João Guimaraes Rosa, sua Hora e sua vez

JGR Museu cordisburgo
.

Tude se finge, primeiro; germina autêntico é depois.”
De um dos prefácios de Tutaméia.

 

Uns tesouros que quero dividir com vocês: são fragmentos de uma homenagem feita a Guimaraes Rosa, por um amigo seu, médico, escritor, intelectual brilhante e Professor Emérito da Faculdade de Medicina da UFMG,  Luiz Otávio Savassi Rocha.
Publiquei este excerto no Sub Rosinha… bem, leiam até o fim,  lá nos encontramos:-) Naqueles dias de 2001, não havia o Google – e dá pra se imaginar o mundo sem o Google? – hoje, não digo que seja mais fácil, longe de mim,  é apenas mais simplestudo está aqui.

*  *  *

Do discurso de posse de Guimaraes Rosa, três dias antes de seu “encantamento”:

Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquiné, milmaravilha, a das Fadas; e o próprio campo, com vasqueiros cochos de sal ao gado bravo, entre gentis morros ou sob o demais de estrelas, falava-se antes: ‘Os pastos de Vista Alegre’. Santo, um ‘Padre-Mestre’, o Padre João de Santo Antônio, que recorria atarefado a região como missionário voluntário, além de trazer ao raro povo das grotas toda sorte de assistência e ajuda, esbarrou ali, para realumbrar-se e conceber o que tenha sido talvez seu único gesto desengajado, gratuito. Tomada da inspiração da paisagem a loci opportunitas, declarou-se a erguer ao Sagrado Coração de Jesus um templo, naquele mistério geográfico. Fê-lo e fez-se o arraial, a que o fundador chamou ‘O Burgo do Coração’. Só quase coração – pois onde chuva e sol e o claro do ar e o enquadro cedo revelam ser o espaço do mundo primeiro que tudo aberto ao supraordenado: influem, quando menos, uma noção mágica do universo.
Mas por Cordisburgo, igual, verve no sério-lúdico de instantes, me tratava, ele, chefe e o amigo meu, JOÃO NEVES DA FONTOURA. – ‘Vamos ver o que diz Cordisburgo…’ – com o riso arroucado, quente, dirigindo-se nem reto a mim, senão feito a escrutar sua presente sempre cidade natal, ‘no coração do Rio Grande do Sul’.

Já quase ao final do discurso, destaca-se um trecho de pungente beleza, em que fala sobre a fé e a amizade:

João Neves, tão perto o termo, comentávamos, suas filhas e eu, temas desses, de realidade e transcendência; porque agradava-lhe escutar, ainda que não tomando parte. Até que falou: – ‘A vida é inimiga da fé…’ – apenas; ei-lo, ladeira pós ladeira, sem querer fim de estrada. Descobrisse, como Plotino, que ‘a ação é um enfraquecimento da contemplação’; e assim Camus, que ‘viver é o contrário de amar’. Não que a fé seja inimiga da vida. Mas, o que o homem é, depois de tudo, é a soma das vezes em que pôde dominar, em si mesmo, a natureza. Sobre o incompleto feitio que a existência lhe impôs, a forma que ele tentou dar ao próprio e dorido rascunho.

Talvez, também, o recado melhor, dele ouvi, quase in extremis: – ‘Gosto de você mais pelo que você é, do que pelo que você fez por mim…’ Posso calá-lo? Não, porque sincero sei: exata estaria, sim, a recíproca, tanto a ele eu tivesse dito. E porque deve ser esta a comprovação certa de toda verdadeira amizade – impreterida a justiça, na medida afetuosa. Acredito. Nem creio destoante e mal assentado, numa solene inauguração de acadêmico, sem nota de despondência, algum conteúdo de testamento.

E Guimarães Rosa termina, referindo-se à Morte e à morte do amigo que, se vivo, completaria 80 anos, naquela data; invocando o Bhagavad Gita (o canto do bem-aventurado), ele que já se confessara, em carta ao tradutor italiano Edoardo Bizzarri, “impregnado de hinduísmo”; repetindo a frase “as pessoas não morrem, ficam encantadas”, que pronunciara pela primeira vez em 1926, diante do ataúde do desventurado estudante Oseas, vitimado pela febre amarela; referindo-se ao buriti (Mauritia vinifera), quase um personagem em sua obra, o majestoso habitante das veredas – cognominado “a palmeira de Deus” –, hoje em processo de extinção mercê do instinto predatório de inescrupulosos que visam o lucro a qualquer preço; e, finalmente, apresentando-se a João Neves como “Cordisburgo”, última palavra pública que pronunciou:

Nem agüentaria dobrar mais momentos, nesta festa aniversária – dele, a octogésima, que seria hoje, no plano terreno. Tanto tempo a esperei e fiz que esperásseis. Relevai-me.

Foi há mais de 4 anos, a recém. Vésper luzindo, ele cumprira. De repente, morreu: que é quando um homem vem inteiro pronto de suas próprias profundezas. Morreu, com modéstia. Se passou para o lado claro, fora e acima de suave ramerrão e terríveis balbúrdias.

Mas – o que é um pormenor de ausência. Faz diferença?

‘Choras os que não devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta’. – Krishna instrui Arjuna, no Bhagavad Gita. A gente morre é para provar que viveu. Só o epitáfio é fórmula lapidar. Elogio que vale, em si, perfeito único, sumário: João Neves da Fontoura.

Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: ‘Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!’ – desfere então o Salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

Soprem-se as oitenta velinhas.

Mas eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita. O mundo é mágico.

— Ministro, está aqui Cordisburgo.

Quando se ouve a gravação do discurso de Guimarães Rosa nota-se, claramente, ao final do mesmo, sua voz embargada pela emoção – era como se chorasse por dentro. É possível que o novo acadêmico tivesse plena consciência de que chegara sua HORA e sua VEZ. Com efeito, três dias após a posse, em 19-XI-1967, ele morreria subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa fora à missa), mal tendo tempo de chamar por socorro. Na segunda-feira, dia 20, o Jornal da Tarde, de São Paulo, estamparia em sua primeira página uma enorme manchete com os dizeres: “MORRE O MAIOR ESCRITOR”. Que lhe seja dada a palavra ao final desta tentativa de biografia que se quer, pelo menos, honesta:

Desconfio que sou um individualista feroz, mas disciplinadíssimo. Com aversão ao histórico, ao político, ao sociológico. Acho que a vida neste planeta é caos, queda, desordem essencial, irremediável aqui, tudo fora de foco. Sou só RELIGIÃO – mas impossível de qualquer associação ou organização religiosa: tudo é o quente diálogo (tentativa de) com o ¥. O mais, você deduz.(18)

Morto Guimarães Rosa – lá se vão três décadas –, resta sua obra singular, por demais estudada, mas cujo poder de sedução ainda não foi satisfatoriamente explicado; afinal, como ensina – ou aprende – o próprio Riobaldo, “muita coisa importante falta nome”.

Retirado de João Guimaraes Rosa: Sua Hora e Sua Vez. , importante contribuição ao estudo   do autor de Sagarana e Tutaméia , por Luiz Otávio Savassi Rocha.

Coda>***

“Um chamado João”

João era fabulista?
fabuloso?
fábula?

Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?

Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?

Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia nome,
curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
e precipites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?

Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre

que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.”

Carlos Drummond de Andrade

(*) grifo meu, a parte grifada, no poema (que heresia!) foi a inspiração para o nome de meu blog. Em setembro de 2001.

*****

Este post é pra Magaly, minha primeira grande amiga nas lides do blog. E é, também, pra Cat Miron.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

12 Responses to João Guimaraes Rosa, sua Hora e sua vez

  1. João Guimarães Rosa.
    Estou esperando eu crescer para ler Grande Sertão: Veredas.
    Mas enquanto sou pequena, li Miguilim.
    E toda vez que boto os óculos, me sinto Miguilim, com um mundo todinho novo pra enxergar.

    • sub rosa disse:

      Minha linda, minha querida. Eu, por felicidade, não por acaso, li Campo Geral, já grandona, Marilia. Ah! o Miguilim, a bobice e a visão. Do mundo! O professor Benedito Nunes diz que essa é a passagem/margem da magia.
      O que permite a construção de outros mundos, o saber, o poder, o poder fazer: “tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente”
      Li com alvoroço!
      Quase o mesmo que o de Miguilim. Já grandona, Marilia, tive o meu Mutum particular:-)
      Acho que ele, o BN, diz mesmo que a vida do Miguilim começa quando a “estória” termina:-)
      Obrigada por me lembrar de mim.

