Estrangeiros – cap. 68 no ar! (Updated)

ESTRANGEIROS –

um projeto de escrita e estranhamento

um projeto de escrita e estranhamento. clique

por Daniela Abade

O sentimento de não pertencer. A lugar nenhum, a qualquer grupo, a ninguém. Esse estranho poder de olhar as coisas de fora, de circular como um fantasma entre pessoas que ingenuamente pensam que você está lá, naquele mesmo plano. Eu sempre acreditei que esse foi o sentimento mais forte que me levou a escrever ficção: o fato de eu ser estrangeira dentro da minha própria casa. O estranhamento, a distância, às vezes até a ausência de compreensão do outro ou do mundo: “Eu não sou daqui, eu não pertenço a esse mundo e é isso o que eu vejo”.

Mas eu nunca achei que esse fosse um sentimento exclusivo. O que eu não imaginava é que ele fosse tão compartilhado. Quanto mais eu leio, quanto mais vivo, mais estrangeiros me são apresentados. Gente que não sabe onde está nem para onde vai. E que escreve no meio do caminho.

Foi daí que partiu a idéia deste projeto. Já que esse sentimento de não pertencer impulsiona tanto a criatividade, resolvi convidar alguns autores, amigos ou não, mas sempre admirados, a se tornarem mais estrangeiros do que já são. Nenhuma das pessoas nesse projeto compartilha a nacionalidade ou a cidade onde mora. Cada autor vai escolher alguma cidade de qualquer outro autor envolvido no projeto para criar um diário de ficção por um ano. A idéia do jogo é aumentar o estranhamento para que a criatividade ganhe na mesma proporção. Já as regras são poucas:

1. O autor não pode conhecer a cidade sobre a qual está escrevendo
2.Também não pode visitar a cidade durante o período em que durar o projeto
3.O personagem que escreve o diário deve ter a mesma nacionalidade do autor.

A divisão das cidades por autores ficou decidida assim:

Daniela Abade – Udine/Italia
Florencia Abbate – Hamilton/Canadá
Claudia Chibici–Revneanu – Santos/Brasil
Max Mauro – Cidade do Mexico/México
David McGuire – Buenos Aires/Argentina
Matt Rubinstein – Graz/Austria
Gonzalo Soltero – Sidney/Australia

A condição de estrangeiro vai ser levada ao limite. O autor é tão estrangeiro ao local que vai ter que buscar a cidade na sua própria imaginação. Pelo menos uma vez por semana o diário de cada autor será atualizado online. Os autores publicarão seus textos em suas próprias línguas. Assim o leitor também se verá estrangeiro. Ele pode entender o que o autor de sua mesma nacionalidade escreveu, mas muito provavelmente não vai conseguir ler o que andam escrevendo sobre sua própria cidade. O olhar estrangeiro sobre a cidade do leitor também o fará se sentir um estrangeiro.

Ao final do projeto a idéia é que todo material seja reunido para ser traduzido e publicado em todas as línguas em que ele foi escrito. Mesmo que em várias versões, os estrangeiros vão finalmente falar a mesma língua e se conhecer nos lançamentos pelas diferentes cidades. E, obviamente, mostrar que, apesar de estrangeiros, o abrigo que eles buscam não está tão longe assim. Porque está em suas próprias palavras.

Está no ar o  capítulo 68.

Estes são os autores.  E nós acompanhando vivamente.

Bocca ao lupo! Dani e co-autores, all of you ;-)

Ah! comentários são muito bem-vindos, lá.

=-=-=-=-=

Não resisti (mas quem me pode culpar?) e trouxe para cá, o coment da Magaly, para cá.

Meg,
Estou impressionada, é um senhor plano, original, ousado,  um jogo com planejamento e regras. Muito interessante . Quase não conseguia deixar a leitura dos capítulos para vir comentar aqui e resisti a deixar comentários em cada capítulo para economizar tempo e vista. Não posso mais passar horas na telinha.
Que habilidade a de Daniela em tecer personagens, ambientação, movimentação. Estou agradavelmente enredadada pelos lances da narrativa dela e absolutamente curiosa pelo efeito que as diferentes versões irão produzir.
Muito talento e jogo preciso  com o elemento com que ela magistralmente lida – a palavra.
Outra coisa que surpreende: o fato de que a gente começa a analisar o próprio comportamento e constatar que aqui, ali, passou por esse tipo de estranhamento. Só que as palavras nem sempre vêm em socorro se não houver o cimento indspensável à construção  – o talento,  conhecimento, a capacidade de expressão.
E você, hein?  …………
Um maiúsculo OBRIGADA
E um beijo

Só mesmo vc , Magaly, minha crítica literária favorita:-) Estamos juntas no nosso “Graciliano Ramos“, não é?


Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

12 Responses to Estrangeiros – cap. 68 no ar! (Updated)

  1. Dica da Megleen? Estarei por lá. Que boa idéia essa, querida. Enviarei um e-mail pra você agora. :) Estou com saudades, andei dormindo demais por esses dias…
    Beijos!

  2. Muito legal. Vou conferir.

    Beijo.

