Adélia – a coisa mais fina do mundo

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência…”

Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia…
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.

Uma tal esperança imploro a Deus.

Adélia Prado. Dolores‘.

*  *  *

Adélia Luzia  Prado completou 75 anos no dia 13 de dezembro de 2010. As comemorações foram intensas, a repercussão foi imensa. Como Adélia sempre foi “santa do meu altar”, aqui uma mostra reduzidíssima dessas homenagens:

* Lançamento do livro: A duração do dia (Record, 2010)

**  A simplicidade de um estilo – Entrevista Saraiva-Conteúdo

* * *Entrevista – Globonews:

(*)
A seguir,  uma bibliografia de Adélia que me foi enviada pelo  querido amigo Antônio Augusto Bocaiúva.
” OBRAS:
Individuais

POESIA:

– Bagagem, Imago – 1976
– O coração disparado, Nova Fronteira – 1978
– Terra de Santa Cruz, Nova Fronteira – 1981
– O pelicano, Rio de Janeiro – 1987
– A faca no peito, Rocco – 1988
– Oráculos de maio, Siciliano – 1999
– A duração do dia, Record – 2010

PROSA:
– Solte os cachorros, Nova Fronteira – 1979
– Cacos para um vitral, Nova Fronteira – 1980
– Os componentes da banda, Nova Fronteira – 1984
– O homem da mão seca, Siciliano – 1994
– Manuscritos de Felipa, Siciliano – 1999
Filandras, Record – 2001
– Quero minha mãe – Record – 2005
– Quando eu era pequena – 2006.

ANTOLOGIAS:
Mulheres & Mulheres, Nova Fronteira – 1978
Palavra de Mulher, Fontana – 1979
Contos Mineiros, Ática – 1984
Poesia Reunida, Siciliano – 1991 (Bagagem, O Coração Disparado, Terra de Santa Cruz, O pelicano e A faca no peito).
Antologia da poesia brasileira, Embaixada do Brasil em Pequim – 1994.
Prosa Reunida, Siciliano – 1999

BALÉ
A Imagem Refletida – Balé do Teatro Castro Alves – Salvador – Bahia – Direção Artística de Antônio Carlos Cardoso. Poema escrito por Adélia Prado especialmente para a composição homônima de Gil Jardim.

Vem de antes do sol
A luz que em tua pupila me desenha.
Aceito amar-me assim
Refletida no olhar com que me vês.

Ó ventura beijar-te,
espelho que premido não estilhaça
e mais brilha porque chora
e choro de amor radia.

(Divinópolis, 1998).

Em parceria

A lapinha de Jesus (com Lázaro Barreto) – Vozes – 1969
Caminhos de solidariedade (com Lya Luft, Marcos Mendonça, et al.) – Gente- 2001.

Traduções
Para o inglês

– Adélia Prado: thirteen poems. Tradução de Ellen Watson. Suplemento do The American Poetry Review, jan/fev 1984.
– The headlong heart (Poesias de Terra de Santa Cruz, O coração disparado e Bagagem). Tradução de Ellen Watson, New York, 1988, Livingston University Press.
– The alphabet in the park (O alfabeto no parque). Tradução de Ellen Watson, Middletown, Wesleyan University Press, 1990.

Para o espanhol:

– El corazón disparado (O coração disparado). Tradução de Cláudia Schwartez e Fernando Roy, Buenos Aires, Leviantan, 1994.
– Bagaje. Tradução de José Francisco Navarro Huamán. México, Universidade Ibero-Americana no México.

Para o italiano:

– Poesie. Antologia em italiano, precedida de estudo do tradutor Goffredo Feretto. Publicada pela Fratelli Frilli Editori, Gênova.

Participação em antologias

– Assis Brasil (org.). A poesia mineira no século XX. Imago, 1998.
– Hortas, Maria de Lurdes (org.). Palavra de mulher, Fontoura, 1989.
– “Sem enfeite nenhum”. In Prado Adélia et alii. Contos mineiros. Ática, 1984.

O trabalho acima foi baseado em dados obtidos na Internet (Jornal da Poesia, depoimento à Biblioteca Nacional, “As conversas com Deus” — Luciana Hidalgo – O Globo), BTCA – A.C.Cardoso, Cadernos de Literatura Brasileira – Instituto Moreira Salles, entre outros, e em livros da autora.

* * * * *

====

(*) Uma pequena nota pessoal:
Para mim, Adélia é insuperável na poesia. E, ainda assim, na prosa, a meu ver, ela rompe todos os limites ou barreiras da autoexpressão. O que é raríssimo acontecer com as poetisas. Só para dar um exemplo: você  imaginaria o mesmo efeito na experiência do rapto, do transe em Tereza de Ávila, escrito em prosa?)

*****-
CODA:
– Por que Katherine Hepburn?
– Bem… por que não?.

Juó Bananere. Quem?

