Para (não) concluir…

Oi queridos,
Rá, estou vendo e lendo seu pensamento, “ih lá vem Graciliano, ainda? … esse negócio não acaba?” e outas coisas que não posso dizer. Pois saiba que não, não acaba, afinal as coisas só acabam quando a gente acaba, não é?. Pois é. A gente pára mas não termina. Havia (haveria há) mais sendas e trilhas de Graciliano  Ramos a percorrer.
É agora que vem a parte que mais adoro: as respostas às perguntas que fiz a algumas das pessoas  que eu mais admiro  na blogosfera – e não só nela –  às pessoas que têm um conhecimento literário respeitável e, principalmente, às pessoas que lêem, entendem de leitura , isto é, que “sabem ler”, e que possuem textos ótimos – entenda-se: que “sabem escrever”.
A pergunta mais importante é a terceira. Não se enganem quanto ao sentido em que uso o *conceito * popular. Não é no sentido de vulgarização, mas de disseminação. De ser conhecido , divulgado e reconhecido.

Eu a-do-ro essas pessoas.   E  podia ser diferente se elas foram gentilíssimas comigo e se até melhoraram minhas perguntas?

Vamos lá, com o meu agradecimento a todos eles.

O primeiríssimo: Rafael Galvão, *o* cara, . (Conservo tudo que foi escrito)

Rumbora.

1 – Como foi seu primeiro contato com Graciliano.

Primeiro, uma imagem: a cachorra Baleia sonhando com o céu cheio de preás, tadinha. E depois o pobre do Fabiano tendo que sacrificar a bichinha. Nada disso veio de leitura, mas de comentários. Então eu li “São Bernardo”. E depois, antes de “Vidas Secas” ou de “Angústia”, trechos de relatórios na Prefeitura de Palmeira dos Índios.

2 – Acha que o texto dele é de dificil [leitura] (leitura “difícil”)

Nem de longe. É um dos escritores mais claros que o Brasil já teve, na minha opinião. Pode-se achar a simplicidade dele enganadora, eu não.

3- Acha que ele não é popular? É popular?

É tão popular quanto um escritor brasileiro pode ser, ou mais. Certamente é mais lido que Guimarães Rosa. E especificamente no Nordeste, onde moro, é um escritor mais fácil e mais facilmente compreendido. Seu universo é mais próximo da realidade atual. Acho também que essas diferenças regionais fazem-no mais popular cá pras bandas do Norte do que no sul, por exemplo. Se Rosa é mais mistificado por parte da inteligência nacional, algumas das imagens de “Vidas Secas” (como essas que eu citei logo no começo, que não li nos livros a princípio, nem na escola ou faculdade) definem a noção de muita gente por aqui sobre experiência do sertanejo na seca.

Acho que é isso. :)

Beijo,
Rafael

 DANIELA ABADE, escritora, criadora de ai meu Deus tanta coisa, como o Mundo Perfeito e tantas outras sacações, autora de “Depois que acabou” e “Crônicos”. Agora escreve Foreigners, lá no Interney Blogs.

Meg,
Desculpe não responder. Estou a mil com um monte de coisas acontecendo na minha vida. [,,,]. Mas de qualquer forma eu nunca tive essa percepção de que Graciliano fosse menos popular que Guimarães Rosa ou Machado de Assis. Para mim sempre foi a santíssima trindade e continua sendo. Difícil não é o que ele escreve, é viver sem o ler.

Fui apresentada a ele em grande estilo: Vidas Secas.

Bjo, Dani

OMG! Não são maravilhosos meus amigos brilhantes?

Milton Ribeiro, escritor,  dispensa apresentações e comentários, o grande Mirto!

1-NA CASA DE MEU PAI, HAVIA UM LIVRINHO CHAMADO INFÂNCIA. COMO ERA PEQUENO, PEGUEI-O PARA LER.

2-DE MODO ALGUM, É TUDO MUITO LÓGICO, ENCADEADO, BEM ESCRITO, CLARO, INTELIGENTE.

3- NA MINHA OPINIÃO, É POPULAR. NO ÚLTIMO SÁBADO, ESTAVA NUM ANIVERSÁRIO E UM CARA VEIO ME DIZER QUE EU NÃO DEVERIA ESCREVER — ESCREVI ISSO NA SEMANA PASSADA — QUE MACHADO E GUIMARÃES ROSA ERAM FUNDAMENTAIS, SEM CITAR  GRACILIANO TAMBÉM.
LEIO MAIS CITAÇÕES DE MACHADO, ROSA E PAULO COELHO DO QUE DE GRACILIANO. NÃO TENHO CERTEZA SE GRACILIANO É UM FRASISTA OU AFORISTA TÃO BOM QUANTO M. DE A. OU G.R., MAS ACHO QUE ELE PODERIA CHEGAR AO GRAU DE “MUITO CITADO”, SIM. EU JÁ O CITEI NO BLOG.

BEIJOS. MILTON. PODE USAR E ABUSAR DO MEU NOME.

Vocês estão vendo, não é? :-)

Roselene PRADO, ‘nossa’ professora de semiótica, de redação e muitas outras coisas.

Bem a Rose enviou as respostas em arquivo doc. , e eu publiquei separadamente, aqui. em  TEXTOS ESPECIAIS. Confira e, comentários são bem-vindos

E para terminar, lindamente, as publicações de hoje, as respostas de GUILHERME RESSTOM, que é advogado, editor, e sábio. Leitor sábio, também. Poeta que não se quer publicar. A quem recorro sempre,  eu que nada sei sobre Poesia. Ele sabe tudo. E, orgulhosamente, para mim, meu Amigo, sempre solícito em dividir o que sabe.
(Desculpem o arroubo, é que tenho tão poucas oportunidades de dizer e repetir isso. E, aqui pra nós, são tão poucas pessoas a respeito de quem se pode dizer isto.)
Então, as respostas:

1 – O primeiro contato foi na escola (hoje seria o último ano do 1º grau, imagino), um tanto quanto traumático, como soía acontecer nos melhores educandários da época. Deram-nos para ler e fichar “São Bernardo”. Tive, confesso, enorme dificuldade inicial com as confissões de Paulo Honório. Pouco depois, antes do vestibular ainda,  fiz as pazes com Graciliano ao ler os contos de “Insônia” e  fui definitivamente seduzido com “Angústia”. Depois, com “Vidas Secas”. Mais tarde, reli duas vezes “São Bernardo”, que acho um monumento, o grande livro do homem. Que também teve uma bela adaptação para o cinema, com atuações inesquecíveis do Othon Bastos e Isabel Ribeiro. Memórias do Cárcere é forte e implacável. Também deu um belo filme. Não li, ainda,  “Caetés”. Mas lerei.

2 – Não acho difícil. O narrador do Graciliano passa sempre uma irritabilidade, um desconforto e e incapacidade de adequação à convivência visíveis: nunca negocia, facilita ou alisa a cabeça do leitor. Não à toa foi tradutor do Camus. Mas não é um escritor hermético nem na linguagem nem na construção dos enredos.

3 – Popular não creio, mas é um escritor sempre ventilado. As grades curriculares, vestibulares e uma certa construção de uma imagem institucional fazem com que as reedições sempre estejam na praça. Nas citações (será que é mais citado do que efetivamente lido?), há sempre os chavões da “secura da linguagem” etc e tal.

4 – Graciliano parece que não era muito afeito à prosa digressiva, às vezes lapidar, do Machado nem aos torneios de linguagem e metafísica do Guimarães Rosa. Entrou para o anedotário literário com uma espécie de mau-humor militante. É famoso o mot d’esprit (cito de cabeça, nem sei de onde tiraram) de que “Alagoas daria um bom Golfo”.

Foi um prazer participar, Meg. Se quiser citar, fique à vontade. Grande beijo,

Guilherme

E então?  Estendo as perguntas a vocês, o que acham? E o que acham do que eles acharam?

(To be continued…  pisc*)

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

17 Responses to Para (não) concluir…

  1. D-E-L-I-C-I-O-S-O.
    É o que sinto dessa série de posts sobre o Graça (nós somos íntimos, conheço ele desde pequena!!)

    Sim. Vou re-ler Vidas Secas, graças à MEG. E vai ser essa semana, se minha chefia imediata permitir… kkkk

    Sim eu reclamo de ser funcionária pública. Sabia que algum dia ia ter algo em comum com o Drummond!!

    Beijos, querida!!

