Chapeau, M. Claude Chabrol!

chabrol, o (outro) que amava as mulheres

“Sempre filmei não importa o quê, mas nunca não importa como

Claude Chabrol

Éric Rohmer, em janeiro . Agora, Claude Chabrol, nascido em 24 de junho 1930 e saído de cena em 12 de setembro de 2010. Longa vida a Godard!
Fico meio constrangida ao escrever este post sobre Claude Chabrol, reconhecidamente um mestre ( Hitchcock disse certa vez que gostaria de ter feito o “Le Boucher/”O açougueiro) filme que Chabrol dirigiu em 1970. Puxa… se fosse comigo eu não falava mais com ninguém. Acrescente-se a isso o fato de que Chabrol foi diretor, ator, realizador, produtor, roteirista, adaptador, (dialoguista) , cenarista, cenógrafo, jornalista, crítico de cinema da mítica revista Cahiers du Cinéma -entre 1952 e 1957 – e tudo o que decorreu dessa aventura, enfim, jogou nas onze, bateu escanteio e cabeceou.
Devo confessar que, primeiro, fui ao blog do Milton Ribeiro, pois ele sempre faz   e muito bem) essas homenagens do tipo necrológio, ou se preferirem, o elogio fúnebre dos escritores, cineastas, compositores de música erudita. Basta dizer que o melhor que já li, no gênero, entre tantos, foi seu tributo a Robert Wise.
Não encontrei nada, daí que resolvi escrever alguma coisa a respeito de um dos meus cineastas preferidos, verdadeiramente um mestre , no sentido rigoroso do termo – mas muito se escreveu sobre ele, sua morte e, principalmente, sua biografia, de modo que falar a respeito resulta em insossa repetição de tudo o que está aí, basta olhar o Google.
Assim sendo, vou dizer algumas coisas muito particulares de minha experiência pessoal de fã. Que é um risco. Assim sendo, peço a todos: read at your own peril:

Dono de uma filmografia vastíssima e com vários núcleos de interesse ou temática – podemos citar, pelo menos três, cruzando-se uns com os outros: (1) os de crítica ferrenha (embora, com ironia e humor, muitas vezes) às contradições de uma burguesia provinciana, que ele bem conheceu quando viveu grande parte de sua adolescência, no interior da França e que lhe permitiu retratar um painel dessa classe, uma espécie do que Balzac realizou em muitíssimo maior escala, na literatura, 2) os chamados polar,(misto de policial com noir) em que Chabrol mostra toda a sua excelência, não fosse ele, admirador entusiasmado de Hitchcock. São filmes com mistério e suspense, não raro assassinatos e adultério, triângulos mistos. E neles, a ilocução proveniente das câmeras são tão expressivas – às vezes, mais – quanto a dos personagens, a câmera, em seus planos, travellings, resultado do olhar do diretor.  E finalmente (mas não só) o que justifica a legenda da foto: a exemplo de Truffaut, a questão das mulheres, os assuntos de mulheres. Pertencentes a todas as classes, mas retratadas com distanciamento e rigor, em seus comportamentos, faux-semblants, hábitos, segredos, vistas também com ironia e  um certo tipo de humor cáustico. Chabrol é dono de um incrível senso de humor.
Não coloco exemplos que ilustrem as temáticas, primeiro porque eu não saberia fazer isso, os filmes de Chabrol são um desafio a classificação. E depois porque como já disse, as temáticas se entrecruzam.
Também é preciso dizer que a carreira de Chabrol é brilhante e irregular, mas mesmo nos períodos de filmes mais comerciais, a sua marca, o que faz dele um mestre do mis-em-scene, se destaca em todos eles.
E. como diz a legenda da foto acima, Chabrol dirigiu e tratou de temas que envolvia e sublinhava questões femininas, e sua carreira é também marcad pelo perído de suas musas; Stéphane Audran, sua segunda esposa, e a grande ligação cinematográfica que ele teve com Isabelle Huppert, só para citar duas entre elas..

