Noël Rosa – o centenário do poeta do samba.

noel e o cigarro emblemático
Noël Rosa
, nascido em11 de dezembro de 1910,   é o maior, e muito possivelmente, o melhor compositor popular brasileiro. Morreu, em 4 de maio de 1932. E esse  é o fato que mais impressiona: morrreu aos 26 anos e compôs cerca de 256 músicas.

Duas obras nos dão conta desse gênio :

1A famosa biografia de Noel,  por João Máximo que hoje está sendo contestada pelos herdeiros, apesar de a obra de e sobre Noel já estar em regime de domínio público. E dificilmente será reeditada ou haverá alguma reimpressão. (queira ver neste link )

Ironia, em sua música Fita amarela de 1932:  “ Quando eu morrer, não quero choro nem vela/Quero uma fita amarela gravada com o nome dela/Não quero flores nem coroa com espinho/Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho/Estou contente, consolado por saber/Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer./Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém/Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém…/

2- Noel pela primeira vez. A totalidade da obra de Noel foi recolhida, num trabalho cheio de percalços, que durou cerca de 10  anos, pelo professor e pesquisador  Omar Jubran, Por dez anos, trabalhando nesse resgate, conseguiu reunir, a obra completa  do compositor: em 14 CDs e em 14 volumes, 229 músicas, cujo escopo era reunir toda a obra de Noel, incluindo os inéditos e os até então desconhecidos e, importante, as músicas gravadas por Noel (queira ver aqui).

O que encontrei de melhor sobre o centenário de Noel está aqui em dois soberbos trabalhos:

1-A  Semana Noel Rosa, coletânea de 7 posts sobre Noel, valorizado pela leveza da linguagem e pela seleção pessoal de músicas e excertos das letras -feita por André Barcinski.  No post  que  fecha a semana ele escolhe suas 10 músicas preferidas , do Poeta da Vila. Ora, André, em cerca de 250 músicas, praqticamente todas geniais (Noel jamais deixou cair a qualidade,  quer nas letras e também nas músicas, escolher só 10…tsc tsc.. que ‘judiação’ ops… 0 termo politicamento incorreto que Noël oferece em sua  “Leilao

2 ‘O centenário do poeta maior’, por Julio CesarRibeiro, conhecedor profundo do assunto, do samba e da música brasileira. Primoroso, riquísimo. Não deixe de ler, mesmo que você ache que conhece a vida de Noel. Lá, você encontra, de forma detalhada e ilustrada a famosa polêmica de Noel e Wilson Baptista. Corra pra lá.

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Eu, de fato, fico angustiada e nervosa quando me dizem escolha os seus dez filmes preferidos, seus 10 ou 15 livros idem, os que levaria para uma ilha deserta…suas 10 séries ( eu amo Law&Order e todas as franquias e House) mas amo outras também e quando querem que eu escolha 10, dá  vontade matar e de morrer (assis valente).
É terrível saber que o que você escolhe, significa que um milhão de outras probabilidades ficaram de fora. Irrrgh.
Mesmo assim vou deixar estas duas, uma sentimental, Noel cantou o amor sentido, o amor sofrido, complicado, a um tempo poético e autoflagelador. Um masoquismo que faria o Leopold morrer de inveja :

“Jurei não mais amar pela décima vez/jurei não perdoar/ O que ela me fez (…)/ Joguei meu cigarro no chão e pisei/Sem mais nenhum/Aquele mesmo apanhei e fumei/Através da fumaça/neguei minha raça/Chorando a repetir/Ela é o veneno /Que eu escolhi/Pra morrer se sentir”/

Mas o sofrimento de Noel era escondido (ou realçado) pela malandragem, pela malícia, pela ironia e pela zombaria. Eis aqui uma que é obra-prima  (btw, serve de epígrafe ao maravilhoso blog do artista plástico Claudio Boczon).

“O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu/e também vão sumindo, as estrelas lá do céu/Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal/A minha terra dá banana e aipim/Meu trabalho é achar quem descasque por mim /(Vivo triste mesmo assim!)

E para dar o toque final, a letra filosófica: Positivismo
“A verdade, meu amor, mora num poço / É Pilatos, lá na Bíblia, quem nos diz / e também faleceu por ter pescoço / o infeliz/autor da guilhotina de Paris (…) O amor tem por princípio, a ordem por base / o progresso é que deve vir por fim / desprezaste esta lei de Augusto Comte / e foste ser feliz longe de mim (…) Para não sentir mais o teu veneno/Foi que eu já resolvi me envenenar”

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Discografia de Noel Rosa .

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Cereja do bolo:

Marcos Sacramento – Pela Décima Vez – (beleza puríssima!) Ouça, bem alto, ouça tudo!:-)Resistir, quem há-de!