Alma Lusa, por Luis C. Nelson

            Quando,  em abril deste ano,  discutíamos a respeito da lírica portuguesa, a do conceptismo, a do Cancioneiro Geral, com a valorosa e aguerrida equipe de comentaristas que, imodéstia à parte, só o Sub Rosa tem;-), o meu amigo Nelsinho (Luís C. Nelson, do blog Mukandas ) manifestou neste belo comentário (clique para ler) (“Devo ter recebido um pouco da alma de Bernardim, a julgar pelas vezes que entro em choque frontal comigo próprio...”)  a sua identificação com Bernardim Ribeiro, o poeta do Eu dividido.
Gostamos tanto do comentário,  que logo  surgiu a questão:  nós, brasileiros, teríamos  herdado algo da   triste, melancólica por natureza, alma lusitana? O que se entende por “alma melancólica do português” ? E, ao fim e ao cabo, portugueses e brasileiros partilhariam o mesmo substrato melancólico?
Claro que diante disso, eu não ia deixar por menos. Pedi a Nelson que – em sendo possível, expandisse para nós esse conceito.
E ele – que há muito me honra com sua amizade, não regateou esforços para, a despeito da sua eterna falta de tempo, produzir este belíssimo texto que se segue.
Deixem-me apenas dizer que o texto a seguir   vem reconfirmar que seja onde quer que escreva, no seu blog, em sua página pessoal no Facebook, nos comentários, Nelsinho faz de cada lugar um palco textual em que – utilizando o distanciamento da ironia, na observação da realidade e sua percepção poética –  algumas das suas  inquietações metafísicas e, por que não dizer?, alguns sutis malaises existenciais, encontram a sua melhor expressão literária. Muitíssimo obrigada, Nelsinho.

ALMA LUSA
“Se meu mestre estivesse aqui para me elucidar e ajudar a escrever algumas frases sobre a tão cantada alma lusitana, por certo ele começaria com uma afirmação, que poderia muito bem ser …

“…que dos lusos poetas os corações,

de tão tristes parecem talhados,
com aqueles mesmos machados
que talham as tábuas dos seus caixões…”

Não disponho de tempo para os caminhos da pesquisa nos velhos e belos alfarrábios do Real Gabinete Português de Leitura, ou nas fontes mais ou menos escondidas, mais ou menos esclarecidas nos meandros da Internet, sobre as origens dessa tão intrínseca tristeza, que de tão intrínseca, é tumor que o tempo não logra extirpar.
Recuo decididamente no tempo, diretamente para as madrugadas de frias névoas. Junto-me aos rudes, andrajosos e miseráveis autômatos que desfilam ecoando seu calçado de madeira com brôchas de ferro pelas graníticas vielas e quelhos da aldeia sem idade, suas enxadas às costas, seus mirrados estômagos roncando de mau humor a água-ardente e algumas gramas de pão de milho oferecidos pelo senhor da terra como mata-bicho, até que suas mulheres lhes aportem às lavouras, a habitual e pobre malga de caldo de cebola. Exausto, sigo-os enquanto descem os montes ao final da massacrante jornada de sol-a-sol. Olho as reações dos seus rostos tristes, que tão tristemente se alegram com as parcas moedas que, com desprezo, são colocadas sobre suas calejadas mãos. Completando o soldo, um copo único de vinho tinto e uma côdea a mais de pão de milho. A poesia sai-me esfomeada e mortalmente triste, mortalmente tísica…

Flano para os meus verdes anos e relembro a minha paixão pelos grandes veleiros aparelhados para a pesca do bacalhau. Furtivo e ladino, escalo o portaló e esgueiro-me por entre os dóris empilhados ao longo do convés, do qual se solta e sobe aquele inebriante odor do piche e da estopa do madeirame recém calafetado. Encho os pulmões, inspirando a coragem e sacrifício daqueles homens de rudes modos por cujas faces rolam lágrimas enquanto agitam lenços brancos em resposta aos amargurados acenos de despedida das mulheres em prantos, com suas crianças ao colo, sua triste sina da difícil sobrevivência em terra, enquanto esperam a promessa de improváveis melhores dias com boas comissões de pescado. Muitos meses passarão, alguns perecerão, perdidos dentros dos seus pequenos doris que remam frenéticamente para o nada, no meio do súbito e assassino nevoeiro, sobre as geladas águas da Terra Nova. A poesia sai-me soluçada em saudade, solidão, medo e sofrimento atroz…

Serão estes dois exemplos suficientes para justificar a alma de um povo? Certamente que não mas, se o pesquisador se embrenhar pelos “mists”da história, por guerras e perigos esforçado muito mais do que promete a força humana, por vidas errantes, por terras estranhas, por sofrimentos lancinantes, por dores tamanhas…”

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“Nelson Castro, ou Luis C. Nelson, ou simplesmente Nelsinho,  nasceu na invicta e mui nobre cidade do Porto, Portugal, nos idos de 1944. Seu pai era um daqueles fotógrafos-artistas de studio, que retocava pacientemente os negativos e coloria manualmente suas incríveis ampliações, delas fazendo verdadeiras obras de arte, geralmente muito mal pagas.

