Amor condusse noi ad una morte

Quando o olhar adivinhando a vida
prende-se a outro olhar de criatura
o espaço se converte na moldura,
o tempo incide incerto sem medida.

As mãos que procuram ficam presas,
os dedos estreitados lembram garras
da ave de rapina quando agarra
a carne de outras aves indefesas.

A pele encontra pele e se arrepia,
oprime o peito o peito que estremece,
outro rosto desafia.

A carne entrando a carne se consome,
suspira o corpo todo e desfalece
e triste volta a si com sede e fome.

PAULO MENDES CAMPOS
(Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 — Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991)

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1- Este soneto foi concebido em prosa. A divisão é minha seguindo o ritmo da ilocução. É o que mais (me) impressiona em Paulo Mendes Campos, o arrojo inventivo. Além de ele ser grande poeta, é claro. Que foi também cronista, contista, jornalista, redator de publicidade (propaganda), funcionário público (IPASE),  diretor da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, entre outras ocupações. Foi também um grande tradutor tanto de prosa quanto de poesia. Foi um dos quatro cavaleiros da crônica apocalíptica, juntamente com Hélio Pelegrino, Otto Lara Resende e Fernando Sabino.
Alguns amigos meus acham que ele foi o primeiro blogueiro brasileiro:-). Eu concordo.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

14 Responses to Amor condusse noi ad una morte

  1. Ficaram legais os cortes, bem no ritmo.

    Esse Paulo M C , parecia tímido, escrevia coisas abusadas.

  2. magaly disse:

    PMC poeta é vibração humana em alta escala, é perplexidade em estrofes substanciais, é delicadeza e contundência, é autenticidade e sedução

    • sub rosa disse:

      Puxa vida! Magaly. Ou como se diz aqui no norte (Belém), Eita pau!:-))).
      É ou não é como eu sempre disse: vc é a melhor crítica de poesia que conheço atualmente, não acham?
      Fico com o “remark”: “delicadeza e contundência”, é perfeito.

      Obrigada, querida amiga. Quisera escrever como vc, ter a brilhante percepção que vc tem.
      Beijos

  3. Sempre gostei do quarteto!
    Beijos

    • sub rosa disse:

      É verdade, milord, a gente sempre vê os quatro como se fosse impossível a divisão. Parece que não conhecemos tudo se não conhecermos os parceiros.
      E, incrível, quase sempre temos um preferido, que nem sempre sabemos qual é. :-)
      bjs.

  4. Isso é uma grandeza de lindo!
    Que inveja boa: queria ter escrito isso, tal e qual.
    Fraternellement à toi.
    Beto.

    • sub rosa disse:

      Oi, querido Adalberto.
      Será que vc recebeu minha msg pelo FB?
      Eu ia fazer um post citando aquela enquete:-).
      Quanto à inveja, eu compartlho dela. Sempre enfatizando que é inveja da boa:-)
      Mas, concordo com vc é belíssimo o que ele escreve. Seja humor, seja poesia, ele é mestre.

      Si fraternellement, aussi, avec affection,
      Meg

  5. Oi, ma chère.
    Recebi sim sua msg no FB. O fato é que desisti de publicar a enquete, por ora; fora a minha leitura de Bandeira e os blogs amigos,estou meio out de tudo.
    Fraternellement à toi.
    Beto.

  6. nora borges disse:

    eu gostava dele…sinto saudades dos meus livros.

    • sub rosa disse:

      Noraaa, queridíssima! Quanta saudade. Vou já lá ver as novidades. Mas que coisa mais feliz sua presença aqui. Pronto! em homenagem a vc vou colocar um belo poema de um espanhol catalão. Adoro vc, querida Nora!
      Beijos

  7. Allan disse:

    Genial!

    Lembro de uma coleção chamada “Para gostar de ler” que eu devorava junto aos clássicos. A mineirada estava semprre presente e o Paulo Mendes Campos sempre esteve no alto das minhas listas.

    Beijocas :)

  8. sub rosa disse:

    Eu sei, eu sei…:-)
    Adoro até hoje. Tenho uns exemplares. Estudei muitas coisas por lá. Pronto, entrguei:-)
    Neste fim de semana vou ao http://www.minube.pt
    bjs

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