‘Excuse my dust’ – Dorothy Parker

 

retrato da terrível quando jovem

Dorothy, a terrível.

A mais arrasadora personalidade feminina de sua época, Dorothy (nascida Rotschild) Parker (1893-1967), considerada “the wittiest woman in América, escreveu nas revistas Vogue, Vanity Fair e pontificou na mais especial e brilhante revista semanal americana,  The New Yorker.
Jornalista, poetisa, contista, roteirista e crítica teatral, ficou famosa nas décadas de 1920 e 1930 pelos seus poemas curtos e implacáveis. Espírito mordaz, crítico , marcada por algumas tragédias e pela causticidade de seu estilo, ela era devastadora, atingiu a todos e não poupou a si mesma do riso.
Ficou conhecida, justamente, por ser a mais espirituosa e irreverente escritora do século passado.

O texto da orelha da edição da “Modern Library” diz que seus poemas são “aguçados como pontas de flechas, e mergulhados no ácido borbulhante de seu humor.” Poucas mulheres (e poucos homens, aliás) terão tido uma vocação tão grande para a metáfora surpreendente, para a comparação “na mosca”, para o soco demolidor com luvas de pelica, para as coisas ternas ditas com crueldade e vice-versa.

“There’s a hell of a difference between wisecracking and wit.
Wit has truth in it; wisecracking is just calisthenics with words.”

Ela foi uma dessas mulheres que não têm medo de homem nenhum e, como todas elas, pagou um preço maior do que podia, além de suas posses. Casamentos, divórcios, abortos, tentativas de suicídio (várias, o que chegou a virar um folclore), rejeições, depressões e decepções, tudo está rigorosamente dito e descrito em suas biografias e, claro, na internet, em várias homepages.
A primeira vez que publiquei algo a respeito de Dorothy foi em 2001 e a principal página na Internet dedicada a ela, continua a mesma. É a da revista Bohemian Ink, a literary underground review.
Ou seja, uma escritora do mainstream mas tratada e retratada  (muito bem) por uma publicação underground, não é o máximo? E até hoje, apesar de em um grande período ter ficado quase esquecida, o culto ainda hoje persiste. Aqui mesmo no WordPress, temos a Sociedade Dorothy Parker. E tantos outros, que vocês mesmos vão me ajudar a descobrir. Fan pages é que não faltam, nas melhores famílias.
Em seus poemas, ficou a auto-imagem de uma mulher ao mesmo tempo cínica e carente, cuja vida amorosa foi “uma sucessão de saltos no escuro e de ossos partidos; de convalescenças e de recaídas.
Sua linguagem poética é minimalista, dando preferência às estrofes com esquema silábico britânico (8-6-8-6), ocasionais sonetos no modelo italiano, pequenos epigramas em quadras ou dísticos. O mais famoso deles é:
“Men seldom make passes / at girls who wear glasses”
para o qual assenta bem esta tradução:
“Os homens não roubam ósculos / de garotas que usam óculos”

***  ***  ***
Sua poesia é difícil de traduzir, mesmo tendo uma linguagem simples, de imagens fortes e diretas. Grande parte do seu charme reside em ser impecavelmente rimada e metrificada, a um ponto quase impossível de preservar nos versinhos curtos e compactos que eram sua forma predileta.
Seu talento para a rima rica e original é também famoso. Seu poema mais conhecido talvez seja este:

Razors pain you; Rivers are damp;
Acids stain you; And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful; Nooses give;
Gas smells awful; You might as well live.

Résumé

“Résumé”, é sobre o suicídio. Tradução mais adotada:

“Navalha dói./Rios são úmidos./
Ácido mancha. Drogas dão cãibras./
Revólveres são ilegais. Forcas cedem.
O gás tem um cheiro horrível. Melhor ficar viva.”