De seu pai, recebeu não só o gosto pela fotografia e paixão pela literatura e musica, mas também “skill” para as coisas técnicas. E foram as habilidades técnicas que o levaram a ingressar na Escola Técnica Elementar e depois na Escola Industrial Infante D. Henrique, o que lhe valeu a inesquecível honra de haver sido aluno do Poeta Pedro Homem de Melo, que nesse estabelecimento lecionava língua portuguesa.

Sua trajetória profissional incluiu estaleiros navais em Angola e no Brasil, mas gastou a maior parte da sua vida nas lides da exploração de Petróleo ou a ela ligado ao redor do planeta, motivo pelo qual gosta de dizer-se simplesmente ‘Oilman’.

A poesia é sua mais cara atividade no universo das letras, no qual aliás não possui nenhum crédito acadêmico, dedicando-se também a contos e crônicas da vida real.”

Ora bem, agora teremos música, a condizer com o tema e com o texto. Ouçamos:
Havemos de ir a Viana
Música: Alain Oulman e Letra: Pedro Homem de Mello
Intérprete: Amália Rodrigues (Disco: Amalia e Vinicius)

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Fado triste
Autor: Vitorino/Intérprete: Misia
(Disco: Paixões Diagonais)

***
Ser Aquele
Letra: o poema “Ser Aquele”, de Fernando Pessoa
Intérprete: Camané (Disco: Sempre de Mim)

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Juó Bananere. Quem?

JUÓ BANANERE.
Quem?!
(Bananeiro, Barbeiro,Poeta e Jornalista)
*************

Uma nota prévia:

Nunca fiz este blog sozinha. Nem mesmo no início, em 2001, quando *todos* se ajudavam. Eu sempre me interessei pela história dos blogs no Brasil e, de certo modo, sempre que posso, conto a história deles. Os mais famosos, os melhores, como o do Nemo Nox, o Por um Punhado de Pixels, o do querido Sérgio Faria, cujo nome não ouso dizer (private joke, nem tão private assim) o da Fezoca, claríssimo, espécie de blogmother (outra private joke) de nós todos, e vários outros, para citar alguns dos realmente célebres. Muitos deles fecharam as portas, tipo o bar Esperança, o que me deixa triste, e outros, acho que ficam pra sempre. Essa história de que blog acaba, não acaba, que passou o tempo etc… são especulações que redundam numa forma de estar e continuar fazendo blog. Mas o que eu queria mesmo dizer enquanto vou contando a história deles é que, embora admire profundamente os blogs e seus donos altaneiros que fazem seus blogs independentemente dos leitores, eu pertenço ao time daqueles que conseguem fazer um post pensando será que meu leitor X vai gostar? tomara que Y repare nessa escolha.. eteceterrá, vocês já entenderam. Eu poderia fazer uma dédicasse de praticamente todos os meus posts desde 2001 até o presente momento. Todos eles tem, de certa forma, um ou um grupo de destinatários certos. Claro que isso fica muito melhor se a gente só tem uns seis ou sete intrépidos e fiéis leitores. É o meu caso e eu não poderia estar mais feliz com eles. Assim, queridos. este post eu o fiz pela primeira vez em 2001. Tinha, se tanto, 15 linhas. Hoje, saiu isso que vc começa a ler agora. Ainda acho que vale a pena saber a respeito deste parodista satírico que era um ferrenho seguidor do “castigat ridendo mores. Que, na tradução alopradíssima do alopradissimo gênio Millôr Fernandes, passou a significar  também: Rindo castigam os mouros. Fiquem, mesmo os que já conhecem, com Juó Bananere.


Juó Bananére – que se proclama(va) candidato à Gademia Baolista de Letras (os que não forem paulistas, leiam em voz alta, que percebem melhor:-) é o pseudônimo literário do engenheiro, poeta , jornalista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado . Surgiu na revista “O Pirralho“, uma publicação satírica fundada por Oswald de Andrade nos anos 1910. Oswald escrevia para a revista uma coluna sob o pseudônimo Annibale Scipione, no ‘dialeto’ macarrônico ítalo-paulista empregado pelos imigrantes italianos que viviam nos bairros operários de São Paulo. Ao viajar para a Europa, em 1912, Oswald transferiu a coluna a Alexandre Machado, que a transformou em um enorme sucesso. Machado (1892-1933) começou a carreira literária na adolescência, escrevendo versos satíricos e humorísticos publicados em jornais do interior de São Paulo. Além de escritor, ele se formou em engenharia civil e abriu um escritório de engenharia e construção responsável por erigir diversos edifícios na capital e no interior do estado. Entusiasta da arquitetura colonial brasileira, Machado publicou em 1926 o álbum artístico “Arquitetura Colonial do Brasil”.