JUÓ BANANERE.
Quem?!
(Bananeiro, Barbeiro,Poeta e Jornalista)
*************

Uma nota prévia:

Nunca fiz este blog sozinha. Nem mesmo no início, em 2001, quando *todos* se ajudavam. Eu sempre me interessei pela história dos blogs no Brasil e, de certo modo, sempre que posso, conto a história deles. Os mais famosos, os melhores, como o do Nemo Nox, o Por um Punhado de Pixels, o do querido Sérgio Faria, cujo nome não ouso dizer (private joke, nem tão private assim) o da Fezoca, claríssimo, espécie de blogmother (outra private joke) de nós todos, e vários outros, para citar alguns dos realmente célebres. Muitos deles fecharam as portas, tipo o bar Esperança, o que me deixa triste, e outros, acho que ficam pra sempre. Essa história de que blog acaba, não acaba, que passou o tempo etc… são especulações que redundam numa forma de estar e continuar fazendo blog. Mas o que eu queria mesmo dizer enquanto vou contando a história deles é que, embora admire profundamente os blogs e seus donos altaneiros que fazem seus blogs independentemente dos leitores, eu pertenço ao time daqueles que conseguem fazer um post pensando será que meu leitor X vai gostar? tomara que Y repare nessa escolha.. eteceterrá, vocês já entenderam. Eu poderia fazer uma dédicasse de praticamente todos os meus posts desde 2001 até o presente momento. Todos eles tem, de certa forma, um ou um grupo de destinatários certos. Claro que isso fica muito melhor se a gente só tem uns seis ou sete intrépidos e fiéis leitores. É o meu caso e eu não poderia estar mais feliz com eles. Assim, queridos. este post eu o fiz pela primeira vez em 2001. Tinha, se tanto, 15 linhas. Hoje, saiu isso que vc começa a ler agora. Ainda acho que vale a pena saber a respeito deste parodista satírico que era um ferrenho seguidor do “castigat ridendo mores. Que, na tradução alopradíssima do alopradissimo gênio Millôr Fernandes, passou a significar  também: Rindo castigam os mouros. Fiquem, mesmo os que já conhecem, com Juó Bananere.


Juó Bananére – que se proclama(va) candidato à Gademia Baolista de Letras (os que não forem paulistas, leiam em voz alta, que percebem melhor:-) é o pseudônimo literário do engenheiro, poeta , jornalista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado . Surgiu na revista “O Pirralho“, uma publicação satírica fundada por Oswald de Andrade nos anos 1910. Oswald escrevia para a revista uma coluna sob o pseudônimo Annibale Scipione, no ‘dialeto’ macarrônico ítalo-paulista empregado pelos imigrantes italianos que viviam nos bairros operários de São Paulo. Ao viajar para a Europa, em 1912, Oswald transferiu a coluna a Alexandre Machado, que a transformou em um enorme sucesso. Machado (1892-1933) começou a carreira literária na adolescência, escrevendo versos satíricos e humorísticos publicados em jornais do interior de São Paulo. Além de escritor, ele se formou em engenharia civil e abriu um escritório de engenharia e construção responsável por erigir diversos edifícios na capital e no interior do estado. Entusiasta da arquitetura colonial brasileira, Machado publicou em 1926 o álbum artístico “Arquitetura Colonial do Brasil”.

Bananére, no entanto, é sua criação mais conhecida. No traço, o personagem Juó Bananére foi criado pelo desenhista Voltolino (pseudônimo de Lemmo Lemmi -1884-1926), sócio de Andrade em “O Pirralho”, que se teria inspirado para o seu personagem na figura de Francesco Jacheo, um importador de vinhos ítalo-paulista que morria de vontade de “fare il giornalista” e cuja linguagem especialíssima, mistura de português e dialeto napolitano, inspirou ao desenhista o perfil do “barbiere, poeta e giurnalista”.

Algumas amostras do humor e do italiano macarrônico de Bananére:

MIGNA TERRA

Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.

A abobora celestia tambê,
Che té lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Che non tê na Ingraterra.

Os rios lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.

Na migna terra tê parmeras
Dove ganta a galligna dangola;
Na migna terra tê o Vap’relli,
Chi só anda di gartolla.

*****
CIRCOLO VIZIOZO
Prú Maxado di Assizi

O Hermeze un dia parlô.
– Se io éra aquilla rosa che está pindurada
Nu gabello da mia anamurada,
Uh! che bô!

A rosa tambê scramô,
Xuráno come un bizerigno:
– Se io éra aquillo gaxorinho!…
Uh! che brutta cavaçó!

I o gaxorigno pigô di dizê:
– Se io fossi o Piedadô,
Era molto maise bô!

Ma o Garonello disse tambê
Triste come un giaburú:
– Che bô si io fosse o Dudú!

*****

VERSIGNOS
A

O alifante é bicho troxa,
Chi quarquer griança lógra;
Tê una lingua cumprida,
Piore da lingua da sogra.

B

O Bacate é una fruitinha
Chi tuttos munno cunhéce;
A gente mexe bê elli
I disposa . . . o che parece?

C

Coraçóçino da genti
Gentiçino da ardêia,
Chi ripicca a Vermaria
Tuttos dia as seis i meia.

D

Deuse fui chi fiz a terra,
A luiz i a scuridó,
Má a Guarda Nazionale
Chi fiz fui u Piedadó.

E

Eva, a primiéra molhere,
Tinha gara di macaca,
I u Hermeze da Funzega
Tê gara di urucubacca.

F

Fuzilê cun lemó verdi
Nu fundo du riberó;
U riberó pigô elli
atirô nu Capitó.

G

Gallo veglio bota ôvo
uguali come as gallinha;
Pidaço de teglia e cacco,
Mandioca muída é farinha.

