FEIAS, QUASE CABELUDAS para Lord Broken Pottery e …

brossa.gif(poema visual de Joan Brossa)

FEIAS, QUASE CABELUDAS

(uma crônica de Haroldo Maranhão).

Certa vez eu disse a uma senhora, aludindo a uma outra que ela padecia de logorréia incurável. Observei que a palavra provocou no espírito de minha amiga impressão desconfortante, como se houvesse proferido inconveniên­cia, revelado uma doença íntima, provavelmente crônica, enunciando, enfim, licenciosidade indesculpável. Precisou que eu aclarasse o equívoco, definindo que logorréia, ain­da que não pareça, é esta cousa linear e ingênua: inconti­nência de linguagem, hábito de falar em excesso.

O episódio ensinou-me a não gastar estouvadamente determinadas palavras que possam dar margem a ambi­güidades, às vezes penosas de contornar. É perigoso, por exemplo, perigoso e quase desabusado, afirmar de uma senhorita que amanheceu com uma ferida no sincipúcio, muito embora depois se possa vir a saber que sincipúcio é o topo da cabeça.

Não aconselho, a ninguém, louvar-se nos dicioná­rios. Mesmo porque existem palavras que se criaram para não ser usadas, ou porque sejam feias de aspecto, ou por­que o seu uso implicaria na presunção de loucura mansa, quando não significasse pedantaria mesmo. Seria de todo lamentável dizer de uma bela mulher: é pulcrícoma e eu­póc1oma, ainda que uma consulta aos léxicos informasse que se estava pretendendo gabar seus lindos cabelos, finos e encaracolados. E se, a essa bela mulher, sucedesse de possuir a cabeça larga, vistosa – acrescentar que, além de pulcrícoma e eupóc1oma, era euricéfala; ou esfenocéfala, se a cabeça oferecesse conformação pontiaguda.

A parte do rosto situada entre as duas sobrancelhas chama-se mesófrio. Lá está nos dicionários: mesófrio. Ora, a um noivo minucioso e cálido, que desejasse fazer traquinagens, usando, vamos dizer, os lábios, nessa parte do corpo de sua noiva – daria eu este conselho honesto: faça lá a sua traquinagem, mas resolutamente, sem consultar a noiva previamente, manifestando a intenção de beijar, ou o que seja, o seu mesófrio, porque nesse caso estaria pondo em risco os esponsais, alarmando e cobrindo a moça de rubores, mesmo que esta pudesse ser uma socranca, quero dizer, uma pessoa sonsa.

Funcionassem certas palavras do dicionário, e seria inumerável a espécie de humilhação e constrangimen­to atribuídos à condição humana. Cousas simples teriam aviltantes nomes, compendiados, é certo, mas felizmente não em curso na linguagem coloquial: anodonte (descul­pem) é a pessoa que não tem dentes; angustímano, que tem mãos estreitas; anóleno, que não tem braços; anônfalo, que não tem umbigo; leptoprosopo, que tem o rosto estreito; leptorrino, que tem o nariz delgado; catacego, que tem vis­ta curta; famelga, sujeito franzino com cara de fome; fla­vípede, que tem os pés amarelos ou amarelados; pilípede, que tem pêlos nos pés; belfudo, que tem os lábios grossos e grandes; dendrófobo, inimigo das árvores; manirroto, que é pródigo, perdulário; manicurto, que é sovina; pa­quirrino, que tem o nariz grosso; coprolálico, dotado de impulso mórbido que leva a proferir obscenidades; filógi­no, que tem inclinação pelas mulheres; lacrecanha, mulher velha e desdentada.

À leitora que me escreve perguntando se se deve ler dicionário “como romance” e se, para escrever razoavelmente, é preciso “aprender muitas palavras“, respondo com o que ficou escrito. As palavras são tão difíceis de costurar, são tão árduas, que o melhor, mesmo, é reduzi-Ias a uma boa e honesta meia dúzia. Não sei (e nem tenho, ali­ás, por que saber) da cor dos olhos dessa leitora que bateu por engano, talvez, à minha porta. Mas se são negros os seus olhos, bastará dizer simplesmente: são negros os seus olhos. Não seria horrível, para exprimir essa coisa singela, dizer que é melanoftalma? Não. Não leia os dicionários como romance, moça. Principalmente (e aí, então, seria o diabo) se padecer de logorréia.

Haroldo Maranhão.(Brasil 1927-2004)

In: MARANHÃO, Haroldo. Feias, quase cabeludas. S. Paulo, ed. Planeta do Brasil,2005

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Haroldo Maranhão, é um dos maiores escritores do Brasil, conhecido e admirado nos meios literários, amigo de escritores, e, por sua causa, por sua excelência, dedico-me à tarefa de torná-lo mais conhecido do grande público: foi o homenageado pelo site Sub Rosa que promoveu em 2003 um extremamente bem-sucedido Concurso de Contos (Narrativas Breves)HAROLDO MARANHÃO. Haroldo, nesta crônica deliciosa, brinca com seu amor pelas palavras, ele que foi um bibliófilo, e amava de forma exacerbada os dicionários, tendo sido ele próprio dicionarista: fez dois dicionários, dos quais falaremos mais adiante. Apenas para dar uma idéia, Haroldo, que foi grande amigo de escritores, possuía um exemplar do dicionário mais respeitado e cultuado do mundo que é o Bluteau, e durante algum tempo de sua vida, trabalhou com Aurélio Buarque de Hollanda, na tarefa de definir verbetes e fazer averbações (definir a palavra e escolher um trecho de texto de escritor para exemplificar o uso.
Já publicamos de Haroldo , neste tema, a crônica Um, dois três, que fez muito sucesso, e que iremos republicar, posteriormente.
Aqui no Sub Rosa, falamos e falaremos –sempre – dele. Há ainda muito por fazer para que este mestre da literatura brasileira seja reconhecido.
Excelente contista e impecável ficcionista, a Editora Planeta (do Brasil) está relançando sua obra completa, tendo como curadores, o ensaísta e filósofo BENEDITO NUNES e MARCELO PEN, crítico literário da Folha de S. Paulo.

♣♣♣

Esta crônica é dedicada a todos os meus leitores, é evidente. Porém, de forma muito especial a três pessoas que sabem fazer das palavras um uso rico, amoroso e muitas vezes tal como Haroldo Maranhão – sardônico. Estas pessoas são Lord Broken Pottery (pseudônimo de Ricardo Ramos Filho, filho de Ricardo [de Medeiros]Ramos e neto do grande Graciliano Ramos, (ou seja, uma verdadeira dinastia); Cláudio Boczon, que tem o dom invejável do wordplay, do wit, e do trocadilho, e finalmente para Denise Rangel, a professora por excelência, que tem um belísimo projeto de leitura, que merece ser conhecido. Vá até lá.
Ah! por falar em vá até lá: Não esqueçam que aí , do lado, eu coloco alguns blogs e sites em DESTAQUES. Gente, se eu coloquei é porque é bom (pelo menos eu acho) então vão ver, nem que seja para discordar de mim;-) mas também pra eles não pensarem que eu não tenho cacife com vocês, ó meus 5 leitores fiéis. Hohoho e Snifff..

Um excelente feriado para vocês, babes.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

19 Responses to FEIAS, QUASE CABELUDAS para Lord Broken Pottery e …

  1. Meguita, querida,
    Você emocionou-me. A crônica do Haroldo é ótima, embora force um pouco nas tintas ao escolher as palavras. Só assim conseguiria o magnífico efeito encontrado. Gosto muito do título. A referência a quase cabeludas, remetendo a palavrão, prepara nosso espírito.
    Com relação a possuir dicionários especiais, conto uma historinha que aconteceu comigo. Herdei um dicionário de minha avó Heloísa, autografado pelo Aurélio. Aliás, não foi bem uma herança pois me deu ainda em vida. Pois bem, levei-o para o trabalho e o uso às vezes. Outro um dia um colega me perguntou como é que eu tinha coragem de consultar uma preciosidade daquelas. Aquilo me faz pensar até hoje. Será que o autógrado dado pelo grande acadêmico teria o dom de calar a obra que escreveu? Deveria deixá-lo guardado, como um troféu, mudo? Continuo buscando socorro nele. Está velhinho, amarelado, mas ainda funciona. É parecido comigo.
    Beijão

  2. nelson says:

    Meguita amor arraigado,

    Dicionarios muito me dizem, servem a propositos confessaveis, as palavras, negociam sentidos, significados, citações ..Armam codigos nada difíceis quando hackers brincalhões não tem ideia a dizer – E fica tudo mais claro foi outro que disse.