Bananére, no entanto, é sua criação mais conhecida. No traço, o personagem Juó Bananére foi criado pelo desenhista Voltolino (pseudônimo de Lemmo Lemmi -1884-1926), sócio de Andrade em “O Pirralho”, que se teria inspirado para o seu personagem na figura de Francesco Jacheo, um importador de vinhos ítalo-paulista que morria de vontade de “fare il giornalista” e cuja linguagem especialíssima, mistura de português e dialeto napolitano, inspirou ao desenhista o perfil do “barbiere, poeta e giurnalista”.

Algumas amostras do humor e do italiano macarrônico de Bananére:

MIGNA TERRA

Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.

A abobora celestia tambê,
Che té lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Che non tê na Ingraterra.

Os rios lá sô maise grandi
Dus rio di tuttas naçó;
I os matto si perdi di vista,
Nu meio da imensidó.

Na migna terra tê parmeras
Dove ganta a galligna dangola;
Na migna terra tê o Vap’relli,
Chi só anda di gartolla.

*****
CIRCOLO VIZIOZO
Prú Maxado di Assizi

O Hermeze un dia parlô.
– Se io éra aquilla rosa che está pindurada
Nu gabello da mia anamurada,
Uh! che bô!

A rosa tambê scramô,
Xuráno come un bizerigno:
– Se io éra aquillo gaxorinho!…
Uh! che brutta cavaçó!

I o gaxorigno pigô di dizê:
– Se io fossi o Piedadô,
Era molto maise bô!

Ma o Garonello disse tambê
Triste come un giaburú:
– Che bô si io fosse o Dudú!

*****

VERSIGNOS
A

O alifante é bicho troxa,
Chi quarquer griança lógra;
Tê una lingua cumprida,
Piore da lingua da sogra.

B

O Bacate é una fruitinha
Chi tuttos munno cunhéce;
A gente mexe bê elli
I disposa . . . o che parece?

C

Coraçóçino da genti
Gentiçino da ardêia,
Chi ripicca a Vermaria
Tuttos dia as seis i meia.

D

Deuse fui chi fiz a terra,
A luiz i a scuridó,
Má a Guarda Nazionale
Chi fiz fui u Piedadó.

E

Eva, a primiéra molhere,
Tinha gara di macaca,
I u Hermeze da Funzega
Tê gara di urucubacca.

F

Fuzilê cun lemó verdi
Nu fundo du riberó;
U riberó pigô elli
atirô nu Capitó.

G

Gallo veglio bota ôvo
uguali come as gallinha;
Pidaço de teglia e cacco,
Mandioca muída é farinha.

H

O H na lingua du Piques,
Non presta p’ra cosa nisciuna:
E’ come u guexo du Artinho
Chi non cabi in parti arguna

I

Inzima d’aquillo morro
Tê un brutto carrapató
Pintado come una onça
I maiore chi un tostó.

*****

(Princípio universal da paródia/intertextualidade: só funciona se vc tiver em mente, o “texto” original que é referido.)

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Isso tudo, era do nosso conhecimento, assim, por volta dos anos 1980.  E assim foi até no início do século XXI: os happy few que conheciam trocavam olhares e sorrisos superiores daqueles que … conheciam o tamanho da…”INCRENCA*

Até que em 2001, o poeta –giurnalista, foi tema de um estudo minucioso, neste livro:

Benedito Antunes, professor de Literatura Brasileira na UNESP, em Assis, organizou a primeira coletânea dos trabalhos em prosa de Juó Bananére, publicados pela revista “O Pirralho” entre 1911 e 1917, e a primeira edição dos trabalhos de Bananére desde que “La Divina Increnca”, uma coletânea de paródias poéticas e de algumas de suas colunas, foi relançada nos anos 1960.

Trabalho cuidadosamente anotado e precedido por três ensaios detalhados sobre o escritor Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (o nome real de Bananére), sobre o “macarrônico” que ele usava como forma de expressão e sobre a posição de Bananére na tradição literária e satírica brasileira, a coletânea do Professor Antunes é uma referência essencial sobre um dos escritores mais engraçados- bem engraçado sim, mas também importantes pois retratou uma época, a chamada belle époque paulista- do Brasil.

Olha só o convite:-):

Juó Bananére: As Cartas d’Abax’o Pigues

# CUNVITO # Tegno a onrra di acunvidá o signore p’ra sisti, oggi,

as otto ores da notte, a migna festa che io dó inda a migna gaza.

C’ua stima da consideraçó Juó Bananére giurnalista

(Tragico di rigoro)

Fonte: ig LER – matéria  do tradutor e escritor Paulo Migliacci.

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Fiz  este post em 2001, mas  até hoje,  10 anos depois, Bananére, parece,  não se tornou mais conhecido do que era então, julgo.

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Bom, o que se poderia acrescentar à matéria de Migliacci? Quase nada, a não ser o  que diz de Bananére, Folco Masucoi, editor de seu livro mais conhecido: LA DIVINA INCRENCA, 1966, 10ª ed. – ( A 1ª é de 1924).

‘Satírico terrível criou um estilo humoristico empregando metade do portugués e metade do italiano, escrevendo, com clareza, na algaravia quase desaparecida então comum nos bairros paulistanos habitados por imigrantes peninsulares.’

Alexandre Marcondes Machado nunca foi nacionalmente conhecido nem reconhecido; mas o tipo por ele criado, Bananére, vulgo Bananeiro em S. Paulo, barbeiro e jornalista, tornou-se popular, em sua época. Seu nome consta no Dicionário de Escritores Paulistas com indicação de várias de suas obras, sua independéncia política e financeira, o entusiasmo pela arquitetura colonial brasileira. Em 1954, foi destacado num artigo de Otto Maria Carpeaux, no “Diário de São Paulo”. Pode ser considerado precursor da paródia moderna. E Décio Pignatari o considera precursor de certos personagens típicos do escritor Antônio Alcâtara Machado e…até msmo de Macunaíma ou de Seradim Ponte Grande (o primeiro o anti-herói brasileiro, ou o heróis sem nenhum caráter de Mario de Andrade e o segundo ah! .. de Oswald de Andrade. ***** Bananére capta a fala paulista da época e a reproduz, graficamente, segundo Saliba. Chega a ressaltar alguns traços essenciais do chamado “dialeto caipira”, registrados por Amadeu Amaral. Bananére gravou, em 1920, alguns de seus poemas em disco. Tudo se perdeu, como se perde na leitura, hoje, “a mímica, o tom da voz e o improviso gestual” do humorista.

Imaginem “As Pombas” de Raimundo Correa, o “Ora direis ouvir estrelas” de Bilac, ou “O Corvo” de Poe, declamados nessa língua estropiada, mistura de italiano com português, assimilando o linguajar caipira, sem ser nem uma coisa nem outra e se parecendo um pouco com todas elas.

Bananére deixa passar por sua obra como passa certamente por seu “Salón de Barbieri”, uma galeria de tipos que perambulam pela “Barra Funda”, “Piques”, “Buó Rittiro” , tais como varredores de rua, vendedores, todos “avacagliados” na vida. Na fábula-paródia de La Fontaine “U Lobo i u Gordeirigno”, que termina como já se sabe no lobo comendo o cordeiro, Bananére tira a moral da história:

O qui vale nista vida é u muque“.

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INDISPENSÁVEL:

LA DIVINA INCRENCA

É importante lembrar que a paródia (uma inversão ou desvio de um texto, utilizando a ironia, a sátira, etc, funciona melhor, ou só funciona, se se conhece o original)

Vejamos:
O soneto As Pombas (não riam) de Raimundo Correa.
E As pombignas do nosso herói Bananere.

AS POMBAS

Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais…mais outra…enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada…

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem…Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

(Raimundo Corrêa)
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AS POMBIGNAS

(P’ru aviadore chi pigó o tombo)

VAI a primiéra pombigna dispertada,
I maise otra vai disposa da primiéra;
I otra maise, i maise otra, i assi dista maniera,
Vai s’imbota tutta pombarada.

Pássano fóra o dí i a tardi intêra,
Catáno as formiguigna ingoppa a strada;
Ma quano vê a notte indisgraziada,
Vorta tuttos in bandos, in lilêra.

Assi tambê o Cicero avua,
Sobí nu spaço, molto alê da lua,
Fica piqueno uguali d’un sabiá.

Ma tuttos dia avua, allegre, os pombo!…
Inveis chi o Muque, desdi aquilio tombo,
nunga maisa quiz sabe di avuá.

(Juó Banarere)

Voltolino cria o personagem Juó Bananereeste é o traço do Voltillo

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UM GLOSSÁRIO;-) .

Os livros:

CARELLI, Mario. Juó Bananére. In: ___. Carcamanos e comendadores: os italianos de São Paulo: da realidade à ficção, 1919/1930. Trad. Ligia Maria Pondé Vassallo. São Paulo: Ática, 1985

FONSECA, Cristina. “Juó Bananére. O Abuso em Blague”. S. Paulo: Editora 34, 2001

CASELLA, César Augusto de Oliveira. LA DIVINA INSGUGLIAMBAÇÓ, que traz como epígrafe esta obra-prima: “A artograffia muderna é una maniera de scrivê, chi a gentil scrive uguali come dice. Per isempio: – si a genti dice Capitó, scrive kapitó; si si dice Alengaro, si scrive Lenkaro; si si dice dice, non si dice dice, ma si dice ditche.”

FRIEDMAN, Abilio. Juó Bananere. Uma série de 4 artigos.

Este post  é uma tentativa – não  sei se bem sucedida- de ressoar, talvez ressair,  uma espécie de “memória da escrita”.  Se, algum dia, algum post do Sub Rosa chegou, realmente, perto desse tom, o de poetry recollected in tranquility, eu o dedico ao autor de um dos mais admiráveis blogs escritos no Brasil. O do escritor, publicitário (o mesmo que propagandista?), crítico  e finíssimo humorista Rafael Galvão. O homem é danado, feito o cinema de  Fassbinder! Fora que ele fala uma porção de línguas, incluindo esta:  RaУкраїнська, Ngband.

 

Curtas e delicadas

the greeting /le Salut/1938/paul delvaux

the greeting /le salut/1938/Paul Delvaux

Felipe Fortuna (*) num  *exercício crítico*, cheio de  ironia e sarcasmo, fustigando o ridículo, o moralismo das mazelas tão amplamente terrenas da vida literária.  Retrata a esgrima dos contrários, a “discordia concors“, o cânone posto do avesso. A chamada lex inversa. Um certo tom muriliano e  talvez, sem querer, em algumas provocações, deixa ressair uma ponta de dor e sim, uma espécie de compaixão. Curtas e  cruelmente delicadas. Com ou sem *notalgia*.
O que você acha?

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O provérbio transforma a realidade num vasto lugar-comum.

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O poeta mais ou menos mostra seu poema a outros poetas mais ou menos. Juntos, decidem publicar uma revista e tudo termina sem mais nem menos.

***

Durante a Semana de Arte Moderna, quanto subiu o preço do café?

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O livro de bolso não publicou os textos do artista minimalista. Por sua vez, impressa em papel bíblia, a obra extensa do poeta ficou reduzida ao Gênesis e ao Apocalipse.

***

O bibliófilo acaricia dia e noite o cólofon e o frontispício: fica sozinho entre livros por toda a vida, sem amor e sem folha de rosto.

***

De repente, percebeu que o escritor tinha muito mais livros publicados do que ideias.

***

O cantor popular afirma que suas canções são poemas. O poeta precisa transformar o seu poema numa canção, pois está sem dinheiro. Juntos, o cantor e o poeta concorrem à nova edição do Big Brother Brasil.

***

Dou um boi morto, de Manuel Bandeira, para não entrar em briga; e a boiada vai, como um navio, de Guimarães Rosa, para não sair.

***

O lugar-comum transforma o provérbio numa vasta realidade.

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Tarde da noite, o PhD em sonetos se encontra com o aprendiz de poeta concreto. Juntos, fundam a Tradicional Família da Forma.

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Durante a Exposição Nacional de Arte Concreta, quantos prédios foram erguidos em Brasília?

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Uma epigrama mordaz, porém escrita pelo epígono. Ainda assim, sentiu-se no epicentro da vida literária, onde o que há de mais profundo é a epiderme, segundo escreveu o imitado poeta francês. À procura de uma epifania, acabou sendo apenas um episódio, que hoje se lê em epígrafe.

***

Fui tomando notas enquanto lia aqueles poemas muito eruditos, que, segundo me garantiu o amigo, “têm peso”. Em silêncio, lembrei que a dor na região dorsal se chama notalgia.

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Há de tudo na internet, por que se preocupar? Já se pode surfar de Platão a Schopenhauer, de Anchieta e Euclides, de Deleuze a Derrida. Mas quem disse que o surfista tem tempo para ler em alto mar?

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“O seu poema visual tem mesmo influência de Mondrian?” “Tem sim senhor, não seja quadrado…” “Mas eu estou apenas perguntando…” “Se meu verso não deu certo, foi seu olho que entortou.”

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Então está combinado: eu escrevo o poema no domingo e você publica um comentário elogioso no sábado. A literatura brasileira só acabará quando for abolido o fim de semana.

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Durante o Festival Nacional da Canção, as aves que aqui gorjeiam gorjearam como lá?

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O poeta encontra a musa. Juntos, haveria um baby boom?

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Agora que existe poesia feminina, gay, racial, religiosa, grupal, é hora de se preocupar com o leitor desamparado.

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Aqui jaz o Príncipe dos Poetas, que deu seu reino por um enjambement e evitou o blog porque não suportava os numerosos acessos. Preferiu mesmo, juntamente com o trono, uma edição fora do comércio.

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Ainda que mal lhe pergunte, e agora, José?

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Concordo: cada um tem um modo de usar as palavras. Mas as palavras fazem amor, como lembrou Roland Barthes, e eu não vou ficar aqui plantado de voyeur.

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Etiqueta, até onde entendo, é o uso da ética com o menor esforço possível.

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“Sou professor de literatura e me especializei em vanguardas literárias.” “E que autores o senhor mais estuda?” “Aqueles que aceitam as vanguardas literárias.”

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De dois em dois anos, durante a Bienal do Livro, quantos escritores ímpares comparecem?

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O poeta mandou seu livro pelo correio, mas esqueceu de escrever na frente do envelope a crise do verso.

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Durante a Festa Literária Internacional de Parati, quantos poetas herméticos mereceram tradução simultânea?

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A realidade transforma o lugar-comum num vasto provérbio.
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(*) Publicado, com o título Pílulas de sabedoria, no  Jornal do Brasil Caderno Ideias & Livros. 31 Jan 2009.
Faz parte do seu livro, Esta Poesia e mais outra, 2010, lançado pela Topbooks.  Veja resenha de Antonio Miranda.
Do qual se falou aqui no Sub Rosa.

— ‘Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata, Felipe Fortuna estreou com o livro de poemas Ou vice-versa (1986), a que se seguiram Atrito (92) e Estante (97), este pela Topbooks, que no ano seguinte editou também Curvas, ladeiras – bairro de Santa Teresa, dedicado ao lugar onde o autor viveu no Rio de Janeiro. Esta poesia e mais outra reúne uma série de textos de crítica literária capazes de fazer o leitor refletir sobre os mais diferentes temas: do projeto totalizante do Livro de Mallarmé às origens medievais da canção “Coração materno”, sucesso de Vicente Celestino, passando pelo famoso ficcionista e crítico francês Philippe Sollers e pelos poetas brasileiros Armando Freitas Filho e Paulo Henriques Britto, entre muitos outros. Para o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero, que assina o texto de apresentação, “este livro invulgarmente perspicaz, erudito e espirituoso traz uma contribuição preciosa à nossa reflexão sobre a literatura e, em particular, sobre a poesia”.

Leia Felipe Fortuna –  por Antonio Cícero.
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Site de Felipe Fortuna


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Leia mais deste post

O amor termina. Quando? como?

jill swan lake ballet

O filme  An Unmarried Woman (“Uma mulher descasada”) .  O ano 1978.  O diretor, Paul Marzusky.  Nunca assisti no cinema. Todos falavam, críticas em revistas,  jornais,  e pessoas, tipo assim gente, de cara e dente, vizinho da gente etc… , os prêmios e indicações.  Dizem que, no Brasil, a série  Malu Mulher, (cómeçar de novooo, Simone)  que bombou e fez cabeças em sua época, era cria legítima do filme. Foi o filme- produto-ícone da causa feminista. Eu, nada e  lamentava não estar entre os happy few. Um dia, década de 1990, na HBO, a amiga telefonando, avisando, o filme já começando. Vi, e vi que era bom.  E, pelo que vi , o mesmo tema  e  quase no mesmo tom – foi repetido à exaustão. Compreendi que sim, para a época,  o filme, as situações, o chamado ‘discurso’, ah sim, deve ter sido mesmo um breakthrough para o feminismo, um novo ethos.  Uma coisa, porém, eu jamais esqueci e ficou até hoje registrada.
Quero falar da reação de Érica (a personagem do filme), mulher bonita, rica,  (não classe média, eu diria), conhecedora de Arte, tudo do melhor que você possa imaginar -‘estilo os ricos também choram’ – bem casada, bem sucedida, feliz,  e muito glamourosa, sobretudo, muito glamour, assim do nada recebe a notícia do marido: ele  quer e vai abandoná-la,  quer o divórcio: conhecera outra mulher; quer sair pra outra.
A reação de Érica, eu dizia, foi de tal maneira ‘flabbergasted’, estupefacta, ela mostra tal confusão, a dor, o reflexo, o sentimento, a razão em xeque: como o amor pode acabar?!!!  ( só por essa cena e sequência, Ms. Clayburgh (‘captured the imagination of a generation’) vale um tratado de atuação). Ao contrário de tudo o que me disseram, por esta cena, nada de feminismo, mas a angústia do ser humano diante do que não compreende, do que não se explica, do que não se comunica, ‘do que não tem jeito nem nem certeza, nem vergonha, nem nunca terá’.