H

O H na lingua du Piques,
Non presta p’ra cosa nisciuna:
E’ come u guexo du Artinho
Chi non cabi in parti arguna

I

Inzima d’aquillo morro
Tê un brutto carrapató
Pintado come una onça
I maiore chi un tostó.

*****

(Princípio universal da paródia/intertextualidade: só funciona se vc tiver em mente, o “texto” original que é referido.)

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Isso tudo, era do nosso conhecimento, assim, por volta dos anos 1980.  E assim foi até no início do século XXI: os happy few que conheciam trocavam olhares e sorrisos superiores daqueles que … conheciam o tamanho da…”INCRENCA*

Até que em 2001, o poeta –giurnalista, foi tema de um estudo minucioso, neste livro:

Benedito Antunes, professor de Literatura Brasileira na UNESP, em Assis, organizou a primeira coletânea dos trabalhos em prosa de Juó Bananére, publicados pela revista “O Pirralho” entre 1911 e 1917, e a primeira edição dos trabalhos de Bananére desde que “La Divina Increnca”, uma coletânea de paródias poéticas e de algumas de suas colunas, foi relançada nos anos 1960.

Trabalho cuidadosamente anotado e precedido por três ensaios detalhados sobre o escritor Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (o nome real de Bananére), sobre o “macarrônico” que ele usava como forma de expressão e sobre a posição de Bananére na tradição literária e satírica brasileira, a coletânea do Professor Antunes é uma referência essencial sobre um dos escritores mais engraçados- bem engraçado sim, mas também importantes pois retratou uma época, a chamada belle époque paulista- do Brasil.

Olha só o convite:-):

Juó Bananére: As Cartas d’Abax’o Pigues

# CUNVITO # Tegno a onrra di acunvidá o signore p’ra sisti, oggi,

as otto ores da notte, a migna festa che io dó inda a migna gaza.

C’ua stima da consideraçó Juó Bananére giurnalista

(Tragico di rigoro)

Fonte: ig LER – matéria  do tradutor e escritor Paulo Migliacci.

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Fiz  este post em 2001, mas  até hoje,  10 anos depois, Bananére, parece,  não se tornou mais conhecido do que era então, julgo.

*****

Bom, o que se poderia acrescentar à matéria de Migliacci? Quase nada, a não ser o  que diz de Bananére, Folco Masucoi, editor de seu livro mais conhecido: LA DIVINA INCRENCA, 1966, 10ª ed. – ( A 1ª é de 1924).

‘Satírico terrível criou um estilo humoristico empregando metade do portugués e metade do italiano, escrevendo, com clareza, na algaravia quase desaparecida então comum nos bairros paulistanos habitados por imigrantes peninsulares.’

Alexandre Marcondes Machado nunca foi nacionalmente conhecido nem reconhecido; mas o tipo por ele criado, Bananére, vulgo Bananeiro em S. Paulo, barbeiro e jornalista, tornou-se popular, em sua época. Seu nome consta no Dicionário de Escritores Paulistas com indicação de várias de suas obras, sua independéncia política e financeira, o entusiasmo pela arquitetura colonial brasileira. Em 1954, foi destacado num artigo de Otto Maria Carpeaux, no “Diário de São Paulo”. Pode ser considerado precursor da paródia moderna. E Décio Pignatari o considera precursor de certos personagens típicos do escritor Antônio Alcâtara Machado e…até msmo de Macunaíma ou de Seradim Ponte Grande (o primeiro o anti-herói brasileiro, ou o heróis sem nenhum caráter de Mario de Andrade e o segundo ah! .. de Oswald de Andrade. ***** Bananére capta a fala paulista da época e a reproduz, graficamente, segundo Saliba. Chega a ressaltar alguns traços essenciais do chamado “dialeto caipira”, registrados por Amadeu Amaral. Bananére gravou, em 1920, alguns de seus poemas em disco. Tudo se perdeu, como se perde na leitura, hoje, “a mímica, o tom da voz e o improviso gestual” do humorista.

Imaginem “As Pombas” de Raimundo Correa, o “Ora direis ouvir estrelas” de Bilac, ou “O Corvo” de Poe, declamados nessa língua estropiada, mistura de italiano com português, assimilando o linguajar caipira, sem ser nem uma coisa nem outra e se parecendo um pouco com todas elas.

Bananére deixa passar por sua obra como passa certamente por seu “Salón de Barbieri”, uma galeria de tipos que perambulam pela “Barra Funda”, “Piques”, “Buó Rittiro” , tais como varredores de rua, vendedores, todos “avacagliados” na vida. Na fábula-paródia de La Fontaine “U Lobo i u Gordeirigno”, que termina como já se sabe no lobo comendo o cordeiro, Bananére tira a moral da história:

O qui vale nista vida é u muque“.

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INDISPENSÁVEL:

LA DIVINA INCRENCA

É importante lembrar que a paródia (uma inversão ou desvio de um texto, utilizando a ironia, a sátira, etc, funciona melhor, ou só funciona, se se conhece o original)

Vejamos:
O soneto As Pombas (não riam) de Raimundo Correa.
E As pombignas do nosso herói Bananere.

AS POMBAS

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais…mais outra…enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada…

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem…Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

(Raimundo Corrêa)
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AS POMBIGNAS

(P’ru aviadore chi pigó o tombo)

VAI a primiéra pombigna dispertada,
I maise otra vai disposa da primiéra;
I otra maise, i maise otra, i assi dista maniera,
Vai s’imbota tutta pombarada.