      Ê minina danada de boa! E olhe que isso é porque vc tem estudar o Códex… Magina se não…Como diz a Norminha: e vc lá precisa se sacrificar? Você sabe é tudo, isso, sim. Queria era ser você, acredite.

      (updated/alterado)

  2. Rose disse:

    Post bem farto. Muito a ler. Assim é que eu gosto. Linguagem twitter é bacana, mas melhor mesmo é um bom post.

    Lerei na segunda-feira. Se não comentar é que fiquei pensando no lido.

  3. Tereza disse:

    Aos 15 anos ganhei “Primeiras Estórias” de presente. O amigo, bem intencionado, deve ter imaginado que era Guimarães Rosa para principiantes:)) Odiei G. Rosa durante muitos anos, embora gostasse de ler boa literatura. Cerca de vinte anos depois, ganhei de presente “Grande Sertão:Veredas.Mas antes, minha irmã falou do livro, convenceu-me a deixar de lado
    toda a minha frustração com G. Rosa. Foi assim que comecei a ler Grande Sertão:Veredas e fiquei surpresa, completamente encantada por ele. Eu não sabia que era possível alguém conseguir escrever daquele jeito.
    Tive a mesma sensação quando li Clarice Lispector. Tão diferentes um do outro, mas capazes de me surpreender de tal forma, como se inventassem uma nova língua, brincassem com as palavras. Do livro “Primeiras Histórias” Só li o conto “A Terceira Margem do Rio”. Eu não me atreveria a dizer nada
    sobre G. Rosa, sobretudo depois de ler o belíssimo poema de Drummond. Excelente post, Meg. Beijos.

  4. Magaly disse:

    Meg, pra mim, de verdade, mesmo, mesmo? Estou cheia de dedos e de emoção.

    E com falta de ar: saída da leitura de “Um chamado João”. Drummond captou a alma volátil de João, sua imensa força de expressão além dos limites já experimentados, a regionalidade x universalidade de seus temas, seu grande amor à palavra, impulsionadora da vida. Que trabalho encantado!

    Meg, vim agora ligeiramente para agradecer seu gesto e para completar a leitura de todos os links que você tão zelosamente nos fornece. Vou bater asas nesse domingo de sol meio fosco, mas de temperatura amena. Vou ter com os meus, num almoço descontraído. Depois, virei dar os meus pitacos, à proporção que entrem os comentários. Está certo assim?

    Beijos e boa diversão.

  5. sub rosa disse:

    Queridas Rose, Magaly e Tereza;

    Estou sem poder vir aqui com mais calma.
    Muito trabalho (ainda bem).
    Mas o post é longo, cabe ficar mais alguns dias.
    Carpe diem!
    Volto logo .
    Beijos

  6. Cat Miron disse:

    O post é rico e uma bela homenagem a Guimarães Rosa. Obrigada por lembrar de mim.
    Por estes dias (17/11), Rachel de Queiroz faria cem anos. Beijo, mana.

  7. Rose disse:

    Ainda não conseguir vir aqui com tempo. O trabalho engole o tempo.
    Talvez se você cortasse o conhecimento em bifinhos, talvez, eu lesse em pedaços. E contornasse o tempo com os olhos girando pouco nas letras .

  8. Norma disse:

    meg, sorte e êxito em seu trabalho, aqui estamos com saudade.
    tudo está muito calmo rsrsrs. vc faz falta.
    um beijo

  9. Fiz um comentário, grandão, mas sumiu.
    Mais tarde, de casa, eu volto pra dar uma movimentada por aqui…

  10. Ana Guimarães disse:

    Espetáculo! Para quem está esperando crescer para ler, um recado: leia para crescer!
    Bjs

  11. sub rosa disse:

    Ana:
    Muito, mas muito obrigada por ter lido e por ter comentado;
    Volte sempre.
    Achegue-se:-)
    bjk
    Meg

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