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Dorothy também foi roteirista em Hollywood (duas vezes indicada ao Oscar, em 1937 e 47).
Depois da guerra, voltou para New York e para o trabalho jornalístico. Em 1944, Dorothy ganhou edição luxuosa do Portable, uma coleção prestigiadíssima, reunindo o melhor dos melhores escritores, onde ela fica, ao lado de Shakespeare e da Bíblia, como as três, únicas, coleções a serem editadas ou reimpressas contínuamente. Ruy Castro em  Big Loira,  diz que Dorothy está, de fato, em companhia de Oscar Wilde, Mark Twain, Platão, Voltaire, James Joyce, Cervantes e Nietzche e por aí vai, até mesmo a Bíblia. E arremata: “isso é o que se pode chamar de uma escritora em boa companhia. Resta saber é se Dorothy gostaria da companhia deles.”. Eu acho que sim.

Ao envelhecer, afastou-se dos círculos intelectuais onde um dia chegou a ser considerada “a mulher mais espirituosa dos EUA”. E a mais amarga, também: morreu aos 73 anos, sozinha num quarto de hotel. Sua morte pegou de surpresa muitas pessoas que a imaginavam morta há muito tempo. Quando morreu, em seu testamento, para desespero de Lilian Hellman sua amiga e espécie de protetora de Dorothy (alguns dizem que ela esperava ser herdeira da amiga, fosse do que fosse) e espanto de todos os demais, havia deixado tudo o que possuia, para Martin Luther King (e a causa negra), a quem não conhecia e , ele, jamais sequer ouvira falar dela.
Dorothy apoiou muitas causas da esquerda nos Estados Unidos. E chegou a ser alvo de investigações por supostas ligações com o comunismo. A tal Comissão Mc Carthy de investigações “antiamericanas”.
Suas cinzas ficaram vinte anos num escritório jurídico, sem que ninguém as reclamasse. Coisas de Dorothy, que certa vez, ao escolher seu epitáfio, escreveu: “Excuse my dust”.

*** *** ***

Dorothy tornou-se um daqueles casos em que a personalidade do artista supera sua obra na memória coletiva. A presença do inferno da rejeição, abandono,  amores fracassados, alcoolismo, inúmeras tentativas de suicídio(*) e, principalmente,  porque todos esses ingredientes sustentam as suas inúmeras tiradas de humor mordaz – por essas, absolutamente tantalizantes e geniais, é que Dorothy ficou, para sempre,  na memória da literatura.
Aqui, algumas dessas tiradas. Algumas em português, na tradução de Angela Carneiro e outras, em inglês, porque são absolutamente, intraduzíveis.
(Grande parte delas ganharam vida, nas reuniões promovidas na famosa  Round Table do (hotel) The Algoquin : ao lado de Dorothy Parker, Harold Ross (fundador da The New Yorker) e Robert Benchley, Franklin Pierce Adams, colunistas e Heywood Broun, Ruth Hale; o crítico Alexander Woollcott; o comediante Harpo Marx, os dramaturgos George S. Kaufman, Marc Connelly, a escritora Edna Ferber, e Robert Sherwood, todos esses formando o seleto e fechado vicious circle, a Mesa Redonda do Algonquin, que incorporou a fina flor da inteligência e o espírito de  uma era em que  foi mudado para sempre a cara do humor e costumes americanos. Da era do jazz, uma era de ouro.
(*) A respeito das várias tentativas de suicídio, Dorothy, judia que era, chegada a uma tragédia, numa certa época, tentava o suicídio quase toda semana. Dizem que certa vez, o maravilhoso, adorável (esses adjetivos são meus) Robert Benchley , seu amigo, olhou para ela e, sinceramente, preocupadíssimo, lhe disse, “Dottie, tome cuidado, menina: essa coisa de  tentar se suicidar toda semana, puxa, um dia  você ainda acaba ficando doente!”.)
*** *** ***
Deixo algumas aqui, que retiro de meus livros sobre Dorothy… E não sou boba de querer traduzir algumas, não é , mesmo? Quer ver? Vejam:

