ler (ok…tá bom, ainda faço outras traquinagens, por certo)

É isso: talento, inteligência, senso de humor, wit (que não são a mesma coisa) e uma incrível compassividade e altivez para entender o ser humano sem pedir explicações. Porque ela é sábia.

E porque entende que muitas vezes a raiva que se tem dos outros provém da raiva que se tem por si mesmo… eu acho, né?

Mas ela, simplesmente é ela. Vão por mim, quem não quer ser amiga da Fal?

Fal, quilida maninha, eu te aaaaammmmmooooo!!!!!!!!!!! Parabéns pra você!
Parabéns! E é como disse a você pelo telefone…*TODO* mundo só quer que você seja feliz.
Minha deusa… trago-te em meu já andado coração. E como sou feliz por isso. Aliás, como você bem, sabe, a Dona Elisa é feliz por isso!
Agora, gente, quando forem lá no LV da Fal, pros neófitos, aquela instituição e agremiação chamada Livro de Vistas da Fal… cuidado, meninas, não sejam umas batráquias desavergonhadas (*): o Rui é meu;-))))))

Meus 5 leitores, aviem-se…. Depêchez-vous!

‘Batráquias desavergonhadas‘ – expressão absolutamente genial inventada por quem mesmo?..Ora, façam um esforço hohoho

E também cozinha que é uma tentação enlouquecedora e diz a lenda que foi ela primeiro que qaundo fez um prato com siris, disse assim depois de comê-los: Esses siris, em verdade vos digo, não morreram em vão… diz a lenda!

Ou seja ela é profissional no ramo de matar todos nós de shakespeariana inveja.

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P.S. UPDATE NECESSÁRIO: Por um enorme equívoco este post depois de publicado foi despublicado. Peço imensas e sinceras e humildes desculpas. O que sempre faço quando erro.

Pensando e avaliando melhor, o post está sendo republicado definitivamente. For good!.

Te amo, Fal.

Pessoas queridas, por favor não se sintam menos queridas, acontece que a Fal é especialíssima.

OMG! Believe it or not!

Gentchie!, eu fiquei *pretérita*! (antigo “fiquei passada”). Aliás, ainda estou.

Seguinte: vi este teste no blog da minha figliola que sabe das coisas e está por dentro de tudo e, claro não agüentei, porque sou maluquinha por quizzes, tests, enfim… Corri pra fazer, fiz as 45 questions (algumas são flabbergasted).
Eu jurava que ia sair o meu filme preferido pois me acho parecidissíssima hohoho;-) com a personagem (moderníssima até hoje ) Katie Scarlett, a que não era bela. Não sou nada boazinha, mas também não me abato com qualquer coisa , tipo cara feia, nhenhenhens ou whatever;-) etc etc etc.
Mas olhem só o que saiu pra mim. Eu achei meio estranho, não precisava exagerar;-))) mas pensando bem, quer saber? Será…?

E agora? ‘Tendeu, agora? pisc*
P.S. Agora, vem cá – Lista de Schindler é “classic movie”? É? :-O
Isso aí, tô me refazendo e quase voltando. Tenho taaaanta coisa pra contar. Um beijo.\o/