Eu realmente procurei na Internet (onde mais? hein Tereza?, hein Cat?) mas não encontrei  as quotes, as lines desse diálogo ou melhor desse monólogo magistral. Ela diz, acreditem em mim, ela pergunta, feito torrente:  — Como deixou de me  amar? quando você deixou de me amar?  Como foi? Por inteiro ? por partes, deixou de  amar primeiro o meu rosto? Depois o meu corpo? Foi deixando de me amar por partes?  Foi aos poucos, um dia gostava menos que no outro dia? Um dia quis que eu não existisse, que desaparecesse, que morresse? Foi me tirando de dentro de você… em que momento…? As perguntas esgotando qualquer possibilidade de resposta, não buscavam respostas, queria mesmo isso: perguntar. Porque quando não sabemos inventamos o espaço da pergunta.
Situações como essa, são banais. Aí estão, por um lado,os cronistas, as colunistas ‘que tem paixão pelas relações humanas’ (com todo o respeito) explicando o que se passa nesses momentos. Concordamos ou discordamos delas, se assim sentirmos. Ou concordamos com o doutor Calligaris, em outro plano. Mas, de fato, não sabemos nada a respeito de viver essas situações.   Não sabemos nada dos sentimentos de ninguém, nada sabemos da dor, do prazer ou do amor do *outro* . A compreensão, se houver, é analógica, a percepção é parte da realidade, somos o centro de referência da percepção: sei do amor, porque o sinto. Porque sinto   a (minha) dor é que imagino a dor do outro.
Os (filósofos, pensadores) existencialistas se baseiam na subjetividade (primeiro em Sócrates) de Descartes, experiência radical de solidão: a realidade é a realidade pessoal de cada um de nós, da existência, a minha, irredutível à dos outros.
Daí as perguntas tão conhecidas – “foi bom pra você“? ou  “doeu“? (a mãe perguntando depois da queda ou do machucado do bebê). Ou a expressão “algo se quebrando dentro de mim’  que só tem sentido… para mim. Não mais. E é porque não sabemos nada do prazer, da dor, da vergonha do outro, que criamos a linguagem que diz, explica ou mascara o que sentimos ou o que o outro sente.  Solipsistas, somos todos. Na verdade, quando perguntamos  sobre a dor de se perder o amor queremos, com a pergunta, nos apossar do desamor do outro.

Mas este texto não pretende, longe de mim, ser ‘afetado’, me perdi em explicações dispensáveis. O melhor de tudo é ver Jill Clayburgh, ou melhor, Erica, de  completamente desorientada até ao ganho da consciência de enfrentamento com a vida que lhe restou, para suas experiência e tentativas agora, por sua própria conta e risco. Sem depender a não ser de si mesma, as suas procuras de definição, auto expressão, e de encontro de um ‘teto que seja seu‘ (**).
E, como  afinal, os homens são ‘o‘ problema mas não sao ‘o” inimigo, existência é coexistência, e  viver é convivência (Mitsein) o melhor mesmo é  ver o que perpassa- na bonita e engraçada, simbólica e engraçada cena final,  quem sabe uma troca – metáforas abolidas -:  Alan Bates ou  um quadro dele.

***   ***   ***

(*) Jill Clayburgh morreu aos 66 anos, em novembro passado, após lutar 21 anos contra um cancer linfático. Chapeau! Ms. Clayburgh.

(**) Expressão que dá nome a um ensaio de Virginia Wolf. Usado também,  e traduzido, por Clarice Lispector.

(***) Tive motivos pessoais para escrever este texto, mas ele saiu mais depressa, depois da referências a situações em Perto do Coração Selvagem, de Clarice e de alusão direta à ensaísta Yudith Rosenbaum.

Acerca da vida, da amizade e … da crítica.

sandra bréa em foto de antonio guerreiro, seu ex-marido. em 1970

sandra bréa.foto de antonio guerreiro.seu ex-marido. em 1970

“Brevity is the soul of wit”. Shakespeare. Hamlet.Act 2, Scene 2

“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sae perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?

“Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas ás vezes (não repare na acentuação, quem acentua pra mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.[…]

“Vc foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando […]. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que meu presente [..] foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

“Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então eu vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei … [..]. Sua, Clarice”

Em 11 de dezembro de 1970, Clarice Lispector escreveu essa carta para Olga Borelli, escritora, professora, sua amiga, secretária e acompanhante.

