Feias, quase cabeludas (II) Um, dois, três; para Gugala e Claudio

brossa.gif(poema visual de Joan Brossa)

O Feias e Cabeludas I foi uma homenagem que fiz a Lord Broken-Pottery, -confiram, silvp- um grande Amigo, (que sempre me deixou tranqüila em relação isso, o que é fantástico)  e um dos escritores que mais amor demosntra pelas palavras. De ordinário, obviamente, escritores tem relacionamento íntimo, às vezes estranho, às vezes de amor, às vezes mágico com as palavras.
Creio que não as escolhemos, elas é que nos escolhem. São maviosas, às vezes maldosas, ora amigas, ora tiranas, indomáveis,  e ninguém me tira da cabeça que tal como falou o Huckleberry Friend, os livros e as palavras são entes animados, aliás animadíssimos;-) e fazem *gato e sapato* de nós, de acordo com o mood em que  estejam.

Então, a crônica do grande escritor Haroldo Maranhão (minha recensão sobre um livro de Haroldo, publicada na Revista COLÓQUIO – LETRAS da Fundação Calouste Gulbenkian, marcou a minha estréia como crítica literária em âmbito  internacional – te mete, se eu ia perder  a oportunidade dizer isso, exibida e modesta como sou. hohoho )

Então, hoje, apresento mais uma do Haroldo Maranhão.
 Dedicada a todos, claro, mas em especial para  Gugala e Claudio, (este já conhece, mas…) –  que como todos sabem são Os Reis do Wordplay ; do trocadilho infame ou não, lembrando sempre  que trocadilho  bom é o mais infame, claro.

UM, DOIS, TRÊS.

Três pacholas. Três alvares. Três araras. Três bocós . Três patetas. Três pongós. Três ineptos. Três papalvos. Três pataus. Três pacóvios. Três quadrúpedes. Três tapados. Três acéfalos. Três basbaques. Três sandeus. Três lanzudos. Três simplórios. Três bananas. Três trevosos. Três bisonhos. Três sabões. Três toupeiras. Três jericos. Três tijolos. Três escuros. Três paparotos. Três obtusos. Três orates. Três cabeças de galo. Três anastácios. Três paturebas. Três beldroegas. Três nanocéfalos. Três inhenas. Três coiós. Três lesmentos. Três xexés. Três varridos. Três babões. Três chasquetas. Três quartos para alugar. Três camelos. Três lapúrdios. Três marmotas. Três bocas-abertas. Três bucéfalos. Três nulos. Três mancos. Três cabeçudos. Três babosos. Três vazios. Três pachecos. Três labrostas. Três patos. Três salsinhas. Três paspalhos. Três calinos. Três estultos. Três pancrácios. Três microcéfalos. Três descerebrados. Três ocos. Três estropiados. Três desentendidos. Três alonsos. Três encasquetados. Três negativos. Três vesgos. Três hierofantes. Três letrudos. Três bolônios. Três escassos. Três burlões. Três zebróides. Três palhouços. Três lóios. Três padres de réquiem. Três desconexos. Três anfigúricos. Três pigmeus. Três acanhados. Três bordalengos. Três bate-orelhas. Três estafermos. Três marrecos. Três acanhotados. Três ningres-ningres. Três deslambidos. Três acácios. Três caras n’água. Três chochos. Três tolhidos. Três abananados. Três boiotas. Três ovas. Três pãezinhos. Três paparretas. Três contusos. Três confusos. Três sabaquás. Três manés. Três patolas. Três orelhudos. Três tábuas rasas. Três curtos. Três apedeutas. Três patacos. Três malabrutos. Três ventosas. Três mal arquitetados. Três apagados. Três pecos. Três quartas-feiras. Três nabos. Três paspalhajolas. Três deficientes. Três desalumiados. Três azêmolas. Três cepos. Três toscos. Três caliginosos. Três jacarés. Três minguados. Três pax-vóbis. Três belarminos. Três bonifrates. Três patetas das luminárias. Três matutos. Três labregos. Três parvos. Três papa-moscas. Três simplícios. Três pandorgas. Três mulas ruças. Três lerdaços. Três lucas. Três ignaros. Três abobados. Três legalhés. Três cabeças de bagre. Três pamonhas. Três canhestros. Três banfistes. Três lavados. Três savadilhas. Três zeros à esquerda. Três tontos. Três seposos. Três aluados. Três labruscos. Três capiaus. Três desbolados. Três bom-serás. Três pascácios. Três joões-ninguém. Três zés cuecas.

