Graciliano Ramos e ‘Vidas Secas’ 70 anos depois (Final)

[atualizado]

Olá a todos.

Este é o final dos depoimentos a respeito de VIDAS SECAS, e por extensão, acerca de Graciliano Ramos. Mas digo que alguém que eu queria ouvir muito /ler a respeito de quase tudo é  a maravilhosa Vivien Morgato. Bloody timidez a minha. Damnit! Fico felicíssima quando ela me dá a honra de vir ao Sub Rosa.  Na próxima enquete que eu fizer, vocês são testemunhas, a Vivien não me escapa, mas não mesmo). Ah! leonina, eu sabia! :-)

Comecemos, pois:

M.
cá estão minhas respostas:

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano. (Se não houve, digam por favor)
Mamãe é alagoana. Graciliano veio por ela, como um velho amigo da família. Não lembro o primeiro contato, ele sempre esteve por perto. Claro que A Terra dos Meninos Pelados tem grande influência no meu bem-querer a Graciliano Ramos. A terra de Tatipirum, a Caralâmpia e o Raimundo brincaram comigo quando eu era menina.

2-Acha que o texto dele é de dificil leitura/(leitura “difícil”)
Não acho difícil. Acho que o leitor tem que estar preparado para ele, o que é diferente. Graciliano não é Paulo Coelho :)

3- Acha que ele não é popular? É popular?
É mais popular que uns e menos do que outros. Guimarães Rosa e Machado de Assis estão mais em alta, agora. Mas é tudo uma questão de efemérides :D Chegam centenários, a mídia explora mais um escritor do que outros… Por exemplo, eu acho Graciliano mais acessível que Rui Barbosa. Ele não é tão citado quanto José de Alencar, por exemplo, que é a base de trezentos vestibulares e Iracema é uma das coisas mais chatas que eu já li até hoje.

4- Sobre citações, ser citado como Machado e Guimarães Rosa, Graciliano está nessa situação? Acha que vai estar?
Vai depender. Do quê? De começarem a citar. De tirarem o pó dos livros. Não dá para comparar Graciliano a Mario Quintana, em matéria de citações em blog, por exemplo. Mas o Graciliano tem uma aura de regionalismo que o limita, no meu ponto de vista. Ele está no nincho de José Lins do Rêgo e Rachel de Queiroz. (Mesmo tendo escrito Memórias do Cárcere, que eu não li e não vi o filme) E precisa abrir as asas, abrir as páginas dos livros para alcançar mais gente – gente que não tem preguiça de pensar :D

Da queridíssima Stella Cavalcanti, uma das inteligências mais raras da blogosfera. Eu que a conheço pessoalmente, e a chamo de Ariana Suassaninha, de tão sabida que ela é. Enriqueceu as perguntas, esclareceu exatamente o que considerei como *popular*. Exatamente como Mario Quintana é. Obrigada, figliola. Ai, que orgulho.

Nota: Stella é a primeira a fazer referência à literatura infantil dentro do conjunto da obra de Graciliano Ramos.

Magaly Campelo de Magalhães:

Conheci G.R. em 1953 por um presente que ganhei de uma amiga, o livro Vidas Secas que, já em sua 4ª edição, causava impacto ao leitor desavisado. Sua leitura me tomou de assalto. Li, reli aquele texto que primava pela economia . Linguagem substantiva , seca, esturricada como a terra em que circulavam seus mirrados personagens , as figuras de Fabiano, vaqueiro destemido no trato do animal, retirante impotente diante da tragédia da seca, sua mulher Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia. A partir daí, Caetés, São Bernardo, Angústia, Insônia, Infância, Memórias do Cárcere. Não conheço seus livros para crianças.

***

Não, em absoluto. É uma leitura accessível, despojada, clara, franca, direta, sem excessos. Irrepreensível.

***

Pode não ser tão citado como os dois grandes nomes , mas é um autor reverenciado por seu seguro domínio do português, pelo tratamento psicológico que deu a seu texto através da análise das peculiaridades de seus personagens e pelo caráter universal de seus temas dentro de uma literatura regional. E, na minha opinião, tão grande quanto seus pares, um dos pilares de nossa literatura.

***

Trecho de Graciliano:
“Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.

Magaly, grande dama da blogosfera, só lhe digo uma coisa: eu queria, eu queria mesmo ser você. Na impossibilidade tento ser como você, o que é dificílimo. Obrigada. Beijos para Laurinha e André.

