Coda – Vivina de Assis Viana escreve…

Quando fiz a consulta às pessoas que mais admiro na blogosfera  acerca de Graciliano Ramos, soube logo que seria imprescindível consultar a consagrada escritora Vivina de Assis Viana, que conheci há bastante tempo através dos livros que li (eu e Regina Alves, professora da UFPa e minha melhor amiga) e que como mágica, vi aparecer – um dia! –  em letra e espírito, nas caixas de comentários de vários blogs amigos, em especial a do Lord Broken Pottery.
Enlevada, magnetizada e com a excitação de quem vê um(a) deus(a) do Olimpo se materializar,  escrevi à Regina, e logo iniciamos um contato por email. A freqüência dependia das viagens que Vivina faz grande parte do tempo para a fazenda que possui no interior das Minas Gerais. E, claro, de suas (muitas) ocupações.

Quando enviei as peguntas às quais Vivina respondeu com o estilo elegante de sempre, trocamos um breve comentário. Claro que como sou “saída, apresentada e saliente” , tudo  culminou hoje com a publicação de um texto que Vivina de Assis Viana escreveu  es-pe-ci-al-men-te para o Sub Rosa (conheceram, er…queridos? ;-)

Então, em grande estilo, a coda (excelsa conclusão) à homenagem a Graciliano Ramos, ao seu filho e ao seu neto.  Uma família dinástica.
Fiquem com ela . Primeiro as respostas, o que facilmente se encadeia com o texto especialíssimo.  Obviamente, palmas ao final:-)

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano …
Se você se refere a contato pessoal, não tive, infelizmente não o conheci.
Conheci Ricardo Ramos, filho dele, que entrevistei quando fiz, para o Jornalivro, um trabalho sobre o pai. Isso deve ter sido em 71, 72.
Se você se refere a contato literário, eu o conheci cursando a faculdade de Letras, em Belo Horizonte, anos sessenta. O primeiro livro dele que li foi São Bernardo, que nunca mais esqueci. Até hoje é o livro de que mais gosto, daqui ao fim do mundo.

2-Acha que o texto dele é de difícil leitura (leitura “difícil”)
Não, de forma alguma. Trata-se, isso sim, de um texto elaboradíssimo. De uma concisão e de uma simplicidade resultantes de muito trabalho e muito talento.
Afinal, escrever “fácil” é que é “difícil”.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
O que seria um autor popular?
Ser lido, conhecido pela maior parte da população? Se for isso, não.
Escrever sobre seu povo, denunciar, descrever, lutar com palavras e idéias? Se for isso, sim.
Ser conhecido, lido e respeitado por professores, escritores, intelectuais em geral? Se for isso, claro que sim.
Não, Graciliano não é freqüentemente citado/lembrado, mas deveria. Como sonhar não é proibido, sonho com o dia em que isso aconteça, com justiça e propriedade.

Fui – e sou – amiga da família, sim. Família muito afetuosa, muito generosa quando se trata de sentimentos. Sempre me senti bem entre eles e, como disse, eu os conheci por causa de meu primeiro trabalho sobre o Graciliano.
Quem dirigia o
Jornalivro era o Roberto Freire, que me sugeriu conversar com o Ricardo – que eu não conhecia – sobre o pai. Roberto soube que eu gostava do Graciliano, essas coisas.
Pois bem:conheci o Ricardo na agência McCann-Ericsson , ele era o diretor. Conversamos após o expediente, ficou tarde, ele me sugeriu continuarmos outro dia, na casa dele, à noite.
O outro dia virou outros dias, muitos, todos.
Conheci Marise, a mulher, os filhos Ricardo e Rogério, adolescentes, Mariana, oito/nove. Depois conheci D. Heloisa, pessoa maravilhosa, avó homenageada – com razão – nas histórias do
Caco.(*)
Começamos a conviver, nunca mais paramos. Almoços, jantares, ora em casa deles, ora na nossa, papos sem fim, meus primeiros textos, meus filhos nascendo, visitas na maternidade, aniversários, casamentos dos filhos dele, ah, quanta convivência enriquecedora.
Mais tarde, 78, quando eu estava grávida do segundo filho, Bernardo, fui convidada pra escrever o volume Graciliano Ramos para a coleção Literatura Comentada, da Abril Cultural.
O livro ficou legal, D. Heloisa gostou muito, os afetos cresceram.
Nos anos 80, Ricardo me convidou pra trabalhar com ele na Fundação Nestlé de Cultura, onde ele coordenava a Bienal Nestlé de Literatura Brasileira.
Daí pra frente, você já sabe:
Ricardo Filho, o Caco, começou a escrever, Ricardo pai me mostrou os originais, me entusiasmei, você sabe.
De todos os escritores, Graciliano é o que eu mais gostaria de ter conhecido. ( Entre os cantores, meu sonho tá realizado: conheço o Paulinho da Viola).
Como não aconteceu – ele faleceu em 53, eu tinha treze anos, no interior mineiro – sinto que, através destes descendentes tão queridos, pude conhecer um pouco – ao menos um pouco – mais do escritor talentoso que os livros sempre me mostraram.
Conheci um pouco mais do pai por inúmeras conversas com Ricardo, e por algumas outras, poucas, como Luísa, irmã dele que mora na Bahia, e que eu encontrava em festas, casamentos, um Natal.
Conheci um pouco do companheiro por muitas conversas com D. Heloisa que, sentindo o fervor de minha admiração, contava casos dele, deles, se revelava, me enriquecia.
Conheci um pouco do sogro, e não me esqueço de Marise me dizer que ele queria vê-la vestida de noiva, mas não podia, estava mal, hospitalizado. Pois o casal foi ao hospital, e a noiva foi considerada linda pelo sogro emocionado, que se iria logo depois.”

=-=-=-=

Vivina, coisas como essa a gente não consegue expressar, não se abarca com as mãos e nem com as palavras, como disse um admirador de Graciliano Ramos, o J.G.R. o que você escreveu é “puro brilho de estrelas”.

Podria haver conclusão mais bela, melhor, para  um trabalho?  Fico muito honrada e agradecida.  No fim das contas esse trabalho todo foi tecido com o etéreo estado de graça que dominou todas pessoas envolvidas. Eu apenas uni os fios da tessitura.

Todas as flores do mundo para você, e muitas músicas de Paulinho da Viola (preferência nacional, espero) .Obrigada, Vivina.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

18 Responses to Coda – Vivina de Assis Viana escreve…

  1. Magaly disse:

    Coda especialíssima, puro brilho de estrelas, como diz você, Meg.
    Nada encerraria melhor esta deliciosa homenagem do que esta sedutora intimidade familiar revelada tão simpatica e naturalmente.
    Linda, Vivina, que você é. Adorei conhecê-la aqui e pela razão que foi: tecer loas a meu escritor favorito.
    Deus a abençoe.

  2. Chave de ouro, Meg…
    Chave de ouro!!

  3. lord broken pottery disse:

    Meg,
    Delícia o texto da Vivina, não poderia ser diferente. Bela homenagem, ficou bem legal o trabalho. O que a Vivina não contou, talvez por modéstia, é que sempre foi muito querida pela família. Meu pai, minha mãe, meus irmãos e eu, sempre a admiramos. Hoje, junto com a Mariana dela, não a minha irmã, o Bernardo e o Fabiano (meio sumido), são meio que parentes nossos, por afinidade. É assim que gosto de enxergá-los. E além de tudo, não canso de repetir, é minha madrinha literária.
    Beijo grande

  4. ana vidal disse:

    Que deliciosa intimidade familiar se criou aqui, a propósito de literatura!
    É bom ler e sentir esta corrente de calor humano, de gente especial e simples ao mesmo tempo.

    Um beijo para ti, para Vivina e para o nosso (é também meu, um bocadinho…) Ricardo-Caco.

  5. denise rangel disse:

    Ai, que coisa demais! Vivina é flor, é poesia, é gentileza e inteligência. Tive o prazer de conhecê-la no lançamento do livro do Lord, em São Paulo. Privilégio, eu diria. E fala de Graciliano com muita propriedade. Fiz um post sobre esta sua pesquisa.
    beijo, menina

  6. Pingback: Uma rosa para Graciliano | Sturm und drang!

  7. Ery Roberto disse:

    Meg, quando é que essa criatura vai nos presentear com um blog? Sei que ela nem gosta que se toque neste assunto, mas é inevitável.

    … esse trabalho todo foi tecido com o etéreo estado de graça que dominou todas pessoas envolvidas. Eu apenas uni os fios da tessitura. “. Não, você também projetou o trabalho. Sem este belo pensar não nos teria proporcionado a oportunidade de entrar em “estado de graça”.

  8. Adalberto Queiroz disse:

    Clap-clap, Meg.
    Ça on peut dire: c´est haut de gamme!
    Amizade renovada,
    Beto.

  9. Isabela disse:

    Meg, você teceu uma bela homenagem a Graciliano Ramos nos 70 anos de “Vidas secas”: com o texto de abertura do escritor Ricardo Filho (que em um dos parágrafos remete a um tema interessante na educação – a sociologia da reprodução), com a pesquisa do livro preferido dos leitores do Sub Rosa, com os depoimentos e com este encerramento que deu uma “intimidade familiar” (usando expressão de Magaly) ao trabalho.
    Beijos.

  10. Orlando Gemaque disse:

    Bem, eu concordo com tudo o que foi dito acima, com o todos os que disseram antes de mim.

    Uma coisa impressionante e muito emotiva.
    A escritora com suas palavras certeiras nos faz sentir quase como se estivessem todos reunidos aqui.
    Beleza pura. Parabéns.

  11. Maria Virgínia G. Batista de Castro disse:

    Parabéns! Vivina é o máximo da inteligência e gentileza.
    Gostaria de saber se há um endereço de e-mail para eu me comunicar com ela.
    Agradeço,
    Virgínia Batista

  12. Andréia Hernandes disse:

    Meg querida,
    Não te conheço, mas estou orgulhosíssima de você. Tenho orgulho de quem sabe com todas as letras o quanto ler a Vivina é gostoso.
    Obrigada por disponibilizar esta fala tão bonita dela. É uma delícia lembrar do quanto ela fala, e de como ela fala. Estudo a Vivina desde 2004 e acho que ela tem tanta coisa a ser dita que às vezes parece que não estudei nada.
    Beijos Leitores
    Andreia.

    • sub rosa disse:

      Minha querida lectrice:-) Perdoe-me só hoje ter visto seu gentilíssimo e inspirador comentário, Estou doentinha e assim que melhorar vamos falar muito de Vivina, o que só é superado por falar *com* a Vivina, felicidade que nunca tive. Obrigada por suas palavras Um beijo e fique em contato (é assim que se escreve, não é?) Obrigadíssima, Andreia. Meg

      • Andréia Hernandes disse:

        Meg, queridíssima,
        Olha só que coisa: você se desculpa pelo atraso de seu comentário, e eu, faço o mesmo: atraso!
        Quem pede mil perdões, então, sou eu. Pois bem, agora está 1×1.
        Fico pensando que você irá, de fato, amar conhecer a Vivina. Ela é um docinho de coco.
        Estivemos juntas em Londrina há um mês. Ela foi assistir à defesa de minha dissertação de mestrado, que tratava… bem, adivinha do que ela tratava…?
        Costumo dizer que a Vivina até conversa literariamente. Ela conta histórias deliciosas, escolhendo as palavras com minúcia, deixando os causos com cara de livro…
        Meu namorado, que é da engenharia, moço dos números, das objetividades, das obviedades e das certezas, ta encantado: não imaginava que tinha gente que contava história tão gostosa só falando da vida, do dia-a-dia…
        Bem, querida, ficamos por aqui, por enquanto,
        Bjos retardatários,
        Andreia.

  13. ola meu nome e julia carolina eu adoro suas historias principalmente o livro diario de uma adolesente eu achei meuto interesante adoro os telefonemas dela e do rafa (rssrs) sabe um dia eu vou escrever um livro asim como o seu. espero que a sinhora me responda tenho 12 anos e estudo no martin francisco sou da 6b e adoro a senhora.

  14. Pingback: As crônicas de Vivina « Sub Rosa (flabbergasted) v.2

  15. Danyllo Design disse:

    Meg,

    estou com um projeto em andamento e gostaria de saber se podes me ajudar.
    Estou querendo saber o dia exato em que Graciliano Ramos recebeu o prêmio “Felipe de Oliveira” no Restaurante Lido, Rio de Janeiro, 1943.
    Grato;

    muito bom o blog…

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