Papel manteiga para embrulhar segredos

capapapelmanteiga

Li e recomendo vivamente.

Impressões sobre esse livro são, na verdade, insuficientes. Só lendo!

Mas você pode ler algumas aqui no site da Editora Memória Virtual.

À venda em todas as boas livrarias: por exemplo a Livraria Cultura que você pode ver aqui

A autora é Cristiane Lisbôa (24 anos!) e no momento escreve mais dois livros.

São cartas culinárias. Cristiane escreve as cartas e Tatiana Damberg é responsável pelas receitas.

Retiro das cartas uma frase (touchstone):

A coerência é uma dama que não pode ser íntima de quem precisa se jogar inteiro no fantástico

Não há como recomendar mais. As receitas ficam bem em qualquer época mas achei bom que ficasse aqui nesse tempo de Páscoa.

Feliz Páscoa para todos.!

MURILO RUBIÃO (se não leu ainda, leia)

equilibrio2_lacaz1.jpg – Equilíbrio – GUTO LACAZ

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O Ex-Mágico da Taberna Minhota

por Murilo Rubião*

  • “Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque eu sou desvalido e pobre.” – Salmos, LXXXV, 1.
    1. “O mágico não queria mais ser mágico. Apesar de surpreender e divertir multidões ao extrair coelhos do chapéu ou ao fazer surgir por entre os dedos um jacaré, ele estava cansado. Era mágico desde sempre e estava cansado de tirar do bolso, sem querer, pombas e maritacas. Não achava a mínima graça quando mexia na gola da camisa e aparecia um urubu. Resolveu nunca mais fazer mágicas e mutilou as mãos. De nada adiantou: ao primeiro movimento, elas ressurgiram, perfeitas. Quis se matar. Foi até a serra e pulou do abismo. Caiu amparado por pára-quedas. Colocou uma pistola ao ouvido. Ela se transformou num lápis. Já quase sem esperanças, ouviu uma frase na rua: ser funcionário público é matar-se aos poucos. Empregou-se numa Secretaria de Estado. Trabalhou lá durante muito tempo – um tempo muito chato, diga-se de passagem. Só que o inesperado aconteceu: um belo dia, apaixonou-se por sua colega de trabalho. Mas já não podia tirar do bolso um poema para a amada: incrivelmente, não sabia mais fazer mágicas. Hoje em dia, é visto tentando retirar com os dedos, de dentro da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga. Passa horas a imaginar como seria fantástico olhar para o céu e fazer explodir fogos de artifício ou como seria maravilhoso abrir a boca e deixar sair um arco-íris, mas esta ilusão “serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.”

    * Então leia. Conheça! O conto, na íntegra, está no meu site : http://www.meguimaraes.com/imagensepalavras/arquivo/001018.html
    Esta é uma sinopse do conto. Lancei mão da melhor que conheço, esta feita pela querida e genial Anna Barbara, do blog “Despropósitos”.

    *****

      “Os contos de Rubião narram um mundo insólito, simultaneamente estranho e familiar: passado e presente se cruzam no movimento do trem e do mar; as fronteiras entre o antigo (pequenas cidades perdidas e arruinadas) e o moderno (máquinas, fábricas e edifícios das metrópoles) são franqueáveis; a constituição das personagens permite um extravasamento dos limites do corpo – Teleco é um coelhinho capaz de se metamorfosear em diversos animais (“Teleco, o coelhinho”); em “O homem do boné cinzento”, Anatólio emagrece tanto que se torna transparente e acaba por se extinguir completamente; em “Bárbara“, ao contrário, a personagem engorda absurdamente na mesma proporção do tamanho e do despropósito dos objetos que deseja (o oceano, um baobá, um navio, uma estrela); em “Aglaia”, a personagem, embora use todos os métodos contraceptivos conhecidos, tem seu corpo desdobrado em um interminável parto de crianças que chegam em ninhadas. (…) As personagens estão sempre enfrentando algo que prefeririam não encontrar e o leitor, ao se defrontar com o insólito, reclama uma explicação que não se apresenta, (…) No fantástico, o enigma não se dissolve, o absurdo não pode ser aceito pacificamente pelo leitor e os parâmetros da escrita literária, longe de possibilitarem a eficácia do insólito, vão restringi-lo, questioná-lo, colocá-lo sob suspeita. A liberdade do fantástico é aparente. O livre trânsito dos fantasmas do passado no presente e o corpo fluído das personagens em metamorfose são regulados e não permitem a total desvinculação das contingências do mundo real”.