Haroldo Maranhão, 1991

ADENDA:

A história, por trás do texto é, mais ou menos a seguinte:
Haroldo, um sedutor (difícil um grande escritor que não o seja) era também um ótimo crítico literário embora, discreta e modestamente, sempre negasse isso.Muito do que escrevi sobre Haroldo foi com profundo constrangimento, pois ele sabia mais do que muitos escritores e críticos reunidos. (Ele dirigiu um dos melhores Suplementos Literários do País, junto com Benedito Nunes e Mario Faustino, lembrem-se). Pois bem, uma ‘jovem’ escreveu um longo artigo sobre algumas obras de Haroldo Maranhão, e desgostou certos críticos provincianos (eram três) que,  sentindo-se diminuídos, a ofenderam e insultaram. (mas… qual crítico – dos bons, nunca foi insultado?)
Haroldo – um verdadeiro D. Quixote – em (disfarçada) defesa da jovem, escreveu um alentado estudo crítico sobre/contra um pretenso projeto de história de literatura nacional, de autoria dos críticos ofensores e auto-proclamados ofendidos;-). Muniu-se de extensa argumentação e de uma bibliografia irreprochável. Tudo nos conformes.
Mas de quebra, quando o artigo foi publicado, ele não resistiu, e – retirem suas conclusões -junto ao artigo em diagramação especial , publicou essa obra-prima chamada ‘Um, dois, três’.’ Eu a ofereço a vocês. É algo precioso e raro. Dificilmente será publicado em livro, e quando quiserem ofender (com razão, por favor, só quando tiverem razões, afinal, sou uma pacifista, todos podem atestar) alguém que mereça, basta adaptá-lo. Todas as palavras têm o mesmo significado. Mas as minhas preferidas são bonifrates e belarminos. A “jovem”, claro, adorou.(quem diria!)

-=-=-=
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Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

9 Responses to Feias, quase cabeludas (II) Um, dois, três; para Gugala e Claudio

  1. Ele é ótimo, e tendo você como avalista, quem não conhece vai querer conhecer.
    Eu de minha parte, só digo que vale a pena. Boas e deliciosas risadas com Haroldo Maranhão.
    Beijos linda.

    =-=-=-=-=
    Minha queridaaaa!!!!!!
    Mereço a morte toda picadinha, no mel com formigas, ou ser pinicada com pinça de tirar sobrancelha.
    meio de leve não é?;-)
    Mas meu amor, a Patica está linda, vou colocar aqui o selo ou melhor pedir para quem sabe colocar.

    Que é isso de não ter post depois do de 31 de março?
    Mil beijos
    Eu adoro você e quero um Bem imenso para você, o seu bem e todos, todos da familia.
    Minha linda.
    Vou ver se reinstalo o Skipe!

    Oh minha Aninha! Nossa amizade é para sempre, estou certa.
    Obrigada por esse carinho constante.
    ;-)

    =-=-=

    Ah sim! ER obrigada pelas palavras. A opinião da mulher e interlocutora de um escritor é sempre muito respeitável.

  2. palpi says:

    Muito legal. “Bocó” é sempre ótimo. :)

    MEGuita, assisti ao filme ontem. Sabe que gostei? Melhor do que ler o livro, muito melhor. Porque algo naquele livro vai devagar para mim e não me prende a atenção. Identifiquei-me com todas aquelas personagens. Uma loucura.
    Beijo

    =-=-=-=-=-=
    “Seu bocó” é demais, concordo.
    Mas já pensou chamar : Ei! seu zé-cueca!;-))))?
    Vale pro feminino também:-)
    O Haroldo era terrível.

    ==

    Bom agora, ao filme: Não acredito, mas não acredito mesmo que você possa ter se identificado com todas – *TO*D*A*S* aquelas personagens. Será???;-)Mas, tudo é possível, com uma pessoa singular como você.
    Eu só achei que a moça por linda que seja não disse ao que veio e ela é um personagem fulcral da trama.
    O discurso de Nietzsche está cheio de ressentimento no que diz respeito a ela e isso é verdadeiro, lembra muito o que falou o Réprobo aí embaixo.

    Vai voltar a passar no sábado à tarde e vou ver com mais calma.

    Mas, no geral é bom.

    E eu acho até que vou comprar o livro, Palpi, sabia?

