O amor termina. Quando? como?

jill swan lake ballet

O filme  An Unmarried Woman (“Uma mulher descasada”) .  O ano 1978.  O diretor, Paul Marzusky.  Nunca assisti no cinema. Todos falavam, críticas em revistas,  jornais,  e pessoas, tipo assim gente, de cara e dente, vizinho da gente etc… , os prêmios e indicações.  Dizem que, no Brasil, a série  Malu Mulher, (cómeçar de novooo, Simone)  que bombou e fez cabeças em sua época, era cria legítima do filme. Foi o filme- produto-ícone da causa feminista. Eu, nada e  lamentava não estar entre os happy few. Um dia, década de 1990, na HBO, a amiga telefonando, avisando, o filme já começando. Vi, e vi que era bom.  E, pelo que vi , o mesmo tema  e  quase no mesmo tom – foi repetido à exaustão. Compreendi que sim, para a época,  o filme, as situações, o chamado ‘discurso’, ah sim, deve ter sido mesmo um breakthrough para o feminismo, um novo ethos.  Uma coisa, porém, eu jamais esqueci e ficou até hoje registrada.
Quero falar da reação de Érica (a personagem do filme), mulher bonita, rica,  (não classe média, eu diria), conhecedora de Arte, tudo do melhor que você possa imaginar -‘estilo os ricos também choram’ – bem casada, bem sucedida, feliz,  e muito glamourosa, sobretudo, muito glamour, assim do nada recebe a notícia do marido: ele  quer e vai abandoná-la,  quer o divórcio: conhecera outra mulher; quer sair pra outra.
A reação de Érica, eu dizia, foi de tal maneira ‘flabbergasted’, estupefacta, ela mostra tal confusão, a dor, o reflexo, o sentimento, a razão em xeque: como o amor pode acabar?!!!  ( só por essa cena e sequência, Ms. Clayburgh (‘captured the imagination of a generation’) vale um tratado de atuação). Ao contrário de tudo o que me disseram, por esta cena, nada de feminismo, mas a angústia do ser humano diante do que não compreende, do que não se explica, do que não se comunica, ‘do que não tem jeito nem nem certeza, nem vergonha, nem nunca terá’.

Eu realmente procurei na Internet (onde mais? hein Tereza?, hein Cat?) mas não encontrei  as quotes, as lines desse diálogo ou melhor desse monólogo magistral. Ela diz, acreditem em mim, ela pergunta, feito torrente:  — Como deixou de me  amar? quando você deixou de me amar?  Como foi? Por inteiro ? por partes, deixou de  amar primeiro o meu rosto? Depois o meu corpo? Foi deixando de me amar por partes?  Foi aos poucos, um dia gostava menos que no outro dia? Um dia quis que eu não existisse, que desaparecesse, que morresse? Foi me tirando de dentro de você… em que momento…? As perguntas esgotando qualquer possibilidade de resposta, não buscavam respostas, queria mesmo isso: perguntar. Porque quando não sabemos inventamos o espaço da pergunta.
Situações como essa, são banais. Aí estão, por um lado,os cronistas, as colunistas ‘que tem paixão pelas relações humanas’ (com todo o respeito) explicando o que se passa nesses momentos. Concordamos ou discordamos delas, se assim sentirmos. Ou concordamos com o doutor Calligaris, em outro plano. Mas, de fato, não sabemos nada a respeito de viver essas situações.   Não sabemos nada dos sentimentos de ninguém, nada sabemos da dor, do prazer ou do amor do *outro* . A compreensão, se houver, é analógica, a percepção é parte da realidade, somos o centro de referência da percepção: sei do amor, porque o sinto. Porque sinto   a (minha) dor é que imagino a dor do outro.
Os (filósofos, pensadores) existencialistas se baseiam na subjetividade (primeiro em Sócrates) de Descartes, experiência radical de solidão: a realidade é a realidade pessoal de cada um de nós, da existência, a minha, irredutível à dos outros.
Daí as perguntas tão conhecidas – “foi bom pra você“? ou  “doeu“? (a mãe perguntando depois da queda ou do machucado do bebê). Ou a expressão “algo se quebrando dentro de mim’  que só tem sentido… para mim. Não mais. E é porque não sabemos nada do prazer, da dor, da vergonha do outro, que criamos a linguagem que diz, explica ou mascara o que sentimos ou o que o outro sente.  Solipsistas, somos todos. Na verdade, quando perguntamos  sobre a dor de se perder o amor queremos, com a pergunta, nos apossar do desamor do outro.