Mais vale, então, mostar os filmes que eu vi, os que mais amo, e aqueles que eu sinto muito por não ter visto, uma vez que da extensa, prolífica produção do mestre, muito, mas muito pouco ‘passou’ no Brasil. E a maior parte destes,foi vista por privilegiados, em mostras especiais, ou raras e felizes sessões em cineclubes. Ah! sim, e na Tv a cabo, . Eu, por ex,. vi muitos deles em Mostras do canal Eurochannel, que já foi muito bom, acreditem.

Voilà:
1- La Céremonie, 1995 – com o infame título em português, Mulheres diabólicas.-Primeiro filme que vi. Fiquei boba Emoção. Aturdimento.
2- Le boucher/O açogueiro, 1969 – para quase todos, o ponto mais alto da filmografia de Chabrol.

3- Un affair des femmes/Um assunto de mulheres,1988 – Aqui Isabelle Huppert está magistral.

4- Les biches/As corças, 1968 -Stephanie Audran , esposa e musa do cineasta, brilha ao lado de  J.acqueline Sassard
5- La rupture/Trágica separação, 1970
6- Une femme coupée em deux/Uma garota dividida em dois,2007 – Belo filme, com a lindíssima Ludivine Sagnier.
7- La femme infidèle/A mulher infiel, 1969

Eis aí, minha relação, mas não significa que sejam os melhores filmes. Para mim, são. E são os filmes que consegui ver. Nunca vi Mme. Bovary, adaptação de Chabrol para o romance de Flaubert. Mas dizem que livro e filme se afastam bastante. Acredito. Afinal,, a camera de Chabrol *contava* uma história. Outra história, com produção de muitos e novos sentidos.  Afinal ele era o metteur en scene, por excelência.Mas vou  sempre querer ver os outros.

Bem, agora,  torço para que, se quiserem – e eu quero muito –, cada um de vocês acrescente ou retire filmes que sejam seus favoritos.  Ou que não gostarem, claro. (Grande parte dos filmes famosos de Chabrol, podem ser vistos no YouTube).

Quanto a mim, só resta dizer: Chapeau bas, maitre Chabrol!


Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

15 Responses to Chapeau, M. Claude Chabrol!

  1. Allan disse:

    O “lado de lá” está muito mais interessante que o lado de cá. Mais alguns e eu trancaria a porta e enfiaria a chave no bolso. Seria o último a entrar. :)

    Antonio Tabucchi, no livro “Sostiene Pereira”, narra sobre um personagem que deveria escrever e manter arquivados obituários de vivos famosos, para evitar que o jornal os escrevess às pressas. Será que o Milton tem esse hábito? :)

    Beijocas

  2. sub rosa disse:

    Hahahah, taí uma imagem legal do Milton:-)
    Que maravilha a evocação de Tabucchi, um dos meus autores preferidos. Um encanto. E ainda por cima, sabe e fala o português. A gente se sente como se ele fosse mais próximo. (Mesmo que o português seja o da terrinha).
    Ah! eu lembro bem essa passagem, tanto no livro quanto no filme. O grande Mastroianni.
    Grazie tante!i
    E isso de obituário é fascinante. Os grandes jornais fazem isso; é pratica comum, hoje em dia., Lembro o caso do Bob Hope que morreu com 100 anos. Um grande jornalista foi incumbido de fazer o necrológio. Mantinha tudo atualizado. Até que quando Hope morreu, o necrológio publicado pelo NYT, foi assinado pelo jornalista que *já havia morrido*, há um bom tempo:-)
    baci

    P.S. O Tabucchi viria, mas não veio, ao Brasil para a FLIP.

    • Allan disse:

      O Tabucchi é italiano mas mora em Portugal há anos, apesar de afirmar que a sua “casa” é a sua língua, a italiana.