    Um beijo, minha querida e abençoada Amiga

  3. Puxa, Megleen, estou em falta com você. Muito trabalho na senzala, viu? Mas passei mesmo pra te dar um beijo. Venho com mais tempo depois, estou no meio de um maldito relatório que está me deixando zonza. Beijinhos da Marie

    =-=-=-=

    Não, chouette, em falta não.
    Mas que eu estava “roendo” uma saudade, ah isso eu estava mesmo
    beijos, queridinha.

    Megleen;-)

  4. Não sei se cabe no rol, mas uma que sempre utilizo – já que ocasiões nunca faltam – é borra-botas, que na tradução dum dicionário bilíngue do tempo do Diderot é paltoquet.

    Dziekuje bardzo pela menção ao meu nome que, mais que isso, é quase uma definição de como as coisas andam, ou seja, a passo de ganso – mormente conhecido como “cachorro de polaco”.

    Pocalunkinhos e até widzenia

    =-=-=-=-=-=
    Uau!
    Claudio, existe até um filme Le Patolquet com a maravilhosa Fanny Ardant.

    Um beijo, que maravilhas lá no seu blog, hein?
    Perde quem não vsai.

    Pocalunkinhos e até widzenia.;-)

  5. gugala says:

    Já o Haroldo é Très Bon, ou como se diz em Santa Maria, Three-legal, tchê.
    Valeu, Meguita!
    bjs

    =-=-=-
    Uma data de vênias, querido. Vc é duca:-)))
    E é um amor.
    beijos pro Pedro

  6. Olá, Meg. Sou eu o tal blogueiro que diz que as palavras e os livros têm vida própria e fazem de nós o que querem. É a primeira vez que comento o teu blogue e gostei deste texto do Haroldo e do que escreves sobre ele. Três é a conta que Deus fez? Beijos e bom fim-de-semana!

    PS: Vou adicionar o teu Sub Rosa à minha lista de links.

    =-=-=-=-=
    Puxa vida! Minha nossa!

    Eu fico muito feliz, e lembro, modestamente, que disse lá no Cata-ventos, da queridíssima AV sobre a excelência do seu texto.
    O que, de resto, não é novidade para ninguém.

    Obrigada . Eu também, se me prmite farei o mesmo.
    Meg
    P.S:

    Um forte abraço e obrigada pela apreciação que faz a respeito do Haroldo Maranhão. Ele era um grande amigo de Portugal, Ganhou o Prémio Vértice, em Coimbra, em um ano que não me ocorre agora, pelo seu livro “A Porta Mágica”.
    Aliás, como diz Guimaraes Rosa, o mundo é mágico!

  7. Meg, querida,
    Acabei não indo a Salvador, não consegui. Passei rapidinho para me divertir com o Haroldo. Você me trata melhor do que mereço. Tenha andado longe das palavras, em uma agonia medonha, sem poder escrever. A libido anda muito distante do ato de deitar letras no papel. Gostaria de enviar um e-mail para você e perdi o endereço. Escreva-me particularmente qualquer coisa só para que eu possa responder.
    Beijo grande

    =-=-=-=-=
    Imagine, milord ;-)
    Eu fico devendo e muito a você.
    Agora, eu já estou acostumada com esses writer’s blocks… Qual o escritor que não passa por isso?
    Isto se resolve quando menos esperar e aí sai uma obra-prima. Coisas boas são sempre antecedidas do que o Sócrates chamava de “dores do parto”.

    Dois beijos grandes: fique com um e entregue o outro à Lady C.

  8. AV says:

    Passei só para um beijo, Meggy. Gosto de ver aqui o meu amigo Huckleberry Friend – um caso sério de boa escrita, sabes? – e também, muito, de aqui rever o nosso Lord Caco (a quem devo uma resposta, que seguirá em breve).
    Beijos para ambos.
    Para ti, aquele carinho e muitos beijos, sempre.

    =-=-=-=-=-
    Ana, o Sub Rosa é seu, você sabe.
    Agora, entendo que vc tenha pouco tempo, quase todo ocupado com tantas ocupações.

    E o Huckleberry Friend, como disse a ele, em comentário no seu blog, pude expressar o que achava dessa *animia* dos objetos, uma idéia charmosa que ele desenvolveu muitíssimo bem.
    Já é um dos meus favoritos.
    Obrigada pelo seu Cata-Ventos;-) e tudo o mais.

    beijos, querida

  9. Júnia says:

    Este vale sempre a pena ver de novo!! É bom demais (da conta…;-)). Beijos.

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