Mas este texto não pretende, longe de mim, ser ‘afetado’, me perdi em explicações dispensáveis. O melhor de tudo é ver Jill Clayburgh, ou melhor, Erica, de  completamente desorientada até ao ganho da consciência de enfrentamento com a vida que lhe restou, para suas experiência e tentativas agora, por sua própria conta e risco. Sem depender a não ser de si mesma, as suas procuras de definição, auto expressão, e de encontro de um ‘teto que seja seu‘ (**).
E, como  afinal, os homens são ‘o‘ problema mas não sao ‘o” inimigo, existência é coexistência, e  viver é convivência (Mitsein) o melhor mesmo é  ver o que perpassa- na bonita e engraçada, simbólica e engraçada cena final,  quem sabe uma troca – metáforas abolidas -:  Alan Bates ou  um quadro dele.

***   ***   ***

(*) Jill Clayburgh morreu aos 66 anos, em novembro passado, após lutar 21 anos contra um cancer linfático. Chapeau! Ms. Clayburgh.

(**) Expressão que dá nome a um ensaio de Virginia Wolf. Usado também,  e traduzido, por Clarice Lispector.

(***) Tive motivos pessoais para escrever este texto, mas ele saiu mais depressa, depois da referências a situações em Perto do Coração Selvagem, de Clarice e de alusão direta à ensaísta Yudith Rosenbaum.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

33 Responses to O amor termina. Quando? como?

  1. Tereza disse:

    Off topic: Meg, só hoje vi um comentário seu para mim no post de Clarice. Eu respondi agora, nos comentátios do post dela. Depois eu volto. Beijos.

    • sub rosa disse:

      Tereza querida, acho que virei responder aqui, o seu comentário lá do post sobre a Clarice.
      Deixei lá comentários para a Magaly também.

  2. Rose disse:

    muito e tanto sensacionalmente excelente magnífico este texto novíssimo no seu blog. Nem sei o que falar. A palavra de elogio não alcança o que quero. O elogio cabe em no máximo 5 palavras – faltam palavras para elogiar, ou que escolhesse as definitivas, mas o que se sente diante a qualidade e beleza dum texto às vezes não cabe em nada q pudesse ser dito. É o silêncio e o aplauso, só o aplauso, mas , de muitos, um aplauso de uma pessoa é engraçado e doce, mas não alcança o merecido.

    Em que revista – brasileira – encontraríamos textos desse nível, leveza e seriedade, tanto mais qualidades?

    • sub rosa disse:

      Rose,
      ‘muito e tanto sensacionalmente excelente…’:-) eu acho que não vou mais ao terapeuta.
      Longe de mim, desmerecer suas palvras, mas acho que receber elogios assim, a gente pensa até que é o Lula:-) hohoho.
      Só ele recebe coisas assim:-)
      obrigada,
      desta que sabe conviver com os dulçores dos cantos de sereias:-)
      e lhe manda um beijo
      Meg

  3. Tereza disse:

    A Rose já disse tudo sobre o seu texto. “Em que revista – brasileira – encontraríamos textos desse nível, leveza e seriedade, tanto mais qualidades?”
    Quanto ao filme, vi na tv faz tempo e tenho uma péssima memória. Procurei o monólogo do filme, mas não encontrei.Gosto das personagens que, além de glamurosas, são independentes e inteligentes.
    Eu não sei lidar com as perdas.
    “Es tan corto el amor, y es tan grande el olvido” Neruda.

    • sub rosa disse:

      Tereza,
      pois então, é o script que eu queria e era isso que queria dizer quando citei você.
      Se vc não achar, então, *com certeza* ninguém é capaz de achar.
      A Erica é tipo Manhattan’s wife, tipo Upperside
      (Art – community of artists and those devoted to art. Digital art, skin art, themes, wallpaper art, traditional art, photography, poetry / prose.), não é chique, pure glamour:-)
      Ela não é, entretanto, independente.
      Faz , para isso, um percurso doloroso, cheio de enganos, de idas e vindas. É isso que vale o filme.
      E eu tinha certeza de que vc tinha visto.
      =-=
      O ruim é que não existe como checar o que estou dizendo, não há VHS, DVD nada!
      E eu não sei *baixar* filmes, não sei usar o torrent.
      Uma verdadeira anta!
      :-(
      bjs.

