ANIBAL BEÇA (1946-2009) (R.I.P)

Estivesse eu onde eu estivesse e não poderia deixar de escrever ou pedir para que escrevessem um post, um simples, um sentido, um sincero R.I.P ao poeta brasileiro ANIBAL BEÇA, que nasceu em Manaus mas muito querido e conhecido em sua obra aqui em Belém.
Morreu ontem aos 62 anos (faria 63 em 13 de setembro). 62 anos. Pode?!

Anibal Beça, tal como Tiago de Mello e outros grandes poetas, escritores e intelectuais amazônidas podia, sempre que vinha à cidade, ser encontrado na casa residencial que era uma verdadeira embaixada socio-politco-cultural de Belém e em Belém, e onde nós, os privilegiadíssimos que nem entendíamos direito o Mundo conheciámos os “importantes” na casa de minha amiga Norma Soares Barata e seu marido o professor e imenso Poeta Ruy Guilherme Paranatinga Barata. Ali é que era.

Com Aníbal mantive uma excelente correspondência, dessas que eu falo que não jogo fora sequer uma carta ou post card e que fazendo o devido aggiornamento digo que não ‘deleto’ um ínico email: só do que valha e muito a pena. Do que tenha um valar inexcedível. Tomara que tenham entendido.

Este, o  primeiro Poema que Anibal me enviou.

A GENEALOGIA DO AMOR

E assim se fez verbo

o dom da palavra

para repartir-se

porque ele era só

Da vértebra curva

veio para ouvir

aquela que se houve

para ser ouvida

na aventura a dois:

chamada Mulher

a chamado do Homem.

*

Bem assim frente a frente

se inauguram os sons

aos olhos da surpresa.

Eis a trave despida

para as vestes da fala,

e a cegueira da boca

signos, tateando, cospe,

palpando seus rochedos

de alfabeto de pedra

E viu para falar

ouviu para dizer

tanta beleza agora

se vai a solidão

na maciez da pele

na relva dos cabelos

na fenda diferente.

Ele a chamou mulher

e sentiu o seu cheiro

e por que era de espanto

foi deitar-se com ela

no verde da campina

descobrindo seus poros

com o tato da língua

numa conversa muda

mas cheia de arrepios

reinventando colinas

na planície da pele.

E a palavra de pedra

em pedra se afirmava

no palco dos rochedos

banhado pelas águas

esculpindo nas ondas

o sino das sereias

do mar de Adamastor

o mastro do primeiro

este anagrama ereto

encrespando banzeiros.

No lastro das carícias

pesa o rumor dos corpos

com seu barulho de água

no suor represado.

E a vida nesse instante

não era a mesma vida:

um tempero de febre

ardia na mudança

E a mulher que era voz

ainda adormecida

balbuciou nomeando

esse homem fricativo:

……– Amado meu amado

***

Então ele se soube

de pedra amolecida

mas senhor da tarefa.

E olhou-a como nunca

olhara em sua volta:

a íris revelando

o seu contentamento

no semblante de calma

na viva descoberta

do fogo prometido.

E desde aquele dia

baniu a solidão

para o deserto da alma

o reservado limbo

do batismo da dor.

Havia agora como

repartir as centelhas

no revirar dos olhos.

A granulada areia

moldando-se em faísca

nas águas de klepsydra

nos pingentes de Thánatos.

ANIBAL BEÇA

A música, desculpe se não ouvirem, é presente magnífico, estupendo, de Mme Cooper, que Aníbal no seu farto jeito e árabe talento iria adorar, caso não o conhecesse.

Tanto, mas tanto a dizer e a escrever sobre ele. Vocês me perdoarão, não é? A Internet está repleta, embora mal-refeita do anúncio da perda.

Eu lhes indicaria o livro Suite para os Habitantes da Noite (que lindo título), que vocês podem explorar mais um pouco aqui.