  3. aliki says:

    Tb vou conferir, eu que nasci no falecido “Hospital dos Estrangeiros”… e hoje, com três passaportes à disposição, sou apatrida. Como nos versos finais do Girovago do Ungaretti : “Cerco un paese innocente”. Beijos, Meg disparue mais toujours retrouvée…

  4. Palpi says:

    Caraca de comment, só pq esqueci o e-mail comeu tudo. Humpf!
    Quanto tempo, cara mia! Esse “papudos” é o que há de bom. Adoro seu jeito de indicar, ensinar, elogiar. Saudades.
    Daniela tem razão. Sinto-me completamente estrangeira neste mundo, talvez em qualquer outro, porque já não me encontro nem entre as palavras.
    Baci

  5. Meg, Meguíssima,
    A idéia é boa, o projeto ambicioso. Considero-me, porém, o anti-estrangeiro. Já viajei bastante, estive em várias cidades do mundo, e sempre me senti em casa. Como diria o Arnaldo Antunes, “nenhuma pátria me pariu”. Em todos os cantos encontrei gente. As pessoas são idênticas e nivelam os lugares por baixo. Do Oiapoque ao Xuí, de Nova Iorque a Xangai, pulsam. Comem muito ou passam fome, falam alto, vivem caladas, riem, choram, sofrem, comportam-se muito mal, lindas em sua humanidade. A televisão é igual, o trânsito maluco, as músicas também, os perigos idênticos, o susto presente. Não há o que se estranhar. O Haiti é aqui, ou em qualquer outro lugar. Em todos os cantos é sempre muito gostoso encontrar gente, e sentir-se em casa.
    Beijo grande

  6. Lord Broken Pottery (delicado pseudônimo)

    Acho que o problema é encontrar gente e não se sentir gente. Ver que você não se encaixa no “tudo igual”. De qualquer forma, invejo sua sensação de se sentir em casa em todo lugar.

  7. Daniela,
    Talvez por errar muito, escrever Chuí com “X”, por exemplo, ter tantos defeitos, fique mais fácil sentir-me gente. Gostei do seu comentário.
    Beijo

  8. jayme says:

    Meg, eu estou sem seu email, por favor, me mande para o endereço acima para que eu te envie os sonetos. Beijo,

  9. Magaly says:

    Meg,
    Estou impressionada, é um senhor plano, original, ousado, um jogo com planejamento e regras. Muito interessante . Quase não conseguia deixar a leitura dos capítulos para vir comentar aqui e resisti a deixar comentários em cada capítulo para economizar tempo e vista. Não posso mais passar horas na telinha.
    Que habilidade a de Daniela em tecer personagens, ambientação, movimentação. Estou agradavelmente enredadada pelos lances da narrativa dela e absolutamente curiosa pelo efeito que as diferentes versões irão produzir.
    Muito talento e jogo preciso com o elemento com que ela magistralmente lida – a palavra.
    Outra coisa que surpreende: o fato de que a gente começa a analisar o próprio comportamento e constatar que aqui, ali, passou por esse tipo de estranhamento. Só que as palavras nem sempre vêm em socorro se não houver o cimento indspensável à construção – o talento, conhecimento, a capacidade de expressão.
    E você, hein? a achar esses tesouros pra delírio nosso.
    Um maiúsculo OBRIGADA
    E um beijo

  10. sub rosa says:

    Queridos , a Dani está lendo tudo isso. Entretanto está assoberbada, ocupadíssima. Mas sei que vai adorar…
    Sou entusiasta do projeto e fã da Dani, umas melhores escritoras surgidas contemporaneamente.
    Mas…olha aqui pra nós, não resisto e vou colocar o comentário da Magaly , lá no post.
    Vocês iriam me chamar de boba, se eu não o fizesse.
    Beijo a todos.
    Meg

    =-=-=
    Jayme, nem a propósito, ou serendipity, acabei de mandar um email para vc:-)

  11. Nelsinho says:

    Como se não bastasse o momento extremamente ocupado, ainda tenho o Lap Top invadido!

    Se de fato existe uma fornalha eterna, espero que lá tenha um lugar privilegiadamente sofrido, reservado especialmente para hackers e outros animais peçonhentos do mesmo jaez…

  12. Nelsinho says:

    Querida Meg,

    Sobre Graciliano, tentarei dar especial atenção logo que possa.

    Um beijo

    =-=-=-=
    Querido, não se preocupe.
    Recebi deliciosas mensagens, dizendo que nunca leram.
    Pessoas educadíssimas que não responderam, mas avisaram.
    Uma delícia trabalhar com meus leitores e amigos.
    E vem coisas que, tenho a certeza, vão deixar vc com água nos olhos, ou na boca;-)))
    Hahahahahahahah

    Não posso negar que estou felicíssima.
    Chegaram respostas de tantos lugares, até da Suiça, mas não de Génève, e sim de……Vaud! Imagine.
    Na verdade lhe digo que até tenho, às vezes, inveja de mim , como dizia Cora Rónai.
    Beijos, Nelsinho.

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