ALIKI – Suíça.


Meg ma très chère,

estou num estagio […] e longe, longe, longe de Graciliano, assim que vou responder short and sweetly, com a cabecinha enferrujada:

1. 1° contato com Graciliano foi no colégio, leitura de vestibular (inicio de anos 70). Eu ja adorava ler de tudo, menos o obrigatorio, entao entrei em gracilianidade freiando. O cinema depois é que me devolveu o gosto do Graciliano lido.

2. Difícil não diria. Rigoroso sim. Construçao séria, solida.

3. e 4. Posso falar da “popularidade” dele com relaçao aos brasileiros letrados longe da patriamada: sinceramente, não é de Graciliano que sentimos saudades de chorar, de reler, de trocar reliquias, livros anotados, citações, personagens. Graciliano não surge nos sonhos, nao nos faz buscar precisamente como aconteceu nem onde foi nem como exatamente ele escreveu aquilo. Nao quero parecer injusta, mas Meg, até verifiquei com amigas proximas, que tb se lembram dele de forma escolar (uma prova, um trabalho sobre ele, uma leitura em voz alta).
Ta de bom tamanho?
Beijos

Da ALIKI, que é pessoa-presente-de-Natal-o ano-inteiro, orgulho para nós, os privilegiados que somos visitados por ela.

Oi, Meg

Bem, vamos lá:

1- Meu primeiro contato com Graciliano Ramos foi com o romance Angústia. Não consegui separar a realidade da alucinação: não sei se o matou de verdade ou apenas em sua mente. Angústia é um livro forte, e com uma narrativa psicológica densa. Angustiei-me junto com ele.

2- Sim, acho que é difícil pois possui uma linguagem extremamente objetiva e formal. Com o passar dos anos e por força da profissão, ele acaba ficando fácil de entender, mas, para quem inicia em sua leitura, há um processo difícil , com certeza.

3- Em minha área de atuação ele é popular, mas, no dia a dia, ele não é tão citado quanto os autores que você citou. Mas, por outro lado, acredito que ele seja bem popular pela força de sua mensagem.

Espero que tenha ajudado.
beijo, menina

Denise Rangel, a Dêzinha, do meu coração é grande e experiente professora de Língua Portuguesa e Literaturas.

De uma das pessoas mais atuantes, atentas e que mais tem amigos na blogosfera: Ery Roberto.

Meg, querida!

Perdoe a demora em responder. Nem mais me justifico porque você sabe das minhas multi-ocupações.

Mas, é um prazer responder às suas perguntas.

1- Meu primeiro contato com Graciliano deu-se alguns anos depois que me foi recomendado como uma leitura capaz de revelar o dom de escrever o essencial, construção de narrativas fabulosas a partir do sintético. A produção de uma linguagem rígida resultando em trabalho admirável. Foi-me dito também que se tratava de um estilo onde eu não encontraria sentimentalismos, todavia podia esperar perfeccionismo (Graciliano submetia seus textos a uma enxurrada de revisões e, dizem, nunca estava satisfeito). Não tenho condições de reproduzir com perfeição, mas foi mais ou menos isto que me disse uma querida professora de língua portuguesa no longínquo curso ginasial.

2- Fui ler Graciliano somente quando estrava na Faculdade de Filosofia. […} fui movido pela recomendação e porque havia necessidade de participar de alguns grupos de trabalho à época.
Confesso que não senti entusiasmo em uma primeira leitura. “Vidas Secas” trazia uma abordagem social na exploração do psiquê daqueles personagens. Achei difícil. E acabei mandando Graciliano para a prateleira. Ah, que desperdício, né?  Somente fui mudar de opinião 10 ou 15 anos depois quando voltei a ler e aí mergulhei em “Memórias do Cárcere”.

3- Meg, o conceito de popular em literatura é muito relativo, penso. [—] Depois, em análise assim, a época de Graciliano era totalmente diferente para a literatura se comparada à nossa época mais recente. Creio, não posso afirmar, que os autores do início do século passado ainda não escreviam romances para serem “comercializados”. Havia, intrinsecamente, uma proposta mais parecida com arte. Arte literária. E você sempre soube o quanto é difícil se tornar popular com arte. Esta condição do escrito de Graciliano, trazida para nossa realidade hodierna, embora não o torne impopular, causa, no mínimo certo receio dos novos leitores pela falta que sofrem de transmissão de referências. Depois, a escola hoje em dia não incentiva à leitura como éramos incentivados em nosso tempo. Veja minha experiência – não li tão logo me foi recomendado, mas guardei aquilo e na primeira oportunidade que tive vontade eu lembrei e fui ler.