  4. Tereza disse:

    corrigindo: “Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido” Neruda

  5. Tereza disse:

    sim, Meg, eu entendi, querida.O que eu escrevi no outro post é sobre o seu comentário do post da Clarice.Que foi um comentário muito generoso para mim.
    beijos.

  6. Tereza disse:

    Eu também não sei baixar filmes, mas vou ver se acho alguém que faça isto por nós =)
    beijos.

    • sub rosa disse:

      Juraaa???
      Puxa, quem eu tenho de matar pra conseguir isso?:-))).
      ****
      Ah! tanta coisa, Tereza. Você soube da morte do Monicelli, não soube?
      Pois é, são várias questões: a morte por suicídio em uma idade tão avançada. o cineasta que foi e o ativismo político.
      Isto sem contar , a comédia, que ele sempre usou como método.
      Vamos ver como é que fica num post nesta semana de dezembro tão cheia de datas importantes .
      Um beijo

  7. Rose disse:

    Eu li cedo, tinha sol na sala. E gostei tanto q misturei texto/sol. E sempre digo coisas boas p quem escreve bem. Mas cansei das palavras de elogio, por isso, o ‘muito e tanto sensacionalmente excelente…” – estilo Odorico Paraguaçu. Não farei mais. E vou pedir p minha psicóloga ajuda. Pq eu me arrependi de ter elogiado, e sou meio…problemática.
    Volto ano q vem sem elogios porém com seriedade.
    Esqueça o Lula.

    • sub rosa disse:

      Venha sempre que puder, Rose.
      Com elogios ou não, você sabe que será bem vinda (é assim que se escreve, agora?)
      Sabe o que eu acho? eu acho que quando se elogia algo ou alguém, Rose, estamos fazendo nada mais que uma declaração que diz mais a nosso respeito que a respeito do elogiado.
      A gente é que se responsabiliza por aquilo que acha que é bom ou não.
      bjs

      • Rose disse:

        Obrigada, Meg.
        É q sou exagerada no jeito de dizer. E insegura, assim. Se eu digo ” O dia é lindo” e alguém diz não, eu me encolho.
        Mas estou aprendendo a respeitar o que sinto. O próximo passo, me responsabilizar por uma afirmação. Daí o fato de eu escrever e apagar até o que escrevo. Tantos blogs eu apaguei…
        Ah! Não sei nada sobre o hífen, nem antes da reforma eu sabia. Não gosto de hífen, ele machuca as palavras.
        Claro q escreverei aq , sou meio temperamental. Vai indo aprendo a ser melhor.

  8. Eu gosto de falar sozinha, mesmo que tenha interlocutor. É um jeito de racionalizar a comunicação.
    Mas na maioria das vezes prefiro escrever.

    * Escapuli brevemente da placa. Já volto pra ela.

    Um grande beijo saudoso.

    mariliaj.

    • sub rosa disse:

      Minha querida, que saudade!

      Eu concordo com você. Em tudo.
      Volte sempre que puder, uma placa não pode ter tanto poder assim, para rebeldes com e sem causa asssim como vc.

      Estou com os dedos cruzados aqui, por você.
      bjs

  9. Magaly disse:

    Como gostei do ir e vir, em leituras repetidas, neste texto aqui! Meg surfou nesse mar de sentimentos pretensamente inaceitáveis, nessa atmosfera de perdas inqualificáveis, de decepções inconcebíveis, de derrota e naufrágio de certezas tão concretas. E que contribuição deixou pra gente!
    Meg, sou tão mais velha que você e não tenho essa acuidade mental. Você foi no ponto nevrálgico: “ Não sabemos nada dos sentimentos de ninguém, nada sabemos da dor, do prazer ou do amor do *outro* . …”a percepção é parte da realidade, somos o centro de referência da percepção: sei do amor, porque o sinto. Porque sinto a (minha) dor é que imagino a dor do outro.” ”E é porque não sabemos nada do prazer, da dor, da vergonha do outro, que criamos a linguagem que diz, explica ou mascara o que sentimos ou o que o outro sente.”
    Dez, dez! Bem analisado, extremamente bem colocado. Eu adoro quando você “se perde em explicações dispensáveis”.
    Acrescente-se o que ela, Meg, habilmente maneja afim de distender a possibilidade de compreensão do que escreve, de citações que exibe, de referências que aponta: algo correspondente em conteúdo ao teor do post ou mais, às vezes muito mais (daí eu ter falado no comentário do post anterior, que recebíamos informações enciclopédicas a cada post editado).
    Temos sorte, não? Muita sorte mesmo.
    Agora, vou torcer para achar em locadora de filmes esta pelicula genial que tem, em seu elenco, além da magistral Jill Clayburgh, o excelente ator inglês William Bates que sempre soube honrar sua arte com esmerado apuro em suas performances.

  10. Isabela disse:

    Rusalka, da ópera de Dvorák, pergunta “Quem tanto te amava te evita?”. Deve ser um baque, mas acontece. Conheço um ex-casal cujo motivo do divórcio foi falta de amor (da mulher)… e eles até hoje se dão bem, mas sabia que a justificativa causou estranheza em algumas pessoas? Gostaria de ter assistido o filme para dar uma opinião melhor, mas penso que quando o amor está acabando dá para perceber. Será que Érica recebeu a notícia do nada, ligada que estava em outras coisas, ou poderia ter percebido os sinais? Não sei. Mas o fato de “começar de novo”, seja por causa de um casamento ou noivado desfeito, um emprego perdido, uma reprovação no vestibular, faz parte da vida. A Tereza disse que não sabe lidar com as perdas. Eu acho que devemos não nos preparar para isso, porque pode significar sofrer por antecipação, mas pelo menos saber que teremos perdas. Beijos!

  11. sub rosa disse:

    Maga e Isabela (que honra!)
    saio um pouquinho e volto à noite para responder aos seus esplêndidos comentários.
    Isabela, vou pensar com muito jeito e cuidado isso que vc disse. De fato, eu não havia pensado nisso.
    Muito interessante.
    Debatendo o *bom* debate ;-)
    -=-=
    Afora o fato de que não conhecia uma ópera sequer de Dvořák , só sabia das sinfonias, que realmente são magníficas.
    Um ganho insuspeito para mim.
    Eita pau! que assim dá gosto de viver e ter um blog hohoho

  12. sub rosa disse:

    Magaly querida,
    sabia que como tem gente que reclama desse “surfing”.:;-)
    Eu, você, muitos de nós, começamos nos blogs, aprendendo que um post deve presentear os que o lêem e esses presentes, claro, são os links… mas alguns acham – e eu não lhes tiro a razão -, que a leitura do texto fica comprometida.
    Em vão eu explico o que é um hipertexto, enfim…

    Quanto à acuidade, não vou me fazer de rogada, agradeço muito:-) nós a temos em igual proporção, não importa a nossa idade, sendo que para uma coisas você tem muito mais, a prova é o quanto eu vivo lhe pedindo ajuda.
    Aliás, minha política de amizade é essa: eu peço ajuda, peço sempre, vc sabe. Insegurança, eu não! :-), enquanto eu tiver amigos inteligentes, eu vou sempre pedir ajuda.
    Querida, o filme, simplesmente, não existe!!! Nem em VHS, nem em DVD, nem nas locadoras, nem nas lojas.
    Dommage!

    Estou aqui cozinhando um texto sobre o filme Os Companheiros (I Compagni) de 1963, uma verdadeira obra-prima (, não sou só eu que digo, o New York Times e seu crítico, para meu estranhamento, o colocam como masterpiece não só do diretor mas também do cinema italiano) e quem disse que encontro alguma coisa???
    Como é que fica a cultura dos que nasceram depois de nós? hahahah!

    beijos, minha querida, beijos e obrigada.

  13. sub rosa disse:

    Isabela, minha querida:
    Quanto ao comentário em si, eu acho que tudo na vida , de uma certa forma, termina por *falta de amor*. Qualquer que seja a nuance ou diferença de grau, de nível, e de espécie de amor.
    São duas as questões: eu pedi para pensar porque me intrigou demais esse uso que você faz do gerúndio: ‘quando o amor está *acabando*’. Quando o amor acaba, como no caso do “ex-casal” que vc cita, tudo bem, a gente percebe, sim, nem poderia ser diferente, só quem quer se enganar, não é?
    Mas isso de quando está acabando… bem, é diferente.
    De todo o modo, eu ainda sou tentada a manter a tese (?!oooh!) do texto, é impossível saber do amor, imagine do desamor de nossos parceiros.
    Digo isso, baseada na questão dos *afetos*.
    As coisas são como são *ou* como elas nos afetam?
    O desinteresse ou a falta de afinidades são muitas vezes confundidos com a presença ou ausência de amor… por exemplo. Ou se está com alguém *porque*… ou *apesar de*.
    Já a outra questão, é no caso da Erica, afinal são cerca de dezessete anos, vivendo a vida, tendo ela outros interesses, em que o mundo não gira em torno dela mesma e os filhos. Como bem disse a Tereza, ela é uma mulher glamourosa *e* inteligente, tem uma vida com muitos pontos de atuação e, creio que essa foi a intenção do próprio diretor.
    O filme tem roteiro e script definidos.
    E aí, sim, querida, você pode muito bem ter razão. É um bom ponto a discutir.
    Bem, eu não sei muito identificar isso, pois sou ardorosamente do time da Nora Ephron: meu pescoço é um horror:-).
    A-do-ro a lady lit!
    beijos, querida.

  14. Tereza disse:

    Estava pensando no que a Isabela disse. Será que a Érica
    recebeu a notícia do nada, não percebeu que estava acabando? Talvez por pura defesa a pessoa não quer ver, se faz de cega e quando tudo está desfeito ela percebe que já sabia, mas não queria saber?

  15. sub rosa disse:

    Tereza, querida, são 6 da matina: já é alta a madrugada:-)
    (Acabei de fazer o post do Noel Rosa
    mas quero responder logo).
    Eu tenho muitas dúvidas a respeito de tudo que ‘está acontecendo’, do que ainda está sendo. Ora, algo que-está-sendo ainda não é, está no terreno do vir-a-ser. Pode se transformar, numa coisa ou outra totalmente diferente, percebe o que quero dizer?
    Podemos sentir e identificar gestos e atitudes do outro, como menos amor e na verdade não ser.
    Ou como rejeição e não ser.
    (O que também não garante que o que aparenta ser, de fato, seja:-)
    A tendência do amor, (diferente da paixão – diz-se) é ir cada vez mais diminuindo a flama e se consolidar no caloroso (por oposição à frieza), sim, mas sem as reações ardentes de antes, sob o signo da paixão.
    Parece que quero complicar, mas é o contrário.

    Hoje, as pessoas não se deixam atingir com facilidade. Antes, no tempo do Império:-) as mulheres obedeciam, se calavam, fingiam não ver , fingiam não pensar, fingiam não ter vontade de interrogar. Não questionavam (nem sei se conheciam o termo). Enfim, na sua feliz expressão, se faziam de cegas.
    Mas -penso eu -há muito isso já passou. Pelo que tenho visto acontecer à minha volta, as pessoas não tem mais o casamento como algo duradouro ou para sempre (acho até, num outro plano, que era o caso da Erica, daí a surpresa, o espanto, a revolta, o desmoronamento, o “o meu mundo caiu’) – e casam e se separam com muito desembaraço e constróem novas relações com facilidade. Não é assim?
    Para ser mais precisa, o que vem a ser o “ amor estar acabando – isso na hipótese de que até o sujeito desse desamor saiba o que está se passando consigo mesmo ?
    Hoje só se fala do tal de “discutir a relação” que nada mais é do que um fórum onde se cobra ou se pede (sim, se cobra) a desatenção do outro, a reação que magoa, o que está causando desagrado ou decepção, etc. Momento do “compromise”.

    Parece que estou encompridando a questão, como um bizantinismo, mas tenho um profundo respeito por situações como essa.
    -=-=-
    E por outro lado, não quero fazer morrer a discussão sufocando-a com minha opinião. Tudo o que estou dizendo é a ‘título precário’. É dito, numa posição muito idealizada, até porque a situação não se apresenta pra mim (poverina di me). Estou no que se chama ‘exercício findo’ hohoho
    E, muito possivelmente, essa hipótese que me atraiu quando a Isabela a enunciou , talvez nela é que pode estar a chave de tudo, não é? E com a qual vc se inclina a concordar.

