Escrever, uma paixão.

Escritor importante da vanguarda francesa, André Breton escreveu muito sobre a escrita, a escritura, o escrever. Propôs todo tipo de subversão às belas letras, incitando rupturas, não apenas fissuras, e levantando grandes questionamentos em torno da prática literária.  Ideólogo do surrealismo, um dos lançadores do Manifesto do Surrealismo, em março de 1919, fundou a revista Littérature, com Louis Aragon e Philippe Soupault, e  tinha uma verdadeira obsessão pela palavra e seus significados. Justamente uma de suas investigações foi em torno da questão literária e a existencia e  foi deflagrada, em 21 de setembro de 1919, por uma carta do então jovem poeta Tristan Tzara. Na carta a Breton, Tzara, um dos fundadores do dadaísmo,  afirmou: “Se escrevemos, é apenas por refúgio, de todo ‘ponto-de-vista’. Não escrevo por profissão”. Foi o que bastou para os editores da revista lançarem, três meses depois, a célebre enquete: “”Pourquoi écrivez-vous?”, em bom português, “Por que você escreve?” Instados, romancistas e poetas da época, responderam, mas certamente chamaram atenção as respostas mais radicais. O poeta Paul Valéry foi irônico e niilista: jurou que escrevia “por fraqueza”. O escritor norueguês Knut Hamsun foi mais delicado: “Escrevo para abreviar o tempo”. A questão, por sua complexidade e interesse, perpetua-se ao longo das décadas e certamente move autores e intelectuais um século depois — e, provavelmente, por uma eternidade. Transposta a pergunta a seis escritores e poetas brasileiros, pelo Suplemento de Literatura do jornal O GLOBO, eles aceitaram responder à abstrata indagação. Os escritores/poetas  falaram do seu fascínio pelas letras, conforme a profecia de Breton: “O escritor será capaz de responder à queima-roupa a uma pergunta bem simples”. Segue-se o resultado da enquete feita pelo jornal.

Clarice Lispector: “Vou lhe responder com outra pergunta: – Por que você bebe água? Quer dizer, você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.”

Millôr Fernandes: “Escrevo porque escrevo, se me pagassem eu só falava.”

Lygia Fagundes Telles: “Mas vocação é a felicidade de exercer o ofício da paixão. Se eu estou apaixonada, estou exercendo esse ofício com paixão. Tem uma coisa ainda: quando eu era jovem, quando comecei a escrever, achava que falar em vocação trazia nisso uma certa arrogância. – Por que você escreve? – me perguntavam aqueles entrevistadores, jornalistas e tal. Aquela mocinha e tal. É preciso dizer que comecei a escrever na idade da pedra lascada, havia muito preconceito em relação à mulher, ao sexo feminino, ao qual eu pertenço. Portanto, havia uma certa ironia, quando vinham alguns jornalistas com o lápis, com a caneta, perguntar: – Por que a senhora escreve? Eu tinha algum pudor de dizer: eu escrevo porque esta é a minha vocação, porque, na minha pobre cabeça, achava que vocação inclui sucesso; eu achava que era arrogante dizer: eu escrevo porque é a minha vocação. Ficava constrangida, eu dizia: escrevo porque gosto, não falava em vocação. Com o tempo, olha o tempo maravilhoso, comecei a entender que, na vocação, não está incluído o sucesso. Não, não está! Fiquei felicíssima: não está incluído o sucesso, você pode ter vocação, e no entanto, passar a sua vida trabalhando, fazendo uma mesa, fazendo um relógio, uma casa, um edifício, sem conseguir sucesso. Mas a alegria, a paixão dentro de você, fazem com que você dê o melhor de si mesmo, e agora estou falando como jogador de futebol: – Dei o melhor de mim mesmo, suei a camisa. Pois é. Isso acontece quando você está escrevendo, dentro daquele instante em que você escreve, em que você trabalha, em que você se entrega à sua paixão. Olha a paixão. ”

Manoel de Barros: “Minha relação com as palavras é orgástica. Escrevo porque preciso ter relações com elas para viver em paz. Depois que uso uma palavra nova, ela me beija. Quer dizer que gostou de mim. Eu sou de bem com as palavras que uso por que elas me são.”

Marcelo Rubens Paiva: “Sempre perguntam a um escritor: «Por que você escreve?». Por que sempre aos escritores perguntam isso? Perguntem a um dentista porque ele obtura. Ou a um pipoqueiro por que ele vende pipocas e não diamantes? Já sei o que um piloto de avião diria. «Meu sonho, desde criança era voar», ele diria. Um comissário de bordo tinha esse sonho, mas descobriu, tarde, que não passa de um garçom, equilibrista de luxo e turbulências. Perguntei a ginecologistas por que escolheram a especialidade. Suas respostas nunca me satisfizeram, e nem seus sorrisos eram marotos. E, a um advogado civil, sempre pergunto por que não criminal. E, se eu insistir, ameaça me processar. Está bem. Também já me perguntei por que escrevo. Ser dono de um banco traria mais conforto. Herdar um seria mais cômodo. Roubar é arriscado. Dentista eu não seria. Menos ainda ginecologista. Vender pipocas não traz o conforto de quem possui um banco. Pilotar aviões, são muitos os botões. Não advogar nem engenheirar. Endinheirar-se é para os estressados. Médicos, dizem, curam estresse. E existe profissão mais estressante que médico? Existe. Cobrador, me disseram. Em especial onde a tarifa de ônibus é R$ 0,77. Por que fazem isso com cobradores? Catar moedas, ouvir reclamações quando falta troco e, nas curvas fechadas, se segurar com os centavos. A profissão mais idiota do mundo é a do motorista de elevador, o ascensorista. Faz algo que todos sabem fazer, colocar um elevador em movimento. Passa o dia sentado numa caixa fechada. Escuta conversas incompletas e piadas sem finais. E tem seus rins e fígado sempre em movimento. Um ioiô humano. A existência de ascensoristas só não é mais estranha que a da gravata. Ou alguém, em sã consciência entende porque laçamos tiras de pano estampado ao redor do pescoço? Existem hábitos inexplicáveis, como enfiar na boca um tubo com algodão na ponta, colocar fogo na outra ponta, chupar uma fumaça, inalar e soltar. Chamam isso de fumar. Dizem que mata. Faço isso há tantos anos… Coisas estranhas. Por que temos cachorros e gatos e vacas domesticadas que nos fartem de leite? Por que o zero está no final do teclado, e não no começo? Por que mordemos canetas e mascamos chicletes? Talvez por isso eu escreva, para que me respondam: Para quê?”.