(Esse livro é de um tempo interessante. *Antigamente* – claro não tão antigamente asssim – os escritores de real valor concorriam a Prêmios de Literatura que eram sérios, mais com o intuito de serem conhecidos pelo júri e serem publicados. Havia a Bienal Nestlé feita pela empresa suíça em comemoração aos seus 60 anos no Brasil. No ano seguinte, em 1982 surgiu o o I Prêmio Nestlé de Literatura Brasieleira. Um júri honorabilíssimo e não tinha pr~emio em dinheiro. O prêmio era assim Ou  vencia ou vencia. Nada de segundo lugar! Se vecesse tinha o reconhecimento o mérito  e o louvor e era…. EDITADO, PUBLICADO, que é o sonho de qualquer escritor que saiba ou sesconfie que tem muito valor. Foi o que aconteceu com HAROLDO MARANHÃO que venceu o Primeiríssimo Concurso , com o livro O TETRANETO DEL REI.   Mas… isso é história. História.  Foi assim.

E finalmente, esta página de que gosto muito:

Poesia de IBERO_AMÉRICA

=-=-=

Perdoem os erros não vai dar para consertar. Sejam, como são sempre, generosíssimos,  e fiquem  com o melhor.

E um especial requiem/*eulogio/εγκώμιο* para Anibal! Ideal, como eu nunca saberia fazer.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

8 Responses to ANIBAL BEÇA (1946-2009) (R.I.P)

  1. Magaly says:

    Não me sinto capaz de falar sobre a grandeza deste poetaque tem a força e a magia da região de que é filho.
    Sua poesia é rica, ardente, visceral.

    Meggy, não consigo frear a vontade de transcrever aqui aquela pastorália que você me mandou e que me tirou o fõlego:

    Pastorália com 3 leituras

    Para solo de Avena

    Anibal Beça

    Em cerdas de seda arremeto em pausa
    meu coração toca arremato em pouso
    música de pasto linha de nervura
    nervos de galope todo corpo é frouxo
    na ravina clara todo corpo é fúria

    As línguas de fogo são galhos erguidos
    incendeiam tufos tuas mãos ardentes
    brasas de gramínea regendo canteiros
    amornam primícias e a secreta rosa
    no rubro casulo desvela essa tosa

    Um sol veste orgasmo nas ervas das águas
    e se põe arco-íris remato regato
    e o jato de curva molhado regaço
    alavanca a arma tão umida/mente
    em forte arremesso sereno adormeço

    Não é fácil encontrar tal riqueza de aliterações, um manejo tão seguro e oportuno de apoio rítmico, dessa harmonia imitativa tão difícil de alcançar.

    Pena que se foi tão cedo!

  2. Magaly says:

    Desculpem, mas a cópia não reproduziu os espaços necessários para marcar a segunda leitura.
    Agora estou sem tempo, mas volto para corrigir a falha.

  3. Magaly says:

    PASTORÁLIA COM 3 LEITURAS
    PARA SOLO DE AVENA

    Anibal Beça

    Em cerdas de seda arremeto em pausa
    meu coração toca arremato em pouso
    música de pasto linha de nervura
    nervos de galope todo corpo é frouxo
    na ravina clara todo corpo é fúria

    As línguas de fogo são galhos erguidos
    incendeiam tufos tuas mãos ardentes
    brasas de gramínea regendo canteiros
    amornam primícias e a secreta rosa
    no rubro casulo desvela essa tosa

    Um sol veste orgasmo nas ervas das águas
    e se põe arco-íris remato regato
    e o jato de curva molhado regaço
    alavanca a arma tão umida/mente
    em forte arremesso sereno adormeço

    Agora, sim, saiu certinho. Podem admirar o fomato.

  4. Magaly says:

    OBS.: O comentário nº 1 fica como a terceira leitura
    DESCONSIDEREM O COMENTÁRIO Nº 3

    PASTORÁLIA COM 3 LEITURAS
    PARA SOLO DE AVENA

    Anibal Beça

    Em cerdas de seda arremeto em pausa
    meu coração toca arremato em pouso
    música de pasto linha de nervura
    nervos de galope todo corpo é frouxo
    na ravina clara todo corpo é fúria

    As línguas de fogo são galhos erguidos
    incendeiam tufos tuas mãos ardentes
    brasas de gramínea regendo canteiros
    amornam primícias e a secreta rosa
    no rubro casulo desvela essa tosa

    Um sol veste orgasmo nas ervas das águas
    e se põe arco-íris remato regato
    e o jato de curva molhado regaço
    alavanca a arma tão umida/mente
    em forte arremesso sereno adormeço

    Agora, sim, saiu certinho. Podem admirar o fomato.

