MARLY DE OLIVEIRA, grande poetisa brasileira (R.I.P)

marly.jpg

Sinto-me muito triste, duplamente triste, pois fiz matérias com poetas não tão bons e queria mesmo era fazer uma matéria sobre Marly de Oliveira, estupenda poeta brasileira. Em vida, e não deu tempo.
Era casada com João Cabral de Melo Neto.

Os livros culminantes de Marly de Oliveira são:
1- A Suave Pantera (1962)
2- O Sangue na Veia (1967).

O primeiro deles é um único e belo poema, meditação um tanto à William Blakesobre a negra pantera, em que se interroga sobre a força, a beleza e a ferocidade do animal, em versos que indicam um instante extremamente feliz de sua obra:

Negra ela rebrilha,
presente a si mesma,
como se invadida
de uma luz avessa.

No segundo livro, ela – longe do *sublime e soturno* que lhe atribuem, fala de uma carnalidade às claras:

A carne é boa, é preciso louvá-la.
A carne é boa, não é triste ou fraca.
O que a atinge é a fraqueza que há num homem,
A tristeza, maior que um homem, mata-a.

Em setembro de 2001, no Sub Rosa versão 1, eu postei um poema de Marly, de seu primeiro livro de que gosto muito.

POEMA XIV

MARLY DE OLIVEIRA

A liberdade da pantera
está justamente nisto:
que nem ela se governa.
e o que sucede é imprevisto.
Essa a vantagem da fera:
uma força que ela abriga,
inconsciente, dentro dela

-sob a aparência tranqüila –
e de repente se revela,
mas numa espécie de fúria,
que atinge inclusive a ela,

mas numa espécie de luta
que é o modo que tem a cólera
de mostrar-se numa fera
e que é a sua única forma
de ser pura além de bela.

A suave pantera, In Anuário da Literatura brasileira, 1962

(*) Marly de Oliveira (11/06/1935/01/06/2007) nasceu em Cachoeiro de Itapemirim (Espírito Santo). Uma das mais famosas, prestigiadas e reconhecidas Poetas brasileiras. Mas, infelizmente, desconhecida do grande público. Publicou Cerco da primavera, poesia 1958; Explicação de Narciso, 1960 e A suave pantera, 1962. Ganhou o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro, 1958.
Era esposa do poeta João Cabral de Mello Neto. E continua sendo uma das mais importantes poetas contemporâneas.
-=-=-
Morreu na noite de ontem.
Mas que praga! Isso lá é idade pra se morrer?! (olha, gente, eu sempre digo isso, então os que me conhecem, ao menos um mínimo que seja, sabem muito bem que esse negócio de morte *NAO* é minha praia. E com isso quero dizer muita coisa, que os mais inteligentes e sensíveis já sabem o que é.)
-=-=-=
E uma coisa que me entristece mais ainda , eu sou do tipo que *necessita* dar as flores em vida, e tinha planos – que, infelizmente, foram atropelados, de homenagear Marly de Oliveira, pois em 2001, eu ainda não sabia da força e do poder de um blog.

Para saber mais: Itaú Cultural
Olha só, este link está com problemas… Mas vou deixar porque ele bem diz da importância de Marly.
Então, se quiserem saber mais sobre ela, tem a página do Felipe Fortuna.
Higner Mansur, jornalista capixaba, escreveu a respeito dela e , publicarei oprtunamente, sua homenagem à Poeta. Esta sim, consagrada poeta, uma das melhores. Poeta de verdade.

Em tempo: A bela edição das Obras Completas de João Cabral de Melo Neto em dois volumes: v1. Serial e Antes e v.2 A educação pela pedra e depois. Nova Froneteira, 1977 teve Marly de Oliveira como prefaciadora e apresentadora.
Dona de uma cultura sólida, ela faz o melhor estudo que conheço sobre o Poeta. Marly tinha a elogiosa admiração de pessoas tais como Antônio Cândido e do grande Poeta Mario Faustino.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

14 Responses to MARLY DE OLIVEIRA, grande poetisa brasileira (R.I.P)

  1. aninhapontes disse:

    Meg minha querida, realmente a notícia é triste!
    Perder alguém, sempre nos deixa, um tanto sem referências, sem os pés no chão.
    Mas, não vamos deixar a tristeza tomar conta, pois como ela mesma disse: ” A tristeza, maior que um homem, mata a carne.”
    Que bonito né? São sábias palavras.
    Beijos minha querida, que você tenha um ótimo domingo.

    Aninha, querida, não, não… A tristeza deve ser sempre impedida de vencer. Como disse Nietzsceh: a alegria é (a) força maior . Claro, claríssimo, eu concordo absolutamente com você. Como sempre, aliás.
    E sei que um grande Poeta jamais morre!
    Minha chateação se deve ao fato de que eu tinha no meu blog, tristemente deletado, uma seção chamada “Grande Sociedade das Poetas Vivas” ou “Sociedade das Grandes Poetas Vivas”, era mais ou menos assim, não sei ao certo, que homenageava as poetisas ou Poetas-mulheres..
    Aí, quando essa turba malta veio dizer aquelas coisas imbecis, gente de mente obscura pois que eu lá quero saber de morte, cazzo, desculpe, querida – eu estava tratando da minha VIDA e entre os planos que eu tinha, um deles era de prestar uma magnífica -mas sei que jamais seria à devida altura- homenagem à poeta Marly de Oiveira.
    Elas são nossas porta-vozes, Ana. Quando foi ontem…:-(
    O que entristece também , querida é que me dói um talento não reconhecido, quando tanta gente medíocre estaí nas paradas de sucesso ;´-(
    E por último, é que eu não tenho nada a ver com ninguém, tenho a ver comigo e uma das coisas que eu mais desejava foi impossível fazer.
    Beijinhos, querida
    E como está o frio,por aí?
    Brrr…
    Meguita

  2. Meg,
    Puxa, não sabia! Como se foi cedo… Bonita homenagem. Nessa hora nunca tenho o que dizer. Meto os pés pelas mãos, fico triste, calo-me. A poesia brasileira perdeu muito, ficou menor.
    Beijão

    So do I, my dearest Lord, so do I!
    Foi-se muito cedo, nunca poderia esperar por isso.:-o(
    E me sinto subtraída e triste pois um vendaval de obscurantismos de que fui vítima na Internet, tanto por parte de pessoas mentalmente atrasadas , como das mais atrasadas ainda que propiciam e patrocinam esses absurdos, eu fiquei sem poder fazer a homenagem que ela merecia *EM VIDA* e que como crítica eu me obrigava a fazer.

    Mas, resta o consolo, que um Poeta, um grande artista não morre . Jamais.
    E que a lucidez sempre vencerá a obscuridade.
    Um beijo, milord!
    Meguita

  3. daniel disse:

    -quando um poeta morre, a sua poesia serve pra adubar a escrita dos outros poetas?
    -não só a poesia de quem escreve, mas também a vida de quem vive.
    não conhecia ela, marly de oliveira, mas quem escreve cria um diálogo com o futuro, e os textos ficam sempre alí.
    vou aproveitar pra ler.
    :)

    Grande e querido Daniel Sehda!
    Sempre um prazer , um alegria ter vc por aqui, brilhando com sua inteligência e nos colocando para refletir.
    Eu tenho a impressão de que -neste caso- não serve propriamente para adubar, o que serve para adubar é exatamente a maior ou menor extensão do comnhecimento que esse Poeta teve, entende que quero dizer?
    Acho que quanto mais se conhece uma escrita, uma poiética, uma forma de expressar poeticamente o mundo e à medida em que esse conhecimento se torna absorvido, conhecido e circula como moeda corrente na sociedade – na sua bela expressão: “a vida de quem vive” aí eu acho que isso, esse conhecimento é o mais fértil adubo para a criação.
    Resposta, aliás, que você mesmo dá na segunda parte da sua intervenção!!!! Veja só. Se se passa a conhecer, se se passa a escrever -observe que só estamos falando porque alguns blogs falaram dela – e a escrever cada mais sobre ela ou mostrar o trabalho que ela fez, aí sim. AÍ, SIM: ESSE DIÁLOGO SE ESTABELECE!. Diálogo não-ocioso…diálogo fértil e frutífero. Como é a função do bom adubo!
    Um poeta esquecido ou desconhecido é uma subtração grave e vital para quem precisa dele e não sabe.
    Um beijo, querido. Não deixe de vir sempre por aqui.
    Da próxima vez preparo cafezinho, OK?
    Ou o que vc preferir;-0)

  4. Eduardo P.L. disse:

    Noticia de mortes sempre são tristes.
    Poetas, e poetisas, mais!


    Sim, querido amigo.
    Tens razão, ainda mais em se tratando quem é, de quem foi, de uma vida toda dedicada à Arte da Beleza escritta, quer como Poeta, como crítica e , não nos esqueçamos, mulher de um dos maiores Poetas do mundo (Poeta para sempre Universal) mas cabe a nós, querido Eduardo, não deixar que aconteça o que é pior que a morte: que é o olvido, o esquecimento!

    beijo
    Meguita

  5. Fernando Cals disse:

    Oi, Meg,
    infelizmente a Inexorável Senhora não escolhe suas “vitimas”.
    Trata-se da vida, trata-se da morte.
    Morte prematura, afinal 72 anos não é idade pra ninguém se despedir da vida.
    Mas, c´est la vie!
    beijos dominicais, apesar
    fernando cals
    =-=-=-=-=

    Fernando: soube ontem à noie e como no coração de cada blogueiro existe aquele narrador de que nos fala Walter Benjamin, aquele que passa a notícia, os feitos, os eventos, com a maior urgência, eu mesmo sabendo que um domingo não é muito legal para se dar uma notícia desta, deveria fazê-lo pelos motivos que explico, lá comentário da Aninha.
    Eu tinha me dado essa obrigação, eu tinha um plano que só graças à vesguice e cegueira de quem não sabe separar a vida íntima e particular de uma pessoa – da voracidade da esfera pública , os que confundem as ordens das coisas bem como aqueles que propiciam isso, não menos vesgos e cegos, eu fui atropelada e não pude a fazer a homenagem em Vida.
    Fiquei ainda mais triste.
    Mas, no fundo coração, sei que ela está mais viva que muitos.
    Grande Poeta.
    beijos, querido
    Meguita

  6. pedro alayon disse:

    obrigado pelos vários elogios que deixou no meu blog, também gostei muito do seu.
    meu pai e eu mandamos bjs, até logo!


    Ah! Pedro, você nem sabe a surpresa que tenho para você.
    Já está feita desde ontem à noite, mas aí houve o caso dessa Poeta…. e não deu para eu fazer a surpresa logo;-)
    Um beijo
    E pode me chamar de Meg, OK?
    Qualquer coisa estamos aqui.;-))
    Meg

  7. nelson disse:

    Meguita, acho que o mundo deixou a Marly – exemplo de perfeições possíveis.
    E voce pantera viva que não se governa, homenageia a beleza da fera.
    Beijos de pura ternura numa hora dessas,


    Nelson, eu agradeço e peço até um pouco mais. Confieso necessito de tales ternuras.
    You’re such the right man! Right on, my babe!
    All my best, dear!

  8. Magaly disse:

    Dolorosa, a notícia.

    “ A Poesia, no Brasil, de linhagem feminina já de algum tempo – com algumas grandes Poetas – se fizera poesia de linhagem poética, sem mais epítetos. Marly de Oliveira é dessa linhagem, quintessenciada.”. ANTÔNIO HOUAISS

    Perdemos a poeta admirada, mas sua obra terá mais luz ainda, a refletida por ela de onde estiver.

    “Quando um dia estiver morta
    e sobre mim caírem os adjetivos mais ternos,
    não vou mover um dedo
    de dentro do meu silêncio:
    vou desdenhar do eterno
    o que sempre chegou tarde,
    demais, quando já nem era preciso”
    Marly de Oliveira.

    Magaly, minha querida: é tão belo o que você trouxe como colaboração, que tenho ganas de colocar no post.
    Mas sei que certamente, você deverá colocar no seu blog o EU PENSANDO.
    Não perca essa oportunidade de disseminar a obra de marly. Não deixemos que o texto morra.
    Um grande beijo para você e obrigada, querida, obrigadísima, por nos enriquecer ainda mais com as suas visitas aqui

  9. regina disse:

    Meg, o Afonso deixou um recado pra ti abaixo do post do pai dele. Já viste?
    bjs
    Regina

    Régia, querida!!!
    Mas, menina… eis que passado o Armagedon hahahaha, eis-te acá, mi cariña!
    Ah! sê bem-vinda!
    Be my guest!
    Ah! obrigada por avisar, vou já lá, no AK!;-)
    Ele não brigou comigo, não?;-)
    Então eu vou djá!
    smooches
    M

  10. lulu disse:

    E eu que cheguei toda atrasada?
    Atrasada na leitura do sub rosa, que não visitava desde sexta, e para falar que está com uma cara linda e leve, que eu gostei.
    Atrasada na leitura desse post de domingo, mas deixo meu comentário mesmo assim, ao pé da página, onde acho que até fica bem.
    E o atraso principal: não conhecia a poesia de Marly de Oliveira. Hum… engraçado, fico me sentindo uma passante distraída pelo mundo, que perde uns trens.
    ah sim, mas é tempo de conhecê-la com urgência, porque esse poema que conversa com o Tiger tiger é lindo. E a fêmea do tiger de Blake só poderia mesmo ser uma pantera negra, todos os meus aplausos. Estou aqui encantada, com o uso preciso da palavra, do som.
    e os tempos nos atropelam, assim como as pessoas. Mas os tempos, assim como as pessoas, também nos ajudam a levantar. Não é assim Meguita?
    beijos grandes
    Lulu.