Sei que é uma coisa muito feia, querer fazer *bonito* com o talento dos outros, mas eu, tal como aquele rapaz grego, o Sócrates, não tenho em mim nenhum talento, sabedoria, nenhuma capacidade criadora. E nisso reside a pequeníssima diferença que me faz ser … assim, digamos, diferente. (o grifo da ironia).Talvez acredite mesmo que sou especial. (modesta, então nem se fala). Aliás, a modéstia é o segredo do meu sucesso e não me pergunte: que sucesso?
Essas considerações, portanto, são inspiradas nas inseguranças – fragilidades – incoerências -inadequações de Clarice, já se vê.
A única coisa que eu sei, é que a vida é muito pouco pra tudo o que eu desejo e preciso aprender. E sei que amo a Vida. Sem apego, mas com zelo.
O resultado disso é que é espantoso: ao viver, desenvolvi uma habilidade singular, meu olho (quase) só vê a beleza, a delicadeza de um mundo de pessoas gentis. Elegantes (lat. elègans ‘que sabe escolher; bem escolhido). Consigo ver à distância o que é bom, o que é bonito, o que tem valor. Mesmo que esse valor esteja muuuito escondido. Preciso muito de ser assim, e agradeço por ser assim, pois como não morrer de tristeza, quando há tanta coisa feia nesse mundo, ao redor, ao perto e ao longe. Ao saber que na Amazônia, meu país, mon royaume, assassinaram o velejador neozelandês Sir Peter Blake. A Irmã Dorothy? E aí onde você está, ontem foi a guerra! O horror! O horror. E  um ror de coisas mais.
Um poeta espanhol que eu amo muito, Juan Jose Jiménez (1811-1958), poeta de los poetas cunhou a frase que me tem servido de lema de vida, e como não terei epitáfio, queria ser lembrada por ela. “ Não sou eu que escolhe o melhor; o melhor é que me escolhe.”
Vivo sempre como se me restassem horas de vida, e precisasse ver toda a beleza. Pessoas desabrochando. Florescendo. Expressando o seu *melhor*.
Paulo Francis, uma de minhas paixões irrecorríveis, (OK, há que se ter coragem pra dizer isso nos tempos atuais, diga lá?… ‘pero soy uma chica con clase’) Francis costumava dizer, nos últimos tempos, todos sabem, que se sentia tecnicamente morto. Eu , se passar um dia sem que tenha descoberto algo de bom, papa fina, como se dizia antes, algo de que eu possa falar bem, sou vice-morta.
Não, não se trata de “só falar bem” do que  é escrito ou criado, (*) a diferença é sutil, o que eu quero é escrever acerca do que realmente é bom e tentar mostrar porque o que é bom é bom.
Um dia alguém descobrirá isso , ou ninguém descobrirá e minha vida terá sido em vão. Se descobrirem captarão a ânsia que pauta até o próprio ato de (eu) respirar…
‘Viver nunca foi pra mim uma calma tessitura de dias que se juntam hesitantemente a outros dias, plácido trabalho, lentíssima costura…’ sou ansiosa, não paro pra ser gentil, tenho um gênio danado de danado,  tenho urgências e corro o mais rápido que posso, para chegar aonde? Ao que você, meu outro, faça ou crie e que seja algo original (se é que existe o… original), que você escreva ou crie o melhor.
O que fazer com a ânsia, se viver começa pela paciência da espera? A escrita começa pela paciência da espera. A música começa pela vitória sobre a pausa. (depois da paciência da espera). Quem é músico sabe, quem é escritor sabe.
Eu apenas ardo e espero.
* * *
(*) Para os que acham que só é bom crítico aquele que fala mal (crítico bom é ‘crítico cruel’, o que desce o “pau” hmmm… Masoch perde) eu ainda vou escrever algo  sobre a origem da crítica que remonta aos três trágicos, você sabe, aqueles Ésquilo, Eurípedes, Sófocles. Acredite, se quiser, crítica não é assim. Não era (para ser) assim. Era critério para saber a diferença entre o bom e o fazer bem.
Sorry.

* * *
Rose Marinho Prado, esta ‘crônica'(?) é para você. Obrigada pelo texto, Clarice está em Clarice. Por que a Sandra Bréa? Ora, e não é Clarice?!, você depois verá. Imprevisto, hora da estrela, brevidade… você sabe.

Pausa (de mil compassos)

Para ver ou rever umas coisas aí que nunca vi, ouvi ou experimentei.
E também para ler. Principalmente. Depois conto tudinho a vocês:-)
Vou ali e já volto (no início do próximo mês, depois das eleições, ou seja daqui a pouquinho).
Vão me esperar, não é?
Então, tá!.
Não se mexam, não respirem e não façam nada que eu não faria.:-)

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Passageira em Trânsito – Marina Colasanti

Marina Colasanti, escritora, contista, ensaísta e poeta  receberá, no dia 4 de novembro, pela 4ª vez, o prestigioso Premio Jabuti, categoria Poesia, com o livro “Passageira em trânsito”. O Sub Rosa, privilegiado que é, publica aqui uma recensão de autoria da também poeta  Magaly Campelo  Magalhães, em estilo preciso e sensível, acerca do livro de Marina.

Falando de Passageira em Trânsito, de Marina Colasanti, premiada com o Jabuti/2010 em Poesia.

Magaly Campelo Magalhães(*)

Delicioso o trânsito desta passageira desde os primeiros minutos em que seu avião taxiou na pista e ‘fez-se ave’, na figura criada por sua delicada percepção, elevou-se às alturas, descortinando um mundo de sensações, o ‘andar da paisagem’, o pressentido ‘rumor de águas escuras’ ou o fragor do mar que, ‘próximo, despenca´. O leitor sufoca, tal a intensidade das emoções captadas dos gestos humanos, da diversidade dos tipos e paisagens, da complexidade das aproximações, das aparentes ou não inclusões / exclusões, tudo isso guarnecido com reveladoras impressões pessoais. Esse agudo senso de observação mesclado ora de lirismo, ora de humor crítico, ou de sensualidade impressiona e encanta, como em:

Viagem por um fio Leia mais deste post