SR10 – A perda do eu no outro: solidão e desamparo

”  — Deveria haver uma lei que proibisse a obscenidade do abandono, uma lei, um decreto cheio de artigos, parágrafos, itens e subitens que proibissem esse tipo de usurpação das ilusões, de fraudes amorosas. Do direito humano inalienável e incontestável de ser amado pela pessoa amada.

E deveria haver um parágrafo único sobre a minha dor inteira.
ESTATUTO – Lei n° 000/Do início dos tempos

Título I: Do Amor
Título II: Do Sexo
Título III: Das Disposições Transitórias

Título I Do Amor

Art. Io – O amor abrange os processos formativos que… Diz a filosofia: “Se, como os animais, temos ne­cessidades, somente como humanos temos desejo.” A essência dos seres humanos é desejar. Somos seres desejantes. “Não apenas desejamos, mas sobretudo desejamos ser desejados por outros.”

PARÁGRAFO ÚNICO – “O desejo não suporta o tem­po, ou seja, desejar é querer a satisfação imediata e o prazer imediato.”

§ 1o — Esta Lei disciplina o amor.

Capítulo V

Dos impedimentos

São impedidos de servir no mesmo conselho amante e mulher de bígamo.

Capítulo VI
Do acesso à justiça

É garantido ao amante o direito humano inalienável e incontestável de ser amado pela pessoa amada.

Capítulo VII
Da proteção judicial dos interesses individuais, difu­sos e coletivos (existenciais) dos amantes

Art. 208° – Regem-se pelas disposições desta Lei as ações de responsabilidade por ofensa aos direitos as­segurados ao amante, referentes ao não-oferecimento ou oferta irregular:
I – de amor
II  – de atendimento sexual amoroso aos que se entregam por puro amor

Seção III
Da obrigação de reparar o dano

Art. 116° – Em se tratando de ato de abandono com reflexos no abandonado, a autoridade poderá deter­minar que o outro restitua a coisa, promova o ressar­cimento do dano ou compense o prejuízo da vítima (o abandonado).

PARÁGRAFO ÚNICO – As hipóteses previstas neste artigo não excluem da proteção judicial outros interesses individuais, difusos ou coletivos, próprios dos amantes.

Art. 22°  – Para defesa dos direitos e interesses protegidos por esta Lei, são admissíveis todas as espécies de ações pertinentes.

PARÁGRAFO ÚNICO (das disposições trnsitórias sobre a minha dor definitiva):

[…] Eu estou tão ferida tão ferida, tão ferida de amor recusado que é como quando ferem  um bicho e ele resiste ainda vivo, quando não o mataram de todo. Eu sou um urro só, uma dor inteira…


[…]”Meu único caminho teria sido aceitar a solidão como quem aceita uma marca de nascença… ”
“Meu erro foi a insistência, a procura incessante por um complemento, por um encontro, uma companhia que fosse  […] A gente devia ter aulas de solidão nas escola […] Devia ter uma matéria no currículo: “Meus queridos alunos, bom dia, sou o professor de solidão. repitam comigo, conjuguem o verbo comigo: nigué te quer, ninguém te quis… Alguma dúvida? Quem tiver dúvida levante a mão” “Ah! acostumar-se com a solidão, aceitar as caçadas solitárias do meu coração. Reconhecer a minha como uma agenda de possibilidades em código, de encontros marcados com gente que não vou encontrar” […]”

=-=-=-=

O texto acima foi retirado do livro Obsceno abandono, de Marilene Felinto.
O texto não necessita de explicações ou justificativas, está impresso na alma e em sua dobras a dor do desamparo, o fel da devastação, a lucidez da angústia e o cansaço da crueldade, erosão do ser.  A visceral busca do ser humano pelo outro e com ele formar um outro e único eu, impossível demanda. Ódio e revolta, desnudamento explícito.
Nesses 10 anos e desde o ano em que o livro foi publicado, 2002, pensei em publicar no blog  vários excertos desse discurso desesperado, raivoso, cansado, desesperançado. Por alguma razão fui adiando até hoje, talvez por causa de um outro viés a partir do qual a autora já declarou querer ser identificada, o da escritora, jornalista e (exacerbada) militante política. A gente pensa que isso não tem importância ou como se diz “não tem nada a ver”…  Eu, sinceramente, não sei.  Um trabalho acadêmico, tudo bem, uma publicação ocasional num blog, já é diferente. Política divide, sofrimento une.  Ou não?
Fica então, nesses dias de anivesário, um presente que o SUB ROSA dá a si mesmo,  a todos que o lêem e aos que, estou certa, ainda irão ler.  Para refletir,  e talvez para ir mais além.

