BALADA DO AMOR PERFEITO

antoniocanova_Parigi-Louvre
BALADA DO AMOR PERFEITO

Pelos pés das goiabeiras,
pelos braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cinerárias,
fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.

Me evadindo das molduras
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui me virando.

Pela rosa e o rosedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos,
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
fui me plantando.

Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares,
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pela flor que se desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
Vou te buscando.

Paulo Mendes Campos

Gentileza de Matilda Penna, escritora indecisa;-) e blogueira de primeira hora, de primeira água. Muito obrigada!

~-.~-.~–~.~-.~-~
Tenham *TODOS* um excelente final de semana e, na sequência, uma semana maravilhosa.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

9 Responses to BALADA DO AMOR PERFEITO

  1. Matilda says:

    Meg, escritora indecisa, :)))).
    E eu que agradeço a citação.
    Beijos, :).

  2. lulu says:

    que lindo! que a semana nos dê presentes de encontros assim tão bons como esse que foi o nosso, na semana passada.
    Um beijo grande, e uma semana esplêndida.
    Lu.

  3. valterferraz says:

    Meg, só você a nos brindar com Paulo Mendes Campos. E não era uma crônica das boas, apenas poesia. De primeira. Vamos escrever sobre Paulo Mendes Campos ou os “quatro mineiros” dia desses? Topas?
    Um beijo grande de final de semana
    Fique bem

  4. Eduardo says:

    Meg, Paulo Mendes Campos fazendo poesia, e da boa! Para você, e seus amigos, um bom fim de semana, também! Bjs

  5. Júnia says:

    Ei Meg! Ainda não conhecia essa poesia do Paulo Mendes Campos não. Me fez lembrar uma do Drummond, também tão linda!…, que enumera várias flores.
    Hoje, um bouquet de Beijos e Beijinhos pra você! (conhece essas plantas? ;-))

  6. Off-topic: Não sabia que o Merten tinha um blog. Eu adoro o Merten. Taí alguém que conhece cinema.

    Beijo.

  7. Queridos TODOS, todinhos, todíssimos.

    Oh, hoje estou com o tempo todo tomado e tavez só coloque uma ilustração, quem sabe.

    Mas creio que não vai dar.
    Assim respodo a todos aqui:

    1- Matilda, beijos

    2- Lulu, shalom-axé-woo hoo!… foi uma semana ótima, e que para mim foi de encontros e descobrimentsos, descobertas.
    Muito mais do que eu imaginava a escrever o post.
    QUERO SABER TU-DI-NHO! como foi o sucesso., OK?;-)
    Obrigada

    3- Edu querido, estou com saudades, mas volto amanhã.
    Eu não conheço o livro que o PMC escreveu, mas dizem que ele não é bom é poeta.
    Em todo caso, a balada é muito intyeressante, não é? Merece ser conhecida.
    Obrigadíssima, querido.

    4- Valter, vamos sim, claro que vamos!
    Isso de blog é só começar…
    Go for!
    beijo

    5- Júnia, vc sabe como eu estou… um beijo, um grande beijo. Conheço o poema do Drummond
    Um beijo. é lindo e eu colhi as mimhas flores que vc me deu.

    6- Milton, pois é. O MERTEN, eu sempre acompanhei . E como abes, eu fico feliz quando minha opinião coincide com a dele.
    Ele é das antigas, acho.

    7-Queridos, um beijo
    Até quarta ou quinta.
    M.

  8. aninhapontes says:

    A poesia é linda, e a imagem faz jus.
    beijos querida.

  9. Fabio Daflon says:

    Já que é para falar de flor, conheçam a maior do mundo:

    Titan Arum e o gigante

    A flor maior do mundo vai à altura
    De cerca de seis metros, é gigante!
    Mas não atinge o céu de azul candura,
    É muito fedorenta e nauseante.
    Pois fede a peixe podre para as moscas
    E os besouros voarem a sua volta,
    Até que suas asas fiquem toscas
    E os pólens disseminem em revolta.
    Floresce duas ou três vezes na vida,
    Bem pouco, igual doença muito rara.
    Podemos vê-la em Sidney, na Austrália;
    Não sei se é carnívora ou que valha
    Tal flor por nos meus braços esquecida,
    Pois a olho por cima, minha cara.

    =-=-=-=-=-=
    Uau! Mr. Daflon, é de sua autoria?
    Que meda!
    Um abraço
    M.

%d blogueiros gostam disto: