Desenredo

VIDA 


“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.” 
“Esperar é reconhecer-se incompleto.” 

Guimarães Rosa: Desenredo, em Tutaméia. 



*”Viver é um descuido prosseguido.”

*Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas. 

*Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. 

*A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve, e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade. 

Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos. 

A vida não dá demora em nada. 

Vida, e guerra, é o que é: esses tontos movimentos, só o contrário do que assim não seja. 

A vida devia de ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. 

Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas. 

Certo de que, nesta vida? Pois eu nem costumo nunca xingar ninguém de filho daquela ou dessa, por receio de que seja mesmo verdade… 

A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes… 

A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar o saber? 

A vida é um vago variado. 

A gente vive é caminhando de costas? 

Tempo é a vida da morte: imperfeição. 

Viver é muito perigoso. 



Guimaraes Rosa, João. Grande Sertão: Veredas. 
Apud: Leonardo Arroyo. A Cultura Popular em Grande Sertão: Veredas. 
Rio de Janeiro: José Olympio, 1984

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

One Response to Desenredo

  1. marilia disse:

    Viver é muito perigoso. Mas não viver é chato. Olho brilhando de encontrar movimentação aqui!

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