Curtas e delicadas

the greeting /le Salut/1938/paul delvaux

the greeting /le salut/1938/Paul Delvaux

Felipe Fortuna (*) num  *exercício crítico*, cheio de  ironia e sarcasmo, fustigando o ridículo, o moralismo das mazelas tão amplamente terrenas da vida literária.  Retrata a esgrima dos contrários, a “discordia concors“, o cânone posto do avesso. A chamada lex inversa. Um certo tom muriliano e  talvez, sem querer, em algumas provocações, deixa ressair uma ponta de dor e sim, uma espécie de compaixão. Curtas e  cruelmente delicadas. Com ou sem *notalgia*.
O que você acha?

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O provérbio transforma a realidade num vasto lugar-comum.

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O poeta mais ou menos mostra seu poema a outros poetas mais ou menos. Juntos, decidem publicar uma revista e tudo termina sem mais nem menos.

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Durante a Semana de Arte Moderna, quanto subiu o preço do café?

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O livro de bolso não publicou os textos do artista minimalista. Por sua vez, impressa em papel bíblia, a obra extensa do poeta ficou reduzida ao Gênesis e ao Apocalipse.

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O bibliófilo acaricia dia e noite o cólofon e o frontispício: fica sozinho entre livros por toda a vida, sem amor e sem folha de rosto.

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De repente, percebeu que o escritor tinha muito mais livros publicados do que ideias.

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O cantor popular afirma que suas canções são poemas. O poeta precisa transformar o seu poema numa canção, pois está sem dinheiro. Juntos, o cantor e o poeta concorrem à nova edição do Big Brother Brasil.

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Dou um boi morto, de Manuel Bandeira, para não entrar em briga; e a boiada vai, como um navio, de Guimarães Rosa, para não sair.

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O lugar-comum transforma o provérbio numa vasta realidade.

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Tarde da noite, o PhD em sonetos se encontra com o aprendiz de poeta concreto. Juntos, fundam a Tradicional Família da Forma.

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Durante a Exposição Nacional de Arte Concreta, quantos prédios foram erguidos em Brasília?

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Uma epigrama mordaz, porém escrita pelo epígono. Ainda assim, sentiu-se no epicentro da vida literária, onde o que há de mais profundo é a epiderme, segundo escreveu o imitado poeta francês. À procura de uma epifania, acabou sendo apenas um episódio, que hoje se lê em epígrafe.

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Fui tomando notas enquanto lia aqueles poemas muito eruditos, que, segundo me garantiu o amigo, “têm peso”. Em silêncio, lembrei que a dor na região dorsal se chama notalgia.

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Há de tudo na internet, por que se preocupar? Já se pode surfar de Platão a Schopenhauer, de Anchieta e Euclides, de Deleuze a Derrida. Mas quem disse que o surfista tem tempo para ler em alto mar?

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“O seu poema visual tem mesmo influência de Mondrian?” “Tem sim senhor, não seja quadrado…” “Mas eu estou apenas perguntando…” “Se meu verso não deu certo, foi seu olho que entortou.”

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Então está combinado: eu escrevo o poema no domingo e você publica um comentário elogioso no sábado. A literatura brasileira só acabará quando for abolido o fim de semana.

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Durante o Festival Nacional da Canção, as aves que aqui gorjeiam gorjearam como lá?

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O poeta encontra a musa. Juntos, haveria um baby boom?

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Agora que existe poesia feminina, gay, racial, religiosa, grupal, é hora de se preocupar com o leitor desamparado.

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Aqui jaz o Príncipe dos Poetas, que deu seu reino por um enjambement e evitou o blog porque não suportava os numerosos acessos. Preferiu mesmo, juntamente com o trono, uma edição fora do comércio.

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Ainda que mal lhe pergunte, e agora, José?

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Concordo: cada um tem um modo de usar as palavras. Mas as palavras fazem amor, como lembrou Roland Barthes, e eu não vou ficar aqui plantado de voyeur.

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Etiqueta, até onde entendo, é o uso da ética com o menor esforço possível.

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“Sou professor de literatura e me especializei em vanguardas literárias.” “E que autores o senhor mais estuda?” “Aqueles que aceitam as vanguardas literárias.”

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De dois em dois anos, durante a Bienal do Livro, quantos escritores ímpares comparecem?

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O poeta mandou seu livro pelo correio, mas esqueceu de escrever na frente do envelope a crise do verso.

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Durante a Festa Literária Internacional de Parati, quantos poetas herméticos mereceram tradução simultânea?

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A realidade transforma o lugar-comum num vasto provérbio.
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(*) Publicado, com o título Pílulas de sabedoria, no  Jornal do Brasil Caderno Ideias & Livros. 31 Jan 2009.
Faz parte do seu livro, Esta Poesia e mais outra, 2010, lançado pela Topbooks.  Veja resenha de Antonio Miranda.
Do qual se falou aqui no Sub Rosa.

— ‘Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata, Felipe Fortuna estreou com o livro de poemas Ou vice-versa (1986), a que se seguiram Atrito (92) e Estante (97), este pela Topbooks, que no ano seguinte editou também Curvas, ladeiras – bairro de Santa Teresa, dedicado ao lugar onde o autor viveu no Rio de Janeiro. Esta poesia e mais outra reúne uma série de textos de crítica literária capazes de fazer o leitor refletir sobre os mais diferentes temas: do projeto totalizante do Livro de Mallarmé às origens medievais da canção “Coração materno”, sucesso de Vicente Celestino, passando pelo famoso ficcionista e crítico francês Philippe Sollers e pelos poetas brasileiros Armando Freitas Filho e Paulo Henriques Britto, entre muitos outros. Para o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero, que assina o texto de apresentação, “este livro invulgarmente perspicaz, erudito e espirituoso traz uma contribuição preciosa à nossa reflexão sobre a literatura e, em particular, sobre a poesia”.

Leia Felipe Fortuna –  por Antonio Cícero.
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Site de Felipe Fortuna


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Ah! sim: o JOGO!.
Se você chegou até aqui, então talvez pudesse jogar comigo, o jogo do “se você pudesse…” :-)

1-Se pudesse descolar a gravação de um dueto entre dois (duas) cantores(as), quem escolheria e que música teriam que cantar? Sabe, assim tipo Frank Sinatra e…

2-Se pudesse ser perdoado por uma única coisa que fez na vida, o que escolheria (hohoho, imagine se alguém vai responder,…nem eu!;-)

3-Se pudesse ter um aparelho de escuta (SECRETO, claro) em qualquer quarto no mundo qual escolheria? ( eu escolheria o quarto, não o aparelho -ihhhhh!)

4- Se pudesse mudar o final de algum filme, série ou novela  em toda a história, qual escolheria?

5- Se pudesse ter qualquer conjunto musical ora em atividade , tocando em sua festa de aniversário, qual escolheria?

6- A mesma pergunta só que para um conjunto musical já desaparecido, qual seria?

7- Se fosse convidada(o) a fazer um filme (claro que vc é o/a maioral) qual “partner’ escolheria? (O meu ninguém sabe hahaha) Ou seja responda o seu, mas se quiser adivinhe o meu pisc*

9- Quem viveria você no cinea, num fime sobre a sua vida?

10- Se de agora em diante, só pudesse haver no mundo uma única forma de arte, qual você acha que deveria continuar a existir?

10- Se pudesse ler o diário particular de alguém célebre, de quem seria?

10- Se tivesse que prever o acontecimento mais importante do século XXI, qual acha que seria?

11 Se pudesse ter por um mês um poder sobrenatural, qual seria?

12- Se tivesse que escolher uma só dessas curtinhas, qual escolheria?

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Se você chegou mesmo:-) que sweet você é:-) até aqui, faça outras perguntas e o jogo continua:-). Afinal, este é o último post antes do Natal.

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Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

6 Responses to Curtas e delicadas

  1. Magaly says:

    Meg, extenuada com a corrida febril de dezembro, mês em que tudo fica difícil, do ato de se pegar una condução ao de efetuar uma compra comum, o calor derretendo a resistência e a paciência da gente, mesmo assim, vou tentar entrar em suas ‘cantadas’ de sereia. E não reclame: você escolheu o rei da ironia e dos paradoxos para experimentar nossa capacidade de reação.
    Como escolher uma entre tantas tiradas do F.F., irônicas ou paradoxais, irônico/paradoxais, desafiadoras, escrutinadoras do incauto leitor diante de uma situação imprevista?

    Veja só no confronto desta parelha :

    “O provérbio transforma a realidade num vasto lugar comum.”
    “A realidade transforma o lugar comum num vasto provérbio.”

    Paradoxos absolutos. A sagacidade e inteligência a serviço da expressão.

    E a ironia contida aqui?

    “Tarde da noite, o PhD em sonetos se encontra com o aprendiz de poeta concreto. Juntos, fundam a Tradicional Família da Forma.”

    Esta, aqui, eu adorei:

    “Dou um boi morto, de Manuel Bandeira, para não entrar em briga; e a boiada vai, como um navio, de Guimarães Rosa, para não sair. “

    Meggy, este seu post nos oferece um ‘boi’ de coisas para ‘cutucar’. Pena que estou sem gás hoje para ir adiante. Volto lá no meio do debate para brincar com as meninas faladeiras e danadinhas. Elas botam a gente no chinelo, pois não?

    Até mais.

  2. tereza says:

    Meg, eu não conhecia nada de Felipe Fortuna:)
    Quanto ao jogo:
    1)No momento não me lembro de nenhum que pudesse ser gravado.Já gravado: o dueto Jobim e Elis cantando Águas de Março.Amo.
    2)Ah, não digo:)
    3)Eu também escolheria o quarto e não o aparelho:)))
    4)Noites de Cabíria.Quase morri de chorar com o destino da personagem de Giulietta Massina.Enfim, ainda bem que não tenho esse poder, iria destruir o filme de Fellini com um final feliz:)
    5)Conjunto musical, nenhum. Prefiro um banquinho e um violão com o Chico.
    6)Beatles.
    7)Não consigo escolher:) São tantos os atores interessantes!
    8) Merryl Streep:)
    9)Teria que pensar muito para decidir.
    10)difícil, hein? Ainda que ame muito todas as artes , escolheria a música.
    11)Coisas impossíveis, só me contento com coisas impossíveis: o progresso ainda maior da genética e da medicina preventiva
    com a cura ou prevenção de várias doenças para ricos e pobres? A descoberta do rejuvenescimento usando células tronco?
    A Paz entre as Nações e o fim da miséria no mundo?
    12) O poder da cura.De curar qualquer tipo de doença, física ou mental.
    13)Não entendi.
    Não era para responder? só fazer mais perguntas?
    Então, vou deixar algumas perguntas aqui.
    14) Se você pudesse, o que mudaria no seu passado?
    15)Se você pudesse, o que mudaria na história mundial?
    16)Se você pudesse ter duas vidas, como escolheria viver a segunda?
    17)Se você pudesse usar uma máquina do tempo, para onde iria? No passado ou futuro?
    18) Se você pudesse escolher preferia ser um gênio da arte ou da ciência?

    Beijos, querida. Está devendo as respostas de todas as perguntas:)))

  3. sub rosa says:

    Aaaah! estou vendo que criei um monstro:-)
    já vi que repeti o número 10. Essas coisas…ah! ódia!
    Mas eu venho responder qualquer hora, nem que seja no dia 25.
    Era sim pra responder, na suposição exatamente de um ganho para quem não conhecia o Felippe.
    Felipe é tudo, tudíssimo que eu gostaria de ser na crítica literária. Ah! não deixemos por menos, também queria ser diplomata como ele, ou professora do King’s College (não me contento com menos que o impossível:-)].
    E, mais que o máximo, ele é filho do Fortuna.
    Procure conhecer alguma coisa da irmã dele Ana Fortuna, ela é tão malcriada – gênio! – que iria dizer que ele é que é irmão dela.
    ===
    Ouça esta e assista:

    =====
    Agora o que eu desejo mesmo é a cura para a maior das doenças e das maldades: a burrice!.
    Não da ignorância, que esta é a condição do saber.. mas a burrice, impenetrável.
    Eu volto pra responder à Magaly.
    beijos, querida

  4. tereza says:

    O Fortuna eu conheço. Obrigada pelo link, fui lá e gostei:) beijos.

  5. sub rosa says:

    Magaly, minha flor:

    É verdade! seu comentário é o primeiro indício de Natal aqui no blog. E fala de presentes hummmmy! Obaa!

    Lembro do ano passado, ai que sufoco que já ficou pra trás, tudo agora para mim é felicidade, é ouro sobre o azul.

    O Felipe – que deve ser Sua Excelencia Veneradíssima :-) , é bem jovem, mas já ‘serviu a pátria’ em vários lugares “grandes” :-)
    Eu não sei onde arranja tempo para fazer todas essas coisas… Gostava de perguntar a ele.
    Vc tem olho acurado e arguto. Ele é impiedoso mesmo. E faz coisas como essa que vc citou, uma das minhas preferidas, também.

    Um beijo, minha flor silvestre.

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