Marcio de Souza: “Escrever é minha profissão, é meu trabalho. Escrevo porque minha sobrevivência depende disso. Eu vivo do meu trabalho literário. Não tenho outra fonte de renda. Me tornei escritor profissional em 1976 quando da publicação do meu romance Galvez, Imperador do Acre. Sempre fui um profissional em tudo que fiz. Como filho de operário não vejo outra significação para o meu trabalho do que a necessidade de assegurar minha subsistência. A visão burguesa segundo a qual a literatura não é uma profissão, parece-me tão exótica quanto o frio polar para um amazonense. É por isso que eu luto pela dignidade do trabalho de escritor que, aqui no Brasil, é considerado como fruto de horas de lazer ou como uma moeda sem valor de capital social no tráfico de influências. É por isso também que em cada uma das minhas obras me comprometo cada vêz mais junto aos meus leitores para recriar o Brasil contemporâneo.”

Maria Clara Machado: “Não sei definir meu trabalho, eu crio a partir do zero, é vocação, nascí para fazer isso, as teorias ficam para os críticos. Um poeta não escreve assim por causa daquilo. Somos intuitivos, é uma questão de momento.”

Lêdo Ivo: “É muito difícil escrever. Lembro-me de uma observação de Goethe que diz que nós somos seres coletivos. O escritor é aquele que fala pelos que não falam, que canta pelos que não cantam, que não têm até, num certo sentido, biografia pessoal. É muito difícil eu dizer isso porque desde a infância eu queria ser escritor; então, talvez, eu admitisse que escrevo por uma espécie de afirmação pessoal. Se eu não escrevesse, não me sentiria vivo, não me sentitiria existindo. A única explicação que me ocorre é que eu escrevo para ser, para sentir que existo. É aquela história: escrevo, logo existo. Uma reposta meio cartesiana.”

Antônio Torres: “Para quem, como eu, nasceu na roça e estava destinado ao serviço braçal, no cabo de uma enxada, de uma estrovenga e de um machado, tornar-se escritor parecia uma possibilidade remota, praticamente impossível. No mundo onde me criei, lá num ignoto sertão baiano, não havia letrados. Nem livros havia. Mas um dia minha mãe – e nem sei que artes do destino a levaram a ser uma mulher alfabetizada – pois um dia dona Durvalice me mostrou um ABC. E, enquanto me dizia como se chamavam as letras do abecedário, eu me encantava com o desenho, com a forma de cada uma. Foi um deslumbramento. Depois veio a cartilha, da qual não me desgrudava, até mesmo de noite, à luz de um candeeiro. Quando fui para a escola – uma escola rural – a professora percebeu o meu gosto pelas letras. E me botou para ler em voz alta um livrinho chamado “Seleta escolar”, que na verdade era uma pequena antologia de poemas, crônicas e contos. Castro Alves, Gonçalves Dias etc. E depois, ela pedia que eu escrevesse uma composição, cujo tema dizia respeito ao nosso cotidiano. Daí começaram a me pedir para escrever cartas, tanto para os apaixonados do lugar que não sabiam ler, quanto para as mulheres dos migrantes. Isso, de alguma maneira, me levou a crer que a palavra escrita era uma coisa encantatória e socialmente útil. Logo, escrever foi o meu sonho de criança. E, até hoje, quando escrevo, sinto que é aquele menino quem o faz por mim. Dá-lhe, garoto!”

Lya Luft: “Escrevo por uma lúdica paixão. Porque nasci para fazer isso. Porque me alegra, me diverte, me instiga – e me exaure. Porque tenho necessidade e prazer em elaborar com palavras esse traçado de tantas vidas, tantas criaturas, tantos destinos e aventuras que povoam minha imaginação, e que acabarão – ou não – vivendo nos meus textos. Quando escrevo, inicia-se essa escavação, essa arqueologia, começa a desenrolar-se o fio que nasce em mim. Aracne, minha fantasia, produz sempre mais novelos para que eu os teça. Escrevo para seduzir leitores que sejam meus cúmplices na inquietação fundamental, na busca de entender o mundo – e jamais o entenderemos. E também escrevo porque desejo uma releitura dos valores familiares e sociais de meu tempo: cada um de meus romances pode e deve ser lido como uma denúncia da hipocrisia, da superficialidade, da indiferença, da negligência e da mentira nas relações humanas, amorosas, familiares e sociais. Os artistas são recipientes de carvões em brasa e têm visões que tentam esconjurar com traços, gestos, música ou palavras. E nesse trânsito entre realidade e sonho, cujas fronteiras para eles pouco importam, vão e vêm entre territórios que igualmente os convocam. Escrevo porque sou parte disso.”

Ferreira Gullar: “A resposta é a mais simples e óbvia: escrevo para me expressar. Naturalmente, esse “expressar-me” muda conforme as circunstâncias: por exemplo, às vezes escrevo para conseguir pensar claro, já que não consigo fazê-lo sem escrever; às vezes escrevo para contestar idéias contrárias às minhas (e nem publico, só anoto); às vezes escrevo para manifestar meu entusiasmo com uma obra alheia. Quando sou tomado por um “espanto”, que parece revelar-me um lado ainda não percebido do real, tento escrever poesia.”

Moacyr Scliar: “Escrevo movido por um impulso cuja natureza desconheço (e que não quero conhecer), o mesmo impulso que leva algumas pessoas a desenhar, outras a fazer música, outras a trabalhar a terra. Escrevo pelo prazer de contar histórias – o mesmo prazer que tinham meus pais, emigrantes pobres e soberbos narradores. Escrevo porque sempre admirei a obra de escritores, mas escrevo também pelo prazer lúdico de combinar palavras – o mesmo prazer que sentia em criança quando, na marcenaria de meu tio, fabricava com pedaços de madeira aviões e navios. Escrevo para partilhar com outros idéias e emoções, as duas coisas estando sempre juntas. Escrevo por causa da angústia, a angústia de não encontrar respostas para as grandes questões da vida. Escrevo para não me fazer perguntas. Como esta: por que escrevo?”

Alexei Bueno: “A humanidade tem o dom de gerar todas as vocações de que precisa, mesmo as mais improváveis, e no número certo. Daí sempre existirem astrônomos, entomólogos, legistas ou poetas, atividades estranhas, na última das quais me incluo. Quanto ao motivo de escrever, como o de criar qualquer arte, há um único: o Amor que move o sol e os outros astros. É preciso sair de si, livrar-se do egoísmo, praga suprema da espécie e forma geral de estupidez. É preciso fazer falar os mortos. É preciso ter mais vidas que a paupérrima vida nossa. É preciso celebrar a fabulosa grandeza do homem e a nossa terrível miséria. Como brasileiro, e para só falar de literatura, muito pouco eu seria sem o finado Brás Cubas, sem o mestre Aristarco, sem a Tróia de taipa dos jagunços, sem o capitão Riobaldo ou alguns milhares de versos que guardo na memória. É esse amor pletórico pelo que não fomos, pelas nuvens, pelas pedras, que nos expulsa do nosso pobre e efêmero eu. Mas para não ser do egoísmo, paradoxalmente, na mais reles civilização hedonista, é preciso ser ferozmente individual. Só o indivíduo de identidade pétrea pode se dar ao luxo de mandar o egoísmo ao inferno nesta sociedade de massas. Tudo isso ordena o Amor que move o universo. O resto é jogo de palavras. Mediocridade.”

Ivan Junqueira: “Escrevo por uma espécie de fatalidade, por um compromisso inarredável com a beleza e porque, tendo que me expressar, vi-me na contingência de escolher o meio mais eficaz em que poderia fazê-lo, e essa escolha recaiu sobre a palavra escrita ou, mais especificamente, sobre a palavra poética, graças ao seu poder de síntese, de encantamento, de musicalidade e de concreção sígnica. Durante algum tempo, entretanto, cheguei a supor que poderia escapar ao jugo e ao fascínio da poesia através de uma expressão mais plástica e visual, ou seja, do desenho e da pintura, mas cedo descobri que jamais conseguiria dizer o que queria por meio das formas, dos volumes e das cores. Acrescento ainda que, pelo menos no meu caso, a poesia não constitui apenas um veículo de expressão, mas também uma forma de gnose, de teoria do conhecimento que não me foi possível adquirir quando, entre os 20 e 25 anos, estudei medicina e, depois, filosofia, disciplinas que em boa hora abandonei para consagrar-me inteiramente à indisciplina e ao tormento da poesia”.

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Publicado no blog Sub Rosa, em 25 de julho de 2002. A propósito do dia 25 de julho, considerado o Dia do Escritor.

E porque eu a-do-ro meus leitores e muito em especial o valoroso grupo dos que comentam aqui:-) vou fazer um adendo, eles compreenderão: Breton defendia uma arte do inconsciente, sem grandes depurações ou decantações e promoveu diversas enquetes nesse estilo acima, segundo ele “para ampliar percepções”. Daí que na edição de 15 de dezembro de 1929 da revista La révolution surréaliste (criada em 1925) ele fez uma enquete famosa: “Que tipo de esperança você projeta no amor?”:-).
Aqui, no blog, o grupo também fez uma, ligeiramente diferente, mas com o mesmo tema.:-)

Alma Lusa, por Luis C. Nelson

            Quando,  em abril deste ano,  discutíamos a respeito da lírica portuguesa, a do conceptismo, a do Cancioneiro Geral, com a valorosa e aguerrida equipe de comentaristas que, imodéstia à parte, só o Sub Rosa tem;-), o meu amigo Nelsinho (Luís C. Nelson, do blog Mukandas ) manifestou neste belo comentário (clique para ler) (“Devo ter recebido um pouco da alma de Bernardim, a julgar pelas vezes que entro em choque frontal comigo próprio...”)  a sua identificação com Bernardim Ribeiro, o poeta do Eu dividido.
Gostamos tanto do comentário,  que logo  surgiu a questão:  nós, brasileiros, teríamos  herdado algo da   triste, melancólica por natureza, alma lusitana? O que se entende por “alma melancólica do português” ? E, ao fim e ao cabo, portugueses e brasileiros partilhariam o mesmo substrato melancólico?
Claro que diante disso, eu não ia deixar por menos. Pedi a Nelson que – em sendo possível, expandisse para nós esse conceito.
E ele – que há muito me honra com sua amizade, não regateou esforços para, a despeito da sua eterna falta de tempo, produzir este belíssimo texto que se segue.
Deixem-me apenas dizer que o texto a seguir   vem reconfirmar que seja onde quer que escreva, no seu blog, em sua página pessoal no Facebook, nos comentários, Nelsinho faz de cada lugar um palco textual em que – utilizando o distanciamento da ironia, na observação da realidade e sua percepção poética –  algumas das suas  inquietações metafísicas e, por que não dizer?, alguns sutis malaises existenciais, encontram a sua melhor expressão literária. Muitíssimo obrigada, Nelsinho.

ALMA LUSA
“Se meu mestre estivesse aqui para me elucidar e ajudar a escrever algumas frases sobre a tão cantada alma lusitana, por certo ele começaria com uma afirmação, que poderia muito bem ser …

“…que dos lusos poetas os corações,

de tão tristes parecem talhados,
com aqueles mesmos machados
que talham as tábuas dos seus caixões…”

Não disponho de tempo para os caminhos da pesquisa nos velhos e belos alfarrábios do Real Gabinete Português de Leitura, ou nas fontes mais ou menos escondidas, mais ou menos esclarecidas nos meandros da Internet, sobre as origens dessa tão intrínseca tristeza, que de tão intrínseca, é tumor que o tempo não logra extirpar.
Recuo decididamente no tempo, diretamente para as madrugadas de frias névoas. Junto-me aos rudes, andrajosos e miseráveis autômatos que desfilam ecoando seu calçado de madeira com brôchas de ferro pelas graníticas vielas e quelhos da aldeia sem idade, suas enxadas às costas, seus mirrados estômagos roncando de mau humor a água-ardente e algumas gramas de pão de milho oferecidos pelo senhor da terra como mata-bicho, até que suas mulheres lhes aportem às lavouras, a habitual e pobre malga de caldo de cebola. Exausto, sigo-os enquanto descem os montes ao final da massacrante jornada de sol-a-sol. Olho as reações dos seus rostos tristes, que tão tristemente se alegram com as parcas moedas que, com desprezo, são colocadas sobre suas calejadas mãos. Completando o soldo, um copo único de vinho tinto e uma côdea a mais de pão de milho. A poesia sai-me esfomeada e mortalmente triste, mortalmente tísica…

Flano para os meus verdes anos e relembro a minha paixão pelos grandes veleiros aparelhados para a pesca do bacalhau. Furtivo e ladino, escalo o portaló e esgueiro-me por entre os dóris empilhados ao longo do convés, do qual se solta e sobe aquele inebriante odor do piche e da estopa do madeirame recém calafetado. Encho os pulmões, inspirando a coragem e sacrifício daqueles homens de rudes modos por cujas faces rolam lágrimas enquanto agitam lenços brancos em resposta aos amargurados acenos de despedida das mulheres em prantos, com suas crianças ao colo, sua triste sina da difícil sobrevivência em terra, enquanto esperam a promessa de improváveis melhores dias com boas comissões de pescado. Muitos meses passarão, alguns perecerão, perdidos dentros dos seus pequenos doris que remam frenéticamente para o nada, no meio do súbito e assassino nevoeiro, sobre as geladas águas da Terra Nova. A poesia sai-me soluçada em saudade, solidão, medo e sofrimento atroz…

Serão estes dois exemplos suficientes para justificar a alma de um povo? Certamente que não mas, se o pesquisador se embrenhar pelos “mists”da história, por guerras e perigos esforçado muito mais do que promete a força humana, por vidas errantes, por terras estranhas, por sofrimentos lancinantes, por dores tamanhas…”

.
“Nelson Castro, ou Luis C. Nelson, ou simplesmente Nelsinho,  nasceu na invicta e mui nobre cidade do Porto, Portugal, nos idos de 1944. Seu pai era um daqueles fotógrafos-artistas de studio, que retocava pacientemente os negativos e coloria manualmente suas incríveis ampliações, delas fazendo verdadeiras obras de arte, geralmente muito mal pagas.

De seu pai, recebeu não só o gosto pela fotografia e paixão pela literatura e musica, mas também “skill” para as coisas técnicas. E foram as habilidades técnicas que o levaram a ingressar na Escola Técnica Elementar e depois na Escola Industrial Infante D. Henrique, o que lhe valeu a inesquecível honra de haver sido aluno do Poeta Pedro Homem de Melo, que nesse estabelecimento lecionava língua portuguesa.

Sua trajetória profissional incluiu estaleiros navais em Angola e no Brasil, mas gastou a maior parte da sua vida nas lides da exploração de Petróleo ou a ela ligado ao redor do planeta, motivo pelo qual gosta de dizer-se simplesmente ‘Oilman’.

A poesia é sua mais cara atividade no universo das letras, no qual aliás não possui nenhum crédito acadêmico, dedicando-se também a contos e crônicas da vida real.”

Ora bem, agora teremos música, a condizer com o tema e com o texto. Ouçamos:
Havemos de ir a Viana
Música: Alain Oulman e Letra: Pedro Homem de Mello
Intérprete: Amália Rodrigues (Disco: Amalia e Vinicius)

***
Fado triste
Autor: Vitorino/Intérprete: Misia
(Disco: Paixões Diagonais)

***
Ser Aquele
Letra: o poema “Ser Aquele”, de Fernando Pessoa
Intérprete: Camané (Disco: Sempre de Mim)

***

If we don’t, remember me

Eu estava pensando assim, quem inventou a carta? Não a carta de baralho, que essas a gente sabe, estuda na escola, mas as cartas cartas mesmo, quando foram inventadas, quem primeiro se viu distante um do outro que teve a idéia de  “cobrir” a distancia e ausencia com uma… carta,  ou bilhete,  epístola, misssiva , não é? No Brasil, até onde se sabe  a primeira carta foi a de Pero Vaz e seguem sendo  (ou não são?) insubstituíveis, pelo menos até o aparecimento do telefone…  Pois bem, esse post é sobre palavras (a dita e a escrita) e as imagens, esse fascínio que pega de jeito gente como eu.

Então, tão: já não é mais novidade para ninguém, e eu corro o risco de ser a última da classe… mas, com dizem os nossos irmãos do outro lado do oceano,  mais vale tarde que mais tarde e aqui está minha homenagem  e agradecimento ao moço (meu companheiro de Tumblr) do blog IWDRM,  que é campeão absoluto no quesito, luxo, riqueza e poder:-)  Estou encantada, um amor de perdição, pelas GIF‘s! Este post foi adiado desde dezembro do ano passado e acho que jamais o publicaria pois cismei que as gifs não funcionavam (perdiam o sutil movimento) no WordPress. (bem, eu ainda não sei, me digam, vocês). Burrinha, eu. Obrigada, Cat Miron.

Voilà: algumas gifs, todas de amados meus, incluindo ele, o mais poderoso, que faz aniversário no dia 31, ai, Jesus, apaga a luz! o meu Clint, ô lá em casa!…

“Hi, Lloyd. Little slow tonight, isn’t it?”

The Shining – (O Iluminado, 1980) – meu filme ‘tenebroso’ preferido. Jack Nicholson, adorado. Um Kubrick perfeito que a gente vê de olhos bem… fechados, lembram? ♦ ♦ ♦ Ela.  Mais linda, rycah e phynah impossível! Kim Novak:

kim novak

“Only one is a wanderer. Two together are always going somewhere”. Vertigo (Um corpo que cai), Hitchcock, 1958.

♦ ♦ ♦ OMG!

clint rulz: the good the bad the ugly

“Every gun makes its own tune.” (The good, the bad and the beautiful, Três homens em conflito, 1966

♦ ♦ ♦

Mas nem só de GIF’s vive a nossa atual fantasia. Também há lugar para as imagens digamos, tradicionais (JPG). Leia mais deste post

Juó Bananere. Quem?

JUÓ BANANERE.
Quem?!
(Bananeiro, Barbeiro,Poeta e Jornalista)
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Uma nota prévia:

Nunca fiz este blog sozinha. Nem mesmo no início, em 2001, quando *todos* se ajudavam. Eu sempre me interessei pela história dos blogs no Brasil e, de certo modo, sempre que posso, conto a história deles. Os mais famosos, os melhores, como o do Nemo Nox, o Por um Punhado de Pixels, o do querido Sérgio Faria, cujo nome não ouso dizer (private joke, nem tão private assim) o da Fezoca, claríssimo, espécie de blogmother (outra private joke) de nós todos, e vários outros, para citar alguns dos realmente célebres. Muitos deles fecharam as portas, tipo o bar Esperança, o que me deixa triste, e outros, acho que ficam pra sempre. Essa história de que blog acaba, não acaba, que passou o tempo etc… são especulações que redundam numa forma de estar e continuar fazendo blog. Mas o que eu queria mesmo dizer enquanto vou contando a história deles é que, embora admire profundamente os blogs e seus donos altaneiros que fazem seus blogs independentemente dos leitores, eu pertenço ao time daqueles que conseguem fazer um post pensando será que meu leitor X vai gostar? tomara que Y repare nessa escolha.. eteceterrá, vocês já entenderam. Eu poderia fazer uma dédicasse de praticamente todos os meus posts desde 2001 até o presente momento. Todos eles tem, de certa forma, um ou um grupo de destinatários certos. Claro que isso fica muito melhor se a gente só tem uns seis ou sete intrépidos e fiéis leitores. É o meu caso e eu não poderia estar mais feliz com eles. Assim, queridos. este post eu o fiz pela primeira vez em 2001. Tinha, se tanto, 15 linhas. Hoje, saiu isso que vc começa a ler agora. Ainda acho que vale a pena saber a respeito deste parodista satírico que era um ferrenho seguidor do “castigat ridendo mores. Que, na tradução alopradíssima do alopradissimo gênio Millôr Fernandes, passou a significar  também: Rindo castigam os mouros. Fiquem, mesmo os que já conhecem, com Juó Bananere.


Juó Bananére – que se proclama(va) candidato à Gademia Baolista de Letras (os que não forem paulistas, leiam em voz alta, que percebem melhor:-) é o pseudônimo literário do engenheiro, poeta , jornalista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado . Surgiu na revista “O Pirralho“, uma publicação satírica fundada por Oswald de Andrade nos anos 1910. Oswald escrevia para a revista uma coluna sob o pseudônimo Annibale Scipione, no ‘dialeto’ macarrônico ítalo-paulista empregado pelos imigrantes italianos que viviam nos bairros operários de São Paulo. Ao viajar para a Europa, em 1912, Oswald transferiu a coluna a Alexandre Machado, que a transformou em um enorme sucesso. Machado (1892-1933) começou a carreira literária na adolescência, escrevendo versos satíricos e humorísticos publicados em jornais do interior de São Paulo. Além de escritor, ele se formou em engenharia civil e abriu um escritório de engenharia e construção responsável por erigir diversos edifícios na capital e no interior do estado. Entusiasta da arquitetura colonial brasileira, Machado publicou em 1926 o álbum artístico “Arquitetura Colonial do Brasil”.

Bananére, no entanto, é sua criação mais conhecida. No traço, o personagem Juó Bananére foi criado pelo desenhista Voltolino (pseudônimo de Lemmo Lemmi -1884-1926), sócio de Andrade em “O Pirralho”, que se teria inspirado para o seu personagem na figura de Francesco Jacheo, um importador de vinhos ítalo-paulista que morria de vontade de “fare il giornalista” e cuja linguagem especialíssima, mistura de português e dialeto napolitano, inspirou ao desenhista o perfil do “barbiere, poeta e giurnalista”.

Algumas amostras do humor e do italiano macarrônico de Bananére:

MIGNA TERRA

Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.

A abobora celestia tambê,
Che té lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Che non tê na Ingraterra.

Os rios lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.

Na migna terra tê parmeras
Dove ganta a galligna dangola;
Na migna terra tê o Vap’relli,
Chi só anda di gartolla.

*****
CIRCOLO VIZIOZO
Prú Maxado di Assizi

O Hermeze un dia parlô.
– Se io éra aquilla rosa che está pindurada
Nu gabello da mia anamurada,
Uh! che bô!

A rosa tambê scramô,
Xuráno come un bizerigno:
– Se io éra aquillo gaxorinho!…
Uh! che brutta cavaçó!

I o gaxorigno pigô di dizê:
– Se io fossi o Piedadô,
Era molto maise bô!

Ma o Garonello disse tambê
Triste come un giaburú:
– Che bô si io fosse o Dudú!

*****

VERSIGNOS
A

O alifante é bicho troxa,
Chi quarquer griança lógra;
Tê una lingua cumprida,
Piore da lingua da sogra.

B

O Bacate é una fruitinha
Chi tuttos munno cunhéce;
A gente mexe bê elli
I disposa . . . o che parece?

C

Coraçóçino da genti
Gentiçino da ardêia,
Chi ripicca a Vermaria
Tuttos dia as seis i meia.

D

Deuse fui chi fiz a terra,
A luiz i a scuridó,
Má a Guarda Nazionale
Chi fiz fui u Piedadó.

E

Eva, a primiéra molhere,
Tinha gara di macaca,
I u Hermeze da Funzega
Tê gara di urucubacca.

F

Fuzilê cun lemó verdi
Nu fundo du riberó;
U riberó pigô elli
atirô nu Capitó.

G

Gallo veglio bota ôvo
uguali come as gallinha;
Pidaço de teglia e cacco,
Mandioca muída é farinha.

H

O H na lingua du Piques,
Non presta p’ra cosa nisciuna:
E’ come u guexo du Artinho
Chi non cabi in parti arguna

I

Inzima d’aquillo morro
Tê un brutto carrapató
Pintado come una onça
I maiore chi un tostó.

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(Princípio universal da paródia/intertextualidade: só funciona se vc tiver em mente, o “texto” original que é referido.)

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Isso tudo, era do nosso conhecimento, assim, por volta dos anos 1980.  E assim foi até no início do século XXI: os happy few que conheciam trocavam olhares e sorrisos superiores daqueles que … conheciam o tamanho da…”INCRENCA*

Até que em 2001, o poeta –giurnalista, foi tema de um estudo minucioso, neste livro:

Benedito Antunes, professor de Literatura Brasileira na UNESP, em Assis, organizou a primeira coletânea dos trabalhos em prosa de Juó Bananére, publicados pela revista “O Pirralho” entre 1911 e 1917, e a primeira edição dos trabalhos de Bananére desde que “La Divina Increnca”, uma coletânea de paródias poéticas e de algumas de suas colunas, foi relançada nos anos 1960.

Trabalho cuidadosamente anotado e precedido por três ensaios detalhados sobre o escritor Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (o nome real de Bananére), sobre o “macarrônico” que ele usava como forma de expressão e sobre a posição de Bananére na tradição literária e satírica brasileira, a coletânea do Professor Antunes é uma referência essencial sobre um dos escritores mais engraçados- bem engraçado sim, mas também importantes pois retratou uma época, a chamada belle époque paulista- do Brasil.

Olha só o convite:-):

Juó Bananére: As Cartas d’Abax’o Pigues

# CUNVITO # Tegno a onrra di acunvidá o signore p’ra sisti, oggi,

as otto ores da notte, a migna festa che io dó inda a migna gaza.

C’ua stima da consideraçó Juó Bananére giurnalista

(Tragico di rigoro)

Fonte: ig LER – matéria  do tradutor e escritor Paulo Migliacci.

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Fiz  este post em 2001, mas  até hoje,  10 anos depois, Bananére, parece,  não se tornou mais conhecido do que era então, julgo.

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Bom, o que se poderia acrescentar à matéria de Migliacci? Quase nada, a não ser o  que diz de Bananére, Folco Masucoi, editor de seu livro mais conhecido: LA DIVINA INCRENCA, 1966, 10ª ed. – ( A 1ª é de 1924).

‘Satírico terrível criou um estilo humoristico empregando metade do portugués e metade do italiano, escrevendo, com clareza, na algaravia quase desaparecida então comum nos bairros paulistanos habitados por imigrantes peninsulares.’

Alexandre Marcondes Machado nunca foi nacionalmente conhecido nem reconhecido; mas o tipo por ele criado, Bananére, vulgo Bananeiro em S. Paulo, barbeiro e jornalista, tornou-se popular, em sua época. Seu nome consta no Dicionário de Escritores Paulistas com indicação de várias de suas obras, sua independéncia política e financeira, o entusiasmo pela arquitetura colonial brasileira. Em 1954, foi destacado num artigo de Otto Maria Carpeaux, no “Diário de São Paulo”. Pode ser considerado precursor da paródia moderna. E Décio Pignatari o considera precursor de certos personagens típicos do escritor Antônio Alcâtara Machado e…até msmo de Macunaíma ou de Seradim Ponte Grande (o primeiro o anti-herói brasileiro, ou o heróis sem nenhum caráter de Mario de Andrade e o segundo ah! .. de Oswald de Andrade. ***** Bananére capta a fala paulista da época e a reproduz, graficamente, segundo Saliba. Chega a ressaltar alguns traços essenciais do chamado “dialeto caipira”, registrados por Amadeu Amaral. Bananére gravou, em 1920, alguns de seus poemas em disco. Tudo se perdeu, como se perde na leitura, hoje, “a mímica, o tom da voz e o improviso gestual” do humorista.

Imaginem “As Pombas” de Raimundo Correa, o “Ora direis ouvir estrelas” de Bilac, ou “O Corvo” de Poe, declamados nessa língua estropiada, mistura de italiano com português, assimilando o linguajar caipira, sem ser nem uma coisa nem outra e se parecendo um pouco com todas elas.

Bananére deixa passar por sua obra como passa certamente por seu “Salón de Barbieri”, uma galeria de tipos que perambulam pela “Barra Funda”, “Piques”, “Buó Rittiro” , tais como varredores de rua, vendedores, todos “avacagliados” na vida. Na fábula-paródia de La Fontaine “U Lobo i u Gordeirigno”, que termina como já se sabe no lobo comendo o cordeiro, Bananére tira a moral da história:

O qui vale nista vida é u muque“.

