O assassino era o escriba

PAULO LEMINSKI (*)

Uma observação antes do texto:

Leminski, como podem ver, foi um dos mais cultos escritores brasileiros. Teve uma vida intelectual tão intensa quanto variada. Além de poesia e ficção,  foi biógrafo (Leon Trotski – a revolução segundo a paixão), traduziu obras de Yukio Mishima, Samuel Becket, John Lennon, John Fante, Ferlinghetti, James Joyce e outros. Foi também compositor e letrista, trabalhou com Itamar Assumpção e Caetano Veloso entre outros. Foi seminarista, comunista e cristão. Professor de ‘cursinho’ lecionava história e português. (E, como ninguém deixa esquecer, era faixa preta de judô). Não obstante, há muita gente que ‘torce o nariz’ quando se fala nele, quando se menciona Paulo Leminski.

No meu entender, isto se dá, porque ficou mais conhecido pelos poemas breves e por textos leves, irônicos, fragmentados. Textos poéticos, sim, mas sempre flertando com a “brincadeira“. Chegou a dizer, certa vez, em uma conferência que “precisamos recuperar o sentido de brincar“. Dizia que no próprio uso da palavra fica muito claro o sentido depreciativo: *brincar* é coisa de criança num mundo em que a criança tem pouco valor. Quando alguém quer se referir a uma coisa séria, importante, sempre diz “fora de brincadeira” ou “acabou a brincadeira“.

Exatamente por isso, porque a leveza, a (palavra) brincadeira desautoriza uma ação e remete a um ato infantil, penso que o nome Leminski ficará, cada vez mais, associado pelas mentes de hoje, seus pósteros, a um poeta mediano que produziu apenas uma poesia atomizada. Mas Leminski , em minha opinião, escreveu o fácil, porque é exatamente o mais difícil.E porque ele tendo feito uma obra densa, sentia-se em plena liberdade para escrever o que quisesse.

O texto que apresento é um desses. Leve . Despretensioso. No final, vemos que é ótimo. Fora de brincadeira :-)

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O assassino era o escriba

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.

Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida, regular como um paradigma da 1a. conjugação.

Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto.

Casou com uma regência.

Foi infeliz.

Era possessivo como um pronome.

E ela era bitransitiva.

Tentou ir para os EUA.

Não deu.

Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.

A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conetivos e agentes da passiva, o tempo todo.

Um dia matei-o com um objeto direto na cabeça.

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Do livro Caprichos & Relaxos
Coleção Cantadas Literárias. Ed. Brasiliense.

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Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

25 Responses to O assassino era o escriba

  1. marilia disse:

    Sempre fui louca por esse texto. Por muitos motivos. O principal é que já tive ânsias de matar um ou outro professor de português com objetos diretos na cabeça.
    O segundo motivo é que, desde que conheci Quintana e Lêdo Ivo e me apaixonei pela poesia (graças a uma professora de português – bom que se diga), passei a achar que poesia pode não ser séria, dolorida e solene (e apesar do avoengo Bilac, poderia ser mais alcançável aos reles mortais que o ofício de ourives).
    A poesia pode brincar.

    Tive certeza disso quando soube da invenção de Manoel Bandeira, o verbo teadorar (intransitivo).

    Essa informação me foi confirmada por Drummond, quando dizia que lutar com palavras era a luta mais vã. Descobri depois que eles (Drummond e as palavras) não lutavam, eram, pelo contrário, antigos aliados, ou tórridos amantes.
    Desde então, tenho casos com todos, o gaúcho, o pernambucano e o mineiro.
    Com o alagoano flerto, mas, em sinal de respeito, não o incluo nesse tórrido quadrilátero amoroso.
    E graças a isso tudo, também dou piscadelas a esse interessantíssimo paulista, o Leminski…

    Coisas do coração. Faz bem pra pele.

    • boczon disse:

      êpa!

      Leminski era polaco daqui da terrinha curitibense…

      …não que isso tenha contribuido muito para a obra dele… rsrs

      • sub rosa disse:

        Epa, como pode olhar pelo horário, aqui, eu estou escrevendo quase ao mesmo tempo que meu afilhado.
        Iuhuuuu!
        Salve, ..ih esqueci, como é *afilhado* e como é *beijos,* em polones, mas acho que é pocalunki ou pokalunki:-)))
        Volte aqui, sempre, a partir de agora, visse?
        :-))

      • sub rosa disse:

        Entendi a ironia, afilhado.
        Não fosse você conterrâneo por nascimento e por descendência (seria ascendência?) do Bandido que sabia latim… Hahaha!

    • sub rosa disse:

      Ah! Marilia, minha doutorinha:-)
      Esse texto é *engraçado*: é banal, ingênuo até. E foi escrito/publicado como lembrança dos tempos de professor (de cursinho que o Leminski lembrava, com muito orgulho) e alunos em sala de aula, experimentando a criação e o ensino.
      Depois eu vi aparecer aqueles outros textos que se faziam (professores de Letras) compostos por títulos de poemas de autores como Bandeira e principalmente com os de Drummond, todo mundo lembra, lembra?
      Hoje, quando se olha para eles, descontextualizados – será que essa palavra existe?) parecem realmente banais e desnecessários. Inusefull.
      Concordo totalmente com vc que não é necessário a poesia para ser boa poesia (no sentido escolástico do termo) ser fruto de angústia e solidão, quando não, repare só, da *loucura* – lembre de Sylvia Plath.
      ===
      No mais, querida, IMSHO, Leminski merece ser estudado. Há o *Distraídos Venceremos*, que é de 86 – ah sim o texto que está no post é da década de 1970 – que eu (Deus e a Rose me perdoem:-) – receitava, digo, recomendava para os meus alunos.
      E, por último, apenas um superficial detalhe: Leminski viveu e morreu em Curitiba. Ele é 1944 , viveu 44 anos, simplesmente um pecado, morrer com 44 anos.
      Beijos.Muitos, Marilia.

      • marlia disse:

        Ih…
        Acho que paguei mico no comentário…
        =S
        O pior é: eu SEI que Leminski é paranaense.
        Parece desculpa de amarelo e niguém precisa acreditar. Acho que pensei rápido demais dele nas parcerias com Itamar Assumpção: “e morre comigo antes que até morrer fique mais caro”. omo o Itamar é paulista de Tietê, acho que ocorreu erro de processamento de dados.
        Mas o fato é que, como se diz na minha terra, desculpa de amarelo é que comeu barro.

        Em todo caso, quem se importa onde nasceu o poeta? O importante mesmo é a poesia.

        Beijos, meg, dear meg.

  2. marilia disse:

    Ah, quase me ia escapando: beijos, dear Meg.

  3. Luma disse:

    O poema é uma representação metonímica do que acontece muitas vezes dentro da sala de aula e a última frase, o desejo de muitos alunos. Tive a sorte de ter professores que não me deixaram alienar e cada explicação dada, era um novo sentido, nova visão ou compreensão dos fatos – os próximos ou os mais longínquos. Para você ter ideia, nunca precisei perguntar nada para o ‘verbo’ :D
    Ah!Dorei! Ter aparecido :=)))

    • sub rosa disse:

      Yesss, bingo!, querida Luma

      Haaaha! *Perguntar* pro verbo soa aos meus ouvidos como toda a adolescencia vindo me pegar hahah!
      Bons horríveis tempos aqueles.
      Consta, só pra vc ter uma ideia, que um dia, perguntaram pro Leminski, se ele fazia ou já havia feito análise (psico). Ele respondeu de pronto: Eu não! não precisei. Primeiro, porque durante seis anos fui professor de análise sintática…

      No mais, é isso mesmo que vc diz, é assim que entendo também.
      Ah! eu tive vontade de matar o meu professor de Matemática, de preferencia, jogando em cima dele um pesado manual de Álgebra. Linear mesmo, porque sou simplesinha. rsrsrs
      ====
      Obrigada, querida. Voltei porque tava mortinha de saudades.
      beijo

  4. Fora de brincadeira, Meg, eu detesto classificações de poesia. O ABC do Pound lixou metade do que eu podia ter lido – e quiçá produzido.
    Detesto essa história de ficar classificando poetas de acordo com sua proximidade da Modernidade( ade ade , fez eco, desculpe). Lá onde estudei havia isso. Drummond não é universal – diziam …au au au.

    Ter feito letras foi bom pra eu virar professora, mau por ter me tirado o gosto pelas letras. Gosto de ouvido, não de paladar.

    • sub rosa disse:

      Rose, querida
      Como tenho dito, repetidamente a você, fora de brincadeira, quantas idéias, como é bom ler o que escreve.
      Olha só, querida, quem leu o ABC da Literatura – eu não li-, não pode ser um ser comum, certo?:-)
      E *lixar* é um verbo que eu gostaria de ter usado e olhe que nem é só por causa dos significados, uso e sentidos.
      Agora, me apoiando num cara pra lá de universal, mais que mestre, inventor, diluído(r) que é o Aristóteles, é necessário para conferir peso, espessura ou lógica à apreensão, uma classificação. (fez eco, eco paupérrimo rsrsrs)
      Compreendo que nem você, nem eu, gostemos ou não do que é classificado ou da natureza pela qual ela é feita.
      Compartilho com vc a antipatia que os concretos – se o conceito de modernidade deve ser relacionada aos modernos campos da poesia- e isso, no meu caso, se deve à autorreferencia, ao fechamento do clube contendo apenas os eleitos, tudo levado à exaustão que culminou com a esterilidade e o vazio da criação.

      Incidentalmente, no caso do Leminski, muito próximo e admirador dos Campos&Pigantari, eu aprecio, particularmente, a superação desse estágio; o talento múltiplo, a ludicidade(?) e uma imensa disponibilidade pra vida, sem obsessão pelo *novo* a qualquer preço.
      O atira-se na vida, no abismo, tanto poetica quanto pessoalmente, uma sede de não estar parado, um infindável abarcar horizontes.
      ====
      Acho que minha capacidade para falar a respeito termina aqui, por pura inépcia, falta de talento, engenho e arte.
      Você sabe muito, mas muito mais que eu. Vc sim é poeta, fotógrafa/fazedora de imagens, criadora de teias, vc apreende, capta instantaneos, substancias… e eu sou só, apenas, uma humilde espectadora do que vc faz e que me enche de admiração. Leio vc e aprendo.
      Um beijo, querida

      ===

      ****
      Eu recomendo a quem estiver lendo, se houver quem me leia:
      http://roseeseusamigos.blogspot.com
      E não deixem que ela apague:-)

    • sub rosa disse:

      “Tão longe, de ti distante
      Onde está, onde está meu pensamento..”
      Eu vi, eu li.
      Obrigada pelo link, eu não sabia, não conhecia.
      Esse Oswald era muito cretino, não acha?
      E, Carlos Gomes nos é particularmente, caro. Ele morreu aqui em Belém, após ser diretor do Conservatório que leva seu nome. Ninguém é rei em sua própria terra, não é? Era adorado na Itália. Felizmente, sempre há alguém pra discordar da altissonante voz da *ditadurocracia*.
      bjs

  5. Meg,
    Tenho lido bastante poesia julgando um concurso desses da vida. Incrível como me lembro do saudoso Stanislaw Ponte Preta e de seu FEBEAPÁ. Difícil encontrar quem saiba escrever poesia direito. A maioria põe uma linha sobre a outra, escolhe umas palavrinhas mais difíceis, estufa o peito, revira os olhinhos e se diz poeta. Leminski foi um caso raro. Bom gosto o seu!
    Beijo

    • sub rosa disse:

      Pois então, meu querido Lord
      Primeiro: hahaha “reviram os olhinhos”…hahaha, eu vou usar essa expressão

      Quando diziam, lá pelo final dos anos 90- que a Internet tinha o mérito de fazer com que os jovens passassem a escrever mais, inclusive fazendo poesia,logo se chegou a conclusão de que escreviam mais sim, mas só como vc diz: pondo uma linha sobre a outra. Vaidade e pretensão.