4- Penso que Graciliano não está na mesma situação de Guimarães e Machado. Talvez o que leve as pessoas a guardarem mais frases destes dois é o fato de serem mais lidos, pelo menos é possível afirmar isto de Machado de Assis. Mas em Graciliano uma frase me marcou muito, justo porque nela vi reproduzida a prova do argumento que utilizou minha velha mestra na sua recomendação: “. Quer algo mais direto para justificar a maneira “enxuta” com escrevia?

Meg, eu não li “O Grande Sertão Veredas”. Sei o que estou perdendo. Ainda o farei um dia.
Do que li senti Graciliano como um revolucionário tempestivo, um grande conhecedor do seu tempo, um crítico social corajoso, pois não apenas mostrou com tanta propriedade as mazelas sociais do sertão nordestino, como muito principalmente expôs até a nudez profunda os seus personagens, revelando-lhes todos os recantos da intimidade (entenda-se  todos os dramas, angústias, desejos e sonhos).

Querida, desculpe a minha pouca intimidade com ele, o que reconheço, mas não poderia deixar de responder isto, pelo menos, pra você.

Beijos.

Ery Roberto

Ery, querido, está faltando você atribuir o ouro a um post seu, OK?

Da queridíssima Marie Tourvel, culta e de uma afabilidade inimaginável. Adorei “conhecer” a Marie. E que  respostas sinceras e certeiras:

Olá, Megleen, querida.

Falarei o pouco que sei sobre Graciliano. Já vou dizendo que não é dos meus favoritos [—]

1- Meu primeiro contato com Graciliano foi com Vidas Secas que li na adolescência. Papai me deu o exemplar. Papai me disse que ele era um comunista carcamano (sabe como é italiano, né?), mas que valia a leitura. Confesso que me entediou um pouco, mas sei da importância da obra. Em seguida pediram para que lêssemos para uma prova na escola. Não consegui reler, fiz a prova na raça e me saí bem, até. Não considero uma leitura tão difícil, não.

2- Repetindo: não acho que seja uma leitura difícil, acho uma leitura densa, isso sim.

3- Na realidade, Megleen, não considero nenhum escritor brasileiro popular. Injustamente, claro. Nem Machadão é popular. Eles são populares dentro de um universo muito pequeno por aqui. Repito: infelizmente. O maior exemplo é Lima Barreto. Gosto demais do Policarpo Quaresma, que pra mim é um dos melhores livros escritos por aqui.

4- Li Memórias do Cárcere e Angústia, também. Angústia lembra vagamente Dostoiévski em Crime e Castigo e acho que é o melhor livro dele. Eu me lembro de uma coisa que ele falou: “só posso escrever o que sou“. Acho que ele era um idealista mesmo. Daqueles que acreditavam piamente que o comunismo nos moldes sovéticos era o caminho. Muito diferente do esquerdismo petista que vemos hoje.

Confesso que não lembrei de nenhum trecho de cabeça. Lembrava vagamente de uma parte do livro Angústia em que ele falava alguma coisa de vitrines de livros e prostituição. Naturalmente fui procurar e encontrei:
“Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição.”

[—]não acho que esse meu relato chinfrim sobre o Graciliano ajudará alguém. Não entendo tão bem ele. Talvez a partir deste seu e-mail e de seu post você me faça reler as obras dele. E isso é muito bom.

Marie Tourvel. Adora Baudelarie e Auden. É perigooosa:-) e excelente blogueira. A-do-rá-vel Marie. E para não haver problemas, eu chamo a Marie de “perigosa”,  numa alusão à personagem que ela escolheu para pseudônimo, do romance de Choderlos de Laclos, Liaisons Dangereuses.

Leiam com toda atenção (como devem ter lido os demais, este especial depoimento, de Julio César Rocha Gomes.  Além de tudo de maravilhoso que ele é,  ele ainda é meu Amigo, de *ages*, desde antes da era dos blogs e é meu crítico de cinema insurpassable.

Oi, Mozamô!

First of all, desculpe a demora. As deadlines, cada vez mais vivas e urgentes, aqui do trabalho, impediram-me de responder suas questões ontem. Ainda dá tempo? Vamos lá, anyway.