    Agora, que fique claro uma coisa, a expressão “receber a notícia do nada” não significa que já não existisse o desacerto: a presença do latente. Sentido ou pressentido.
    Receber do nada, aí, significa que ele dá a notícia, sem ser em uma briga, ou numa situação qualquer de conflito.
    O que pensando bem, talvez não faça muita diferença.
    Mas acredito que nenhuma reflexão, como essa nossa, a respeito de sentir e existir, seja em vão.
    E são as hipóteses que fertilizam o caminho do diálogo e que nos livram do empobrecimento da mera justaposição de monólogos.
    bjs

  16. Orlando Gemaque disse:

    Por outras palavras: vocês não estão esquecendo que o homem também pode estar disfarçando os sentimentos, quanto mais ele se sente em culpa mais redobra as atenções.
    Isso é mesmo complicado. Não pode ser 8 ou 80.
    abs

  17. Tereza disse:

    Meg, 6 da matina para mim também é alta madrugada :)))
    Sobre o primeiro parágrafo do seu comentário, concordo
    totalmente.
    Depois você falou da mulher da sociedade patriarcal, que finge não ver, submissa, presa às convenções.
    A mulher de que falo não é aquela que sabe e finge não saber, mas aquela que não suporta saber, nega que sabe.É verdade que hoje as pessoas não vem o casamento como algo duradouro. E nem o amor. Mas existem aquelas pessoas que criam uma relação simbiótica com o outro e não conseguem desfazer a relação mesmo que se separem. A psicanálise diz que não é amor demais, mas neurose.
    bjs.

  18. sub rosa disse:

    comentário alterado
    =-=-=-=

  19. Tereza disse:

    Achou graça no duplo sentido? Ou a frase tá mesmo ruim?

    • sub rosa disse:

      Tereza, não, não ri.
      Por favor, desculpe.
      Eu me atrapalhei aqui nas respostas (grande novidade, eu me atrapalhar).
      Cheguei em casa, agora, e vim ler o blog, os comments, eu mesmo não entendi qual a razão pra tanto rir.
      Não sei se reparou, um dos comments, uma parte foi repetida.
      desculpe.

  20. sub rosa disse:

    Na-na-ni-na-não!!!!!!!
    A frase tá maravilhosa.
    Eu que carreguei nas tintas:-)
    beijo, querida

    alterado.

  21. sub rosa disse:

    Orlando, desculpe, eu pensei já ter respondido seu comentário. Não respondi.
    Respondo amanhã, sem falta.
    Vc tem razão, parece que estou esquecendo isso.
    Um beijo.

  22. sub rosa disse:

    Tereza, querida, por favor, me desculpe eu ter me expressado tão mal.
    Quando você diz *nega que sabe* é a feliz expressão do que eu levaria mil anos falando sem chegar a essa objetividade.
    No mínimo, eu falaria(escreveria) sobre o conceito de *denegação* (Verneinung), que até hoje, alguns colegas meus dizem que não existe.

    Pois é, o negar que sabe, mais ainda, *o negar o saber que sabe*, indeferir esse saber quando se depara com ele…
    Vc foi precisa, objetiva. São esses os flagrantes delitos do inconsciente, não acha?
    Um beijo e mais uma vez, me perdoe, pelo atrapalho no trabalho (como dizia o John Lennon)
    M.

  23. tereza disse:

    Só agora vi o seu comentário, Meg.Mas você não tem do que se desculpar, se achou engraçado. Eu só queria saber o motivo, mas não fiquei chateada.Fiz análise um bom tempo e às vezes eu morria de rir com o que eu dizia ou era minha analista que ria. Atos falhos, e tal.O que você chamou dos flagrantes delitos do inconsciente, achei que o motivo tivesse sido esse:)
    Pensei em falar em “denegação”, mas preferi evitar termo técnico.Então seus colegas não acreditam em denegação? Queria saber o motivo.São Lacanianos?
    Então você também gosta de psicanálise?
    Acho que “negar o saber que sabe” é perfeito.Beijos.

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