♦Felinto, Marilene. Obsceno abandono: amor e perda. Rio, Record, 2002. (Coleção Amores Extremos)

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

29 Responses to SR10 – A perda do eu no outro: solidão e desamparo

  1. Magaly disse:

    Meg, tão sensibilizada fiquei com seu post que suas palavras não deixam meus ouvidos: “O texto … está impresso na alma e em suas dobras a dor do desamparo, o fel da devastação, a lucidez da angústia e o cansaço da crueldade, erosão do ser. A visceral busca do ser humano pelo outro e com ele formar um outro e único eu…”

    Tive a sorte de não ser atingida por esse tipo de sofrimento, mas percebo-o, as angústias que causa, a erosão que provoca no corpo e na alma.

    Você sabe que estou de jejum na internet, mas é o mês de aniversário do Subrosa e tenho que estar em contato, se bem que fugidiamente. Um abraço afetuoso complementará aquilo que meu coração explicitaria numa hora dessas.
    Abraços a todos os amigos do Subrosa.
    Feliz 19 de setembro!

    • sub rosa disse:

      Oh! Maga, estou até chorando, deixei até de ver o Emmy (meus candidatos t-o-d-o-s! perderam). Que coisa mais linda, não sei o que poderia mais me emocionar. Obrigada, estou sem palavras. Muito obrigada, Magaly.

  2. sub rosa disse:

    Obrigada, muitíssimo, minha doce Amiga.
    [Quero muito mesmo é prefaciar um certo livro:-)))]
    Obrigada, querida, você sempre a primeira. Talvez a única.
    Um beijo, muitos. Uma porção deles. E mais meu coração.

  3. Isabela disse:

    Passando para deixar meus parabéns no aniversário do Subrosa. 10 anos, para um blog, é muita estrada! Faço coro com Magaly e deixo um abraço a todos. Bjos Meguita.

  4. luma rosa disse:

    “Se lembra quando era só brincadeira,
    fingir de ser soldado a tarde inteira…
    E a gente não queria lutar…
    e a gente não queria lutar…”
    (Legião Urbana)

    Por detrás das palavras do texto escutei os pedidos de socorro e não somente normas do que seria ideal, das vontades, dos desejos e privações. Como se regrando, tudo pudesse ser corrigido – robotizaríamos os sentimentos para que as mentes conjugassem o verbo amar em sincronia ininterruptamente.

    Uma das cobranças sociais é o encontro de uma pessoa que nos completa – a alma gêmea. Ainda criança nos perguntam “Já tem um namoradinho?” e depois na adolescência “Está namorando?”
    Se você não namora é uma coitada, se namora “É sério, vão casar?”.

    Lógico que o mundo está cobrando menos, mas no fundo, as pessoas tendem a querer controlar a vida do outro. Posso ter a natureza triste, sem ser triste – a pessoa pode ser sozinha, mas não solitária e ter momentos de solidão sem ser uma pessoa melancólica.

    Quem nunca sentiu solidão não é uma pessoa completa, mesmo que essa não seja crônica, ela está em nosso ser desde que fomos puxados do ventre materno e essa falta, vai nos perseguir por toda a vida. Vamos tentar acobertá-la com mil artifícios porque nada se compara aquele aconchego, um abraço de mãe por todo o nosso corpo.

    O melhor caminho é aprender a conviver com essa falta.

    “Meu único caminho teria sido aceitar a solidão como quem aceita uma marca de nascença… “

    O sexo escraviza quando é usado para suprir a falta de amor, numa ideia falsa de que as almas estão conjugando. Por que existem casais que somente se aproximam e trocam carinhos apenas na hora do sexo?

    Nessa procura incessante pelo amor, as pessoas vão se mutilando, deixando um pouquinho de si em cada novo amor, até que ela se sente só consigo, sente saudade do que era, daquele tempo que foi feliz. Foi feliz?