  2. sub rosa disse:


    Ih Marilia, que bom. Obrigada por vc ter me dado a resposta que eu temia não vir : esse *delicioso* assim, enfatizado (ia dizer *escandido* mas não sei se estaria correto)
    Estou bem doentinha, muito, triste, nhé, down e ia terminar o blog, ou pelo menos parar por tempo indeterminado. Ai, uma depressão asmática, gulp! Só duas coisas impediram isso: a declaração de amizade , ai, do nosso querido Lord, o que me deixou queda e muda (Oh Lord, dizem que essas coisas não se agradecem, a gente se emociona , não é?) e a beleza intensa que eu tinha nas mãos: essas respostas que provam a inteligência fulgurante das pessoas que tenho na conta de Amigos, e as que não sendo amigas, são admirações intensas nutridas por mim.
    Me deixe desabafar, sim? Ou melhor, perdão pelo desabafo.
    Ti adoro muito.
    Beijos, uma porção de muitos;-)
    E obrigada, de novo.
    M.
    Que as pessoas continuem votando, OK?, pode divulgar no seu blog?
    Smacksss

  3. sub rosa disse:


    Ah! e desculpe ter falado só em mim, que coisa!
    tsc..tsc…
    Seu comentário está maravilhoso, como sempre, é claro, mas esse contém citações, inflexões, diálogos intertextuais, ah!…
    Lindo, gostoso e joiado como diz o FALCÃO, que eu adoro tanto quanto você gosta do Amado, não… do Gerônimo, não é?
    Um beijo, filhinha.
    Ah! e não deixe de ler a Rose no TEXTOS ESPECIAIS.

  4. Céu disse:

    meg, pelo que vejo vc está bem melhor.
    as respostas são excelentes, escritas num texto que dá gosto de se ler.
    a marília tem razão, parabéns por ter publicado na íntegra. essa série já está bombando na internet.
    beijos

  5. Céu disse:

    agora vou ler a professora rose.

  6. Nem cogite, ao menos num pesadelo, de dar fim ao Sub Rosa. Preciso do Sub Rosa. Eu e um monte de gente. A blogsfera precisa do Sub Rosa. O Obama precisa do Sub Rosa. O Eastwood ia ficar desapontado. O Marlon Brando ia ressuscitar, junto com a Marilyn. Todos faríamos um abaixo assinado, uma revolta, um panelaço para exigir a volta do Sub Rosa. Pior que tudo: o Graça ia ficar desapontado…

    Veja só que problemão!!!

    Poupe-nos o trabalho. Mantenha os vivos felizes. Preserve o sono eterno dos que se foram. Não cogite, nem em brincadeira, nem no meio de uma crise aguda, acabar com o Sub Rosa!

    Eu sei que tem horas que a coisa ameaça desabar – e como sei – mas lembre-se sempre da profunda filosofia de Gerônimo de Maceió: o telhado é forte, o telhado é de laje e agüenta com nóis!!!

    Beijos, querida.

  7. Magaly disse:

    Ai, Meg, já li todas as respostas e paro querendo MAIS!
    Todos eles estiveram bem , muito bem, falaram com convicção, desenvoltura e sabedoria.
    Quero salientar, porém, que a brilhante aula da Rose me encheu de entusiasmo e deve ter contagiado todos os que já tiveram a oportunidade de ler suas respostas.
    Seu trabalho, Meg, merece louvor. Ambas têm meu reconhecimento e meus intensos aplausos. Por mim, esta série se prolongaria por semanas e semanas.
    Até a próxima rodada.

  8. Orlando Gemaque disse:

    queria apenas perguntar uma coisa, duas, aliás:
    a 1a. é pro Rafael, essa afirmação de que o Vidas pode ser mais bem compreendido pelo povo do norte/nordeste não é reducionista e aí se cria a idéia de que a geografia determina a compreensão?

    2a. E em relação ao Guimarães Rosa é “mistificado” ou “mitificado”?

    Já o Guilherme foi direto no ponto: linguagem digressiva em Machado e torneios frasais e metafísicos em Rosa.
    Eu pergunto, (deixando o Machado à parte) não é isso que favorece uma certa comparação que acaba sendo qualitativa: Graciliano com sua prosa objetiva e simples – é mais “fácil” e o Rosa é como disse a professora Rose, é citado mais por uma inteligência que “ouviu cantar o galo e não sabe que era uma gravação”, seria mais “difícil”?
    O Rosa é citado mais, digamos, mas o que citam é como se fosse ourivesaria ?
    Acho que me enrolei e tenho um constrangimento de dizer que Rosa é que tem prosa forte mas carregada de bijouteria?

    de qualquer forma, parabenizo a todos por essa oportunidade de discussão e uma grande colher de chá para leitura.
    abs.