      Beijoca :)

      • sub rosa disse:

        Taí, não sabia, Allan. Aprendi a gostar del, lendo uma revista portuguesa, da Fundação Calouste Gulbenkian, a COLÓQUIO – Letras.
        O Tabucchi escreveu para ela, quando estava “de caso” (o affaire”) Fernando Pessoa…vc sabe. Pensei que ele passara um tempo em Portugal, mas não sabi que ficou tipo assim, morando lá.
        Sabia que ele era professor numa cidade italiana, Siena talvez, ainda não tive tempo de dar uma olhada no Google. E fiz bem, pois uma informação sua vale ouro:-).
        Viu a que pode levar um post sobre o Chabrol? O homem é gênio, não duvide.
        E se quer uma sugestão (mesmo que não queira, vou dizer rs rs rs..) procure ver um filme de Chabrol. Os franceses e italianos são assim ó:-). quando o assunto é cinema. E pra mim vc já é italiano:-) Tente ver Un affare de donne. Vai gostar. Ou o meu favorito La cérémonie, não sei o título em italiano.
        beijocas, querido amigo,:-)

  3. aninha pontes disse:

    Meg querida, que delícia ver você aqui falando de cinema, de gente bonita, inteligente e importante, de coisas boas.
    É bom ver você vivendo e querendo viver, sendo e querendo ser feliz.
    É assim que quero ver você, sempre.
    Porque amamos você.
    Um beijo e nosso carinho.

    • sub rosa disse:

      Aninha, já lhe disse que vc me comoveu, não é?:-). Obrigada, querida, sei que torce por mim, e, vc, , sabe o quanto preciso disso.
      Um beijo, querida. E outro no seu Bem. O nosso querido Valter:-)

  4. tereza disse:

    Meg, eu não tenho um arquivo dos filmes que vi e tenho uma memória péssima.Sei que já vi outros filmes do Chabrol, mas só me lembro de dois: Assunto de Mulheres
    e Ciúme: o Inferno do amor possessivo (com a Emmanuelle Béart belíssima).
    Relendo a sua lista, um filme que dá para esquecer o título, mas o filme jamais: La Cérémonie (mulheres diabólicas). Eu gosto muito da Isabelle Hupert.
    Concordo com você: Chapeau bas, maître Chabrol!
    Beijos.Tereza.

    • sub rosa disse:

      Ahá, não destrate sua memória, querida. tem memória péssima, não, já provou aqui:-).
      Eu também não sou, nem teria paciência ou jeito para tal, de fazer lista, dar uma nota pra tudo que é filme que vejo. Eu não faria outra coisa.
      Mas, devo lhe dizer que realmente o Chabrol não foi tratado como merecia pelos cinéfilos nem pelo público brasileiro em geral. Talvez uma miopia até agora sem explicação.
      Mesmo o Rohmer, que tudo bem,fazia belos filmes, mas sempre filmes paroliers (não que eu tenha algo contra os filmes que falam muito e se concentram em longas discussões) pois bem, o Rohmer teve muito mais chance de ser visto e discutido aqui.
      Logo não é a *SUA* memória. Prova: vá a uma locadora e veja quantos títulos de Chabrol tem à disposição? Niente! ou quase.

      O Ciúme – no original, L’Enfer – é desses filmes sufocantes (o tema lembra o Brás Cubas, do Machado) é um dos poucos filmes que foram vistos por muitos.
      Diferentemente de Um assunto de mulheres e do meu preferido, preferidíssimo, La Cérémonie. As mulheres não são diabólicas!
      Diabólicas são as circunstâncias. Um filme perfeito, todo Chabrol! Nele está tudo: a família. Provinciana. Burguesa. O mistério, o suspense.
      As grandes cenas. A questão social, na minha época se chamava “luta de classes” (veja só quanto sou antiga:-)]. É o verdadeiro exemplo de um* polar*. O filme é adaptação do livro da Ruth Rendell (grande autora de policiais, muito querida pelo Hitchcock) -” A Judgement in Stone – Um criminoso entre nós”. A família com requintes de alta cultura, e a empregada… Com um tema social que jamais se imaginava: o analfabetismo. Quer mais? Mais Chabrol? impossível.
      Eu escrevi isso no post mas depois tirei. Enfim, é o meu preferido.

      E como vc diz, inesquecível.
      beijos, querida

      • tereza disse:

        Você tem razão, La Cérémonie é perfeito e o Chabrol não foi tratado como merecia pelos cinéfilos em geral.
        Quando eu tinha 20 anos os cinéfilos gostavam muito de Godard, Truffaut e tals tinha um Cine Clube que curtia muito o Cahiers du Cinéma, mas não Chabrol, o que é estranho.
        Acho que já faz um bom tempo que o cinema francês está muito esquecido no Brasil.Vi bons filmes franceses que não chegaram ao cinema em locadoras que tem seção de filmes de arte. Mas agora muitas já fecharam ou reduziram drasticamente o número de
        filmes não só franceses , mas europeus de um modo geral.Beijos.

  5. rose disse:

    Quando tínhamos vinte anos, eu e meus amigos éramos loucos pelos filmes dele.
    Não vejo , entre meus alunos , grupos de jovens – claro que há mas nem tantos – loucos por cineastas.

    • sub rosa disse:

      Rose (estava sentindo tanto sua falta).
      Vc tem razão. Mas eu acho que está dentro do esperado. Vejamos:
      Eu, aos vinte anos, não conhecia nem sabia quem era o Chabrol e sua turma do Cahiers du Cinéma. Só vim a conhecer em Paris, muuuito tempo depois. Digo isso, não que eu queira ser ‘metida’, mas porque era difícil, pelo menos aqui em Belém, onde fui criada, se falar em nouvelle vague, por ex. à minha época (anos 70).
      Os mais velhos que eu, aos vinte anos, falavam e curtiam muito a “velharada francesa”, os maravilhosos Resnais, Renoir, Carné (que desconheço), O Boulevard do Crime etc…e dos alemães emigrados pra Hollywood, Fritz Lang (cineasta adorado pelo Chabrol junto com Hitchcock), aquele do M. o vampiro de Dusseldorf, (é madrugada, não me lembro, o autor de O Gabinete do Dr. Caligaris ) e por aí vai. De Hollywood era o Cidadão Kane.. por aí tb.
      Mas sou da era cineclubista… fazer o quê?:-)
      E acho que, hoje, é realmente muito difícil, ser louco por cineastas.
      Quem é que podendo ver Avatar vai preferir ver Chabrol, por exemplo que fez quase 100 (cem) filmes e morreu filmando séries pra televisão? Ou Godard e Rivette – os únicos nouvelle-vaguianos que estão vivos?

      Um amigo me disse que a garotada de hoje – a maior parte da idade dos seus alunos – só vê filme que não seja do *mainstream*, quando vai fazer vestibular. E precisam ver adaptações de filmes históricos e literários:-).

      Eu, por exemplo, sou louca pelo Tarantino. Fui a única que eu conheço a gostar do Grindhouse. Mas em compensação, adoro o Clintão (Eastwood, por supuesto)
      Selaví, como diz o Boczon.
      Beijos e não me abandone;-))

  6. tereza disse:

    Meg, deixei recado para você no post anterior.bjs.

    • sub rosa disse:

      Vim de lá, Tereza.
      Nem deu pra responder, mas daqui a pouco (amanhã) vou lá. Pode crer, nem preciso dizer que fiquei en-can-ta-da!
      beijos. Obrigada

  7. sub rosa disse:

    Tereza, perfeito. Cinema europeu é elitismo, no Brasil. O mesmo vale para os europeus. Quem lembra ainda de Fassbinder? só pra citar um exemplo:-(
    beijos
    E, sabe de uma coisa? vamos fundar um clube – pelo jeito, muito restrito, de pessoas que viram pelo menos um filme de Chabrol:-))). O que acha?

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