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INDISPENSÁVEL:

LA DIVINA INCRENCA

É importante lembrar que a paródia (uma inversão ou desvio de um texto, utilizando a ironia, a sátira, etc, funciona melhor, ou só funciona, se se conhece o original)

Vejamos:
O soneto As Pombas (não riam) de Raimundo Correa.
E As pombignas do nosso herói Bananere.

AS POMBAS

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais…mais outra…enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada…

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem…Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

(Raimundo Corrêa)
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AS POMBIGNAS

(P’ru aviadore chi pigó o tombo)

VAI a primiéra pombigna dispertada,
I maise otra vai disposa da primiéra;
I otra maise, i maise otra, i assi dista maniera,
Vai s’imbota tutta pombarada.

Pássano fóra o dí i a tardi intêra,
Catáno as formiguigna ingoppa a strada;
Ma quano vê a notte indisgraziada,
Vorta tuttos in bandos, in lilêra.

Assi tambê o Cicero avua,
Sobí nu spaço, molto alê da lua,
Fica piqueno uguali d’un sabiá.

Ma tuttos dia avua, allegre, os pombo!…
Inveis chi o Muque, desdi aquilio tombo,
nunga maisa quiz sabe di avuá.

(Juó Banarere)

Voltolino cria o personagem Juó Bananereeste é o traço do Voltillo

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UM GLOSSÁRIO;-) .

Os livros:

CARELLI, Mario. Juó Bananére. In: ___. Carcamanos e comendadores: os italianos de São Paulo: da realidade à ficção, 1919/1930. Trad. Ligia Maria Pondé Vassallo. São Paulo: Ática, 1985

FONSECA, Cristina. “Juó Bananére. O Abuso em Blague”. S. Paulo: Editora 34, 2001

CASELLA, César Augusto de Oliveira. LA DIVINA INSGUGLIAMBAÇÓ, que traz como epígrafe esta obra-prima: “A artograffia muderna é una maniera de scrivê, chi a gentil scrive uguali come dice. Per isempio: – si a genti dice Capitó, scrive kapitó; si si dice Alengaro, si scrive Lenkaro; si si dice dice, non si dice dice, ma si dice ditche.”

FRIEDMAN, Abilio. Juó Bananere. Uma série de 4 artigos.

Este post  é uma tentativa – não  sei se bem sucedida- de ressoar, talvez ressair,  uma espécie de “memória da escrita”.  Se, algum dia, algum post do Sub Rosa chegou, realmente, perto desse tom, o de poetry recollected in tranquility, eu o dedico ao autor de um dos mais admiráveis blogs escritos no Brasil. O do escritor, publicitário (o mesmo que propagandista?), crítico  e finíssimo humorista Rafael Galvão. O homem é danado, feito o cinema de  Fassbinder! Fora que ele fala uma porção de línguas, incluindo esta:  RaУкраїнська, Ngband.

 

LILITCHKA – Updated

lilia brik (direitos de img reservados)

LÍLITCHKA!

Em lugar de uma carta

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchônikh. (1)
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração — aço.-
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua .
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor, meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

-==-=-=-

Wladimir Maiakóvski.Em lugar de uma carta“.
26 de maio de 1916 (Petrogrado)
(Tradução: Augusto de Campos)

(1) Alusão ao poema “Um jogo no inferno
de A. Krutchônikh e V. Khliébnikov.

Sobre Lilia Brik ler aqui. Ou ainda nestedossiê Maiakovski

‘Três mulheres em sua vida: Lilia Brik, Veronika (Nora) Polônskaia e Tatiana Iácovlieva. Quis casar com Tatiana, uma russa branca, mas não o fez. Também quis casar com Nora, mas ela não aceitou. Viveu com Lilia e com o marido dela, caso que estarreceu a sociedade e que foi batizado, ocidentalmente, de ménage à trois e, pela própria Lilia, de “uma ideologia amorosa”, fundamentada no livro de Tchernichévski – Que fazer? – que pregava a não-possessividade entre marido e mulher.

O caso teria acontecido mais ou menos assim, como narrado no livro I LOVE , the story of Vladimir Maikaovski and Lilia Brik, de autoria dos norte-americanos Ann e Samuel Carters, que passaram sete anos na Rússia bisbilhotando tudo a respeito desse outro lado da vida do poeta: Lilia era casada com Ossip Brik, crítico literário, e ambos vieram a conhecer Maiakovski quando este procurava um quarto para alugar. Passando a morar com o casal, os três tornaram-se muito amigos. Lilia e Maiakovski apaixonaram-se um pelo outro. Contaram a Ossip, que não viu motivos para deixar a casa. E continuaram a viver os três sob o mesmo teto.

Lilia foi “a mulher” na vida de Maiakovski, aquela para quem ele ofereceu poemas, aquela que recebeu o que viria a ser conhecido como “poema concreto”: um anel, gravado com as iniciais de seu nome – L – I – UB – que, ordenadas de forma circular, formavam a palavra LIUBLIU (AMO).

Em julho de 1972, Lilia Brik concedeu entrevista ao brasileiro Boris Schnaiderman, em sua residência perto de Moscou. Lilia garante que não tinha mais nada com Ossip Brik quando começou relacionar-se com Maiakovski. Quando desta visita de Boris, Lilia já estava casada há quarenta anos com V.A. Katanian, também amigo de Maiakovski, e ambos sempre se dedicaram a estudar e divulgar a obra do poeta. Em 1978, aos 86 anos, Lilia suicidou-se.’

Em que circunstâncias, uma pessoa como Lilia Brik se suicidaria , em idade tão avançada?

Este é um assunto fascinante e foi tratado em tese de doutorado pelo jornalista e professor de Filosofia Arthur Dapieve e -pessoalmente- o tenho considerado objeto de reflexão. O mesmo ocorreu com (1)Primo Levi, escritor italiano, químico, sobrevivente do campo de concentração Awschwitz-Bierkenau, autor dos livros  É isso um Homem e Tabela Periódica. Nasceu em 1919 e suicidou-se 1987, emTurim . (2) Gilles Deleuze (1925-1995) suicidou-se após grande sofrimento com um cancer de pulmão. 3-Há cerca de dois meses, em 29 de novembro de 2010, o grande cineasta Mario Monicelli , suicidou-se, depois de ter feito uma brilhante carreira e ser reponsável pela criação de algumas obras primas, aos 95 anos.

Nada de morbidez, asseguro,  apenas, estranhamento. O assunto, o importante, a essência, continua sendo o poético, o humanamente  poético.

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=-=-=-=

Update:

Maria Schneider – R.I.P

O SEBO – Carlos Drummond de Andrade (updated)

***

O filme. O texto. A música.

onde mais se pode encontrar

the clock -o ponteiro da saudade judy garland v. minelli – onde mais se poderia encontrar um filme assim?

O amigo informa que a cidade tem mais um sebo. Exulto com a boa-nova e corro ao endereço indicado. Ressalvada a resistência heróica de um Carlos Ribeiro, de um Roberto Cunha e pouco mais, os sebos cariocas foram se acabando, cedendo lugar a lojas sofisticadas, onde o livro é exposto como artigo de moda, e há volumes mais chamativos do que as mais doidas gravatas, antes objeto de decoração, do que de leitura.
Para onde foram os livros usados, os que tinham na capa este visgo publicitário, as brochuras encardidas, as encadernações de pobre, os folhetos, as revistas do tempo de Rodrigues Alves? Tudo isso também é “gente”, na cidade das letras, e como “gente”, ninho de surpresas: no mar de obras condenadas ao esquecimento, pesca-se às vezes o livrinho raro, não digo raro de todo, pois o faro do mercador arguto o escondeu atrás do balcão, e destina-o a Plínio Doyle, ao Mindlin paulista ou à Library of Congress, que não dorme no ponto… mas pelo menos, o relativamente raro, sobretudo aquele volumeco imprevisto, que não andávamos catando, e que nos pede para tirá-lo dali, pois está ligado a circunstâncias de nossa vida : operação de resgate, a que procedemos com alguma ternura. Vem para a minha estante, Marcelo Gama, amigo velho, ou antes, volta para ela, de onde não devias ter saído; sumiste porque naqueles tempos me faltou dinheiro para levar a namorada ao cinema, e tive de sacrificar-te, ou foi um pilantra que me pediu emprestado e não te devolveu? Perdão, Marcelo, mas por 5 cruzeiros terei de novo a tua companhia.
Matutando no desaparecimento de tantos sebos ilustres, inclusive o do Brasielas chego a este novo. É agradavelmente desarrumado, mas não muito, como convém ao gênero de comércio, para deixar o freguês à vontade. Os fregueses, mesmo não se dando a conhecer uns aos outros, são todos conhecidos como frequentadores crônicos de sebo. Caras peculiares. Em geral usam roupas escuras, de certo uso ( como os livros ), falam baixo, andam devagar. Uns têm a ponta dos dedos ressecada e gretada pela alergia à poeira, mas que remédio, se a poeira é o preço de uma alegria bibliográfica?
Formam uma confraria silenciosa, que procura sempre e infatigavelmente uma pérola ou um diamante setecentista, elzeveriano, sabendo que não o encontrará nunca entre aqueles restos de literatura, mas qualquer encontro a satisfaz. Procurar, mesmo não achando, é ótimo. Não há a primeira edição dos Lusíadas mas há do Eu, e cumpre negociá-la com discrição, para que o vizinho não desconfie do achado e nos suplante com o seu poder econômico. À falta da primeira, a segunda, ou outro livro qualquer, cujo preço já é uma sugestão: “Me leva”. Lá em casa não cabe mais nem aviso de conta de luz, tanto mais que as listas telefônicas estão ocupando lugar dos dicionários, mas o frequentador de sebo leva assim mesmo o volume, que não irá folhear. A mulher espera-o zangada: “Trouxe mais uma porcaria pra casa!”. Porcaria? Tem um verso que nos comoveu, quando a gente se comovia fácil, tem uma vinheta, um traço particular, um agrado só para nós, e basta.
A inenarrável prosmicuidade dos sebos! Dante em contubérnio com o relatório do Ministro da Fazenda, os eleatas junto do almanaque de palavras cruzadas, Tolstói e Cornélio Pires, Mandrake e Sóror Juana Inés de la Cruz… Nenhum deles reclama. A paz é absoluta. O sebo é a verdadeira democracia, para não dizer: uma igreja de todos os santos, inclusive os demônios, confraternizados e humildes. Saio dele com um pacote de novidades velhas, e a sensação de que visitei, não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito, contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão.

Carlos Drummond de Andrade

Agora, a música tem de ser um standard:

Outstanding Blossom Dearie singin’ The Best is yet to come

Este texto, o poster do filme e a música –   um presente de aniversário (soy tan pobre que otra cosa puedo dar...:-) para uma amiga muito especial.

Eu adoro esse filme: Minelli e Judy Garland?: não tem erro.

judy garland robert walker the clock 1945 dir vincent minell

judy garland e robert walker

João Guimaraes Rosa, sua Hora e sua vez

JGR Museu cordisburgo
.

Tude se finge, primeiro; germina autêntico é depois.”
De um dos prefácios de Tutaméia.

 

Uns tesouros que quero dividir com vocês: são fragmentos de uma homenagem feita a Guimaraes Rosa, por um amigo seu, médico, escritor, intelectual brilhante e Professor Emérito da Faculdade de Medicina da UFMG,  Luiz Otávio Savassi Rocha.
Publiquei este excerto no Sub Rosinha… bem, leiam até o fim,  lá nos encontramos:-) Naqueles dias de 2001, não havia o Google – e dá pra se imaginar o mundo sem o Google? – hoje, não digo que seja mais fácil, longe de mim,  é apenas mais simplestudo está aqui. Leia mais deste post