Os meus, os seus, os sonhos de Alice

alice

Não resisti quando encontrei este artigo e resolvi dividí-los com você.
Como disse um amigo meu : não resisto quando vejo algo pensado de uma maneira “transversa” ao que sempre pensei. Parece que a a autora, “a neurocientista de plantão” defende a tese… bem leia e diga o que você acha:-) É sonho ou parece ser sonho?

Alice e os sonhos dos outros

[…] A riqueza de imagens, detalhes e sensações dos sonhos é eco de associações particulares ao cérebro que sonha

Já fiz várias tentativas. Tive uma edição em formato de bolso, mas só li as primeiras páginas. Comprei a versão grande, comentada pelo matemático Martin Gardner, na esperança de ter um incentivo a mais, mas ela não saiu da estante.
Agora comprei uma linda versão pequena, ilustrada, em papel bíblia de bordas douradas, para ler na cama. De fato, eu a li por várias noites -mas novamente a abandonei, em favor de outras leituras. Por que ainda não consegui chegar ao fim de “Alice no País das Maravilhas”?
Não é uma questão de idioma ou de estilo literário, pois a prosa de Lewis Carroll, no inglês original, é bela, agradável, divertida, espirituosa e fácil de ler. Soa como uma história contada com capricho a crianças inteligentes.
Várias peripécias de Alice mais tarde, dei-me conta do problema: o autor é tão bem-sucedido em descrever as aventuras de Alice como um sonho, que elas têm, de fato, a bizarrice fantasiosa, a presença de uma versão peculiar de autoconsciência (capaz até de se autoquestionar, o que Alice faz o tempo todo), a descontinuidade característica dos sonhos -e, como qualquer sonho, só fazem sentido para o cérebro que os sonhou.
Se você já passou pela agonia de ouvir um longo relato de um sonho de outra pessoa, você conhece a sensação. A riqueza de imagens, detalhes e sobretudo sensações emocionais dos sonhos é eco de associações particulares do cérebro que sonha, e não pode ser transmitida por palavras. Além disso, descrições de cenas individuais sonhadas por outrem podem até soar interessantes e inusitadas, mas não há uma história coerente. Provavelmente devido ao desligamento, durante o sono, dos sistemas químicos que permitem a continuidade da memória para além de uns poucos segundos, as transições são súbitas e não seguem uma lógica contínua.
Assim, em poucas páginas, Alice nada em uma piscina de suas lágrimas, entra na casa do Coelho Branco para buscar suas luvas, bate um papo filosófico com uma lagarta, entra na casa da Duquesa que tem um bebê que se transforma em porco, em seguida toma chá com o Chapeleiro Maluco… Não me entenda mal: admiro a obra, acho cada cena bizarramente divertida, continuo me empenhando a chegar ao final do livro e ainda vou ler “Alice no País do Espelho”. Mas ficou a lição: vou me lembrar de não despejar meus sonhos sobre outras pessoas.
Adoro sonhar, adoro a experiência de livre associação sem freios ou censura. Mas, se mal fazem sentido para mim…

SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora do livro “Fique de Bem com o Seu Cérebro” (ed. Sextante) e do blog “A Neurocientista de Plantão” e está lançando livros e emais livros:-)

http://www.suzanaherculanohouzel.com/

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

5 Responses to Os meus, os seus, os sonhos de Alice

  1. Magaly disse:

    Agora, você me pegou, Meg! Já fiz tudo pra chegar ao fim desse livro e, para meu constrangimento, também o largo no meio, apesar de ser uma obra apreciável sob tantos aspetos. E há uma razão forte pela qual eu devia prestigiá-la. Minha filha tem trabalhos de arte plástica que se apóiam na conceituação dessa obra. E não só desta, mas em ‘Alice no País dos Espelhos’ que nem considerei ler ainda, pode? Constrangedor, de verdade, e olhe que pausei meu ‘Eu, pensando’ para me entregar a aitvidades que estavam esperando vez. É certo que há os percalços gerados pelos aninhos de saldo que estou vivendo e que cerceiam nossa produtividade. De qualquer forma, vou pensar em partir para uma nova investida.
    O assunto é palpitante, já tentei falar de sonhos em meus versos, mas isso é irrelevante.
    Andei passeando pelo blog da neuro-cientista (dona de uma carinha linda, bem nova), onde li coisas interessantes.
    Pena não poder ajudá-la, Meg. já preciso de ajuda eu mesma.
    Beijinhos compensatórios.

  2. Tenho a versão com comentários do matemático. Já li e reli. Adoro, está entre meus 5 livros favoritos.
    Ah, mas também adoro ouvir o sonho dos outros, vai ver é isso…

  3. vários um disse:

    Sabe que eu não concordo? Tenho mais de trezentos sonhos meus anotados e embora muito não faça sentido porque é preciso me conhecer muito bem para compreender, volta e meia eu tiro coisas que são literatura, e não literatura non-sense, como eu não acho que Alice seja non-sense. Porque eu acredito nessa coisa de inconsciente. Acredito que existe uma outra linguagem, mitológica, poética, que se relaciona com estados alterados de consciência e percepção, e o que parece sem sentido para a linguagem comum faz sentido nessa percepção ampliada.
    E tem coisa que é non-sense mesmo. Jogos vazios. O que vai diferenciar os jogos vazios dos verdadeiros enigmas/mitos/sonhos é a percepção do leitor de que o escritor realmente tirou aquilo do sonho, enão inventou aquilo querendo imitar o sonho. Porque isso me parece o que uma pessoa treinada na mentalidade racional “científica” poderia fazer: como ela pressupões que o sonho é sem sentido (porque ela o compara à percepção acordada, onde carros não voam pessoas não mudam de identidade de uma hora pra outra e coelhos não falam), ela cria coisas (poemas, filmes, qq coisa sem sentido) imitando os sonhos.
    Mas um verdadeiro sonhador reconhece que o carro voando dela é fake, e o carro voando daquele outro ali é real, por sutis sinais ele reconhece, sinais visíveis àquele que de fato pratica estas artes: de sonhar, de mitologizar, de falar por enigmas, de jogar com o sentido das palavras.
    Eu sinto uma autenticidade em Alice, mesmo com toda a riminha vitoriana, eu acredito que Lewis Carrol era doidão de fato, não é fake.
    E o chapeleiro louco tomando chá não é, nem non-sense, nem uma associação extremamente pessoal: toca numa cultura (os ingleses vitorianos), e toca no chapeleiro louco que vive em muitos dessa cultura.
    De forma que pra mim, o axioma de que os sonhos só fazem sentido para quem os sonhou não é totalmente real para os sonhos de mim e você, muito menos para Alice, que não é apenas o relato de um sonho, mas um imenso jogo de linguagem e simbologia, quase um tratado sobre o inconsciente e suas imagens.
    Porque a lagarta no cogumelo faz todo sentido!

    E ela pergunta a Alice: Who are youuu?
    E Alice não sabe responder.

  4. vários um disse:

    como acho que é a primeira vez que comento aqui, a propósito: gostei do blog!

  5. brenon h disse:

    eu achei otimo

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