Pássano fóra o dí i a tardi intêra,
Catáno as formiguigna ingoppa a strada;
Ma quano vê a notte indisgraziada,
Vorta tuttos in bandos, in lilêra.

Assi tambê o Cicero avua,
Sobí nu spaço, molto alê da lua,
Fica piqueno uguali d’un sabiá.

Ma tuttos dia avua, allegre, os pombo!…
Inveis chi o Muque, desdi aquilio tombo,
nunga maisa quiz sabe di avuá.

(Juó Banarere)

Voltolino cria o personagem Juó Bananereeste é o traço do Voltillo

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UM GLOSSÁRIO;-) .

Os livros:

CARELLI, Mario. Juó Bananére. In: ___. Carcamanos e comendadores: os italianos de São Paulo: da realidade à ficção, 1919/1930. Trad. Ligia Maria Pondé Vassallo. São Paulo: Ática, 1985

FONSECA, Cristina. “Juó Bananére. O Abuso em Blague”. S. Paulo: Editora 34, 2001

CASELLA, César Augusto de Oliveira. LA DIVINA INSGUGLIAMBAÇÓ, que traz como epígrafe esta obra-prima: “A artograffia muderna é una maniera de scrivê, chi a gentil scrive uguali come dice. Per isempio: – si a genti dice Capitó, scrive kapitó; si si dice Alengaro, si scrive Lenkaro; si si dice dice, non si dice dice, ma si dice ditche.”

FRIEDMAN, Abilio. Juó Bananere. Uma série de 4 artigos.

Este post  é uma tentativa – não  sei se bem sucedida- de ressoar, talvez ressair,  uma espécie de “memória da escrita”.  Se, algum dia, algum post do Sub Rosa chegou, realmente, perto desse tom, o de poetry recollected in tranquility, eu o dedico ao autor de um dos mais admiráveis blogs escritos no Brasil. O do escritor, publicitário (o mesmo que propagandista?), crítico  e finíssimo humorista Rafael Galvão. O homem é danado, feito o cinema de  Fassbinder! Fora que ele fala uma porção de línguas, incluindo esta:  RaУкраїнська, Ngband.

 

Como ‘vaes’ você?

Ava, film a touch of venus, 1948

Uma saudade imensa, uma falta sem tamanho.
Vim, hoje, porque acho que sempre temos um encontro aqui, às sextas-feiras.
Ainda não posso ficar por muito tempo, tenho um prazo a cumprir. Acho, porém, que logo após o dia 20, ou antes até, volto pra este lugar que é sina,  é  fado, na ausência é que a gente vê.
Queria agradecer a todos, todos que vêm aqui, a todos que escreveram no post abaixo, nos demais posts, a quem irei respondendo aos poucos. E também, aos que me têm escrito em particular, que me têm emprestado uma força de que não suspeito em mim.
Logo, logo, as coisas se arranjam, as doenças curam-se, os problemas resolvem-se, enfim… o que pode o real contra a imagem, não é? Quem há de não concordar com isso? Com a força da representação?

Eu quero deixar um ou dois presentinhos pra vocês, além da Ava Gardner, naturalmente, de quem estou lendo uma autobiografia bem malcriada. Ava-My Sory– de Ava Gardner e seus três maridos. Uma nota: O filme A Touch of Venus é aquela coisa, ou seja não é grande coisa, mas ela está linda e seu partner é um dos atores que eu mais amo: Robert Walker, vocês conhecem, não é? Se não, conheçam. He’s something special.

1– Este aqui, naquele conhecido efeito morphing, uma beleza, só não concordando com a presença, sem nenhuma congeniality, da Bullock.
Já é meio antigo (meio? bondade!) mas sempre vale a pena ver a Tipi Hedren. Ou não é?

Women in Film.

2– Este aqui, também meio velhinho, muita gente conhece, mas é para as horas de navegação ou pesquisa com rádio na web.
É nosso e é muito interessante.

Canal FunarteVejam e ao navegar confiram em Imagens—> Entrevistas e —>Serviços.

Me digam o que acharam do Paulo Autran e da Tonia Carrero, esplendorosos, novos, majestosos, lindos.
Ao alcance dos olhos.

***
Bem, crianças, ainda estou com pouco fôlego, vou indo, mas antes deixem que eu diga que Deus existe, e  ele e a Tereza gostam de mim.
Obrigada, amiga, adorei, a-do-ro e vou adorar sempre a Marilyn. E que russos, hein?:-)

Me aguardem pra antes do Oscar©, que é quando minha porção maior  da minha  légèreté aflora que é uma beleza. Salve, salve!

=-=-=
(*) Como vaes você? (vocês viram isso aqui?:-)

***

Sociedade da poetisa viva – Adília Lopes

canova

NO MORE TEARS
Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

IN: O decote da dama de espadas, 1988

*** *** ***
NÃO GOSTO TANTO

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.

In:Florbela Espanca espanca (1999)

***  ***  ***
FRAGMENTO


“Em 81 disse à Dr.ª Manuela Brazette, psiquiatra, “Eu sou feia”. Ela disse-me “Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atractivos sexuais”. Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego. Lembrei-me do homem, da cara do homem vagamente, mas lembrei-me muito bem do que ele me tinha dito ao passar por mim. Tinha-me dito “Lambia-te esse peitinho todo”. Lembrei-me também da meia-dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinha dito quando eu passava “Coisinha boa” e “Borrachinho”. Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens. Pensei que estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões. Mas quem estava a avacalhar era a Dr.ª Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona. Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma mulher como outra mulher.

(In: Irmã barata, irmã batata. Braga/Coimbra: Angelus Novus, 2000)

**** **** *****
COUP DE GRÂCE

Uma mulher
nunca pode
apaixonar-se
por um homem
antes de o homem
se apaixonar
por ela
o homem pune-a
por isso
e por muito mais
o homem não a abate
vai-se embora
fechado em copas
a mulher pune-se
a si mesma
se não tem vergonha
por si
tem pena
menina e mãe
num saco
estóicas
como a pescada
que antes de o ser
já o era

(In: Obra. Lisboa: Mariposa Azual, 2000

**** **** *****

Não podemos
desamar
quem nos ama

Se nem
quem nos desama
podemos desamar
****
Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

IN:Caderno, &Etc, 2007

*******

COM FOGO NÃO SE BRINCA

Com fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
e muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo.

In: Um Jogo bastante perigoso, 1985.

********

Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
ficam os peixes
como disse Santo António
aos textos.

******
Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras
para não arranjarmos complicações.

In: Clube da Poetisa Morta, 1997

*** *** ***
Palavra (escolhidas) de Adília:


“Adília Lopes e Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira são uma e a mesma pessoa. São eu.”

*****
“Há sempre uma grande carga de violência, de dor, de seriedade e de santidade naquilo que escrevo”.

*****
“Tive um esgotamento psíquico no Natal e estou a escrever isto no princípio da Primavera. Sinto que ainda não estou bem. Peço desculpa por o texto ser breve e aos saltos, aos trambolhões.
Escrevo sempre por inspiração e num impulso. Sophia de Mello Breyner Andresen diz muito melhor do que eu o que é e como é para mim escrever um poema. Está tudo em “Arte Poética IV” de Dual.
O poema que ilustra e encima este meu texto foi escrito da seguinte maneira que passo a registar.
Eu vivo de uma maneira sofrida actualmente porque tenha uma doença psíquica, posso vir a ter dificuldades de dinheiro e o mundo não está cor-de-rosa. O dia a dia é muito sofrido. Desde que o meu pai morreu que decidi deixar crescer o cabelo que usei sempre muito curtinho durante 21 anos seguidos. Passados dois anos e só dois pequenos acertos do cabelo, decidi experimentar fazer rabo de cavalo. Comprei um elástico e quatro ganchos. Essa compra motiva o poema, a meu ver.
O poema surge assim de minha vida presente e passada. É autobiográfico à sua maneira. Já não uso rabo de cavalo. Surge da leitura. E surge da Sophia. Decalquei o poema “Soror Mariana – Beja”, de O nome das coisas.

SOROR MARIANA – BEJA

Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.

A expressão “em rabo de cavalo” é o quotidiano. As minhas grandes influências, que admito e reconheço, são Sophia, Ruy Belo e Sylvia Plath. Foi com eles que comecei a escrever e é com eles e por eles que continuo a escrever e a ler.
Eu tenho a minha vida, mas assim como digo “Bom dia!” e a expressão “Bom dia!” não é de minha autoria, alguém a inventou muito antes de mim, a minha poesia é como se não fosse minha. Sinto-me despojada, desapossada, despossuída da minha poesia. O que faço é conviver: pôr a minha vida em comum.
A ideia das sombras e do desassombro não é também minha. Um namorado dizia a certa altura que havia menos sombras em mim, o que me fez ver que tinha havido e que havia sombras em mim. Um programador de televisão falou de desassombro a respeito de algumas das minhas prestações televisivas.
A minha poesia é uma poesia ao quadrado. Fiz uma metáfora de uma metáfora: em vez de trigos cortados, o cabelo apanhado em rabo de cavalo. Acrescentei um capitel: as sombras. Onde a Sophia viu paisagem, eu vi o meu corpo.”

(publicado originalmente na revista Relâmpago número 14, de Portugal e em 2008 na revista Inimigo Rumor nº 20)

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OBRAS DE ADÍLIA:

Este é um grande problema. Só tomei conhecimento do mundo de  Adília Lopes, quando ela “desembarcou” no Brasil, em 2002, com a ‘Antologia’, organizada pelo Carlito Azevedo, com posfácio da Flora Susssekind – minha ‘ídola’-  publicada pela  Cosac Naify, e a essa altura, ela já fazia poemas e poesia há tempos. (Observem os títulos, o que já é uma pista “quente” sobre a autora e os sutilíssimos vieses de sua obra. Sempre sarcástica, irônica e dedoublée. Aparentemente ingênua ou de menor importância, devia vir com um aviso: cuidado, o que vc está lendo  contém referências – as  nem sempre  e as completamente – explícitas a Ann Sexton, Sylvia Plath, Rimbaud, Verlaine, Camões, Clarice Lispector, Soror Mariana Alcoforado, Fernando Pessoa, Sophia, ah! e as intertextualidades todas e mais algumas…  ). Adília não tem medo do ridículo. Faz-se de tonta e muitos dizem que se expõe mais do que se devia.  Fala de sua doença e de sua aparência. E daí? Afinal… e o risco subscrito que faz parte do jogo perigoso?

Deliberadamente não escrevi nada pessoal ou (im)pessoalmente crítico. Para quê? Não só agora, Adília é já conhecidíssima, a internet está coberta de ‘adílias’. Uma verdadeira *sociedade da poetisa viva*.  Reparem, ela escreveu um  livro chamado “Clube da poetisa morta”.  Melhor alusão que essa? Para além disso, a mistura que faz entre o (auto)biografismo, o lírico  e o poético e o prosaismo da narração, alguns de seus poemas são narrativas – ela faz questão de mostrar… é o  que  imprime beleza,  em seu modo tão ‘despreconceituoso’ , a uma  invenção intertextual, que é  um verdadeiro  ganho insuspeito para quem a souber ler. Leiam comigo e descubra – e me ajudem a descobrir,  as marcas, os slogans, os aforismos, os *ditados*, os provérbios reconstruídos (a pão e agua de colônia, não é lindo e genial?), seus gatos que gostam de brincar com as baratas (dela). Vocês  lembram de um shampoo [xampu] chamado Vidal Sassoon?, pois Adília faz a festa, com Judith, Dalila e Salomé e seus próprios cabelos.

Pois bem, falando de águas que são passadas e de moínhos que são movidos, até que não faz mal dar uma lida  aqui na wikipedia.

Só para (não) finalizar, fiquem com esse presente  que me dei: Adilia Lopes; as crônicas do meu moínho.

***** Bibliografia:
[Primeiras edições:  Um jogo bastante perigoso. Lisboa: da Autora, 1985;
O poeta de Pondichéry. Lisboa: Frenesi/ & etc., 1986;
A pão e água de colônia (seguido de uma autobiografia sumária). Lisboa: Frenesi/ & etc., 1987;
O marquês de Chamilly (Kabale und Liebe). Lisboa: Hiena, 1987;
O decote da dama de espadas (romances).  Lisboa: INCM/Gota D’Água, 1988;
Os 5 livros de versos salvaram o tio. Lisboa: da Autora, 1991;
Maria Cristina Martins. Lisboa: Black Sun, 1992;
O peixe na água. Lisboa: & etc., 1993;
A continuação do fim do mundo. Lisboa: & etc., 1995;
A bela acordada. Lisboa: Black Sun, 1997;
Clube da poetisa morta. Lisboa: Black Sun, 1997;
Sete rios entre campos. Lisboa: & etc., 1999;
Florbela Espanca espanca. Lisboa: Black Sun, 1999;
Irmã barata, irmã batata. Braga/Coimbra: Angelus Novus, 2000.]
A mulher-a-dias. Lisboa: & etc., 2002.
César a César. Lisboa: & etc., 2003.
Poemas novos. Lisboa: & etc., 2004.
Le vitrail la nuit * A árvore cortada. Lisboa: & etc., 2006
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E mais:
Dobra – Poesia Reunida. Assírio & Alvim, 2009
Apanhar Ar. Assírio & Alvim, 2010

(Neste, último, o que reservará Adília para nós? Eu, confesso muito triste, ainda não sei. E você o que achou? O que acha? Foi para vocês que fiz o post, talvez tenha ficado assim mais ou menos,  mais pra menos, mas lhes digo, falar de Adília é isso, uma odisséia, verdadeira  tarefa de Ulisses:-)

(updated)

Minúsculos assassinatos… máxima escrita

minúsculos assassinatos e alguns copos de leite

Não é que a Fal seja ‘apenas’ uma pessoa que escreve bem, ela é *a* escritora;aquela de vencer tormentosos desafios que lança para si mesma. A que não se desvia da vertigem quando transita da doçura e delicadeza do amor e do afeto até o peso esmagador da *HÝBRIS* (ὕβρις) que tinge as perdas , as ausências, as raivas sentidas e ‘indirigidas’ (inventei essa palavra agorinha, e daí?) e indigeridas.

São as belezas e valores e presenças que compõem a instabilidade do ser, convergências e exílios de sentimentos, frustrações , perdas e ranger de dentes, que nos projetam para os males e dores da s perdas e danos, das ausências que se quer ou não se quer esquecer. Mas que se pretende expor. E se tenta. Agora, expressar isso com maestria e torná-lo obra de arte, já é outro departamento, outro guichê, ali, mais para além do que chegam os médios, os medianos. Isso é para os grandes.”

Este é um excerto do que escrevi à época do  vient-de-paraître. Mais de dois anos depois, a cada vez que leio e releio o livro, quando o escolho para presentear alguém, a impressão é reforçada:
Na microscopia da escrita, desde o antes, Fal se dedica às tarefas de expor, sondar e fiar alma e emoções, grande empreitada que executa com a leveza das mãos que conhecem muito bem a fibra do tecido que recorta. Mãos que sabem ser sutis, penetrantes, delicadas e – não duvide – sem subterfúgios – com humor muitas vezes feroz.

Minha sugestão para presente. No Natal, mas não vejo porque só no Natal. Em todas as ocasiões.
E taí… um presente para você mesmo. Você vai ficar feliz com a lembrança. Vá por mim

E o livro vai ser adaptado para uma peça. Veja aqui.

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Robert Goren

Image via Wikipedia

P.S: Como se não bastasse, Fal é fã do  Goren (ah! full metal). E eu, para ser gentil, deixei de assediá-lo:  agora, além do Clint eu estou apaixonada mesmo pelo Dr. (Sam Westerton)McCoy, the real McCoy. Fica tudo em família, tudo em casa, né, maninha?