      Gosto dos concursos e fico feliz que esteja no júri de um, pois é nos concursos que vão sendo limadas as absurdas escritas do que imaginam ser poeta.
      Eu acho um caso sério. Confio em vc, Lord.
      *****
      Quanto ao Leminski, acho que fui infeliz na escolha do texto. Mas ainda hei de reproduzir aqui o seus poemas, os textos poéticos. Este aí foi pura *brincadeira* em sala de aula. Vc que é professor e aluno ao mesmo tempo,com certeza, sabe reconhecer isso.
      Beijos

  6. Ô, Meg! Brigada brigada brigada brigada.
    ………………..

    Estou gostando dos comentários. Você veja que um blog é mais protegido que os facebooks da net. Não é? Pode ser que acabem, por causa da necessidade de rapidez e comunicação múltipla. O que é comunicação múltipla? Não sei bem, mas é um termo p o que vi no facebook, todo mundo querendo mostrar coisas e falar, assim, tudo junto. Eu não aguento.
    Um livro de papel talvez exista sempre; o blog já virou possibilidade de sumiço.
    Mas repare o tanto que é calmo, penumbra e sol, banco de subir e espiar dentro da janela. O facebool é um camelódromo.

  7. magaly disse:

    Querida, esta semana estou por conta dos filhos.
    Atrasada por aqui e em várias outras coisas. Só terça feira que vem é que entro nos eixos.
    De qualquer maneira, dei uma lida rápida no post só pra tomar conhecimento do assunto. Fico devendo comentários e leituras recomendadas
    Um beijo pra você.

    • sub rosa disse:

      Estava sentindo sua falta, Maga querida.

      Então dê beijos nos filhotes. Espero que tudo esteja bem.
      E seus comentários e leituras são imprescindíveis aqui.
      Beijos muitos, querida

  8. denise rangel disse:

    Meg, querida
    Desde a primeira vez, sempre tenho a impressão de que sou uma aluna absorvendo a sabedoria de uma mestra. A tua paixão pela Literatura e pela Arte me fascinam. Realmente, a poesia não precisa ser hermética. Incomoda-me ter de analisá-la com os meninos. Eles querem a simplicidade também.
    Que bom que o debate voltou por aqui.
    beijo, menina

    • sub rosa disse:

      Dêzinha querida
      a partir do momento em que fiquei boa de saúde, decidi não mais recusar nem minimizar o que me dizem de bom:-) então eu agradeço o que diz, lembrando que it takes one to know one.
      E vc tem razão: que bom ver a caixa de comentários cheia de idéias. Sempre digo que ela é melhor parte do blog. Aos poucos vamos chegando ao que era:-)
      beijos, menina:-)

  9. marlia disse:

    Ih…
    Acho que paguei mico no comentário…
    =S
    O pior é: eu SEI que Leminski é paranaense.
    Parece desculpa de amarelo e niguém precisa acreditar. Acho que pensei rápido demais dele nas parcerias com Itamar Assumpção: “e morre comigo antes que até morrer fique mais caro”. omo o Itamar é paulista de Tietê, acho que ocorreu erro de processamento de dados.
    Mas o fato é que, como se diz na minha terra, desculpa de amarelo é que comeu barro.

    Em todo caso, quem se importa onde nasceu o poeta? O importante mesmo é a poesia.

    Beijos, meg, dear meg.

    • sub rosa disse:

      Mas, minha doutorinha!!!
      Então eu não sei e digo sempre que vc sabe tudo?
      Mas vale a pena contar essa:-) Uma amiga de Curitiba (a poeta Etel Frota) me enviou uma preciosidade: um CD contendo *t-o-d-a-s* as músicas que Leminski fez com seus parceiros habituais.
      Só então fui saber que ele tinha se encontrado com o Itamar Sampa Midnight.Pois é, e você então sabia dessa parceria. Merece respeito!
      Sei que vc sabia, mas agora me diga, a desculpa do amarelão comer barro não é uma boa desculpa? E não é verdadeira?
      Expliqe aí. hohoho.
      Beijos.
      Hahahaha.

  10. magaly disse:

    Eu prometi, compareço agora. Muito bem lembrado o Paulo Leminski, intelectual com bagagem diverdificáda e de qualidade. Espírito lúdico. imprimia ás aulas de cursinho grande dinamismo e interesse por parte dos alunos. Pena que se tenha ido tão jovem ainda.

  11. magaly disse:

    Corrigindo: diversificada e à

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