  • *** You know, that woman speaks eighteen languages. And she can’t say “No” in any of them.
  • **** Scratch an actor and find an actress.
  • **** Everything that isn’t writing is fun.
  • **** Hemingway avoids New York, for he has the most valuable asset an artist can possess – the fear of what he knows is bad for him.
  • **** Respondendo a um interrogatório do FBI: “Listen, I can’t even get my dog to stay down. Do I look like someone who could overthrow the government?”
  • **** I require only three things of a man: he must be handsome, ruthless and stupid.
  • *** I like to think of my shining tombstone. It gives me, as you might say, something to live for.
  • *** I write doodads because it’s a doodad kind of town.
  • ***
  • *** Time doth flit; oh shit.
  • *** I’d kiss you, but I’m not sure it’d come out right.
  • ***Men seldom make passes At girls who wear glasses
  • *** Travel, trouble, music, art A kiss, a frock, a rhyme – I never said they feed my heart But still they pass the time

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Ave ! Dottie. Em português:

  • “Só exijo três coisas de um homem : que ele seja bonito, insensível e burro”
  • (Quando lhe disseram que sua arqui-rival, Clare Boothe Luce, era muito gentil “com os seus inferiores”): “E onde é que ela os encontra ?!?”
  • Ainda a respeito de Clare, que era a mulher do editor da Revista Time, ouviu desta, que era mais nova: “As velhas antes das belas”. A resposta foi: “As pérolas, antes das porcas”
  • “Essa mulher fala 18 línguas e não sabe dizer não em nenhuma delas”
  • “A cura para o tédio é a curiosidade. Não há cura para a curiosidade.”
  • “Brevidade é a alma de lingerie” (parafraseando Shakespeare que disse, “Brevidade é a alma do espírito –> “Brevity is the soul of wit”)
  • “Fui expulsa de um convento em Nova Iorque por insistir em que a Imaculada Conceição não passou de uma combustão espontânea” (essa aqui, aqui pra nós, é meio difícil de entender , seja em inglês ou em qualquer outra língua. Eu não entendi e também não gostei, mas  como está entre as mais citadas… noblesse oblige)
  • “Dinheiro não pode comprar saúde. Mas eu me contentaria com uma cadeira de rodas cravejada de diamantes” . (adoro essa e sempre digo hohoho)
  • (Quando lhe pediram que dissesse o epitáfio que gostaria de ter sobre seu túmulo) “DESCULPE A POEIRA… “
  • “Dele só ganhei até hoje uma flor  /  E tão terna, mas com um coração à espreita  /  Pura, púrpura, e tendo do orvalho o odor  /  Uma rosa perfeita.  /  Já conheço a linguagem do buquê  /  “Nestas folhas frágeis  /  Meu coração se estreita”.  /  E imagino perfeitamente em quê :  /  Numa rosa perfeita.  /  Bolas, por que nunca me dão  /  Uma bela limusine – ou…você não suspeita ?!?  /  Não, todos eles me mandam  /  Uma rosa perfeita”.
  • (Depois do fracasso de suas inúmeras tentativas de suicídio) ” Navalhas machucam / Rios são úmidos / Ácidos mancham / E drogas dão cãimbras / Armas são ilegais / Nós escorregam / Gás tem mau cheiro / É melhor viver”
  • “Qualquer mulher que aspire a comportar-se como um homem, é certo que carece de ambição.”
  • “Quatro coisas há que eu passaria melhor sem elas: amor, curiosidade, pecados e dúvidas”
  • “Mulheres e elefantes nunca esquecem.”
  • “Este não é um livro para ser sutilmente jogado de lado. Ele tem que ser jogado com toda a força”
  • Dorothy nasceu de sete meses. Depois diria: “Foi a última vez que cheguei cedo para um compromisso”.
  • Onde está o homem capaz de acalmar tão bem um coração quanto -uma camisola de cetim?
  • ♣ ♣ ♣

    (*) A tradução de todos os poemas e citações, aqui,   são de Angela Carneiro.

    Alguns links, especialmente escolhidos: (**)

    Modern American Poetry. . – Em especial este ensaio: Dorothy Parker and Her Intimate Public.

    As Malvadas./ Recanto das Letras

    Big Loira

    O espantoso obituário do New York Times. Quando Dorothy morreu, em 1967, estava tão esquecida que todo mundo se espantou com as notícias estampada nas front pages dos mais importantes jornais. Este obituário, na front page do NYT foi decisivo: os poucos que lembravam dela achavam que já tivesse morrido. Os outros não tinham a real dimensão de sua importância.

    Dorothy em tese. USP,  por Juliana Rosenthal Knoepfelmacher.
    A dependência feminina do telefonema masculino.

    Socidade Dorothy Parker (aqui tem coisas do arco da velha e da nova).

    DOT AUDIO: Vídeos interessantíssimos com Dorothy. (enviados pela Rose)

    ♣ ♣ ♣

    Livros em português:

    Praticamente não há uma bibliografia em português a respeito de Dorothy Parker, a não ser a coletânea de contos Big loira e outras histórias, de Ruy Castro, lançada pela Companhia das Letras. E, pela editora Civilização Brasileira uma biografia “A extravagante Dorothy Parker“, pela escritora francesa Dominique de Saint Pern , o que é ótimo. Mas, cuidado, é longa e maçante, o que pode afastar os que já não estejam convencidos de que vale a pena. E a tradução…tsc, tsc… (embora eu dificilmente fale mal de tradutrores. Tenho o maior respeito pela classe laboriosa , da qual faz parte, a minha adorável e querida tradutora preferidíssima Fal Azevedo. Que fez a magistral tradução do livro O amor é fogo , da não menos adorável Nora Ephron. Que aconselho veementemente.

    (**)Eu disse que este seria um post in progress. E interativo. É verdade: o melhor do post vem depois, nos comentários. Pelo menos aqui é assim *pisc.  Simplesmente os melhores links. Melhor, muito melhor do que eu poderia fazer. Então os links virão depois, com os devidos créditos:-). Agora é com vocês, queridas. Voilà! (*pisc, de novo.)

    Ah! queria dividir uma coisa com você: eu hesitei em dizer aqui que tenho uma linda puppy, uma cadelinha yorkshire, lindíssima, of course, chamada Dorothy (que torce pelo Yuri). Adivinhem qual a razão do nome? Pois é!  Agora, o melhor de tudo foi encontrar um blog em que a autora conta que  os filhos de sua foram ‘batizados’ com os seguintes nome:s Dot (ponto) Dash (traço) e Ray. Agora, por quê? Simplesmente, os nomes foram inspirados em Dottie Parker, Dashiel Hammet (lembram o marido da Lilian Hellman?) e Raymond Chandler. Quem gosta de romances policiais, aí, levante o braço:-). O blog é aqui. E Dorothy adorava cães. Ela era per-fei-ta!

    Acerca da vida, da amizade e … da crítica.

    sandra bréa em foto de antonio guerreiro, seu ex-marido. em 1970

    sandra bréa.foto de antonio guerreiro.seu ex-marido. em 1970

    “Brevity is the soul of wit”. Shakespeare. Hamlet.Act 2, Scene 2

    “Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sae perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

    “Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas ás vezes (não repare na acentuação, quem acentua pra mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.[…]

    “Vc foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando […]. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que meu presente [..] foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

    “Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então eu vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei … [..]. Sua, Clarice”

    Em 11 de dezembro de 1970, Clarice Lispector escreveu essa carta para Olga Borelli, escritora, professora, sua amiga, secretária e acompanhante.