Quase não conheço nada do Graciliano: só li, mesmo, “Vidas Secas” e “São Bernardo” (este último no ano passado (ou no começo deste ano, nem lembro direito) – o Vidas veio primeiro e faz tempo que li, ainda no colégio).
Como sou um completo achonauta em matéria de literatura (e em quase tudo o que resta na vida, também, vá lá), vamos “empirizar”:

A julgar por essa experiência mínima, acho (olha o achonauta, aí, gente!) a linguagem do Graciliano bem fácil e acessível, mais até que o Machado (do que a do Rosa, nem se fala, né?). Ele é bem direto, mesmo num romance de cunho intimista, como “São Bernardo”, é possível perceber isso de maneira muito simples, mas nem por isso menos engenhosa. A deterioração da fazenda como alegoria da derrocada existencial/moral do protagonista é um artifício muito comum entre os escritores (vide “Morte em Veneza”, [de Thomas Mann]para ficarmos num exemplo conhecido).

Talvez seja justamente essa “simplicidade” que tenha seduzido os cinemanovistas para transportar (tão bem) Graciliano para a tela. Esses dois livros (não li e nem vi “Memórias do Carcere”) possuem um apego à objetividade que parece querer aprisionar os protagonistas à realidade que os cerca e, ao mesmo tempo, estão sempre oferecendo linhas de fuga pelos cantos de página… Tô viajando, já, né? Baixou um sub-infra-Antonio Candido aqui rsrsrsrs Não sei explicar bem, acho que é justamente a incrível humanidade (no sentido físico, mesmo; como pessoas plausíveis que eu quase conheço de tão vivas) desses personagens que mais me fascina. Achei “São Bernardo” primoroso; de “Vidas Secas” não posso falar muito além daquilo que foi dito por aí, até mesmo por não lembrar quase nada além do básico da história.

Popular? O Graciliano? Não diria isso. Ao menos, não o vejo integrando um caderno de citações (ou “pensamentos” rsrsrs) assim à toa (joguei no Google para testar e os resultados foram timidíssimos, quase protocolares, eu diria). Sua escrita não provoca esse impacto imediato que alguns textos do Rosa, Clarice ou Machado trazem. Eu diria que o Graciliano seduz mais pelo conjunto do texto (o tema, a abordagem, a força da narrativa) do que por trechos isolados. Decididamente, ele não é um frasista ou aforista.”   Júlio Gomes.

Não posso acrescentar mais nada. Conversando com a escritora Vivina de Assis Viana (por email, eu dizia que era exatamente essa simplicidade, expresiva e objetiva que eu queria alcançar. Aliás,  Vivina é que fará a coda dessa série.  Julio, mon Jules, obrigadíssima. Você é o mácsimo;-)

♣  

Fim da primeira parte. Agora, vamos à segunda:

São pessoas especialíssimas para mim (não que os demais não sejam e muito) mas é que essas pessoas, ah! eu ia morrer (ops) se elas não tivessem respondido. Agora vejam se eu não tenho razão em dizer que meus amigos são messssmo o MAC-SI-MO (como diz o querido Gravatá):

“Ei Meg,
Desculpe a demora…mas estou atolada de trabalho e viajo amanhã. Bom, meu primeiro contato com graciliano foi em casa, Minha mãe tinha São Bernardo.
Eu vou te contar que eu não posso entrar nessa pesquisa, porque eu sou super falha com autores nacionais. Eu gostava muito do machado quando era adolescente, dos contos. Porque minha mãe era fã e tal. Mas depois eu parei de ler literatura brasileira. e eu sei que é uma falha de caráter mas…

eu nem sei direito falar academicamente também, porque minha formação é em arquitetura. não sei o que falam do GR lá. (aliás boa parte da minha vida eu não conseguia diferenciar o Guimarães rosa do Graciliano porque os dois tem as mesmas iniciais e isso é uma tortura pra mim que sou disléxica).
Então eu tenho essa dificuldade toda. O nome, a literatura nacional, minha ignorância.

Eu sei que esse e-mail foi um grande desapontamento e me perdoe…eu não sabia o que era pior, te desapontar ou não te responder, hehe
J.”

