Sextinas – Bernardim Ribeiro

Da vida de Bernardim Ribeiro [ c.1482 – c.1550] quase nada se sabe: nasceu provavelmente no Alentejo; teria freqüentado a Corte; é muito provável ter sido ele quem escreveu poemas que aparecem com um nome igual ao seu no Cancioneiro geral de Garcia de Resende; e é bem possível ter sido amigo de Sá de Miranda.
Como poeta (não se fala aqui do prosador de Menina e moça), é autor de cinco éclogas, um romance em verso, a sextina aqui publicada e alguns poemas menores. Foi um dos primeiros (se não o primeiro) a adotar em Portugal: o dolce stil nuovo (pelo menos a écloga – gênero helenístico, celebrizado por Teócrito, grego de Siracusa, e continuada por Virgílio e pelos italianos, sendo Sannazaro o mais célebre), mas em suas composições pastoris pulsa, na verdade, um cultor entranhado da ‘medida velha’ peninsular.

Senhor de uma linguagem estilizada, repleta de arcaismos, Bemardim prolonga a tradição dos Cancioneiros medievais, tendente a confundir-­se com a simplicidade da linguagem popular – neste caso, uma simplicidade sábia ( a sageza) de poeta culto e complexo (não erudito, embora leitor de Virgílio, Ovídio, Petrarca, Sannazaro), um dos grandes representantes do “abstracionismo lírico”, da “intelecção devaneadora” ( cf. Jorge de Sena) que permeia toda a poesia portuguesa, dos Cancioneiros a Camões, Antero de Quental e Femando Pessoa.

Em Bemardim – continua Jorge de Sena – “a melancolia mergulha no mais cruciante desespero, raiando pelo desvario de um fatalismo herético, muito diferente da anarquia heróica do lirismo camoniano”.
A sextina aqui publicada, uma obra-prima, é provavelmente a primeira a ser escrita em português. Seu arcabouço é difícil: uma composição não rimada, composta de seis estrofes de seis versos cada uma, e em que as palavras finais de todas as estâncias repetem as da primeira, nesta ordem:

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