    Querida Lulu:
    Aqui vai minha resposta, e espero que não veja absolutamente nada como elogio para economizar na psicoanalise, certo?;-))
    1- Você nunca chega e nem chegará atrasada aqui nesta casa que é sua. Sabe aquele verso do “De Moraes”: “Meu tempo é quando.”? Pois é assim como você. Antes da hora, não é hora; depois da hora, não é hora. Só é hora, na hora”.
    2- Sim, Lulu, fiquei até emocionada ao ler seu comentário tão rico e tão brilhante, mas especialmente tão *seu*, tão Lulu’s way. E, claro que recebi/ percebi a mensagem de Baudelaire, na sua citação indireta, ou diretíssima : Você é uma passante,
    e sempre há de se perder alguma coisa. É próprio da *passagem* da vida.
    3- Egoísticamente, fico feliz que não tenha conhecido antes Marly de Oliveira.
    Pois não fora o vendaval, as razões que eu citei – eu o faria e minha responsabilidade seria, indubitavelmente, maior:
    Já falei com Poetas maiúsculos e minúsculos. com gente que diz conhcer Poesia e eles nada sabiam de Marly, a não ser o chavão, o estereótipo.
    E enfim, com você ganhei o meu “salário anímico/intelectual”:-) de fato, é o diálogo com o tyger de Blake. E Marly , como vc viu tão claramente, ao tyger ofereceu a suavidade enganosa ou ardilosa de uma pantera. Negra. A que faz com que ela seja.
    A pantera quando o próprio Blake havia oferecido the lamb!!!
    4- Para que os demais leitores – a quem amo- não achem estranho, devo recordar que foi com você que tive a minha primeira conversa, depois que fui banida ;-))) – a respeito de poesia e do estado de leitura de poesia. Veio daí o meu desejo de fazer uma parceria com você nos seus escritos sobre suas leituras(*)
    5- Que bela, eficaz e fértil conversa tivemos. E, sinto muito dizer publicamente: você está completamente *desmoralizada* hahahaha – porque não só leu e botou reparo no ritmo e na temperatura do diálogo.
    6- E sim, sim, você tem razão, Luluzinha: eu pensei isso, mas havia trazido para o nível da consciência – a minha egocêntrica ingratidão: Há sim pessoas que nos derrubam. Mais c’est pas grave!:-) No harm done, babe, pois justamente é assim mesmo como diz: o tempo e as pessoas (outras, quase sempre) nos retiram do cultivo da amargura e nos levantam.
    Não há outra alternativa senão levantar e …permanecer de pé.
    Exatamente como diz, e exatamente como você fez.
    Por esse tanto enorme, é que lhe digo, agradecida: O mundo é mágico, como diria aquele rapaz , autor do conto tão bem recontado por você.
    E que não à toa, fala de vez e de hora.
    E empréstimo que faço de João, o Super Rosa: tudo isso, as coisas boas e mesmo as não tão boas que perpassam uma amizade, são todas coisas que não se abarcam com a mão: são “puro brilho de estrelas”.
    Um grande beio e torno a repetir: Como foi bom que me acontecesse uma tenebrosa injustiça, que a delicia dela sorve-se depois. esta é a minha vez e a minha hora:-)
    muitos, muito mais, beijos
    Meguita, que vc pode chamar-me assim!;-)


    P.S Talvez- talvez – eu não mencione tanto como hoje “o nefasto acontecimento”; mas, como sabe, estou liberta dele, já saiu de dentro de minha alma, então posso retirá-lo dos ombros e falar com ele.;-) Quase feliz!

  11. Eduardo P.L. disse:

    Meguita, tens razão, quem morre e é sempre lembrado, não morreu!


    Eu acredito nisso.
    Fortemente.
    beijo
    Meguita

  12. Eduardo P.L. disse:

    Meguita,
    só agora vi sua JUSTA homenagem ao Ery, colando o selo do varal aí no sidebar!. Bjs

    Querido, muito querido Eduardo, vc é simplesmente o máximo, e o mundo ia ficar muito difícil, sem você e seus gestos tão atenciosos.
    Eu, embora anta cibernética total (não sei que número eu estou no rank com João Ubaldo Ribeiro de fernando Cals hahahah) vou mexendo, vou mexendo e quem mexe… encontra alguma coisa;-) hahahah, não acha?
    Obrigada por ter notado, querido Edu. Esses – ao mesmo tempo pequenos e grandes – gestos tornam o convívio na blogosfera mais suave e mais
    elegante. Não deixa de ser um delicado equilíbrio.
    beijo
    Meguita

  13. Pingback: Ana Vidal, Poesia: Presente! « Sub Rosa (flabbergasted) v.2

  14. ÁNGELES disse:

    QUIERO CONSEGUIR EL POEMA DE MARLY DE OLIVEIRA “PASEO JUNTO AL MAR”….Y ELLA QUE NO AMABA DE LEJOS QUE NO AMABA LA VIOLENCIA DEL MAR ACARICIA AL FELINO QUE SE ECHA….GRACIAS

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