Carlos, ontem, 17 …

Pois então, ontem fez 20 anos que Drummond se foi. Daí que eu – ontem – honrei algumas de minhas dívidas;-) e hoje estou aqui para fazer uma homenagem modestíssima , mas muuuuito pessoal ao Carlos.
Primeiríssimamente de tudo, o poema que tem um significado especial para mim, por ser filosófico, tratar do tema do solipsismo…ops , mas que coisa, olha eu aqui explicando tss.. tsc… what a hell é isso?;-))) Mas, voltando, segue aí, um poema que aprendi , lendo o livro muito do seu lindinho, com poemas pouco óbvios, poemas que nem todo mundo conhece, e que ganhei de presente de um *amigo paulista* que não sei se vai querer o nome dele aqui;-)… O livro chama-se As Impurezas do Branco. Adorável título para estranhos poemas:
Este por exemplo:

QUERO

Quero que todos os dias do ano

todos os dias da vida

de meia em meia hora

de 5 em 5 minutos

me digas: Eu te amo

Ouvindo-te dizer: Eu te amo

creio, no momento que sou amado

No momento anterior

e no seguinte,

como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão

que me amas que me amas que me amas.

Do contrário evapora-se a amação

pois ao dizer: Eu te amo,

desmentes

apagas

teu amor por mim

Exijo de ti o perene comunicado.

Não exijo senão isto,

isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra

nem sei de outra maneira a não ser esta

de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado:

amor na raiz da palavra

e na sua emissão,

amor

saltando da língua nacional

amor

feito som

vibração espacial.

No momento em que não me dizes:

Eu te amo

inexoravelmente sei

que deixaste de amar-me

que nunca me amaste antes.

Se não disseres urgente repetido

Eu te amoamoamoamoamo,

verdade fulminante que acabas de desentranhar,

eu me precipito no caos,

essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade. Quero. In: Impurezas do Branco Obras Completas.

Mas não é u-ma coi-sa?! Já pensaram nisso? Eu já:-))))

O outro poema é de um Drummond bastante sapeca, dedicado à não menos sapeca, à sapequíssima Hilda Hist, mulher lindíssima (aliás, é claro que vocês não conhecem o termo “sapeca”, não fui eu que inventei, mas há a barreira do tempo se vc tiver menos de 117 anos, então não conhece, e é uma pena…)

Assim é que é…

Poema de: Carlos Drummond de Andrade
Para: Hilda Hilst

Abro a Folha da Manhã
Por entre espécies grã-finas
Emerge de musselinas
Hilda, estrela Aldebarã.

Tanto vestido enfeitado
Cobre e recobre de vez
Sua preclara nudez
Me sinto mui perturbado.

Hilda girando boates
Hilda fazendo chacrinha
Hilda dos outros, não minha
Coração que tanto bates.

Mas chega o Natal
e chamo à ordem, Hilda.
Não vês que nesses teus giroflês
Esqueces quem tanto te ama?

Então Hilda, que é sab(ilda)
Manda sua arma secreta:
um beijo em morse ao poeta.
Mas não me tapeias, Hilda.

Esclareçamos o assunto.
Nada de beijo postal
No Distrito Federal
o beijo é na boca e junto.

=========
Esse poeta! que sab(il)do:-) Mas, minina, a gente lê poema e fica prestando atenção em outras coisas e só depois repara no que o poema conta, que aliás nada deve contar, mas assim, olhando meio de lado… esse Drummond hein, era meio cafifa, adoravelmente, claro. Será que a Hilda estava numa entressafra? Sabe-se lá quanto ciúme foi derramado… “Há uma gota de sangue em cada…etc…” Pois é…

==========

E para incentivar a leitura, aqui está uma crônica, que é barato total (gíria yada, yada, yada…)

Aquele casal

Aquele casal, o marido me honra com suas confidências:
– Ultimamente, a Elsa anda um pouco estranha. Não sei o que é, mas não me agrada a sua evolução.
– Como assim?
– Deu para usar estampados berrantes, de mau gosto, ela que era tão discreta no vestir.
– É a moda.
– Pode ser o que você quiser, porém minha mulher jamais se permitiu esses desfrutes.
– Deixe Dona Elsa ser elegante. Não há desfrute em seguir o figurino.
– Se fosse só o figurino. São as maneiras, os gestos.
– Que é que tem as maneiras, os gestos?
– A Elsa parece uma menina de quinze anos. Ficou com os movimentos mais leves, um ar desembaraçado que ela não tinha, e que não vai bem com uma senhora casada.
– Posso dar opinião? As senhoras casadas não perdem a condição feminina, e pode até realçá-la por uma graça experiente.
Fixou-me suspeitoso:
– Que é que está insinuando?
– Nada. A mulher casada desabrochou, não é mais um projeto, pode revelar melhor o encanto natural da personalidade.
– Pois fique com suas teorias, que eu não quero saber de minha mulher revelar seu encanto a ninguém.
– Perdão, eu…
– Já sei. Estava querendo desculpar a Elsa.
– Desculpar de quê?
– De tudo que ela vem fazendo.
– Eu ignoro tudo, e adivinho que não há nada senão…
– Senão o quê?
– Aquilo que o dicionário chama de ente de razão, uma fantasia completamente destituída de razão.
– Acha então que estou maluco?
– Acho que está sonhando coisas.
– E a flor que ela trouxe ontem para a casa é sonho? Me diga: é sonho?
– Que é que tem trazer uma flor para casa?
– Veio do oculista e trouxe uma rosa. Acha direito?
– Por que não?
– Eu apertei, ela me disse que foi o oculista que deu a ela. Estava num vaso, ela achou bonita, ele deu.
– E daí?
– Então uma senhora casada vai ao oculista e o oculista lhe dá uma rosa? Que lhe parece?
– Que ele é gentil, apenas.
– Pois eu não vou nessa gentileza de oculista. Não há rosas nos consultórios de oftalmologia. E que houvesse. Tem propósito uma coisa dessas? Ela acabou chorando, dizendo que eu sou um bruto, um rinoceronte. Engraçado. Minha mulher vem com uma rosa para casa, uma rosa dada por um homem, e eu não devo achar ruim, eu tenho que achar muito natural.
– Desde quando é proibido uma senhora ganhar flor de uma pessoa atenciosa? Que sentido erótico tem isso?
– Tem muito. Principalmente se é rosa. Ora, não tente negar o significado das ordens florais entre dois sexos. O oculista não podia dar essa flor, nem ela podia aceitar. O pior é que não deve ter sido o oculista.
– Quem foi, então?
– Sei lá. Numa cidade do tamanho do Rio, posso saber quem deu uma rosa a minha mulher?
– Vai ver que ela comprou na loja de flores da esquina, e disse aquilo só para fazer charminho.
– Ela nunca fez isso. Se fez agora, foi para preparar terreno, quando chegar aqui uma corbelha de antúrios e hibiscos.
– Não diga uma coisa dessas.
– Digo o que penso. Estou inteiramente lúcido, só me conduzo pelo raciocínio. Repare no encadeamento: os vestidos modernos; os modos (só vendo a maneira dela se sentar no sofá); a rosa, que ela foi correndo levar para a mesinha de cabeceira do quarto. Cada uma dessas coisas é um indício; reunidas, são a evidência.
– Permita que eu discorde.
– Discorda sem argumentos. A Elsa não é mais a Elsa. Demora mais tempo no espelho. Fica olhando um ponto no espaço, abstrata. Depois, sorri. Estou decidido.
– A quê?
– Vou segui-la daqui por diante. Contrato um detetive. E logo que tenha a prova, me desquito.
– Não vai ter prova nenhuma, juro. Ponho a mão no fogo por Dona Elsa.
– Pensei que você fosse meu amigo. Fiz mal em me abrir. Vamos mudar de assunto que ela vem chegando. Mas repare só que os olhos de Capitu que ela tem, eu nunca havia reparado nisso!
Esquecia-me de dizer que meu amigo tem 82 anos, e Dona Elsa, 79

Ah! Poeta!

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

18 Responses to Carlos, ontem, 17 …

  1. Meg,
    Sapeca?

    Stop,
    A vida parou.
    Ou foi o automóvel?

    Talvez eu seja mais velho que você. Não seria sapeca alguma coisa próxima da pá virada? Será que a Hilda era da pá virada?
    Beijo divertido

  2. Sapeca é ainda ultra-utilizado no RS.

    A Hilda era inteiramente da pá virada, Lord…

    Que lindo o poema sobre a necessidade do “Euteamoeuteamoeuteamo
    euteamoeuteamoeuteamo
    euteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamo
    euteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamo
    euteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamo
    euteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamo
    euteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeu te amoeuteamoeuteamo
    euteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamo
    amoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamo
    euteamoeuteamoeuteamoeuteamoeuteamo”

    Um beijo.

  3. Nossa, atravessou a tela!

  4. Oh Mirto!, podes fazer o que quiseres: és quase um bebê;-)))))
    beijos, parabéns e eu te adoro.
    M
    =-=-=-=-=
    Lord: Hahahaha, da pá virada?!
    Pá virada é comigo mesmo, não sei o que é mas gostei: pás, enxadas hmmmm.. sounds good!;-)
    Tinha uma seção na revista Caras, assinada por um professor cujo nome eu sei que começa por D. , mas, como sabe, aos 357 anos a gente vai esquecendo das coisas…pois bem, essa coluna dizia a origem dessas expressões, tais como:

    *chovendo canivetes hahahah
    *cordão dos puxa-sacos
    *lé com lé. cré com cré
    *ora, vai tomar banho
    *quem vê cara não vê coração
    *não tem cão, caça com gato
    *um pé lá, outro cá
    Não era só o significado, era a *ORIGEM* também
    *gatos pingados:-)
    * casa da mãe joana (hohoho) – esta eu a-dor-o!!!!!

    e por aí vai…

    Fazíamos muto isso lá no blog da Cora (Corita) Rónai, ainda éramos todos babies e éramos uma dúzia de blogs pingados, se tanto.
    Fazíamos almoços que duravam uma tarde inteira e entrava-se pela noite (pelo menos, na minha casa era assim) e a blogosfera era risonha e franca..hoje…. :-o(((

    Aliás, outro dia por email ouvi a frase mais sábia do mundo, uma querida amiga me disse:
    “OLHE, MEG, SOU INTEIRAMENTE VIRTUAL:Não faço questão de conhecer ninguém nem de ser conhecida. Quem quiser gostar de mim pelo blog , que goste, não ultrapaso e nem deixo ninguém ultrapassar essas fronteiras”

    OMG, OMG! Oh my gosh! , por que essa moça não apareceu há mais tempo na minha vida ? pisc*

    Beijos a todos
    Meguita

  5. Cadinho RoCo says:

    Lembrança belíssima a não permitir que o poeta deixe de ser lido. A propósito, esta coletânea forma um poema.
    Cadinho RoCo

  6. Eduardo says:

    Uma delícia de post e idem de comentários. Leitura de Domingo, garantindo um alto astral para o resto do dia! Gente inteligente é outra coisa!

    Bjs

  7. DENISE says:

    Meguita! Que post é esse???
    Olha, esse poema euteamoteamo não é tão desconhecido. Meu filho querido, na mais tenra infância, me deu este poema, num cartãozinho no dia das mães. Ah, lembranças…
    Quanto ao sapeca, kkkkkkkkkkkkkk, somos todas, né?
    saudades de ti, minha linda!
    beijos sapecas, menina

  8. DENISE says:

    Esqueci de dizer que Drummond é meu poeta favorito e que também fiz um post pra ele.
    E também esqueci de dizer que teamoteamoteamo…
    beijo, menina

  9. Yvonne says:

    Presentaço de domingo. Beijocas minha fofa

  10. Magaly says:

    Ai, Meggy, tocou no ponto perfeito para a curtição de domingo. CARLOS é CARLOS Drummond de verdade. A gente tem que continuar a tirar o chapéu (essa gíria aqui é minha ou sua, não me lembro direito).
    Sapeca? Pá Virada? Posso dizer que há uns 130 anos eu não já não tirava essas aí da boca. Sabia que em Maceió da minha infãncia e juventude o bloco caravalesco mais retumbante chamava-se Pá Dourada (ou Pás Douradas) e que a meninada de minha roda apelidava-o de Pá Virada? E havia uma certa razão porque, se no desfile pelas centro da cidade, o Pá Virada desse com o Bota-Fora, tínhamos que fugir da platéia (as calçadas) porque invariavelmente eles se digladiavam. (Saudades daquela terra de índios).
    Saborosa crônica Ele era bom em qualquer instrumento.
    Obrigada, Meggy, animou esse meu domingo,alma de gato.
    Beijos

  11. palpiteira says:

    MEG do céu! Eu sei o que é sapeca. OMG! :)
    Querida, vc escreve muito bem e eu adoro ler quem sabe escrever. Vc é minha mestra. E mesmo que não o fizesse, poderia. Vc sabe muito e só quem sabe pode se dar ao luxo de errar.
    Beijos, de longe para vc não pegar minha gripe. ;)

  12. Meg, Ganhei o Impurezas do Branco de um amigo num aniversário meu. Não tinha lido nem metade dos poemas, perdí o livro num assento de ônibus, lastimo até hoje. Hilda Hirst, lí alguns livros dela. Quando ela morreu eu lia um naqueles dias, era meio premonitório e ví um monte de significados, à época.
    Da pá virada, era e é muito usado ainda. Acho que descreve voce perfeitamente.
    Um beijo, menina

  13. Meg, vá a meu broguinho, per favore.

    Mille baci.

  14. Celia says:

    Ai que coisa mais fofa esta crônica.
    Vc acredita, meguita, que amor, assim com ciúme, pode existir depois que as “belezas da carne” já se formam?
    Nenhum preconceito, mesmo porque vivo num país em que os velhos são muito respeitados, quase reverenciados, vc sabe, aqui não temos um Poder Jovem, aqui temos um Poder dos Velhos.
    E antes que me venham jogar pedras, digo logo, que pretendo viver até os 100 anos, mais que isso , é castigo, não acha?
    agora que a crônica do Drummond é fofa, é sim.
    bejos

  15. Celia says:

    E, se for o livro que estou pensando, o Drummond que o Beutenmuller te deu (ah! não era pra dizer.=)?) esse poema pra Hilda Hist não está lá não, esse poema sapeca é muito anterior, não é linducha?
    Obrigada por me lembrar dessas expressões tão brasileiras.

    Valter, a Meg é sapeca pra chuchu (é assim ou xuxu?)

  16. Matilda says:

    “Ah! Poeta!!”
    É isso, era um poeta.E um poeta sapeca, :).

  17. Célia, e eu não falo? Da pá virada, é o mesmomo que danadinha prá dedéu, ou prá chuchú, como preferir.
    Um beijo grande

  18. Saramar says:

    Este poema é um dos meus preferidos do Drummond.
    Sempre o leio quando ando em solidões.
    Você falou em homenagem modesta, mas que modéstia a sua.

    beijos

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