  5. Magaly says:

    Gente! Estou morrendo de vergonha. Novamente os espaços que deixei não foram reproduzidos Alguma coisa que ignoro completamente.
    O jeito é vocês colocarem uma barrinha inclinada depois de cada palavra reproduzida abaixo, correspondente a cada verso.

    seda/toca/pasto/galope/clara (1ª estrofe)

    fogo/tufos/gramínea/primícias/casulo (2ª estrofe)

    orgasmo/arco-íris/curva/arma/arremesso (3ª estr.)

    MIL PERDÕES A VOCÊ, MEG, E AOS COMPANHEIROS LEITORES.

    • sub rosa says:

      Minha d0ce Magaly, querida.

      Não se preocupe, vc fez e de forma clara as três leituras. Você decompôs lindamente o Poema, que Aníbal está rindo, satisfeito. Sei que está.

      Vamos fazer o seguinte : quando fizer um mês do passamento de Anibal, a gente coloca a PASTORÁLIA , num post especial como o devido HTML. Voilà! Voilà:
      Este é que é o mistério de vc ter feito e não ter saído. Para precaver, evitar, dificultar vírus, os comentários no WordPress são em PLAIN TEXT.

      Mas, vc faz o post e eu reproduzo aqui com música e tudo. E conjuntamente vc pode publicar onde mais achar que deve, querida

      Faremos a 4 mãos, sendo três suas e uma minha:-))))

      A música fica à sua escolha.

      beijos, muitos beijos.

      P.S.

      Vale lembrar a afirmação mais que certa, verdadeira e precisa: Cada leitor tem o poema que merece. Eu iria colocar a Pastorália, mas por dar esse tipo de trabalho e eu estar muito doente (quem fez o post do EDUCON, como vc sabe foi a própria Isabela) escolhi outro, e preferi mandá-la por email para você.

      E sua resposta foi uma verdadeira tomada de posse.

      Amo você. de forma inapreciável. Vc é peerless:-)

      beijos da sua
      Meggy.

  6. Saramar says:

    Meg, obrigada por este verdadeiro presente.
    Foi-se o poeta, ficam os versos e esta tristeza funda de quem perdeu um pedaço.
    escrevi, pequeninos versos em homenagem a ele.
    São assim:

    Quando um poeta se vai
    encher as nuvens de versos,
    fica nos olhos a beleza
    e no coração, com a saudade,
    ficam as palavras guardadas,
    mudas de tanta tristeza.
    Mas fica no chão a semente,
    do amor, da arte, do sonho.
    Ficam conosco os poemas.
    E mesmo que a pena emudeça
    nunca o poeta se cala,
    nunca se vai sua voz,
    pois que seus versos ficam
    na alma de todos nós.

    beijos, saudades.
    P.S. Já estou bem melhor, apesar do repouso (isso nunca acaba, ai, ai). E você? Como está?

  7. sub rosa says:

    Putzgrilo! Que coisa Saramar.

    Que finura, que elegância e que força expressiva!
    Gostei muito, gostei muitíssimo, pois essa tema, o da despedida e o do silência pós-Vida do Poeta é delicado.
    Vc se houve muito bem. Bonito. Parabéns. Vc está sempre melhor.
    ****
    Isso termina sim, seja lá o que for e seja lá o cansaço (lembra o cansaço do Pessoa?) ou o descanso que a gente precise.
    O importante, querida e não desistir nunca. J-A-M-A-I-S!
    Eu vou estar sempre aqui , em qualquer lugar, para pessoas maravilhosas como você.
    Beijos
    Meg
    Fique bem, a gente sempre fica.

%d blogueiros gostam disto: