PAULO MENDES CAMPOS (IV e V)- Feliz Aniversário, Paulo!

kiki de Montparnasse/Man Ray

Kiki de Monparnasse por Man Ray

SABEDORIA

Se acaso, por um momento, teu coração, como o de teu pai, ficar vazio, arruma a casa, abre a janela, põe tua roupa nova — para que o vento a caminho, mais uma vez, te arrebate vivo.
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Fotógrafo de parque faz instantâneo de eternidade.
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Vinho farto e mulheres limpas consolarão do exílio o estrangeiro.
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São seis os elementos: ar, terra, fogo, água, sexo e morte. Não, são sete: e lirismo.
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Sabedoria… a máxima seria anoitecer como um bêbado e amanhecer como um abstêmio.
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Maturidade é recolocar, em juízo, os dramas do adolescente.
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Rebeldia é instinto de conservação do entendimento.
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O diabo da escola da vida é a bagunça do método pedagógico.
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O bom historiador que escreve mal devia entregar o seu material ao mau historiador que escreve normal.
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Quase todos vivem em permanente rendição. Os melhores alternam períodos longos de rendição com tumultos libertários. E só os raros vivem em guerra permanente pela independência.
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A verdade, esta mitômana.
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O vazio me enche.
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O grave do homem grave é que ele não está fingindo: é grave mesmo.
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Fotógrafo de parque documenta para a posteridade o insuportável silêncio do anonimato.
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Executados os exercícios da dor, os ofícios humanos se arrastam numa gelatina desculpavelmente ridícula.
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A natureza para ser comandada precisa ser obedecida.
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Quem jamais foi traído não sabe o que perdeu.
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O povo é o silêncio. Serei o advogado desse silêncio.
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O amor amplia o horror da morte.
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Todo herói acaba chato.
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Medo. Tem-se. Mas não se deixa ele mandar na gente.
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Morte. Não estou pronto agora, mas, se ela chegar agora, estou pronto.
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Homem sou: e um bom pedaço do que é humano me é alheio.
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Mandamento marginal: não tirar ninguém de seu engano.
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APANHADAS NO CHÃO

– De um amigo meu, no bar: “Trabalho tanto que não tenho tempo para nada; à noite, bebo um pouco para lembrar as minhas mágoas.”

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– De um vendedor de cinzeiros de barro em Belém: “Se eu escrever [cinzeiro]com C, em vez de S, ninguém vai comprar.”
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– De um conhecido meu, quando lhe disse que certo homem público, embora de poucas luzes, era grave e honesto: “O jumento também é grave e honesto.”
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– Do mais preto, passando por mim, quando o menos preto lhe disse que ele só pensava em mulher: “Ué, pensar então em quê?”
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– De uma expressão mineira: “Fala mais que pobre na chuva.”
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– Do finado Humphrey Bogart: “Um homem está sempre duas doses abaixo do normal.”
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– De um forjador de provérbios: “Caranguejo idoso pensa muito e brinca pouco.”
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– De um velhinho, ante o ar conjectural do caixeiro, quando pediu na livraria um manual sobre limitação de filhos: “Não é para mim; é para papai.”
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– Do matuto para o médico: “Foi tiro e queda, doutor: a pílula desceu e parou direitinho na casa da dor.”
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– De um velho do interior ao provar soda pela primeira vez: “Tem um gostim de pé dormente.”
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– De Jaime Ovalle: “O importante não é saber se a pessoa gosta de uísque, mas se o uísque gosta da pessoa.”
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– De Camilo Paraguassu, em um poema: “Vista de Paquetá, a lua é linda.”
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– De Garrincha, muito absorto, meio segundo antes de ser dada a saída no jogo do Brasil com o selecionado soviético em 1958: “Olha ali, Nilton, aquele bandeirinha é a cara de seu Carlito…”
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– Do mesmo, contando ao colega onde comprara uma gravata (Roma): “Foi naquela cidade onde seu Zezé deu um tombo no vestiário.
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– Do mesmo para um companheiro de pelada: “Quer parar de driblar!”
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– De “Osvaldo Cabeça de Ovo, no dia em que seu time de areia perdia de cinco a zero: “Arrecui os arfe para invitar a catastre.”
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– Do treinador, também de praia, Trindade: “A missão do centrefór é atrapaiar os beque.”
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– De um outro treinador para o goleiro: “Carambolou, arreia.”
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– De um torcedor a meu lado, vendo uma jogada magistral do enciclopédia Nilton Santos, errando, paroxismado, na tônica: “Dá-lhe, catédra!”
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– De Graciliano Ramos, quando ouviu pela primeira vez um rouxinol: “Eta passarinho chato!”
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– Do cabo Firmino, na revolução de 30, promovido pelo comandante da Força Pública Mineira, por ato de bravura em batismo de fogo: “Uai, seu coronel, tava pensando que era manobra.”
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– De Hemingway sobre a famosa modelo Kiki de Montparnasse: “A única mulher que nunca dormiu em sua própria cama.”
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– De um estudante para mim: “Escritor é o Euclides! Olha só: O sertanejo é — vírgula! — antes de tudo — vírgula! — um forte — ponto!”

Paulo Mendes Campos (1922-1991)- De um caderno cinzento — Apanhadas no chão – Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro,1969

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Prestem atenção em todas, mas reparem a do “nosso” Graciliano;-)

Este post – no qual, reconheço não ter mérito algum, a não ser o carinho da escolha, é para todos, mas mui especialmente, um regalo para o meu Queridíssimo PAULO CUNHA PORTO, um Cavalheiro. Cavaleiro da Ordem da Jarreteira e dos Corsets . Honni soit…:-). Parabéns e Felicidade, all my best wishes pelo seu aniversário . Um bocadinho chateada pois ele está tomando de assalto os corações das meninas brasileiras. Que o digam Marie e Maríla;-).
Obrigada, imenso, pelos dardos! Você é simplesmente *o* MÁC-SI-MO!!!:-)

Meu presente musical .. ai, ai, vc não gosta de música brasileira, mas vou arriscar esta:

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

7 Responses to PAULO MENDES CAMPOS (IV e V)- Feliz Aniversário, Paulo!

  1. Querida Meguíssima,
    mas que colecção fantástica, além do violoncelo kikinesco que todo o homem gostaria de tocar! Muito obrigado! Gostei tanto que até vou perdoar a mentirinha sobre eu não gostar da música Daí! E a Marie e a Marília, Fantásticas como são, a Quem é que eu tenho de agradecer, a quem é?
    Depois, aquela frase sobre a traição…
    Beijinho muito grato, Queridíssima Amiga
    =========

    Jura, Paulinho que vc gostou?
    Pois outras datas não atrasarei, tá bem?

    Se bem eu estou meio nhan….:-(
    Mas, vamos em frente.
    Eu adoro vc , e vc sabe.
    Beijos
    M.

  2. marie tourvel disse:

    Megleen, Megleen, veja só a situação. O Paulo é um querido e repito o que ele disse: quem me apresentou? quem mesmo? :)))
    Beijos e mais beijos para os meus dois queridos. ;)

    =-=-=-=-=
    Oba, Marie tô precisando, estou de molho… remédios etc e tal.
    Beijos, querida, não deixe de me avisar outras efeméridos (oba!!!!) importantes, certo?
    smack
    s

  3. léo e só disse:

    oi Meg

    Casadinha perfeita entre texto e música. Daqui Oh!

    abs
    =-=-
    Oi Léo eu amo essa música é Leila Pinheiro cantando Villa Lobos.
    È mole?;-)))
    Beijos, obrigada

  4. Luma disse:

    Ai Meg, eu também tenho um pássaro chato que canta todo dia debaixo da minha janela e na melhor hora do sono. Que os ambientalistas não me escutem, mas quando o pássaro grita “Bem-te-vi”, eu penso “ainda bem que ele tem asas”. Boa semana!! Beijus
    ==========
    Hihihi. Vc é uma graça, Luma

    hahahahah é pura verdade! vamos combinar que a cantoria bem-te-vi é meio monoc´rdia, nem é rap nem funk
    Hahahahahahah!
    ]Beijos querida, obrigada e igual pra vc.

  5. marilia disse:

    Lindo presente ao Queridíssimo Ex Réprobo.
    Paulo Mendes Campos era, é e sempre será tudibom!

    Quanto aos passarinhos, quando eu morava em Recife, tinha um bem-te-vi desaforado que me acordava todos os dias.
    Isso mesmo: entrava no quarto, pousava na cama e cantava a plenos miudíssimos pulmões.
    Às vezes, eu levantava e ia enxotar o intruso, mas ele se punha no fio do telefone, do lado de fora do apartamento, e continuava cantando, de modo que não me restava outra alternativa senão acordar pra vida…

    História bizarra…
    Acho que dava uma crônica!!

    beijos, querida

    -=-=-=-=
    Aaaaaaaaaaaaaahhh! Marília, que linda história, onde que é bizarra, OK, é bizarro se bizarro for, o bem-te-vi não ter medo de um humano e chegar assim tão perto. Vai ver que era encantado.
    Oh, Marilia, já dei o serviço e me entrguei euadoro pássaros, são os animais que menos me fazem sofrer exatamente por isso, têm asas e conseguem fugir. Nem sempre né?

    Ah! o nosso Réprobo é adorável e queridíssimo mesmo.
    Mas, venha cá, quando ele deixou de ser Réprobo para virar ex-?
    :-))))
    beijos para vc

  6. como diz o vulgo:

    “passarin que come pedra, sabe o que advém”

    Stopwells pro Paulo!

    =-=-=-=-=-=
    Ah! ele, o Paulo vai, que vai ficar contente;-)))

    Agora esse “pensamento”;-) sobre os passarinhos eu conheço em outra versão, que deve ser essa mesma.
    Maldade com os passarinhos, coitadinhos, só de pensar me arrepio.

    Hohoho.
    Beijos
    P.S. Seu comment foi parar lá no Askimet…burrinho.

  7. “Passarin que come pedra, sabe o que advém!”

    Stopwells ao Paulo!

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