    Beijos,

  3. Lutar com palavras
    é luta mais vã
    no entanto lutamos
    mal rompe a manhã.
    [Drummond, nosso mineiro CDA]

  4. Eduardo.P.L says:

    Não conhecia este escritor, e gostei do texto. Vou procurar ler mais!

  5. valter ferraz says:

    Meg, deu um show com H.Maranhão. E me encontrei em uma das expressões usadas por êle, só não conto qual foi.
    Bom final de semana,
    Um beijo grande
    Valter, o Ferraz

  6. aninhapontes says:

    Meg minha querida, existe alguém que seja anônfalo?
    São nomes muito malucos mesmo, mas o dicionário, não podemos deixá-lo de lado, é peça fundamental, nos livra as vezes de cada enrascada.
    Beijos menina, bom feriado e final de semana.

  7. Magaly says:

    Oi, Meg, você me apresentou o Haroldo Maranhão naquele concurso das Narrativas Breves, do Sub Rosa. Amor á priimeira leiitura. Excelentes textos tenho lido dele por iniciativa sua, mas não lhe conhecia esse lado lúdico. Muito bom, ele brinca com as palavras feias e cabeludas com destreza e bom-humor.
    A ilustração está perfeita. Muito interessante tudo..Escritor que merece a atenção de todos nós.

  8. denise says:

    Meg, querida, adorei o texto e vou levá-lo para me divertir com meus alunos, he he.
    Agradeço a menção (gostou da palavra?) a meu projeto de leitura, mas você deu o link do Laé, que possui um belíssimo projeto também. Meu Projeto é http://drang50.wordpress.com/ e o meu link , que você colocou, também é de outra pessoa que não eu. Deus me livre que os autores dos blogs que você citou como meus venham me processar por apropriação indevida, já pensou? KKKKKKKKKKK!!!! Meu link é http://drang.wordpress.com/
    beijo enorme,menina!!!

  9. lulu says:

    Meg querida,

    que lindo texto! que gostoso que tá tudo isso por aqui!
    Lulu.

  10. Yvonne says:

    Querida, um ótimo feriado para você. Curta um dia maravilhoso. Beijocas

  11. Bacana o conto, lembrei daquele conterrâneo, o Emilio de Menezes, que também era chegado na arte de causar espécie com o léxico.

    isso de trocadilhar funciona até como uma defesa, já que quando a gente atropela a gramática, ninguém aponta o defeito, pensando tratar-se de alguma “licença poética”.

    e assim vamos tangenciando a erudição.

  12. denise says:

    Meguita, querida, obrigada! Já avisei ao WP que você não é spam!Hehehehe!
    Quantos aos colegas, penso que ficam sem graça de dizer que o outro se equivocou, ou não têm o hábito de clicar em links. Eu farejo tudo que meus amigos indicam, hehe! Foi pelo seu blog que descobri o Bozcon e adorei!
    Já coloquei o contador aqui, mas ele não funciona, não sei por que. O endereço pra você pegar o código é http://blogutils.net/?f2 Tomara que você consiga, pois no meu só aparece a palavra on line, mas não aparece o número. Deve ser porque não há ninguém on line. Mas acho que deveria aparecer o número zero, sei lá. Me conta depois.
    beijo, menina

  13. Alma says:

    Meg,

    Adorei o novo visual do blog!
    Ainda não desisti de abrir o meu neste wordpress, mas eu sou tão incompetente….

    Beijos

  14. Júnia says:

    Meg, como é difícil escrever fácil, não é? :-))

  15. Eduardo.P.L says:

    Meg, gostei do comentário do Claudio. Já tinha percebido isso!!!

  16. Que-ri-dís-si-mos!
    Obrigada pelos comments, Logo… logo, vou responder a todos. Vcs são os mais lindos da blogsfera

    Valter, qual é a expressão Conta! ConTa! Conta! ;-)))
    beijos
    Meguita

  17. Virei aqui comentar todinhas uma por uma, certo?
    beijos matinais.
    Meguita

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