    Sei que é uma coisa muito feia, querer fazer *bonito* com o talento dos outros, mas eu, tal como aquele rapaz grego, o Sócrates, não tenho em mim nenhum talento, sabedoria, nenhuma capacidade criadora. E nisso reside a pequeníssima diferença que me faz ser … assim, digamos, diferente. (o grifo da ironia).Talvez acredite mesmo que sou especial. (modesta, então nem se fala). Aliás, a modéstia é o segredo do meu sucesso e não me pergunte: que sucesso?
    Essas considerações, portanto, são inspiradas nas inseguranças – fragilidades – incoerências -inadequações de Clarice, já se vê.
    A única coisa que eu sei, é que a vida é muito pouco pra tudo o que eu desejo e preciso aprender. E sei que amo a Vida. Sem apego, mas com zelo.
    O resultado disso é que é espantoso: ao viver, desenvolvi uma habilidade singular, meu olho (quase) só vê a beleza, a delicadeza de um mundo de pessoas gentis. Elegantes (lat. elègans ‘que sabe escolher; bem escolhido). Consigo ver à distância o que é bom, o que é bonito, o que tem valor. Mesmo que esse valor esteja muuuito escondido. Preciso muito de ser assim, e agradeço por ser assim, pois como não morrer de tristeza, quando há tanta coisa feia nesse mundo, ao redor, ao perto e ao longe. Ao saber que na Amazônia, meu país, mon royaume, assassinaram o velejador neozelandês Sir Peter Blake. A Irmã Dorothy? E aí onde você está, ontem foi a guerra! O horror! O horror. E  um ror de coisas mais.
    Um poeta espanhol que eu amo muito, Juan Jose Jiménez (1811-1958), poeta de los poetas cunhou a frase que me tem servido de lema de vida, e como não terei epitáfio, queria ser lembrada por ela. “ Não sou eu que escolhe o melhor; o melhor é que me escolhe.”
    Vivo sempre como se me restassem horas de vida, e precisasse ver toda a beleza. Pessoas desabrochando. Florescendo. Expressando o seu *melhor*.
    Paulo Francis, uma de minhas paixões irrecorríveis, (OK, há que se ter coragem pra dizer isso nos tempos atuais, diga lá?… ‘pero soy uma chica con clase’) Francis costumava dizer, nos últimos tempos, todos sabem, que se sentia tecnicamente morto. Eu , se passar um dia sem que tenha descoberto algo de bom, papa fina, como se dizia antes, algo de que eu possa falar bem, sou vice-morta.
    Não, não se trata de “só falar bem” do que  é escrito ou criado, (*) a diferença é sutil, o que eu quero é escrever acerca do que realmente é bom e tentar mostrar porque o que é bom é bom.
    Um dia alguém descobrirá isso , ou ninguém descobrirá e minha vida terá sido em vão. Se descobrirem captarão a ânsia que pauta até o próprio ato de (eu) respirar…
    ‘Viver nunca foi pra mim uma calma tessitura de dias que se juntam hesitantemente a outros dias, plácido trabalho, lentíssima costura…’ sou ansiosa, não paro pra ser gentil, tenho um gênio danado de danado,  tenho urgências e corro o mais rápido que posso, para chegar aonde? Ao que você, meu outro, faça ou crie e que seja algo original (se é que existe o… original), que você escreva ou crie o melhor.
    O que fazer com a ânsia, se viver começa pela paciência da espera? A escrita começa pela paciência da espera. A música começa pela vitória sobre a pausa. (depois da paciência da espera). Quem é músico sabe, quem é escritor sabe.
    Eu apenas ardo e espero.
    * * *
    (*) Para os que acham que só é bom crítico aquele que fala mal (crítico bom é ‘crítico cruel’, o que desce o “pau” hmmm… Masoch perde) eu ainda vou escrever algo  sobre a origem da crítica que remonta aos três trágicos, você sabe, aqueles Ésquilo, Eurípedes, Sófocles. Acredite, se quiser, crítica não é assim. Não era (para ser) assim. Era critério para saber a diferença entre o bom e o fazer bem.
    Sorry.

    * * *
    Rose Marinho Prado, esta ‘crônica'(?) é para você. Obrigada pelo texto, Clarice está em Clarice. Por que a Sandra Bréa? Ora, e não é Clarice?!, você depois verá. Imprevisto, hora da estrela, brevidade… você sabe.