TU Y YO (Tu e eu) – Juan José Arreola

tango14

Dentro de Eva, Adão vivia feliz num paraíso de entranhas. Preso como a semente na polpa doce do fruto, eficaz como uma glândula de secreção interna, dormitando como uma crisálida no seu capulho de seda, as asas do espírito amplamente desdobradas.Como todas as criaturas ditosas, Adão renunciou à sua bem-aventurança e se pôs a procurar qualquer saída. Investiu contra a correnteza nas águas densas da maternidade, forçou com a cabeça uma passagem no túnel de toupeira e cortou o liame da sua aliança primitiva.

Mas o habitante e a desabitada não puderam viver separados. Aos poucos eles foram idealizando um cerimonial cheio de nostalgias pré-natais, um ritmo obsceno e íntimo que devia começar com a humilhação consciente de Adão. Ajoelhado como diante de uma deusa, suplicava e oferecia toda qualidade de presentes. Em seguida, com uma voz cada vez mais urgente e ameaçadora, começava uma justificação do mito do eterno retorno. Depois de se fazer de muito rogada, Eva suspendia-o do chão, esparzia a cinza dos seus cabelos, tirava-lhe as roupas de penitente e o cobria parcialmente com o seio. Aquilo foi o êxtase. Mas o ato de magia imitativa deu péssimos resultados no tocante à propagação da espécie. E em face da multiplicação irresponsável de adões e evas, que traria como conseqüência o drama universal, um e outro foram chamados a prestar contas. (No chão, como um clamor mudo, estava fresco o sangue de Abel)

Entre cínica e humilde, Eva se limitou no tribunal supremo a fazer uma exibição mais ou menos velada das suas virtudes naturais, enquanto ia recitando a cartilha da companheira perfeita. As lacunas do sentimento e os hiatos da memória foram admiravelmente compensados por um longo repertório de risinhos, manhas, dengues. No fim, fez uma esplêndida pantomima do parto doloroso.

Por sua vez, muito formalista, Adão declamou um resumo extenso de história natural, convenientemente expurgado de misérias, morticínios, traições. Falou do alfabeto e da invenção da roda, da odisséia do conhecimento, do progresso da agricultura, do sufrágio feminino, das guerras de religião, da lírica provençal. . .

Sem qualquer explicação, colocou tu e eu como exemplo. Definiu-nos como o par ideal e me tornou um escravo dos teus olhos. De súbito, porém, fez ainda há pouco com que brilhasse esse olhar que, vindo de ti, para sempre nos afasta.

Juan José Arreola (México- 1918-2001), que, só para constar, era amicíssimo e interlocutor de Jorge Luis Borges, terçando os dois, belos games de escrita literária.  (sim ele mesmo:-)

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

9 Responses to TU Y YO (Tu e eu) – Juan José Arreola

  1. James disse:

    Cara mestra

    “nenhuma palavra dispensável.”

    Isso é que é elogio, não é mesmo?

    Um abraço.

  2. Henrique disse:

    Oi Meg, desculpa não ter respondido o seu comentário… O blog andou meio abandonado, e só hoje li seu comentário. Conseguiu o que precisava? Livro sobre aquilo eu não conheço, mas imagino que não seja difícil encontrar, ainda mais se tiver valendo monografias e teses ;)

  3. thata disse:

    eu eu quebrando a cabeça pra resumir essa história. Não me veio nada que ficasse a contento (ou à altura heheh)
    viu meu e-mail, Meglyn?
    beijocas

  4. aninhapontes disse:

    Meg querida, lí, gostei. Mas vou voltar a ler amnhã, depois e quantas vezes forem necessárias antes de falar qualquer coisa.
    Agora, nós queremos ver você bem. Eufórica e feliz. Isso nos deixa felizes também.
    Um beijo.

  5. Magaly disse:

    Não disse o Carpeaux que nada é destacável do texto, nada.?
    É um texto substantivo, então. Como meter a mãozinha lá?
    Deixei-o quietinho e fui por aí procurar outras jóias dele.
    Achei algumas e me deliciei:

    ÁGRAFA MUSULMANA EN PAPIRO DE OXYRRINCO

    Estabas a ras de tierra y no te vi. Tuve que cavar
    hasta el fondo de mí para encontrarte.

    (conto completo)

    PALÍNDROMO

    … éres o no éres.. seré o no seré…

    CONTO DE TERROR

    A mulher que amei se converteu em fantasma.
    Eu sou o lugar das aparições.

  6. valter ferraz disse:

    Meg,
    se erudição e conhecimeto (acho que fui redundante agora) eu tivesse, poderia escrever alguma coisa como Juan José Arreola.
    Como faltam-me esses atributos, que só a educação formal, anos debruçados sobre as malditas pedrinhas(as palavras) só elas trazem no máximo, consigo impingir algo como aquilo que te mandei em arquivo anexo.
    O livrinho estava preso, atado mesmo. Agora saiu.
    E aliviado, posso até comentar.
    Magífico esse texto. A analogia, o uso correto das palavras, tudo corrobora o que você diz aí. É mestre nas palavras, mesmo.
    Um dia, oxalá não esteja longe, escreverei assim:
    “Después de hacerse mucho rogar, Eva lo levantaba del suelo, esparcía la ceniza de sus cabellos, le quitaba las ropas de penitente y lo incluía parcialmente en su seno”.
    Nesse dia, estarei feliz. Serei definitivamente, um escritor.
    Enquanto esse dia não chega,
    fique com o meu
    beijo grande

  7. adelaide disse:

    Sim, Meg, soy yo, la del Umbigo do Sonho – que continua azul abrigando o peixão do Bosch, mas deu uns filhotes. Somos conhecidas antigas, e somos bem persistentes, eu diria até obstinhadas, pra manter um blog por mais de (quanto tempo mesmo?) e ainda inventar outros. Espero que esteja bem, viu? Um beijo.

  8. Eduardo disse:

    MEGUITA , querida, sem meu computador, e com estes CARROS DE BOI aqui do Correio, não dá para ler mais do que tres linhas. Me desculpe. Obrigado pelas visitas e comentários, bjs, muitos.

  9. Yvonne disse:

    Meg, não há o que agradecer querida. Hoje é você que está triste, amanhã serei eu e assim nós vamos vivendo. Beijocas estaladas e um lindo fim de semana para você. Beijocas

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