    “Meu erro foi a insistência, a procura incessante por um complemento, por um encontro, uma companhia que fosse…”

    É Meg, o amor pode ser a cura, mas também a nossa desgraça!

    Coisas da vida, melhor não esquentar a cabeça! :D

    Tim… tim… feliz aniversário Sub Rosa!! Que continue sempre
    Flabbergasted!!

    Beijus,

  5. Maria Helena disse:

    Meg querida, e aí? quero comemorar e bebemorar esta data preciosa. Recebe meu beijo-açu e de toda a família Barata que somos fãs de carteirinha do Sub Rosa. Vamos ver na sexta, pela TV o Terruá Pará? Cultura, 23:00h

  6. Luis disse:

    Meg, seu blog é da maior e melhor qualidade. É minha leitura obrigatória. Vou lhe pedir uma coisa ou dar uma sugestão, porque não publica algo sobre a história dos blogs, você tem estrada suficiente pra isso.
    Um abraço efusivo. Parabéns.
    (desculpe, mas não gosto da Marilene Felinto, é um excesso só)

  7. Helô disse:

    Meg, sobre o texto nem vou me pronunciar, deixo para depois, agora, tudo o que quero e também o que desejo é que você continue por muitos decênios mais essa experiência emocionante que tem sido o seu blog.
    Eu nem sabia que existia blogs, depois comecei a me interessar, cheguei até a fazer um, mas diante do que você faz aqui, achei melhor nem me aventurar mais.
    Fique certa, nunca houve nem haverá um blog como o Sub Rosa. Acho que todos concordam.
    É de deixar todos … flabbergasted:-)
    Luma, Isabela, Magaly e todos mais, chegou a hora de apagar as velinhas:-)
    Parabéns, Meg

  8. M. Mussi disse:

    Parabéns,querida Meg!felicidades! Vida longa para você e para o blog. bjs

  9. James Emanuel disse:

    Cara Mestra, seu blog é exemplo e inspiração para muitos de nós. Agradeço tudo o que lhe devo. Continue.

  10. Flavia Viana disse:

    Meguinha, já te dei meus parabéns por email, mas sacumé,né? vício é vício, vai aqui pela internet. Eu adoro o Sub Rosa e tenho uma reclamação, quero mais post sobre cinema (e não é sobre o Clint, certo?)
    E aí, curtiu o Emmy? kkkkkk
    bjk

  11. Alena disse:

    LInda, linda!!! Feliz aniversário de blog!!!! Que continue assim e muita saude pra você.
    bjs

  12. Rachel disse:

    Meguita, mais dez anos de blog e mais dez anos de felicidades sempre entre letras e poesia! Parabéns
    bjs

  13. Orlando Gemaque disse:

    Meg
    Nem dá pra pensar a blogosfera sem o Sub Rosa.
    Parabéns, meus e de Clarice.

  14. Antônio disse:

    Beleza e inteligência num só lugar. Parabéns

  15. Tou dando o drible da vaca na aula que tá rolando, pra desejar vida longa ao sub rosa. Pra agradecer tudo que aprendi nos últimos anos. Para dizer pra todos o quanto eu sou feliz, porque no mundo virtual vim aqui e catei uma amiga de verdade – e da melhor qualidade.

    Longa vida ao Sub Rosa.

    A meg é boa companheira,
    A meg é boa companheira,
    A meg é boa companheira
    Ninguém pode negar…

    E se negar, eu bato. Ou se bato….

    Beijos, queridos coamigos do sub rosa.
    Porque felizes somos todos nós.

    Beijos, my dear meg, my dear.

    Volto depois pra falar do post.

    =)

  16. Daniella disse:

    Then years of more than excellence.
    Congrats

  17. Magaly disse:

    No fim do dia do aniversário, PARABÉNS, Meg e SUBROSA!

    BEIJOS, muitos, muitos

  18. aninha pontes disse:

    Meg querida:
    O texto é bastante forte e nos faz pensar. E penso que que a Luma disse grandes coisas sobre a solidão, sobre o amor e a falta dele.
    Solidão, todos em algum momento realmente sentem. O que acho, é que não podemos nos acostumar com ela, que não devemos sofrer com o desamor, mas sim querer e procurar ser amado, assim, como amar muito. Amar nos faz vivos.
    E por amor, estamos aqui para desejar a voce e ao sub, muitos anos de alegria, nos fazendo companhia, e nos trazendo grandes momentos de leitura e reflexão.
    Como já te disseram, impossivel pensar em blog, sem ligar ao sub rosa.
    Receba todo nosso carinho Meguita.
    Beijos querida.

  19. Nora disse:

    Meg, conheci o Sub Rosa numa fase mais recente, mas até hoje acho incrível como você mantém há tanto tempo mais que um blog, uma casa virtual onde seus amigos se reunem e fazem dele um local de encontros, de troca de idéias e tudo isso com alegria, inteligência e muito humor.
    O que todos comentam, é que dá muito orgulho ser parte de tudo isso.
    É! você dá “liga”, orgulhe-se disso.
    Sua trajetória na internet é rica e você divide isso com todos.
    Vc é barbara, muñeca.
    :-)
    Uma abraço a todos os que aqui convivem.

  20. Olá Meg,

    Um blog comemorando dez anos é algo que ainda não tinha visto por aqui. Uma permanência que merece ser festejada.

    beijos e obrigada pela visita.

  21. cimitan disse:

    Meg querida, um blog de 10 anos de qualidade, amizade, coerência, pertinácia, cinema, a melhor literatura, arte, poesia, filosofia, humor e inteligência! Tenho muita honra de ter participado, de alguma forma, dos últimos cinco anos. Parabéns e muito anos brilhantes, como sempre !!!!!
    Bjs

  22. Parabéns imenso, cheio de recordações boas daqui, Meg. Como disse lá no facebook, é um esforço enorme manter o blog no ar por tanto tempo, eu te admiro muito.
    O texto é fodástico, como diria o Inagaki. Não dava para esperar menos da exagerada Felinto – e digo exagerada como elogio. As pessoas mornas não dizem tanto, pois nossas emoções não são amenas.
    Um beijo carinhoso, Meguita. Um brinde ao Sub Rosa (já contei por lá que eu brindei mesmo, né? Com vinho do Porto.)

    *Elis superfeliz com este aniversário virtual.

  23. Ana Vidal disse:

    Grande, grande beijo, Meggy! 10 anos na blogosfera é obra, querida. Não tenho andado pelos blogs ultimamente mas não podia deixar passar esta data importantíssssssssima. Era o que faltava.
    Mais um beijo atlântico.

  24. Pingback: SR10 – Y así pasan los dias! « Sub Rosa (flabbergasted) v.2

  25. sub rosa disse:

    Oh meus amores, meus anjos, meus bens:-)
    O que é pode fazer ou dizer um coração que recebe tanto…tanto?
    vocês não podiam, não poderiam me deixar mais feliz. Não é segredo para ninguém que mesmo eu tendo uma vida atarefada, aqui do outro lado da tela, o Sub Rosa é a minha menina dos olhos. Gosto tanto desse blog que confesso, sem medo dos riscos de expor-me tanto – que chega a valer a pena qualquer tristeza que possa vir dele e Deus e alguns de vocês sabem o quanto. E ao que me refiro.
    Só quero acrescentar o que digo sempre, de acordo com o Grande Bardo da Ulisseia:-) (Ó Ana, ó querida miúda…pensando em ti, que gostas tanto):

    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
    Muda-se o ser, muda-se a confiança;
    Todo o mundo é composto de mudança,
    Tomando sempre novas qualidades.

    Continuamente vemos novidades,
    Diferentes em tudo da esperança;
    Do mal ficam as mágoas na lembrança,
    E do bem, se algum houve, as saudades.

    O tempo cobre o chão de verde manto,
    Que já coberto foi de neve fria,
    E em mim converte em choro o doce canto.

    E, afora este mudar-se cada dia,
    Outra mudança faz de mor espanto:
    Que não se muda já como soía.

    Então, não é isso?
    Deixo o meu coração com vocês, como já disse à Marília e à Luma! E digo sempre à Magaly.
    Obrigada a todos. Estou é muito pávula;-) não é assim que diz, Elis, minha flor?
    M.

  26. Meg,

    Agora volto ao conteúdo do post, que me trouxe alguma inquietação.
    Há quem defenda que, mesmo sem um “estatuto do abandono”, como foi proposto no texto, seria possível levar a questão ao judiciário.
    De fato, o adultério já foi crime, e hoje é ilícito civil – embora os tribunais nuncam concedam indenização decorrente deste tal ilícito.
    Acho estranho ver certas questões sendo discutidas por estranhos, que decidirão quanto valeu o sofrimento experimentado (haveria alguma compensação referente aos bons momentos vividos?)
    Não sei muita coisa de amar, confesso. Mas tenho certeza de que detesto me pronunciar sobre o desamor alheio.

    Veja isto: nada poético, muito pouco romântico:

    APELAÇÃO CÍVEL. CASAL SEPARADO JUDICIALMENTE. PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. ALEGAÇÃO DE ADULTÉRIO. PRECEDENTES. 1. A ruptura de um casamento, qualquer que seja o fato motivador, gera mágoa, raiva, sensação de abandono, frustração, etc. e estes sentimentos serão intensos e profundos. Pretensões de natureza indenizatória estão usualmente associados a tais ressentimentos sobras de um casamento que termina. 2. Não é por meio da fixação de uma indenização que se dará a catarse emocional da recorrente para expurgar de si qualquer ressentimento pelo desenlace matrimonial porque não há reparação econômica possível para curar estas dores. NEGARAM PROVIMENTO, À UNANIMIDADE. (Apelação Cível Nº 70019515592, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Luiz Felipe Brasil Santos, Julgado em 27/06/2007)

    Também, antes de uma mudança recente, era possível discutir o culpado pela separação. Mas de quem a culpa de dois que deixaram de se amar? Ou de um que deixou de amar?
    A proposta é tentadora, mas acho que essas coisas não cabem nos tribunais. Cuidamos de direitos e deveres. Defendemos a liberdade. E como vamos defender que exista uma “obrigação de amar”, sem ofender a indiscutível liberdade dos amantes?

  27. Helô disse:

    Marília, já que ninguém respondeu até agora, vou arriscar, pois achei seu raciocínio brilhante. Ora, a que corresponderia a dor não só da separação mas a do abandono, que sem dúvida é bem pior?(*)
    Afinal, desde que o mundo é mundo, sempre se procura um culpado (ou causador) de tudo o que é ruim – curiosamente, não vejo tanto essa busca por quem ou pelo que nos faz bem.
    Mas é humano, e na falta do literal, da lei de Talião, a sociedade, em que o Direito é a base mais importante, costuma penalizar o autor (da ação) fazendo com que ela seja “paga em espécie”.
    Não seria o caso de se dizer: à dor moral já que não há como compensá-la aplica-se um outra espécie de dor, a dor no bolso?:-)
    (*) Outra coisa, não sei por que mas relendo o texto, agora, depois da sua intervenção, parece que separar as pessoas até aceitam, agora separação por abandono é a pior, uma vez que remete a muitas feridas da alma, não acha?
    um beijo.

  28. OI, Helô!
    Que bom que respondeu…
    É verdade que a recompensa material para as dores nos afasta da barbárie da lei de Talião (que já foi um avanço, já que antes, ausente qualquer limite, um ia se vingando do outro até que não restasse ninguém – mas isso é outra história).
    Mas o curioso é que todas as outras dores têm seu “preço”, ou seja, se permite recompensar. Mais bizarro que pagar pela dor de uma separação é pagar pela dor da morte de alguém num acidente, não?
    O problema, aqui, é o ilícito. Como julgar ilícito o desamor?
    Para o direito, todos os pactos devem ser cumpridos, menos os pactos dos apaixonados – deve ser por que são ridículos, como bem lembrava o Pessoa…
    Mas eu confesso que apesar de achar que sistematicamente até pela existência de deveres familiares juridícos, deveria haver um tratamento jurídico completo, não sou simpática à ideia de aviltar o amor – e o desamor – tratando-os na base do cheque. Imagina a cara do juiz contabilizando as perdas sentimentais de uma vida inteira entregue a um casamento sem amor ou avaliando as perdas decorrentes do fim do primeiro amor?
    Sinceramente, acho que não estamos preparados para isso. E mesmo os juristas poetas, tremem na base pra fazer essa conta.
    Amor não é matemática: não sabe o que fazer com os restos…

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