Gente,  hahaha, que lindinha, não é? vocês estão vendo porque eu sou metida? Meus amigos, à vera, são todos como eu gostaria de ser. Essa moça , na realidade, uma menina linda e lida, é arquiteta, vive no Cad monkey, já viu Jesus e escreve lindamente, faz literatura em *forma breve* e é modesta. Tanto quanto é engraçadíssima e so, so sweetie. J. eu te adoro. E tudo o que vc disse, como essa coisa das “iniciais” é importante.

Leiam esse conto- divagação da J. Eu morri de rir e fiquei boba;-) “Falha de caráter” e hipersensibilidade no nervo vago, eu a-do-ro- isso. Sem contar que ela viu Jesus;-))

E voltem para ler o que segue:

Dear Meg, tentei responder suas perguntas, espero que sejam de alguma serventia…
Se tivesse menos tarefas com prazo, falaria de modo mais elaborado, mas me pegou numa hora difícil….

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano.
Li trechos de Vidas Secas no livro de português da sétima série. Li o livro completo pelo menos duas vezes – uma espontânea e outra porque o livro foi indicado para o vestibular. Li também Memórias do Cárcere e Infância, ainda durante o Colégio. Estranhamente, não li A Terra dos Meninos Pelados, que está até hoje na minha infindável lista de leituras pendentes – tem horas em que eu odeio ter estudado Direito!

2-Acha que o texto dele  é de difícil (leitura “difícil”)?
Não achei a leitura de Graciliano difícil. Entretanto, ouvi meu sobrinho mais velho dizer que “ele não sabe contar histórias…”, no sentido de que como a narrativa não é linear (ele estava se referindo a Vidas Secas, indicado como “leitura obrigatória” no primeiro ano do ensino médio), ele tinha dificuldade de apreender o conteúdo do livro.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
Apesar de abordar temas referentes a experiências cotidianas, principalmente do Nordeste, Graciliano não costuma ser citado, do modo como contido nos exemplos. Entretanto, já vi muitos cachorros feiosos serem chamados de Baleia, em homenagem ao gracioso personagem canino de Vidas Secas…
Não sei se ele vai virar “pop”, a despeito da profecia de que o pop não poupa ninguém… Mas é muito abordado no colégio, tanto no ensino fundamental como no médio.

P.S.:
No caso específico de Vidas Secas, o aniversariante do ano, talvez os “meninos de cidade” (como meu já citado sobrinho) tenham mais dificuldade para apreender o conteúdo da narrativa, pelo distanciamento da realidade retratada. Eu, por ter nascido a apenas cento e poucos quilômetros do sertão retratado no livro, sabia o que era gibão, arreio, conhecia gente feito Fabiano e Sinhá Vitória, policiais amarelos, meninos como o menino maior e o menino menor e cachorros como Baleia. Para mim, tudo aquilo fazia sentido – talvez muito mais sentido do que, por exemplo, Memórias do Cárcere, cuja realidade hominizada que se apresentava era contraponto e complemento às lições de história aprendidas no Colégio…
É evidente, Meg, que a minha leitura de Vidas Secas é absolutamente pessoal e não pode servir como parâmetro exatamente por retratar uma paisagem familiar. Foi diferente para mim ler esse livro em relação a qualquer outro em que o ambiente fosse fundamental para o desenrolar narrativo, simplesmente pelo fato de que a minha vivência anterior fazia parte da leitura que fazia do livro, sendo que os personagens adquiriam rostos conhecidos.

P.P.S.: Não sei como poderia utilizar esse desabafo, mas está sempre autorizada a me citar.
Beijos, querida Meg, espero ter ajudado de alguma maneira…

Marília J. Nunes é a advogada mais jovem do Brasil. Ah! ela é juíza: acredita na Justiça. Após tudo isso, é minha filhota.

Carlos Eduardo Martins:

“A Mesa reconhece a cumpanhêra Maria Elisa!

À tareeefa, pois.

1. Vidas Secas. Só não tenho certeza se li o livro antes de ver o filme do Nelson Pereira dos Santos, ou vice-versa, pode ter sido uma coisa ou outra (minha mãe, surpreendentemente, tinha Memórias do Cárcere, mas esse eu só li mais tarde).

2. Não; difícil é ler Os Sertões de enfiada…

3. / 4. No sentido de ser muito lido / citado, não; suponho – não foi meu caso, não passei por tais dissabores – que, fora dos círculos acadêmico-literários, muita gente só tenha lido Graciliano (provavelmente Vidas Secas) como tareeeefa escolar, e nunca mais. Acho que é mais conhecido “de nome”, “ah, já ouvi falar”.

Frase (afora a célebre anedota do “Via de regra é a b****a da sua mãe!”), pra mim continua sendo: “E o sertão continuaria a mandar para a cidade gente bruta, forte, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos” (estou citando de memória, não garanto a literalidade), que fecha livro e filme.

Pode citar à vontade. Já disse, minha vida é um livro aberto (com algumas páginas coladas e outras cobertas por tarjas pretas, bien sûr).

Carlos Eduardo Martins é economista,  sabe tudo e me faz rir sempre. Sempre que eu não sei, ele ensina. Está amplamente citado com destaque no Sub Rosa.  Em LEIA você verá porque é destaque. Ah! escreveu um clássico sobre HQ ou similar. AS TARZANAS. Foi publicado na Espanha. Tá vendo só, esses nossos bons economistas!

UPDATE:

Mais dois depoimentos que não poderiam faltar:

Minha mais que querida amiga, a jornalista Elis Marchioni Rojas e o não menos querido, Leo.

Elis:

Meg, faz muito tempo que eu li um único romance de Graciliano, Vidas Secas. Mas vamos lá.

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano?
Meu pai tinha o romance Vidas Secas, uma edição antiga, e eu peguei da estante para ler, por conta própria. Faz muito tempo, eu devia ter uns 17 anos.

2-Acha que o texto dele  é de dificil (leitura “difícil”)
Não, ao contrário. Ele não é de muito rococó, considero um texto bom de ler.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
Popular, claro. É inspiração para autores mais jovens, teve personagens copiados na teledramaturgia, adaptações para o cinema e seus livros caem sempre nos vestibulares, além de possuir fãs. Mas, sinceramente, não sei o que é ser popular. Seria um Paulo Coelho? Neste caso, Graciliano não é popular. Meu conceito é mais abrangente.

Bravíssima, Elis!  e esta sua terceira resposta servirá de inspiração para todos que mencionaram aqui a questão da intertextualidade. E os que já me avisaram estar fazendo trabalhos sobre Graciliano usando esta abordagem.

Agora, o Leo, conhecimento recente, mas que se tornou uma das pessoas cuja opinião mais respeito na blogosfera:

1 – Como foi seu primeiro contato com Graciliano?
Por incrivel que pareça foi pela televisão. em um programa de vestibulares que passava na TV Cultura. Um resumo pela tv. O livro, Vidas Secas. Eu tinha 15 anos. 1 ano depois, li esse livro para a escola. Devo dizer que primeiramente a ‘contação’ me ganhou mais que a leitura. Para adolescente, tá valendo. Com 21 li Infância e a porrada de gostar do Velho Graça começou aí. Depois vieram os Grandes “São Bernardo” e “Angústia”, me abalei no 2º capítulo deste. Sensação boa demais.

2-Acha que o texto dele é de difícil leitura “leitura difícil”)
Não. Acho que não é convidativo. É um texto que não quer seduzir pela doçura, alías nem quer seduzir. Pra mim me parece giló. Tem que saber fazer senão é intragável. ele soube preparar. Mesmo assim não é todo mundo que gosta.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
Os livros são populares na medida em que os vestibulares o cobram, infelizmente. Estranhamente, acho a figura pública dele muito popular, principalmente para quem está começando a ler ou a conhecê-lo. Caso assim, também acontece com Lobato. é claro, dos regionalistas (argh!) depois do Jorge Amado, ele é o mais conhecido. Mais até que a Rachel de Queirós. Acho…

[Sobre ser citado…] Acredito que Graciliano nunca fez frases ou dizeres marcantes na sua literatura. E, de certa maneira, esse truque linguístico iria um pouco contra o que ele acreditava como literatura. Em compensação, ô homem… pra criar cenas de tensão e de imagens lindíssimas:
– Fabiano encontrando o soldado amarelo no canavial
– A morte da baleia
– Todo o penúltimo capítulo de Angústia
– Paulo Honório descrevendo a relação do filho com o capataz
– A morte de Mariana

Gente, que coisa, estou muito feliz, mas devo confessar que cometi uma injustiça, deixei de citar algumas pessoas. Não intencionalmente , é claro. Imagine se eu deixo esse trabalho sem as respostas do Leo ? Peço desculpas, publicamente.

Agora, queridos, vou deixá-los com esse presente. Para seguir a sugestão do Leo, os depoimentos  e trabalhos acadêmicos – como os da professora Isabela Menezes (junto com suas resposta à consulta) para citar um exemplo, serão publicados em um blog especial para Graciliano Ramos.

Até mais, mas não antes sem dizer que a data – ou a efeméride como diz Dra. Marília – foi comemorada nacionalmente. Evoé!

=-=- UM PEDIDO: Queridos, sempre que houver um link quebrado ou errado, qualquer erro, por favor, mas por favor, me avisem: a blogueira é cegueta. E tem 250 anos:-) Juro. Obrigada. Isabela, me perdoe, sim?

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

11 Responses to Graciliano Ramos e ‘Vidas Secas’ 70 anos depois (Final)

  1. denise rangel disse:

    Oi, Meguita
    Se eu soubesse que o nível das respostas seria tão alto eu teria feito o dever de casa com mais cuidado, hehe. Excelente coletânea de depoimentos!
    O velho Graça ficaria envaidecido ao ver tais reflexões sobre sua obra.
    Parabéns pelos posts, excelentes, por sinal.
    beijo, menina

    =-=-=-=-=-=-=-
    Pois é, Denise, e você de forma objetiva e com segurança atingiu um altíssimo nível. Aliás, como seria de se esperar.
    E também, querida, que feliz expressão a sua: “coletâna de depoimentos”.! Pois exatamente, desisti de “fazer pesquisa”, pois ao anlisar dados etc… vi que isso retiraria o tom solto e pessoal e simples (aliás, como disse a Vivina, o difícil é fazer o fácil) e conservei a real experiência de cada um.
    Para lhe dizer , emocionou-me muito. Nunca vou esquecer dese trabalho, que me deixou e me deixa tão feliz. E tudo sem nenhum mérito pessoal, a não ser o de celebrar a Amizade e a sinceridade de sentimentos em torno de uma comemoração. E que honra ser quem foi o homenageado.
    Um beijo, e muito obrigada, querida.
    Te adoro e vc sabe disso.

  2. marilia disse:

    Pôxa, Meg. Uma super-bondade sua ter colocado meu textinho no seu post… E depois dizendo que sou sua filha (coisa de que estou O-R-G-U-L-H-O-S-Í-S-S-I-M-A), vão acabar pensando que é nepotismo…

    —–

    Aprendi muito com essa série de posts e vou ficar com saudades.

    —–

    Te adoro, Meg.
    Já te disse.

    Além de maravilhosamente maravilhosa, ainda mente a minha idade!!!!

    Beijos dear

    “Megnífico!”, deve estar pensando o velho Graça lá do céu dos escritores…

    —-

    Concordo com o Carlos Eduardo: difícil é ler os Sertões pela primeira vez (e mesmo assim todo mundo vive dizendo que o sertanejo é ante de tudo um forte)…

  3. denise rangel disse:

    A recíproca é verdadeira. Um dia ainda nos veremos ‘batom a batom’, hehe.
    beijo, menina

  4. Pingback: Uma rosa para Graciliano | Sturm und drang!

  5. Ery Roberto disse:

    Meg, eu acho fantástico quando alguém descobre uma nova forma de expressar um tema. Nós blogueiros temos que praticar mais buscas nessa fonte fabulosa que é a criatividade.

    Se eu escrevesse apenas um texto sobre Graciliano , “Vidas Secas” e a comemoração, por mais bem elaborado que ficasse – o que nem sempre acontece (ainda bem) – seria apenas mais um post, construído e apresentado da mesma forma dos demais.

    Agora, seu eu pensasse em produzir um vídeo, promover um debate diferente, direto no blog, a partir de fragmentos quem sabe, ou tentar um estudo sobre o que existe de interferência do texto do Graciliano na música brasileira, algo do gênero, certamente aprenderia mais. Sempre digo que “a criatividade é a inteligência se divertindo”. Quem disse que aprender não é uma diversão?

    Parabéns professora! Você inventou um post diferente (ou diversos em sequência sobre o mesmo tema), com a participação de tanta gente boa e conhecedora do assunto. Blogou diferente, como nunca, especial de tudo. Diverti-me com você, pois aprendi com todos.

    Obrigadão. Beijo.

    =-=-=-=
    Como sempre seus posts ou comments com a sua a eloqüência (que eu desejaria ter, diga-se) que nos recompensam.
    Pensando no que você diz acima, eu me lembro quando a professora Isabela Menezes chegou no ano passado com a menção à data e já com o esboço de seu texto que irei re-publicar lá no textos especiais ou subrosa3: Vida Fabiana. Ela usava a visão de Adorno e Horkeheimer em relação ao Auflärung – Teoria do Esclarecimento e fez um trabalho belíssimo.
    Como você muito apropriadamente diz (aqui cabia um superlativo) , em correspondência com a querida Ana Vidal eu perguntava : “Ana, como homenagear um gigante da literatura, como é Graciliano, e ainda mais, em formato de blog?

    OK, como vc diz também, é preciso usar a criatividade, mas e se a gente ‘take the risk ” e fica na dependência de escolher pessoas, ou seja depender do nosso trato na blogosfera, do quanto as pessoas confiam em você, e da generosidade de uma resposta?
    Então eu reafirmo que não tenho nenhum mérito nisso. Tenho só a agradecer, por “take advantage of the good will” dos meus amigos e colegas da blogosfera.
    E isso, por paradoxal que seja, faz com que eu desapareça e deixe que fique em destaque aqueles que realmente fizeram essa homenagem. E assim ganhamos todos.
    Sinceramente, Ery, eu queria saber mais de HTML, (nem sei se o wordpress permite) mas há um script que usei, certa vez, no meu site, que ao terminar a homenagem passasse como no cinema os créditos.
    Obrigada, querido. Obrigado por ter confiado, acedido e tornado essa homenagem realmente rica para todos nós.
    Penso nas pessoas que chegam aqui pesquisando e digo: Obrigada a todos
    Beijão
    Meguita

  6. Juliana disse:

    Nossa, que vergonha, eu mando uma resposta assim tão assim coitadinha e você ainda me elogia. Cê é muito querida, Meg. Obrigada pelo seu texto. Made my day:)

    beijos

    Ju
    =-=-=-=
    You have, my lovely Ju.
    First of all, deixemos claro, sua resposta foi simplesmente ma-ra-vi-lho-sa. E riquíssima, by the way.
    Tenho certeza de que todos adoraram conhecer um pouco mais de você, como eu conheço. A pessoa simplesmente encantadora, linda, and so funny Valentine:-).
    Foi a coisa mais meiga que recebi. E imaginar que você é a bravíssima executiva, arquiteta oh yeah!, fechando negócios, licitações, ganhando projetos, tão super importante, e com um lado tão er.. tão cool, tão delicado.
    E ainda tem mais;-) “Venha ni mim, rede…;-)))
    Luv you, babe.

  7. Vivien disse:

    Meg, me deixa te contar uma coisa, depois dos 30, quando o ascendente tomaq conta, virei A leonina, ou seja, o meu ego ficou com juba e virou rei da floresta.
    Menina, adorei me ver aqui, citada assim, toda poderosa..ai, adorei.
    Claro que respondo qq enquete, mas torco para que o autor seja algum que eu goste tanto quanto Graciliano!
    beijão pra vc.

  8. Magaly disse:

    Eia, brava blogueira, chegou à conclusão do trabalho de forma indiscutivelmente brilhante. Comentários gabaritados, apreciações inteligentes, qualificadas. o Subrosa mostrou, como sempre, que é o lugar certo para foros, debates, concursos.
    Agradeço a referência pessoal na apreciação de minhas curtas respostas, de acordo com meu estado de impedimento parcial. Mesmo em época tranqüila, não seriam melhores pela falta de conhecimentos de base. Participação bisonha a que seu carinho dá valimento.
    Um movimento mais que necessário de estimulação aos leitores, de valorização da leitura, de apelo à leitura de nossos clássicos.
    Parabéns e que novos eventos desse tipo continuem a fluir pela telinha, nossa grande aliada na busca de novos caminhos de conhecimento.

  9. Meguezinha, tem um desafio, lá no Estado Sentido.
    Beijinho

  10. lord broken pottery disse:

    Meg,
    Respostas inteligentíssimas. Não podia esperar outra coisa. Estou juntando tudo, guardando, mandando para minha tia Luiza, filha de Graciliano. Ela já leu uma parte, adorou, vai gostar de ler o resto.
    Beijos

  11. léo e só disse:

    Oi Meg!!!

    num presica respeitar muito a minha opinião não, é só dar um sorriso e um puxao de orelha de vez em quando, que tá valendo :D

    TRabalho daqui! oh

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