Ligeiramente grávida….

bronze-seated-lady-justice-statue.jpg(ladyjustice-butler)

Quando comecei a estudar, na Universidade, meu professor de História da Filosofia nos fez conhecer primeiramente a filosofia oriental X filosofia ocidental.
Assim que terminei minha Graduação, descobri que várias coisas que os professores nos ensinam , nos ensinam errado, nos ensinam de maneira errada, ou – por alguma razão que desconheço, talvez por acharem que se somos jovens somos idiotas, e que na condição de alunos somos despreparados, antes de tudo – se esforçam na tentativa de fazer o que chamo de barateamento ou facilitário do conteúdo daquilo que nos ensinam.
Assim, vim a saber logo depois que muito dificilmente se pode conceber uma *filosofia* oriental, que há toda uma diferença entre a filosofia que é uma criação do ocidente e o pensamento oriental.

Não é o caso aqui de uma aula a respeito (aliás, nem me julgo competente para isso), mas em pouco tempo era eu que estava do outro lado da correlação professorX aluno – notem bem: eu não disse relação, mas correlação– e foi a minha vez, como professora, de sentir e entender que há uma espécie terrível de julgamento, de uso de poder, por parte do professor, que é o de achar que pode determinar qual o tipo e qual o grau de conhecimento que o seu aluno é capaz de receber; é capaz de assimilar; é capaz , enfim de ser “presenteado”.

Há pouco, um ex-aluno meu disse, publicamente, (uma das pouquíssimas coisas boas que foram ditas a meu respeito) que meus alunos gostavam de mim. Bem, modéstia às favas, eu tive muitos bons alunos, tive a sorte de ter muitos alunos excelentes em minhas aulas, tanto na Universidade quanto no Seminário (Yep! , eu já tive alunos que hoje são padres hohoho), e tive também alunos que me detestavam. How nice, how sweety! E eram esses os que mais me desafiavam. Não que eu seja masoquista ao exercer uma profissão, posso até ser em outras situações e quem não é , a little bit, anyway?- mas alguns dos meus alunos mais “antipáticos” – no sentido grego da palavra (antipátheia ), ou seja, os que não percorriam comigo o mesmo pathós – é que foram responsáveis por grande parte de meu crescimento em termos de sabedoria(*), de reflexão e de reconhecer as fraquezas, as falhas que eu tinha, tenho e praticamente todo mundo tem e que vem a ser isso que chamamos de *o humano* e, por conseguinte, com o passar do tempo, isso resulta numa visão de mundo muito mais ampla e um, confesso, estreitamento de esperança. Longe de mim, a amargura ou ressentimento, ou a descrença. For God’s sake, eu tenho fé em qualidades humanas, mas de forma reduzidíssima. E a despeito de qualquer coisa, e muitas pequenezas de criaturas que cruzam meu caminho, acho que vai ser muito difícil eu fechar-me para o mundo e abraçar a misantropia.

Pois bem, este longo intróito (sim, sou prolixa) de cunho confessional – o que é rarísimo em meu blog, jamais fiz um blog confessional, escrevo muito para pouco dizer sobre mim, acho que ações valem mais que palavras, embora eu tenho um imenso amor por palavras – é para mostrar essa aberração que acabei de ler. Será que só eu e mais ninguém achou cinismo, uma coisa muito esc***ta, nessa declaração?
Por favor, me digam. Minha percepção e apreensão do real está com defeito? Ou o meu CPI (Índice de Percepção da Corrupção)?
Bom deixo isso para vocês resolverem. Leiam, por favor, aqui:

Justiça brasileira é ‘lenta mas relativamente honesta’, diz ONG

P.S Ah! aquele professor lá de cima, que depois veio a se tornar um grande amigo, até hoje, (claro, amigo é o que é sempre , embora não seja cúmplice, ou não seja conivente, mas amigo é amigo, pois assim como não existe ex-anão, não existe ex-amigo, se deixar de ser é porque nunca foi, e acho que todo mundo tem liberdade de deixar de ser essa coisa que é tudo, menos Amizade) então, foi ele, justo ele que fez nascer em mim o gosto pelos diálogos platônicos.
Apesar de nós, os da área filosófica, termos grande encantamento pelos diálogos da maturidade de Platão, não posso deixar de ter um diálogo predileto das aporias da juventude, (que não vou dizer qual é) basta sabermos todos, que seja qual for a idéia que se tenha de Platão, ele será sempre alguém que lutou, estudou, e combateu -na teoria e na prática – pela estrutura dos conceitos da soi-disant Razão ocidental.
Quer se seja nietzschiano ou não, heideggeriano ou não, tem-se de reconhecer que a “transcendência” platônica é responsável pelas modernas – ou se quisermos- atuais formas de organização social ainda que estas sejam burocratizadas, tecnicizadas, repressivas, corruptas etc.
E, a melhor coisa para se começar a ler os diálogos de Platão, é, IMHSO, eu recomendo, ler antes a Carta VII, a Carta Sétima, e ver que justiça foi sempre o tema mais caro, mais central do platonismo. De modo que não existe a justiça isso, ou justiça aquilo. Quer-se justiça? Então quer-se a Justiça como deve ser. Não a melhor que a do país tal, melhor que essa ou aquela, não a metade, não um pouco assim, nem um pouco assado.

Agora, se a Justiça brasileira é relativamente honesta, e tá todo mundo ‘feliz’ com isso, francamente..I rest my case.

~.~

(*) Sabedoria e saber não guardam entre si sinonímia perfeita. (just in case)

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

17 Responses to Ligeiramente grávida….

  1. Meg,
    Você esqueceu de grifar que foi uma ONG quem fez a afirmação. Já não espero muita coisa de ONGs. Sei que devemos evitar generalizações, que existem muitas honestas, mas… São também uma via bastante utilizada de lavagem de dinheiro. A questão é menos de honestidade e mais de justiça. A relatividade está na justiça. A justiça em nosso país é lenta e relativamente justa. É mais lenta e menos justa para alguns.
    Beijão

  2. Concordo em tudo, gênero , número e grau com você. Lord
    E tal como vc não generalizo: nem todas ONGs são idôneas, algumas são picaretagem da grossa do mesmo modo que outras são realmente muito louváveis. Não conheço ninguém que tenha ONG ou faça parte delas. É bom deixar bem claro isso . As of me, of course
    (Anyway, sei, com muita lucidez, que minha opinião não é relevante a respeito de ONGs.)
    Mas neste caso, você acha que importa que tenha sido uma ONG a dizer isso?
    E em segundo lugar: ser justo não implica ser honesto???!! E a desonestidade não é também uma forma de injustiça?
    Logo, o que o Lord falou aí não é uma espécie de falácia?
    Confesso que minha cabeça entrou em parafuso:-)))
    Um beijo e espero que sua gripe tenha passado e desculpe o comentário inconcluso no seu blog
    Um beijo
    Meguita

    P.S Ou não entendi seu comentário que embora sucinto me deixou muito pensativa, com esses conceito.
    Me explique, please; vá!:-)

  3. Eduardo.P.L disse:

    Meg querida,
    Justiça mais ou menos justa, não entendo. Justiça ou é justa ou é injustiça. E ela, em si, ao pé da letra, é justissima, os que falham são seus interpretes! Não é isso?

  4. Yvonne disse:

    Meg, eu simplesmente adorei o seu comentário lá no meu cantinho. Me deu uma enorme força. Estou agradecendo hoje porque fiquei uns dias fora do ar. Querida, sempre aparecerei por aqui. Beijocas

  5. Yvonne disse:

    Eu de novo para dizer que o seu post foi perfeito. Sabe Meg, eu acredito que nosso país está muito doente. Beijocas


    Linda, querida
    Obrigada.
    beijos

  6. Meg,
    Estou um pouco melhor da gripe, obrigado. Fiquei curioso em saber qual seria sua dúvida no comentário não concluído lá no blog. O que tentei falar por aqui, parte da afirmação:
    “A justiça no Brasil é lenta mas relativamente honesta.”
    Acho que a questão é menos de honestidade e mais de justiça.
    “A justiça no Brasil é lenta e relativamente justa.”
    Enfatizei a relatividade da justiça. A palavra relativamente aparece aqui, para mim, no sentido do que depende de certas condições. Concluindo, a justiça seria lenta e dependeria de certas condições, ou menos justa do que deveria. Viajei muito?


    Queridíssimo Lord.
    Chega a ser comovedor, você tendo tanta paciência de me explicar.
    Thx. I appreciate your kindness.
    Já expliquei, na resposta ao comentário do Valter

    Meu problema era lidar com conceitos que só entendia, ou melhor eu os estava utilizando em termos absolutos.
    Aliás a grande crítica de Nietzsche a esse meu modo de pensar: não dá para trabalhar com as grandes Idéias.

    Imagine se vc viajou muito, milord:-) E se viajasse tinha de cobrer de mim, as milhas :-) pois seria uma viagem para restabelecer minha pobre cabecinha dos nós.:-)
    Um beijo. Imenso.

    Ah!
    Eu estaria errada em intuir e, mais que isso, deduzir que vc vem ser … ai. James Amado, o irmão de Jorge Amado…plft…
    Não, decididamente, hoje estou muito feliz, felicíssima, Lord e quando estou feliz, tenho a cabeça de uma mosca.
    Beijos
    Vc já deve saber o que quero saber.
    Meguita

  7. Fernando Cals disse:

    Oi, Meg,
    Fui professor universitário por 14 anos. Tempos maravilhosos.
    Sempre passsei para meus alunos tudo que eu conhecia. TUDO!
    Belo dia, conversando com um aluno mais chegado, ele me disse, peremptoriamente, “não acredito que os professores nos passem tudo que sabem”. Como se nos resguardassemos, com o pulo do gato. Pensaento geral.
    Claro, ele dizia que eu era uma das raras execeções. Agradava-me, apenas? Fui querido pelos meus alunos, que até hoje me mandam mensagens cordiais ou me procuram para trocarmos impressões.
    Quanto a Justiça brasieira, “lenta mas relativamente honesta”, só tirando o time de campo. Rigorosamente, como você disse, uma escrotidão, essa nossa Justiça(!?).
    Beijos
    fernando cals
    ps:agora vou escutar o hino do Mengão, rsrsrsrsrsr
    fc


    Uau!!!!
    Estou de alma lavada, Fernando
    Era isso mesmo que eu achava desse caso de ambigüidades.

    ====
    O melhor para o fim:
    É verdade: esse é o pensamento geral.
    E que fica mais pronunciado em matérias e disciplinas da sua área.
    Anyway, também gostei e gosto de ser professora e vou lhe contar um segredo:
    Minha maior alegrai é quando chego para um aluno, institucional ou não e digo:
    Pronto, daqui para frente, você pode seguir sozinho(a): não precisa mais de mim.

    Sei que alguns deles vêm aqui e estarão lendo o que é verdade.

    E, por outro lado, há aqueles que por não aprenderem , a gente quer insistir e acaba ganhando um desafeto.

    Coisas da vida.
    beijos, meu querido Amigo
    Meguita

  8. valter ferraz disse:

    Meg, não acho que a justiça seja “relativamente” honesta. Ela é totalmente desonesta. Para melhor entendimento, não acredito na justiça. Menos ainda em algo mais ou menos honesto. Ou se é honesto ou não. Justo ou não. Sem meio termo. No caso da justiça brasileira, uma falácia.
    Claro, que tudo isso é opinião minha. De quem nunca teve amparo nenhum da justiça nas poucas vezes que precisou dela. Para falar a verdade (e ser totalmente honesto, como se deve ser sempre), tenho muito medo de precisar da justiça. Principalmente nesses tempos em que se ouve tanto falar em “venda de sentença”, “mimos”, mimados e mimosos.
    Um beijo

    Hellow!!!!
    Valter, yep! fiat lux!
    agora vc acabou de desenrolar o nó da minha cabeça.
    Não foi pela forma que o Lord escreveu, pois nós sabemos que ele escreve maravilhosamente bem e tem a qualidade da clareza.
    Certo?
    Agora, aí quando vc escreveu deste modo eu pude trabalhar melhor com esses dois conceitos tão absolutos e tão entrelaçados, praticamente inseparáveis. (Tomara que o Lord possa ler aqui, para não pensar também que eu ssou tão burrinha, assim hohoho)
    E eu concordo absolutamente com vc. É a tal história do *sad, but true*. Sei que dificilmente se pode fazer alguma a respeito , ou se se pode os resultados são praticamente imperceptíveis, mas pô, não venham querer dizer que alguém merece parabéns porque roubou 20.000 e o colega roubou 500.000, 00 (aliás , houve um caso assim, dum tal professor não sei quem)
    Aí vem uma entidade internacional, diz isso, que fatalmente será utilizado (faturado) em algum dos pronunciamentos do você-sabe-quem.
    E sabe, é como disse a Yvonne, se as instituição são desonestas, parece que ficamos manietados e aceitamos numa boa que o cara que conhecemos seja também uma aproveitador desonesto…So what?
    Um beijo
    Meguita

  9. Fausto disse:

    Pois se temos até, no maior-escândalo-de todos-os-tempos-da-última-semana, um corrupto(r) budista…
    Que mundo, meu deus…


    Hahaha,
    Ah, eu vi, eu vi….morri de rir… aliás esperava encontrar isso lá no umore:-)
    Bijos, querido

  10. gugala disse:

    a justiça é não é cega. Mas enxerga com o olho do cu de alguns.
    bjs justificados


    Verdade absolutamente verdadeira!!!
    Grrrrrrrrrrrr…..

  11. gugala disse:

    ops , a justiça não é cega. Já eu, pareço ser. ahaha

  12. People, volto já para rsponder tudinho:-)
    Lord e Valter, acho que essa é a questão, o problema é que quando desejamos esses conceitos em termos absolutos estamos sendo metafísicos, e justamente o esforço dos pensadores têm sido desde Nietzsche e Heidegger destruir a Metafísica. Mas isso já é outra departamento… infelizmente
    Fernando, meu querido.
    Grande alegria quando uma ovelha volta ao seu rebanho ops.. Nãoooooo, não eu não quis dizer isso hahahah, quis dizer quando um amigo querido, queridíssimo como você vem iluminar meu blog.
    Olhe, se eu tivesse visto seu comentário, juro que não teria ficado triste, tão triste e colocado o youtube video aí em cima.

  13. People, eu volto depois para responder um por um, OK? .
    beijos

    P.S. IMPORTANTE: amo, adoro todos vocês, por igual, como diz nossa queridíssima Fal: Amém nós tudinho:-o)))

  14. Júnia disse:

    Meg, acho que deveria começar a falar mais de você. Delícia de se ler! Beijos saudosos!

    Queridaaaaaaa!!!!!!!
    Olhe, posso dizer – pé de pato, mangalô três vezes – estou ótima, ótima, marav, passou , passou tudo o que vc já sabe!!!!

    Vou escrever para minha querida Anna, vou começar a escrever em húngaro, aí, talvez, eu possa falar mais de mim.

    Mas vc acha mesmo? Falar um niquinho mais de mim? Bom, vamos ver o que pode sair… de repente pode ser até útil contar essas experiências como Prof… Obrigada, linda.
    Morta de saudade.
    Beijos

  15. James disse:

    A aula (texto+comentários) está ótima, de fato um espaço para se pensar.
    Um abraço.


    James, viu só, porque a história do Mestra: eu apanho ainda muito e casoso de conceitos, como vc viu.
    Mas vou melhorar.
    E fique absolutamente à vontade, para participar. Eu estava adorando:-)

    Um beijo
    Meg

  16. nelson disse:

    Gostaria de chamar ao debate outro Nelson, Rodrigues se outro nome fizer diferença: a justiça é burra..(e não dizer mais nada) (e ficar devendo, se ele falasse isso – toda e qualquer justiça?.. pra especulação)
    A honestidade é possivel e existe no Brasil, a partir dum montão de gente, a exclusão social não chega a tanto..rsrs
    A Justiça, a justiça, não importa o tamanho da letra cai no vazio politico. O alcance dalguma coisa no melhor sentido da palavra vai depender de individuos, magistrados bem intencionados, e organizações, associações de pessoas que vivem o dia a dia das leis aplicadas em ‘deslizes’ de interpretações e causam ‘algum alarido social’.
    O resultado mínimo pode ser encorajador.
    E queria falar de filosofia, pensamento oriental e principalmente amor a professoras magistrais no sentido das melhores lembranças..
    A sentença? Não há relatividade na honestidade e justiça brasileiras, apenas provas tecnicas que oferecem indicios, a favorecimentos a alguns…rsrsrs
    Beijos,


    Uaau!
    Depois disso, meu quwrido, o que mais há por ou para dizer?
    beijos magistrais:-)
    M

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