Curtas e delicadas

the greeting /le Salut/1938/paul delvaux

the greeting /le salut/1938/Paul Delvaux

Felipe Fortuna (*) num  *exercício crítico*, cheio de  ironia e sarcasmo, fustigando o ridículo, o moralismo das mazelas tão amplamente terrenas da vida literária.  Retrata a esgrima dos contrários, a “discordia concors“, o cânone posto do avesso. A chamada lex inversa. Um certo tom muriliano e  talvez, sem querer, em algumas provocações, deixa ressair uma ponta de dor e sim, uma espécie de compaixão. Curtas e  cruelmente delicadas. Com ou sem *notalgia*.
O que você acha?

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O provérbio transforma a realidade num vasto lugar-comum.

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O poeta mais ou menos mostra seu poema a outros poetas mais ou menos. Juntos, decidem publicar uma revista e tudo termina sem mais nem menos.

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Durante a Semana de Arte Moderna, quanto subiu o preço do café?

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O livro de bolso não publicou os textos do artista minimalista. Por sua vez, impressa em papel bíblia, a obra extensa do poeta ficou reduzida ao Gênesis e ao Apocalipse.

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O bibliófilo acaricia dia e noite o cólofon e o frontispício: fica sozinho entre livros por toda a vida, sem amor e sem folha de rosto.

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De repente, percebeu que o escritor tinha muito mais livros publicados do que ideias.

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O cantor popular afirma que suas canções são poemas. O poeta precisa transformar o seu poema numa canção, pois está sem dinheiro. Juntos, o cantor e o poeta concorrem à nova edição do Big Brother Brasil.

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Dou um boi morto, de Manuel Bandeira, para não entrar em briga; e a boiada vai, como um navio, de Guimarães Rosa, para não sair.

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O lugar-comum transforma o provérbio numa vasta realidade.

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Tarde da noite, o PhD em sonetos se encontra com o aprendiz de poeta concreto. Juntos, fundam a Tradicional Família da Forma.

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Durante a Exposição Nacional de Arte Concreta, quantos prédios foram erguidos em Brasília?

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Uma epigrama mordaz, porém escrita pelo epígono. Ainda assim, sentiu-se no epicentro da vida literária, onde o que há de mais profundo é a epiderme, segundo escreveu o imitado poeta francês. À procura de uma epifania, acabou sendo apenas um episódio, que hoje se lê em epígrafe.

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Fui tomando notas enquanto lia aqueles poemas muito eruditos, que, segundo me garantiu o amigo, “têm peso”. Em silêncio, lembrei que a dor na região dorsal se chama notalgia.

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Há de tudo na internet, por que se preocupar? Já se pode surfar de Platão a Schopenhauer, de Anchieta e Euclides, de Deleuze a Derrida. Mas quem disse que o surfista tem tempo para ler em alto mar?

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“O seu poema visual tem mesmo influência de Mondrian?” “Tem sim senhor, não seja quadrado…” “Mas eu estou apenas perguntando…” “Se meu verso não deu certo, foi seu olho que entortou.”

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Então está combinado: eu escrevo o poema no domingo e você publica um comentário elogioso no sábado. A literatura brasileira só acabará quando for abolido o fim de semana.

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Durante o Festival Nacional da Canção, as aves que aqui gorjeiam gorjearam como lá?

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O poeta encontra a musa. Juntos, haveria um baby boom?

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Agora que existe poesia feminina, gay, racial, religiosa, grupal, é hora de se preocupar com o leitor desamparado.

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Aqui jaz o Príncipe dos Poetas, que deu seu reino por um enjambement e evitou o blog porque não suportava os numerosos acessos. Preferiu mesmo, juntamente com o trono, uma edição fora do comércio.

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Ainda que mal lhe pergunte, e agora, José?

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Concordo: cada um tem um modo de usar as palavras. Mas as palavras fazem amor, como lembrou Roland Barthes, e eu não vou ficar aqui plantado de voyeur.

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Etiqueta, até onde entendo, é o uso da ética com o menor esforço possível.

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“Sou professor de literatura e me especializei em vanguardas literárias.” “E que autores o senhor mais estuda?” “Aqueles que aceitam as vanguardas literárias.”

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De dois em dois anos, durante a Bienal do Livro, quantos escritores ímpares comparecem?

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O poeta mandou seu livro pelo correio, mas esqueceu de escrever na frente do envelope a crise do verso.

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Durante a Festa Literária Internacional de Parati, quantos poetas herméticos mereceram tradução simultânea?

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A realidade transforma o lugar-comum num vasto provérbio.
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(*) Publicado, com o título Pílulas de sabedoria, no  Jornal do Brasil Caderno Ideias & Livros. 31 Jan 2009.
Faz parte do seu livro, Esta Poesia e mais outra, 2010, lançado pela Topbooks.  Veja resenha de Antonio Miranda.
Do qual se falou aqui no Sub Rosa.

