SR10- Augusto Monterroso-pequena antologia

CÉSAR MIRANDA,  poeta, músico, advogado, blogueiro e compositor, a meu pedido, apresenta  Augsto Monterroso :

Meg pediu uma “breve introdução a Monterroso”. Seria um desrespeito escrever sobre Monterroso uma introdução longa. Trata-se do rei da síntese. Autor do menor conto de todos os tempos “O Dinossauro”. O Picasso das letras, complexo e simples. Um amigo meu, a quem respeito, me ouviu recitar “O Dinossauro” (“Quando acordou, o dinossauro estava lá”) de Monterroso, “é fantástico, não é?”, indaguei. “Não achei, não”, respondeu.
Monteroso que diz o suficientemente necessário parece estranho; mas a quem o texto desse senhor da Guatemala pega, vicia. Não se pode julgar mal quem não goste dele ou de Picasso. Pode-se julgar mal sim é às Editoras que não mantém Monterosso em seu catálogo. Millôr e Borges são alguns de seus entusiasmados fãs. Seu único livro em português é “A ovelha negra e outras fábulas”, lançado pela Editora Record – Rio de Janeiro, 1983, com tradução de Millôr Fernandes e ilustrações de Jaguar. Deve ser difícil achar em sebos, quem se livraria do seu?  Nada mais direi.

César Miranda – BSB – 14.10.02 ”

Não é maravilhoso?
Sábio e prudente conselho, também nada mais direi. Às fabulas, pois.
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Pequena Antologia de fábulas de Augusto Monterroso

A FÉ E AS MONTANHAS
Augusto Monterroso
No princípio a Fé removia montanhas só quando era absolutamente necessário, e por isso a paisagem permaneceu igual a si mesma durante milênios.
Porém, quando a Fé começou a propagar-se e as pessoas começaram a achar divertida a idéia de mover montanhas, estas não faziam outra coisa senão mudar de lugar, e cada vez era mais difícil encontrá-las no lugar em que a gente as tinha deixado na noite passada: coisa que se percebe, criava mais dificuldades do que as que resolvia.
A boa gente preferiu então abandonar a Fé, e agora as montanhas geralmente permanecem em seu lugar.
Quando numa estrada acontece um desmoronamento debaixo do qual morrem vários viajantes é porque alguém, muito longe ou por ali mesmo, teve uma ligeiríssima recaída de Fé.

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O BURRO E A FLAUTA

Jogada no campo estava desde faz tempo uma Flauta que já ninguém tocava, até que um dia um Burro que passeava por ali soprou forte nela fazendo-a produzir o som mais doce de sua vida, quer dizer, da vida do Burro e da Flauta.
Incapazes de compreender o que tinha acontecido, pois a racionalidade não era o seu forte e ambos acreditavam na racionalidade, se separaram rapidamente, envergonhados do melhor que um e outro tinham feito durante toda a sua triste existência.
(trad: Millôr Fernandes)

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O MACACO QUE QUIS SER ESCRITOR SATÍRICO

Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.
Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.
Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.
Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.
E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.
Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.
Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios — auxiliares na verdade de sua arte adulatória — conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.
Depois resolveu satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.
Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio.
Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer.

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O COELHO E O LEÃO

Um célebre Psicanalista encontrou-se certo dia no meio da selva, semiperdido.
Com a força que dão o instinto e o desejo de investigação, conseguiu facilmente subir numa árvore altíssima, da qual pôde observar à vontade não apenas o lento pôr-do-sol mas também a vida e os costumes de alguns animais, que comparou algumas vezes com os dos humanos.
Ao cair da tarde viu aparecer, por um lado, o Coelho; por outro, o Leão.
A princípio não aconteceu nada digno de mencionar, mas pouco depois ambos os animais sentiram as respectivas presenças e, quando toparam um com o outro, cada qual reagiu como desde que o homem é homem.

O Leão estremeceu a selva com seus rugidos, sacudiu majestosamente a juba como era seu costume e feriu o ar com suas garras enormes; por seu lado, o Coelho respirou com mais rapidez, olhou um instante nos olhos do Leão, deu meia-volta e se afastou correndo.

De volta à cidade, o célebre Psicanalista publicou cum laude seu famoso tratado em que demonstra que o Leão é o animal mais infantil e covarde da Selva, e o Coelho, o mais valente e maduro: o Leão ruge e faz gestos e ameaça o universo movido pelo medo; o Coelho percebe isso, conhece sua própria força, e se retira antes de perder a paciência e acabar com aquele ser extravagante e fora de si, a quem ele compreende e que afinal não lhe fez nada.

(Tradução: Millôr Fernandes)
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Augusto Monterroso ( 1921 – 2003) nasceu em Tegucigalpa (ai, como eu tinha vontade de escrecver essa palavra fascinante), na Guatemala. Em 1944, mudou-se para o México e, depois de muito observar a fauna daquele país e de outros, se convenceu de que “os animais se parecem tanto com o homem que às vezes é impossível distingui-los deste”. Assim surgiu “A ovelha negra e outras fábulas”, lançado pela Editora Record – Rio de Janeiro, 1983, com tradução de Millôr Fernandes e ilustrações de Jaguar.

Isaac Asimov, escritor russo que se criou nos Estados Unidos, disse dele:
“Os pequenos textos de “A ovelha negra e outras fábulas”, de Augusto Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. Não por outro motivo são eficazes. Depois de ler “O macaco que quis ser escritor satírico”, jamais voltei a ser o mesmo.”
Foi-lhe conferido, em 2000,o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. Um dos escritores latinos mais notáveis, Monterroso tem predileção por contos e ensaios.
Foi casado com a escritora mexicana Barbara Jacobs.
“O dinossauro”, uma de suas obras mais célebres, é considerado o menor conto da literatura mundial:
“Quando acordou, o dinossauro estava lá”.

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Nesta edição, trabalhamos:

César Miranda, advogado, poeta, compositor, musico, internauta, colecionador e autor de palíndromos e meu eterno professor de sabedorias, e de como manter uma AMIZADE. Mora em Brasília, e eu o respeito e lhe quero um bem enorme.
e eu,
Meg Guimaraes que apenas ouvi, ouvi e li. Fiz cara de quem pede e quer;-) e ganhei de César Miranda o livro de Monterroso, num aniversário há alguns anos. E recebi, digitadas, as fábulas de Monterroso.

*Ah sim e eu de novo, que fiz um pequeno aggiornamento.; e agora, outro:-)
Obrigada, César. Falamo-nos no MSN, OK?

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Publicado, originalmente, no Sub Rosa em Outubro de 2002. Faço este remake, para homenagear César Miranda, blogueiro excepcional (e humorista cheio de graça e da Graça – é isso mesmo, César?, só sei com segurança  é que você  é filósofo], de quem sou amiga, e ele é meu amigo meu, Deo gratias, desde o início dos tempos.

Aqui você pode ler vários de seus contos. E aqui você pode ouvir Monterroso -ele mesmo- lendo suas fábulas. Clique – (a página é horrível, cheio de pop ups. Mas vale a pena.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

3 Responses to SR10- Augusto Monterroso-pequena antologia

  1. Eu me pergunto como não tinha lido esses textos antes.

    E me respondo que eu não seria nada sem o sub rosa.

  2. Magaly says:

    Só pra fazer-me presente nesta fase de aniversário do Subrosa.
    Que ideia auspiciosa de convidar o César Miranda para introduzir o inspirado guatemalteco Monterroso, dono de um poder de síntese jamais igualado!

    Sabe, Meg? O Wunderblogs.com nunca esteve fora de meu alcance e o Pró Tensão é sempre muito visitado. Ora palíndromos, os haicais, os versos limpos…
    Vejam vocês todos a graça que têm:

    HAICAI SIAMÊS

    O que se pode fazer
    Se eles são siameses
    O amar e o sofrer?

    PALÍNDROMO

    Ata-nos, sonata.
    Ele pôs só pele.
    Asa caída adia casa.

    VERSO LIMPO

    Você diz
    O que eu penso
    Eu dispenso
    O que você diz
    Quem mandou
    Fazer assim
    Falar o que penso
    Antes de mim?

    Ótimo o trabalho conjunto desses dois blogueiros! Parabéns a ambos.

    • sub rosa says:

      Magalyyyyyyy:-)))
      Vixe! Imagine que eu ia deixando de responder esse comentário liiiinnnndo:-).
      Ah! realmente o nosso César merece ser mais e mais conhecido, para benefício (e bom humor) de quem chega até lá. Só o nome, Pró Tensão e a vinheta “um portal atropo”… César é ótimo, excelente em todas essas especialidades e nuances da escrita, prosa ou versos. É um poeta muito refinado, e mais difícil do que tudo, é um humorista. Realmente, isso, essa riqueza toda, não é pra qualquer.
      Eu tinha que homenagear o César, afinal ele foi o primeiro, a primeira “pessoa” que eu “conheci na Internet. E comecei bem: comecei brigando com ele:-). Foi e ainda tem sido um professor, um amigo, enfim. Ensinou-me por exemplo que a Internet é a 4a. coisa melhor do mundo, e até hoje espero ele revelar quais são as outras duas, pois ele diz que a primeira é amor de mãe;-).
      César é tudo de bom, e um segredo aqui para nós: ele fez um palíndromo, essa delicada e difícil arte, para mim, com meu nome: “Meg é gema”. O melhor depois de Ata-nos sonata. Ele e Chico Buarque de Holanda são os melhores…
      Eu, perto dele, sou nada.
      beijos, minha amadinha.

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