  9. Claudia disse:

    Puxa, essa discussão está ótima e que venham mais respostas e que fiquem como material de pesquisa.
    bjs

  10. marie tourvel disse:

    Querida… adorei!
    E, olha, como diria nosso querido fisósofo Chacrinha, só acaba quando termina. ;)
    Um grande beijo!

  11. Meg,
    só li um livro dele e há muitos anos. Não consegui responder direito à sua pesquisa, pois mal me recordo do estilo literário. Mas o lado positivo é que vou comprar o romance para ler.
    Já comprei O Primo Basílio (não disse que ia comprá-lo? Hehe!). Ah, os clássicos, adoro-os.
    Um grande beijo, minha amada.

  12. marilia disse:

    Orlando:
    A questão não é de ser “mais” ou “menos” compreendido. Mas a visão de quem conhece a realidade da seca – seja do Nordeste ou não – certamente será diferente daquele que apenas ouve falar dela.
    Eu mesma via rostos conhecidos em Sinhá Vitória e Fabiano. Entendia como eram aquelas paisagens com a clareza de quem já tinha andado por elas.
    Imagino que a minha leitura de Érico Veríssimo, por exemplo, é diferente da de alguém que mora ou conhece com alguma profundidade as paisagens do Pampa.
    Entendo perfeitamente o que o Rafael falou: não é a geografia que determina a compreensão. É a experiência de cada pessoa que modifica o entendimento que cada um tem do livro e de qualquer outra coisa.
    Quanto ao mi(s)tificado, acredito que seja realmente mitificado. Um erro justificável de digitação.^
    Quanto a quem é “mais pop”, acho que Graça, Machado e Rosa têm estilos absolutamente diferentes. Talvez o fato de ter sido adaptado pra televisão e ter em seu texto frases e trechos de efeito façam do Rosa mais “citável”. A mesma coisa com Machado. Acho pouco provável que todos que digam “ao vencedor as batatas” tenham lido Quincas Borba. Do mesmo modo, nem todo mundo que diz que o sertanejo é um forte leu o árido “Os Sertões”. Entretanto, o fato de ter trechos a um tempo destacáveis e palatáveis transformam os caras em fornecedores de “pérolas” para discursos, nicks de msn, e tudo mais. Por outro lado a popularidade do Graciliano está na facilidade com que seus personagens são absorvidos, não se cita a frase, mas facilmente se identifica a imagem. Pra mim, todo cachorro magro e ossudo é Baleia. E ponto final…

    Puxa, comentário gigante!

    Mas eu sei que a Meg gosta…

  13. Orlando Gemaque disse:

    Marilia, perfeito. Há uma corrente estruturalista, acho, q defende esse ponto, com o qual não concordo.
    vc esplicou mto bem. Há também quem diga que M.de A. foi um escritor europeizado, universal. Não se põe em dúvida que um povo de alguma região específica compreenda melhor o Machado. Ou mesmo estrangeiros. No limite, a minha pergunta tinha ver com -tradução- para outras línguas.
    Em todo caso, já imprimi sua resposta e vamos discutir em nosso grupo de estudo.
    Valeu, Marilia.
    Massa sua resposta.
    abração

  14. Orlando Gemaque disse:

    desculpe, explicou.

  15. Meg,
    Tenho vindo ler, participar, aprender, quietinho. Muito bom.
    Beijo

    =-=-=-=-=
    Que honra para nós todos -afinal foi meia-blogosfera, sim porque os mais importantes da blogosfera, modéstia às favas, foram consultados – a sua presença aqui.
    A princípio até fiquei constrangida, pensei que não daria conta, qualquer que fosse o resultado.
    E não dei mesmo, só foi possível por causa da adesão fantástica de todos, todos os convidados que compareceram com o maior gosto. Pergunte à Janaína:-)
    Beijos, querido Lord.

  16. ana vidal disse:

    És um verdadeiro serviço público, querida Megaphone!
    Divulgação de cultura é contigo mesmo.

    Beijos

  17. Pingback: Uma rosa para Graciliano | Sturm und drang!

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