— ‘Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata, Felipe Fortuna estreou com o livro de poemas Ou vice-versa (1986), a que se seguiram Atrito (92) e Estante (97), este pela Topbooks, que no ano seguinte editou também Curvas, ladeiras – bairro de Santa Teresa, dedicado ao lugar onde o autor viveu no Rio de Janeiro. Esta poesia e mais outra reúne uma série de textos de crítica literária capazes de fazer o leitor refletir sobre os mais diferentes temas: do projeto totalizante do Livro de Mallarmé às origens medievais da canção “Coração materno”, sucesso de Vicente Celestino, passando pelo famoso ficcionista e crítico francês Philippe Sollers e pelos poetas brasileiros Armando Freitas Filho e Paulo Henriques Britto, entre muitos outros. Para o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero, que assina o texto de apresentação, “este livro invulgarmente perspicaz, erudito e espirituoso traz uma contribuição preciosa à nossa reflexão sobre a literatura e, em particular, sobre a poesia”.

Leia Felipe Fortuna –  por Antonio Cícero.
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Site de Felipe Fortuna


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Leia mais deste post

Noël Rosa – o centenário do poeta do samba.

noel e o cigarro emblemático
Noël Rosa
, nascido em11 de dezembro de 1910,   é o maior, e muito possivelmente, o melhor compositor popular brasileiro. Morreu, em 4 de maio de 1932. E esse  é o fato que mais impressiona: morrreu aos 26 anos e compôs cerca de 256 músicas.

Duas obras nos dão conta desse gênio :

1A famosa biografia de Noel,  por João Máximo que hoje está sendo contestada pelos herdeiros, apesar de a obra de e sobre Noel já estar em regime de domínio público. E dificilmente será reeditada ou haverá alguma reimpressão. (queira ver neste link )

Ironia, em sua música Fita amarela de 1932:  “ Quando eu morrer, não quero choro nem vela/Quero uma fita amarela gravada com o nome dela/Não quero flores nem coroa com espinho/Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho/Estou contente, consolado por saber/Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer./Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém/Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém…/

2- Noel pela primeira vez. A totalidade da obra de Noel foi recolhida, num trabalho cheio de percalços, que durou cerca de 10  anos, pelo professor e pesquisador  Omar Jubran, Por dez anos, trabalhando nesse resgate, conseguiu reunir, a obra completa  do compositor: em 14 CDs e em 14 volumes, 229 músicas, cujo escopo era reunir toda a obra de Noel, incluindo os inéditos e os até então desconhecidos e, importante, as músicas gravadas por Noel (queira ver aqui).

O que encontrei de melhor sobre o centenário de Noel está aqui em dois soberbos trabalhos:

1-A  Semana Noel Rosa, coletânea de 7 posts sobre Noel, valorizado pela leveza da linguagem e pela seleção pessoal de músicas e excertos das letras -feita por André Barcinski.  No post  que  fecha a semana ele escolhe suas 10 músicas preferidas , do Poeta da Vila. Ora, André, em cerca de 250 músicas, praqticamente todas geniais (Noel jamais deixou cair a qualidade,  quer nas letras e também nas músicas, escolher só 10…tsc tsc.. que ‘judiação’ ops… 0 termo politicamento incorreto que Noël oferece em sua  “Leilao

2 ‘O centenário do poeta maior’, por Julio CesarRibeiro, conhecedor profundo do assunto, do samba e da música brasileira. Primoroso, riquísimo. Não deixe de ler, mesmo que você ache que conhece a vida de Noel. Lá, você encontra, de forma detalhada e ilustrada a famosa polêmica de Noel e Wilson Baptista. Corra pra lá.

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Eu, de fato, fico angustiada e nervosa quando me dizem escolha os seus dez filmes preferidos, seus 10 ou 15 livros idem, os que levaria para uma ilha deserta…suas 10 séries ( eu amo Law&Order e todas as franquias e House) mas amo outras também e quando querem que eu escolha 10, dá  vontade matar e de morrer (assis valente).
É terrível saber que o que você escolhe, significa que um milhão de outras probabilidades ficaram de fora. Irrrgh.
Mesmo assim vou deixar estas duas, uma sentimental, Noel cantou o amor sentido, o amor sofrido, complicado, a um tempo poético e autoflagelador. Um masoquismo que faria o Leopold morrer de inveja :

“Jurei não mais amar pela décima vez/jurei não perdoar/ O que ela me fez (…)/ Joguei meu cigarro no chão e pisei/Sem mais nenhum/Aquele mesmo apanhei e fumei/Através da fumaça/neguei minha raça/Chorando a repetir/Ela é o veneno /Que eu escolhi/Pra morrer se sentir”/

Mas o sofrimento de Noel era escondido (ou realçado) pela malandragem, pela malícia, pela ironia e pela zombaria. Eis aqui uma que é obra-prima  (btw, serve de epígrafe ao maravilhoso blog do artista plástico Claudio Boczon).

“O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu/e também vão sumindo, as estrelas lá do céu/Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal/A minha terra dá banana e aipim/Meu trabalho é achar quem descasque por mim /(Vivo triste mesmo assim!)

E para dar o toque final, a letra filosófica: Positivismo
“A verdade, meu amor, mora num poço / É Pilatos, lá na Bíblia, quem nos diz / e também faleceu por ter pescoço / o infeliz/autor da guilhotina de Paris (…) O amor tem por princípio, a ordem por base / o progresso é que deve vir por fim / desprezaste esta lei de Augusto Comte / e foste ser feliz longe de mim (…) Para não sentir mais o teu veneno/Foi que eu já resolvi me envenenar”

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Discografia de Noel Rosa .

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Cereja do bolo:

Marcos Sacramento – Pela Décima Vez – (beleza puríssima!) Ouça, bem alto, ouça tudo!:-)Resistir, quem há-de!