Fragmentos de um evangelho apócrifo (I)

Franco Murer (Italia-século XX)

Franco Murer (Italia-século XX)


3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
4. Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto.

5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.

6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.

7. Feliz o que não insiste em ter razão porque ninguém a tem ou todos a tem.

8. Feliz o que perdoa aos outros e o que se perdoa a si mesmo.

9. Bem-aventurados os mansos porque não condescendem com a discórdia.

10. Bem-aventurados os que não têm fome de justiça porque sabem que nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.

11. Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.

12. Bem-aventurados os de limpo coração, porque vêem a Deus.

13. Bem-aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu destino humano.

14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.

15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum homem a veja. Deus a verá.

16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.

17. O que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.

18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.

19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.

20. Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide…

24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido, com razão muitas vezes.

25. Não jures porque todo juramento é uma ênfase.

26. Resiste ao mal, mas sem espanto e sem ira. A quem te ferir na face direita, podes oferecer-lhe a outra, sempre que não te mova o temor.

27. Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.

28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justica e nao é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.

29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de comprazer tua vaidade.

30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.

31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu o erro.

32. Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida.

33. Dá o santo aos cães, deita tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.

34. Busca pelo agrado de buscar, não pelo de encontrar…

39. A porta é a que escolhe, não o homem.

40. Não julgues a árvore por seus frutos nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.

41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia…

47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.

48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas.

49. Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.

50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.

51. Felizes os felizes.

**********
Jorge Luís BORGES (1899-1986). O Elogio da Sombra. Trad. Carlos Nejar e Alfredo Jacques. (Rev Trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz), 1969. IN: Borges, J. L. Obras Completas. S. Paulo : Globo, 2000.

N.E. Borges fará outros fragmentos apócrifos , um dos quais em Os Conjurados.

♦   ♦   ♦

 

 Este post é  dedicado ao  Amigo Ricardo [de Medeiros Ramos] Filho Escritor talentosíssimo, ganhador de vários prêmios (veja este aqui)  e que num mundo tão frio e cinzento e de ligações tão oscilantes e frágeis, que se rompem, às vezes de forma incompreensível (leia-se Zygmunt Bauman )-, ele, ao contrário,  lindo e elegante (Lady Cordélia que o diga)  ilumina esses meus difícieis dias gris dizendo o que se pode ler aqui, (comentário nº 16) e que eu imodestamente não cometeria a deselegância de esconder;-))      Não é o má-xi-mo?  Pois é! Eu fico sem poder dizer mais nada.
BTW,
Leia esse post e saiba mais sobre o
Ricardo – o Lord Broken-Pottery e a escritora Vivina de Assis Viana que é uma querida, mas tão desaparecida dos meus olhos amazônicos.;-)

Franco Murer

 

 

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

18 Responses to Fragmentos de um evangelho apócrifo (I)

  1. marilia disse:

    “Bem-aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu destino humano.”

    Isso me diz tanto, me lembra tanta coisa, que parei alguns minutos para lembrar de tantos quantos já conheci em tal situação… não é fácil, definitivamente.

    Dear Meg, espero que esteja tão bem quanto possível e em vias de ficar ainda melhor.
    Grande abraço

  2. MEG, QUE MARAVILHA!!!!!

    Li, reli, rereli, desli e ultrali depois.

    Não conhecia. E tenho o livro. Shame!

    Beijo.

  3. André Goldbuch disse:

    Incrível!
    Parabéns, Meg

  4. Giovanna disse:

    Oi, Meg
    Não pense que deixei de vir aqui, apenas não comentava, hoje foi impossível não comentar.
    Este é um dos melhores blogs que conheço.
    Um beijo

  5. Carmem disse:

    Você continua a grande Mestra de sempre, querida, sempre ensinando e dividindo o que sabe.
    Obrigada e beijo

  6. Orlando Gemaque disse:

    Meg, quando puder telefone, OK?
    Seu telfone não resposnde.

  7. Orlando Gemaque disse:

    Ops… telefone e responde.

  8. Aurea Cristhina disse:

    Meg,
    como é que o Borges se situa quanto à religião?

  9. ana vidal disse:

    Adorei, Meg! Você de volta, e partilhando o seu saber com a generosidade de sempre….

    Tocou-me especialmente aquela frase sobre o perdão, que vai ao encontro de tudo aquilo em que acredito mais profundamente: “Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.” Sabe porquê? Porque sempre defendi que perdoar, sem esquecer, é uma batota. O esquecimento é o único perdão possível.

    Grande beijo, minha amiga.

  10. aninha pontes disse:

    Muitos são difíceis de serem seguidos. Perdoar , por exemplo, acho um dos mais difíceis.
    Mas tanta verdade contida nisso. O mínimo que conseguirmos, já terá valido a pena, trará com certeza muita alegria, muita leveza para seguir em frente.
    Meg querida, a Vivina estava nas Minas, chegou essa semana, por isso andou tão sumida.
    Quanto ao Caco, não há mais nada a dizer, deixo por sua conta, você o faz maravilhosamente.
    Beijos querida, mil beijos.

  11. gugala disse:

    um cegueta visionário

  12. sub rosa disse:


    Queridos todos, todíssimos e obviamente todíssimas:-)

    Eu juro que não “estou podendo estar vindo responder” aos comments.
    Basta eu dizer isso e creio que todos entenderão e aceitarão como verdadeiras minhas palavras (assim espero).
    Há algumas perguntas que não sei responder, outras que me tocaram bastante (Aniuska e Aninnha) e todas, todas foram muito felizes.

    Agora, vocês vão me perdoar, quando me disseram
    essa do Gugala , eu não “pude estar deixando” de estar vindo responder:-)

    “CEGUETA VISIONÁRIO”!!!!!!

    Ponta que parou!!!!;-)
    Essa , Gugala, querido, vai ser muito difícil você se superar. E eu pergunto, kadê meu afilhado?
    Ainda está se jogando nos quadros e e se (de)batendo nas teclas do piano?
    TeClaudio e você, o que diz a isso?

    Gente, eu A-MO essa nossa caixa de comentários.
    Gugala, tudo bem que você é*O* cara; é
    o bom, mas a perfeição dessa eu só posso atribuir a uma coisa:
    É o amooooooooor!!!!!!!!
    Ou não???
    Hahahahaha*
    Meghzla,
    a que não vai mas vê . E às vezes, enxerga, sabe?:-))))

    Beijos, queridos, eu volto. E adoro vocês. Poucos mas peerless!

  13. marie toruvel disse:

    “Felizes os felizes”

    Borges. Como gosto de Borges. Só você, Megleen, para emocionar e postar Borges. Obrigada. Beijos, querida.

  14. Amanhã, dizem, uma certa Meg estará me auxiliando a explicar Os Detetives Selvagens, de Bolaño.

    Mas só irá ao ar, lá pela meia-noite.

    Beijos.

    =-=-=-=-=

    Eeeeeeeeeeuuuuuuuuuuuuuuu???????!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Quem disse semelhante isso, Mirto?;-)
    Isso é praia tua e do Idelber, nhé?
    E eu aprendo com vocês. Aliás teu penúltimo post sobre o Bolaños foi show de bola.
    Estarei na platéia, fazendo perguntas.
    Beijão.

  15. Ateus Pés disse:

    “Homem de letras, tu tens por clausura, o ilimitado”. E.Jabès

    =-=-=-=
    Demorô!!!!!;-)
    Bjs
    M.

  16. Meg,
    O Borges fez parte de minha juventude. Era sistematicamente esculhambado lá em casa. A esquerda não o suportava. Hoje, bem mais velho e maduro, ainda luto para tirar as vendas que a ditadura colocou eu meus olhos, fazendo com que acabasse implicando com certos gênios diferentes. Sinto-me muito injusto com o velhinho de direita. Olha aí…
    Beijos

  17. gugala disse:

    meguita, perdi meu filho. Adolesceu…ahahaha
    bjus

  18. Vivina de Assis Viana disse:

    Meg, querida,

    Aninha tá certa, estive em Minas, me alimentando de reminiscências, e sumi.
    Muito bom voltar e e reencontrar seus olhos amazônicos, vibrantes, coerentes.
    Te agradeço pela referência em seu blog, e te juro que tenho o maior orgulho de ter feito parte da história literária do Caco, que adoro.
    Foram tempos tão ricos e tão bons, que não há como evocá-los sem sentir ternura e saudade. Muita ternura e muita saudade.

    Beijo carinhoso

    Vivina.

%d blogueiros gostam disto: